25 de fevereiro de 2014

Os concílios da Igreja confirmam um primado do bispo romano?


De acordo com a Enciclopédia Católica Popular, um Concílio Ecumênico é “a reunião de todos os bispos, convocado e presidido pelo papa, destinado a dirimir questões de doutrina e disciplina para a Igreja universal”[1]. Porém, o que a História nos mostra é que, por séculos, os bispos romanos limitaram-se à administração de sua própria diocese, sem interferirem na jurisdição das demais, e por isso muitas heresias que foram julgadas nos primeiros séculos por concílios foram formados por bispos que não eram da Igreja de Roma, como, por exemplo:

Os Carpocrates, que negavam a divindade do Senhor Jesus.
Marcião, que negava a autoridade do Antigo Testamento e de Jesus.
Os gnósticos, que negavam que Cristo se fez carne e ressuscitou dos mortos.
Os milagres de Apolônio de Thiana.
Os Ebionitas e sua teologia dualista.
Saturnino e sua teologia da criação.
Os Valentinianos e suas teorias gnósticas.
Basílide de Alexandria, que negava a redenção.

O próprio Concílio de Niceia, provavelmente o mais famoso concílio da história da Igreja antiga, se deu sob a presidência do imperador romano Constantino, e não do bispo de Roma Silvestre[2]. Mesmo quando um bispo de Roma dirigia um concílio, raramente o vemos dirigindo sozinho, exclusivamente, mas ao lado de outros bispos de outras dioceses, que também presidiam, como é o caso do Concílio de Calcedônia:

“Confirmando também nós, as decisões e as fórmulas de fé do concílio reunido outrora em Éfeso (431) que presidiram Celestino (bispo) dos romanos e Cirilo (bispo) dos alexandrinos, de santíssima memória, definimos que tem que resplandecer a exposição da reta e descontaminada fé, feita pelos 315 Santos e bem-aventurados padres reunidos em Nicéia (325), sob o Imperador Constantino[3]

Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, cita vários concílios que ocorreram na história da Igreja cristã até então, mas não menciona nem um único que tenha sido presidido pelo bispo romano. Ao contrário: dentre os que mais se destacaram em um concílio, ele nem sequer fez menção ao bispo de Roma!

“Entre eles, os que mais sobressaíram foram: Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia; os irmãos Gregório e Atenodoro, pastores das igrejas do Ponto; e depois deles, Heleno, da igreja de Tarso, e Nicomas, da de Iconio. Mas não somente eles, como também Himeneo, da igreja de Jerusalém; e Teotecno, da de Cesaréia, limítrofe desta; e além destes, Máximo, que dirigia também com muito brilho os irmãos de Bostra. E não seria muito difícil enumerar muitíssimos outros reunidos junto com os presbíteros e diáconos pelo mesmo motivo na citada cidade; mas de todos, pelo menos os mais destacados eram estes. Todos pois, reuniram-se para o mesmo, em diferentes e repetidas ocasiões. E em cada reunião levantavam-se razoamentos e perguntas: os partidários do samosatense, tentando ocultar ainda e dissimular o que houvesse de heresia; os outros, de sua parte, pondo todo seu empenho em desnudar e trazer à vista a heresia e a blasfêmia daquele contra Cristo”[4]

O concílio ecumênico de Constantinopla (381 d.C) é outro caso interessante, pois não teve o bispo de Roma naquela assembleia nem um só representante sequer, e foi presidido pelo imperador Teodósio. Por fim, o caso mais marcante e decisivo nessa questão é a análise do epítome do Cânon VI de Niceia, que diz:

“O bispo de Alexandria terá jurisdição sobre o Egito, Líbia e Pentápolis; assim como o bispo romano sobre o que está sujeito a Roma. Assim, também, o bispo de Antioquia e os outros, sobre o que está sob sua jurisdição. Se alguém foi feito bispo contrariamente ao juízo do Metropolita, não se torne bispo. No caso de ser de acordo com os cânones e com o sufrágio da maioria, se três são contra, a objeção deles não terá força”[5]

Note que cada bispo de cada igreja local (incluindo Roma) tinha autoridade delimitada a certos territórios, nenhum tinha autoridade universal. O bispo de Alexandria tinha jurisdição até maior que a do bispo romano, visto que presidia sobre o Egito, sobre a Líbia e sobre Pentápolis, enquanto o bispo romano somente presidia sobre Roma. E o concílio afirma na sequencia que a mesma regra valia também para todas as demais igrejas. Nisso fica claro que a autoridade romana não era diferente das demais nem tampouco se estendia acima delas; ao contrário, era uma jurisdição delimitada como a de todas as demais igrejas. Cada uma tinha autoridade somente sobre aquilo que estava “sob a sua jurisdição”, nenhuma tinha uma autoridade que se estendia à jurisdição das demais igrejas.

Se o concílio diz claramente que era o bispo de Alexandria que tinha a jurisdição sobre o Egito, a Líbia e Pentápolis, e que cada um só podia presidir sob a sua própria jurisdição, então estas províncias eram controladas eclesiasticamente pelo bispo de Alexandria, e não pelo bispo de Roma. Logo, a jurisdição romana não era universal. Era local e territorial – em Roma – assim como os demais bispos das demais igrejas cristãs locais, como a de Alexandria e a de Antioquia. Sobre esse cânon de Niceia, Paul Empie e Austin Murphy oportunamente ressaltaram:

“Parece limitar a autoridade de Roma às sedes suburbicárias. Isto pode refletir a situação real jurisdicional no final do século I. Niceia pressupõe uma liderança regional de Roma, mas não indica nada mais. Por conseguinte, conclui-se através do Concílio de Niceia, que um primado romano de jurisdição universal não existe nem como uma construção teórica nem como prática de fato aguardando interpretação teórica[6]

Assim sendo, é impensável a ideia de um primado jurisdicional universal do bispo de Roma, que, de fato, tinha uma jurisdição regional, que se limitava à própria Roma. O máximo que os Pais da Igreja (ou os concílios) chegaram alguma vez a mencionar foi um “primado de honra” do bispo romano, em função de ser o bispo da cidade que era a capital do império, e não um primado jurisdicional de autoridade sobre as outras dioceses cristãs. É assim que até hoje a Igreja de Roma é considerada pelas Igrejas Ortodoxas, como primus inter pares (primeiro entre iguais). Não que o seu bispo fosse o “chefe” soberano de toda a Igreja, mas que tinha a honra de ser o bispo da capital do império.

Isso explica perfeitamente o porquê que quando a capital do império passou a ser Constantinopla, séculos mais tarde, o bispo dessa cidade pela mesma razão passou a ter um primado de honra a seguir do bispo romano, como nos mostra claramente o Cânon 28 de Calcedônia:[7]

“Nós também promulgamos e decretamos as mesmas coisas sobre os privilégios da Santíssima Igreja de Constantinopla, que é a nova Roma. Pois os Padres justamente concederam privilégios ao trono de Roma antiga, porque era a cidade real. E os cento e cinqüenta religiosissímos bispos deram privilégios iguais ao santíssimo trono da Nova Roma, justamente julgando que a cidade é honrada com a Soberania e do Senado e goza de privilégios iguais com a antiga Roma imperial[8]

Isso nos confirma em termos claros que essa “primazia” da Sé Romana em nada tinha a ver com algum status de “jurisdição universal” ou por possuir um “bispo universal”, o que refutamos exaustivamente ao longo de todo este estudo com abundantes provas históricas. Tinha relação, sim, com um primado de honra, não por alguma autoridade divina, mas por ser a capital do império. Em outras palavras, se essa capital fosse qualquer outra, essa outra também teria um “primado de honra”, e é por isso que o Cânon 28 de Calcedônia diz que Constantinopla teria privilégios iguais aos de Roma e era a “Nova Roma”: porque a capital do império havia sido transferida a Constantinopla!

Isso fez com que Karl Joseph Hefele (1809 – 1893), a maior autoridade católica do século XIX, admitisse:

“Não posso entender como é possível, depois de ler as atas precedentes, imaginar-se sequer por um instante que os bispos deste Concílio considerassem os direitos em discussão como de origem divina, e que o ocupante da Sede de Roma fosse, jure divino, supremo sobre todos os pontífices. É bem possível, claro está, afirmar, como alguns fizeram, que as atas tais como as temos foram mutiladas, mas o argumento implica não só muitas dificuldades mas também não poucos absurdos; e não obstante não posso senão pensar que até esta hipótese extrema é preferível a qualquer tentativa de reconciliar as atas como as temos agora com a aceitação por parte dos membros do concílio da doutrina de uma supremacia papal jure divino tal como é agora sustentada pela Igreja Latina”[9]

Quando, porém, o bispo de Roma, inflamado pelo orgulho e arrogância, quis se sobrepor a todos os demais bispos, ostentando para si o “título de blasfêmia”[10]que o próprio Gregório Magno havia rejeitado porque considerava ser do “precursor do anticristo”[11], houve o Cisma do Oriente:

“Ao contrário do que alguns historiadores afirmam, o cisma é realmente ‘do Ocidente’, visto que foi a Igreja Romana quem se separou da comunhão de Fé das Igrejas Irmãs (...) De fato, a Igreja de Roma, graças a fatores essencialmente políticos, de ambição do poder temporal, desenvolveu a partir da Idade Média, a doutrina da primazia do Papa (título, aliás, dado aos Patriarcas de Roma e de Alexandria) como último e, depois, como único recurso em matéria de Fé. Ora, isto era, é e será, completamente estranho à Tradição da Igreja dos Apóstolos, dos Mártires, dos Santos e dos Sete Concílios Ecumênicos”[12]

E também:

“Toda esta divergência de pontos de vista entre Roma, considerando-se única detentora da verdade e da autoridade, e as restantes Igrejas Irmãs, que desejavam manter-se fiéis ao espírito da Tradição herdada dos Apóstolos, acabou por resultar nos trágicos acontecimentos de 1054 e 1204. No dia 16 de julho de 1054, os legados do Papa de Roma entraram na Catedral de Santa (em Constantinopla, capital do Império), um pouco antes de começar a Sagrada Liturgia, e depositaram em cima do altar uma bula que excomungava o Patriarca de Constantinopla e todos os seus fiéis. Esta separação oficial, decidida pela Igreja Romana, teria sua confirmação em 1204, quando os cruzados, que se intitulavam cristãos, assaltaram Constantinopla, saquearam e pilharam, fizeram entrar as prostitutas que traziam consigo para dentro do santuário de Santa, sentaram uma delas no trono do Patriarca, destruíram a iconostase e o altar, que eram de prata. E o mesmo aconteceu em todas as igrejas de Constantinopla[13]   

A Igreja Católica Romana caiu pela mesma razão daquele que disse:

“Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo" (Isaías 14:13,14)

Nada mais próprio para tratar do papado ao longo dos séculos do que aquilo que Salomão já havia escrito há milênios: “o orgulho precede a queda” (Pv.16:18).

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

*Este artigo é extraído de meu livro: "A História não contada de Pedro"


-Meus livros:

-Veja uma lista completa de livros meus clicando aqui.

- Acesse o meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros sites:
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Estudando Escatologia (Estudos sobre o Apocalipse)
Desvendando a Lenda (Refutando a Imortalidade da Alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)





[1] Código de Direito Canônico, 337.341.
[2]A Definição de Calcedônia, realizada pouco mais de um século depois de Niceia, deixa bem claro que o Concílio de Niceia foi presidido pelo imperador Constantino, e sequer faz qualquer menção ao bispo romano Silvestre.
[3]Definição de Calcedônia, ano 451.
[4] Eusébio de Cesareia, HE, Livro VII, 28:1-2.
[5] Concílio de Nicéia, Cânon VI.
[6] Paul Empie and Austin Murphy, Ed., Papal Primacy and the Universal Church (Augsburg: Minneapolis, 1974), Lutherans and Catholics in Dialogue V, pp. 72, 77.
[7]Uma abordagem mais aprofundada sobre esse Cânon 28 de Calcedônia pode ser conferida neste link: <http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com.br/2010/11/o-canon-28-de-calcedonia.html>. Acesso em: 04/10/2013.
[8]Cânon 28 de Calcedônia.
[9] Hist Conc 3:428 (citada em NPNF2, 14:295).
[10] Epístola XX de Gregório Magno a Maurício César (NPNF 2 12:170-171).
[11] Gregório Magno, a Maurícius Augustus.
[12]“O Cristianismo Ortodoxo em Perguntas e Respostas”. Disponível em: <http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/igreja_ortodoxa/o_cristianismo_ortodoxo_em_perguntas_e_respostas.html>. Acesso em: <04/10/2013.
[13]ibid.

22 de fevereiro de 2014

Inácio de Antioquia reconhecia um primado do bispo de Roma?


Um dos primeiros bispos que escreveu sobre a organização eclesiástica da Igreja primitiva foi Inácio (35 – 107 d.C), bispo de Antioquia. Ele escreveu pelo menos sete cartas reconhecidas como autênticas pelos historiadores antigos e contemporâneos, inclusive uma aos romanos. Se existia um bispo de Roma exercendo um primado universal sobre todos os demais, certamente ele seria o primeiro a mencionar isso, sem a menor hesitação.

Contudo, vemos ele deixando claro, repetidas vezes, que a nossa submissão deve ser aos diáconos, aos presbíteros e aos bispos locais, sem nunca ter mencionado uma submissão a um Sumo Pontífice ou bispo universal (romano), o que seria de se esperar caso a Igreja da época fosse a Igreja Romana e o bispo de Roma fosse um “papa infalível” com poderes de jurisdição universal, como autoridade suprema a todos os bispos, de acordo com o ensino tardio da Igreja de Roma.

Vejamos alguns exemplos:

-Inácio aos Magnésios (Versão Curta):

“Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou”[1]

“Assim como o Senhor nada fez, nem por si mesmo nem por meio de seus apóstolos, sem o Pai, com o qual ele é um, também vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros[2]

“Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus”[3]

-Inácio aos Tralianos:

“Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da morte. É necessário, portanto, como já o fazeis, nada realizar sem o bispo, mas também submeter-vos ao presbítero, como aos apóstolos de Jesus Cristo, nossa esperança, no qual nos encontraremos em toda a nossa conduta. É preciso, também, que os diáconos, ministros dos mistérios de Jesus Cristo, agradem a todos e de todos os modos. Com efeito, não é de comida e bebida que eles são ministros, e sim servidores da Igreja de Deus. É preciso, portanto, que eles evitem qualquer tipo de repreensão, como se evita o fogo”[4]

“Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é a imagem do Pai, e os presbíteros como à assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja. Tenho certeza que pensais do mesmo modo a respeito disso. Com efeito, recebi e tenho comigo um exemplar de vosso amor ao vosso bispo: a postura dele é grande ensinamento e sua mansidão é uma força. Penso que até os ateus o respeitam”[5]

“Cuidado, portanto, com essas pessoas. Fazei-o sem vos encher de orgulho, permanecendo inseparáveis de Jesus Cristo Deus, do bispo e dos preceitos dos apóstolos. Aquele que está dentro do santuário é puro, mas aquele que está fora do santuário não é puro; ou seja, aquele que age sem o bispo, sem o presbítero e os diáconos, esse não tem consciência pura”[6]

“O amor dos esmirniotas e dos efésios vos saúda. Em vossas orações, lembrai-vos da Igreja da Síria, da qual não sou digno de ser parte, pois sou o último dentre eles. Passai bem em Jesus Cristo, submissos ao bispo como ao mandamento, e igualmente ao presbitério. Todos, individualmente, amai-vos uns aos outros, de coração não dividido”[7]

-Inácio a Policarpo:

“Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus”[8]

-Inácio aos Efésios:

“Possa eu encontrar sempre a minha alegria em vós, caso eu seja digno disso. É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo, que vos glorificou, a fim de que, reunidos na mesma obediência, submetidos ao bispo e ao presbítero, sejais santificados em todas as coisas”[9]

“Vós, amados, sede atentamente sujeitos ao bispo, e aos presbíteros e aos diáconos. Porque aquele que lhes é sujeito, é obediente a Cristo que os ordenou; mas aquele que lhes é desobediente, é desobediente a Cristo Jesus”[10]

“Não cedais, irmãos, na fé em Jesus Cristo, e em Seu amor, em Seu sofrimento, e em Sua ressurreição. Sigamos todos juntos em comunhão, e individualmente, pela graça, em uma só fé em Deus o Pai, e em Jesus Cristo Seu unigênito Filho, e ‘o primogênito de toda a criação’, mas da semente de Davi conforme a carne, mantendo-nos sob a orientação do Consolador, em obediência ao bispo e ao presbitério com mente não dividida, partindo um e o mesmo pão”[11]

-Inácio aos Filadelfienses:

“Ele [Jesus] é minha alegria eterna e duradoura, sobretudo se os seus fiéis permanecerem unidos com obispo, com os presbíteros e os diáconos que estão com ele, estabelecidos conforme o pensamento de Jesus Cristo, o qual, segundo sua própria vontade, os fortificou e confirmou com o seu Espírito Santo”[12]

“Alguns quiseram me enganar segundo a carne, mas não se engana o espírito que vem de Deus. De fato, ele sabe de onde vem e para onde vai, e revela os segredos. Estando no meio de vós, gritei, disse em alta voz, uma voz de Deus: Permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos!”[13]

-Inácio aos Erminiotas:

“Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbitério como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus”[14]

Como vemos, em todas as vezes Inácio menciona somente a submissão a três autoridades (cargos eclesiásticos) existentes na Igreja, sendo eles o de bispo, de presbíteros e de diáconos. Ele absolutamente nunca mencionou um Sumo Pontífice, o que obviamente seria uma autoridade eclesiástica e tanto que os cristãos deveriam prestar submissão, se realmente existisse um!

O fato de Inácio sempre em suas epístolas se reservar a mostrar submissão apenas aos três grupos, formados por diáconos (no plural), presbíteros (no plural) e ao bispo (no singular, por se tratar do bispo de cada igreja local) e sempre ignorar a suposta figura de um “bispo dos bispos”, “bispo universal” ou “Sumo Pontífice” que a Igreja Romana alega para o seu próprio bispo, nos demonstra claramente que Inácio não tinha qualquer noção de uma primazia jurisdicional universal de um bispo sobre todos os outros bispos, de um bispo maior, de um Sumo Pontífice. Isso é criação tardia da Igreja de Roma para si mesma.

Nunca foi crida por Inácio, que jamais fez menção a tal cargo ou função na Igreja, o que seria da maior importância caso realmente existisse! Vale ressaltar que na única vez em que Inácio fez menção a um “bispo de todos”, isto é, de um Sumo Pontífice, não foi para falar do bispo romano, mas de Jesus Cristo:

“Convém que não abuseis da idade do vosso bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo[15]

Na verdade, a coisa fica ainda mais misteriosa quando vemos que, quando Inácio escreveu aos romanos, ele nem sequer fez menção do bispo dali! Convenhamos: se o bispo de Roma fosse não apenas um bispo como os demais, mas o bispo dos bispos, o Sumo Pontífice da Cristandade, será que Inácio iria passar despercebido dessa tão grande autoridade na Igreja? É claro que não! O fato de Inácio nem sequer citar o bispo de Roma é somente uma consequência do fato de que tal bispo não era nem nunca foi superior a todos os demais bispos.

Ele cita o bispo local das outras igrejas sempre ao escrever a todas elas:

-O bispo de Éfeso é citado por ele na Carta aos Efésios treze vezes: 1:3 (duas vezes); 2:1; 2:2; 3:2; 4:1 (duas vezes); 5:1; 5:2 (duas vezes); 6:1 (duas vezes); 20:2.

-O bispo de Esmirna é citado por ele na Carta aos Erminiotas nove vezes: 8:1 (três vezes); 8:2 (duas vezes); 9:1 (três vezes); 12:2.

-O bispo de Filadélfia é citado por ele na Carta aos Filadelfienses oito vezes: 1:1; 3:2; 4:1; 7:1; 7:2; 8:1; 10:2; e mais uma vez na saudação.

-O bispo de Magnésia é citado por ele na Carta aos Magnésios doze vezes: 2:1 (duas vezes); 3:1 (duas vezes); 3:2; 4:1; 6:1; 6:2; 7:1; 13:1; 13:2; 15:1.

-O bispo de Trália é citado por ele na Carta aos Tralianos nove vezes: 1:1; 2:1; 2:2; 3:1; 3:2; 7:1; 7:2; 12:2; 13:2.

Como vemos, ele costumava citar muitas vezes os bispos locais de cada cidade para quem ele escrevia, dizendo que os membros daquela igreja lhe deviam submissão e reconhecendo a autoridade daquele bispo local. Isso aconteceu diversas vezes em todas as epístolas que Inácio escreveu às outras igrejas, mas quando escreve aos romanos, que teoricamente teriam o maior de todos os bispos, o Sumo Pontífice, o bispo dos bispos, o bispo universal, o chefe de toda a Igreja apostólica... ele não o menciona nem uma única vez em toda a carta!

A palavra “bispo” aparece duas vezes na epístola dele aos romanos, mas nunca para se referir ao próprio bispo de Roma. Em 2:2 ela é uma referência ao bispo da Síria, e em 9:1 ela se refere ao próprio Inácio de Antioquia, falando de sua igreja local, onde humildemente diz que, “em meu lugar, tem somente Deus por pastor”[16]. Portanto, vemos que, em vez de dizer que os romanos tinham o privilégio de ter como bispo o “bispo dos bispos” e “Sumo Pontífice” da Igreja de Cristo, ele não o menciona nem uma única vez, mas menciona diversas vezes bispos que seriam “inferiores” ao romano (na visão católica) em suas epístolas às outras igrejas locais.

Como pode Inácio sempre se lembrar de mencionar inúmeras vezes a autoridade dos bispos locais das outras igrejas, mas nunca fazer menção à autoridade superior de toda a Igreja, que seria a de um Sumo Pontífice romano, nem mesmo na própria epístola aos romanos?

A resposta é óbvia: o bispo de Roma não era Sumo Pontífice coisa nenhuma!

Inácio não reconhecia nenhuma autoridade universal de um bispo romano, razão pela qual vemos ele dizendo aos romanos que Roma presidia sobre Roma, e não universalmente:

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor dela por Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside no amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai”[17]

Inácio diz que aquela igreja, a quem ele escrevia, presidia. Se você perguntar aos romanistas, eles dirão que Roma presidia universalmente, pois defendem a tese do primado universal do bispo de Roma. Porém, Inácio esmaga essa teoria ao dizer que Roma presidia na região dos romanos. Em outras palavras, a jurisdição de Roma se limitava ao próprio território romano, não se estendia ao mundo inteiro, como pretendem os papistas. Inácio destrói a tese romana com uma simples frase!

Ademais, ao invés de dizer que Roma presidia universalmente em autoridade eclesiástica, ele afirma que ela presidia “no amor”. Convenhamos: será que Inácio iria perder a oportunidade de ressaltar a suposta primazia universal autoritativa dos romanos, caso eles realmente a detivessem? É claro que não! Porém, Inácio nada diz sobre primazia jurisdicional. Ele realmente não tinha a menor ideia de uma jurisdição universal, mas cria que Roma se limitava a presidir sobre Roma!

Alguns católicos teimam em dizer que Inácio reconhecia a autoridade “universal” do bispo de Roma porque ele elogiou bastante os romanos em sua carta. Será que isso é realmente um argumento? Se esse argumento tivesse que ser levado a sério, deveríamos fazer o mesmo com a Igreja de Éfeso, já que ele elogiou muito mais os efésios do que os próprios romanos:

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que foi grandemente abençoada com a plenitude de Deus Pai, predestinada antes dos séculos para existir sempre, para uma glória que não passa, inabalavelmente unida, escolhida na paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus. À Igreja digna de ser chamada feliz, que está em Éfeso, na Ásia, as melhores saudações em Jesus Cristo e numa alegria irrepreensível. Acolhi em Deus vosso amadíssimo nome, que adquiristes por justo título natural, segundo a fé e o amor em Cristo Jesus, nosso Salvador. Imitadores que sois de Deus, reanimados pelo sangue de Deus, realizastes até o fim a obra que convém à vossa natureza”[18]

Inácio diz que a Igreja de Éfeso era grandemente abençoada por Deus, que foi predestinada eternamente, que tinha uma glória eterna, que era unida, apaixonada por Deus, digna, amada, enfim, encheu a bola dos efésios. E depois disse que ele encontrava neles (nos efésios) a sua alegria, que eles eram glorificados e santificados:

“Possa eu encontrar sempre a minha alegria em vós, caso eu seja digno disso. É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo, que vos glorificou, a fim de que, reunidos na mesma obediência, submetidos ao bispo e ao presbítero, sejais santificados em todas as coisas”[19]

Fora isso, ele declara também que era “vítima expiatória” dos efésios, que se oferecia em sacrifício por eles, que eles eram uma igreja formosa pelos séculos, e que desejava ressuscitar para se encontrar com os cristãos de Éfeso:

“Sou vossa vítima expiatória, e me ofereço em sacrifício por vós, efésios, Igreja famosa pelos séculos”[20]

“Fora dele, nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”[21]

Algo semelhante fez Cirilo de Alexandria em seu discurso pronunciado no Concílio de Éfeso:

“Salve, cidade de Éfeso, mais formosa que os mares, porque em vez dos portos da terra, marcaram encontro em ti os que são portos do céu! Salve, honra desta região asiática semeada por todos os lados de templos, como preciosas jóias, e consagrada, no presente, pelos benditos pés de muitos santos Padres e Patriarcas! Com sua vinda, cumularam-te de toda bênção, porque onde eles se congregam, aumenta e multiplica-se a santidade: religiosos fiéis, anjos da terra, afugentam eles, com sua presença, todo satânico poder e toda afeição pagã. Eles, repetimos, confundem toda heresia e são glórias de nossa fé ortodoxa”[22]

Por fim, é digno de nota que, para Inácio, a Igreja cristã não havia sido fundada em Roma, mas na Síria, mais especificamente na cidade de Antioquia, onde os discípulos foram pela primeira vez chamados “cristãos”:

“Devemos, portanto, provar a nós mesmos que merecemos o nome que recebemos (=cristãos). Quem é chamado por outro nome além deste não é de Deus, pois não recebeu a profecia que nos fala a respeito disso: ‘O povo será chamado por um novo nome, pelo qual o Senhor os chamará, e serão um povo santo’. Isto se cumpriu primeiramente na Síria, pois ‘os discípulos eram chamados de cristãos em Antioquia’, quando Paulo e Pedro estabeleciam as fundações da Igreja. Abandonai, pois, a maldade, o passado, as influências viciadas e sereis transformados no novo instrumento da graça. Permanecei em Cristo e o estranho não obterá o domínio sobre vós”[23]

Portanto, torna-se indiscutível que Inácio jamais reconheceu uma autoridade universal do bispo de Roma, mas, ao contrário, cria que os romanos presidiam “na região dos romanos”, e não “no mundo inteiro”, e que foi na Síria que a Igreja foi “fundada”. Os elogios que ele fez aos romanos de modo nenhum induzem algum tipo de primazia deles, porque ele elogiou muito mais os efésios, e nenhum católico crê que a Igreja de Éfeso dividia a “primazia universal” com a Igreja de Roma sobre todas as demais. O próprio Inácio foi considerado “o mais abençoado bispo da Igreja apostólica”[24]pelos de sua época. Onde estava o papa de Roma?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

*Este artigo é extraído de meu livro: "A História não contada de Pedro"


-Meus livros:

-Veja uma lista completa de livros meus clicando aqui.

- Acesse o meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros sites:
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Estudando Escatologia (Estudos sobre o Apocalipse)
Desvendando a Lenda (Refutando a Imortalidade da Alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)





[1] Inácio aos Magnésios, 6:1.
[2] Inácio aos Magnésios, 7:1.
[3] Inácio aos Magnésios, 13:1.
[4] Inácio aos Tralianos, 2:1.
[5] Inácio aos Tralianos, 3:1.
[6] Inácio aos Tralianos, 7:1.
[7] Inácio aos Tralianos, 13:1.
[8] Inácio a Policarpo, 6:1.
[9] Inácio aos Efésios, 2:2.
[10] Inácio aos Efésios, 5:3.
[11] Inácio aos Efésios, 20:1.
[12] Inácio aos Filadelfienses, Saudações.
[13] Inácio aos Filadelfienses, 7:1.
[14] Inácio aos Erminiotas, 8:1.
[15] Inácio aos Magnésios, Versão Curta, 3:1.
[16]Inácio aos Romanos, 9:1.
[17] Inácio aos Romanos, Saudações.
[18] Inácio aos Efésios, 1:1.
[19] Inácio aos Efésios, 2:2.
[20] Inácio aos Efésios, 8:1.
[21] Inácio aos Efésios, 11:2.
[22] Discurso de São Cirilo de Alexandria pronunciado no Concílio de Éfeso.
[23] Inácio aos Magnésios, Versão Longa, Cap.10.
[24]Epístola de Maria a Inácio, “Saudações”.