3 de maio de 2016

A Primeira Cruzada (O Massacre em Jerusalém)


Em 637 d.C, Omar, o califa muçulmano, conquistou Jerusalém dos bizantinos e “antes de pedir-lhe para visitar os locais sagrados do Cristianismo, o califa começou assegurando-lhe que a vida e os bens de todos os habitantes seriam respeitados”[1]. Agora, cerca de 450 anos mais tarde, os cruzados reconquistam Jerusalém, causando a maior chacina que o mundo já tinha visto. O famoso genocídio perpetrado pelos cruzados em Jerusalém se torna ainda mais assustador quando vemos que quem tinha a posse desta cidade no momento do ataque não eram mais os turcos que o papa Urbano II tanto tinha condenado na pregação da Cruzada, mas sim os seus amigos fatímidas, com os quais eles haviam se aliado anteriormente:

Só que Jerusalém já não estava nas mãos dos turcos; os aliados dos cruzados, os árabes do Egito, a tinham desde 26 de agosto do ano anterior. Mas os cruzados não haviam caminhado desde o Ocidente e enterrado no caminho de três mil quilômetros dezenas de milhares dos seus para se deter diante deste detalhe.[2]

Os muçulmanos aprenderam na pele que não se pode confiar em bárbaros e assassinos. Em vez de honrar o acordo, os Cruzados banharam de sangue a cidade santa, o sangue dos seus próprios “amigos” que o ajudaram em Antioquia. Isso derruba por completo a tese de que o objetivo principal do papa era livrar Jerusalém dos turcos. Se este fosse o objetivo, eles teriam se detido quando vissem que Jerusalém não estava mais nas mãos dos turcos. No entanto, avançaram e exterminaram todo mundo assim mesmo. O objetivo era maior: era uma sede de sangue megalomaníaca em busca de fama e poder.

Depois de sete meses de cerco, os cruzados conseguiram penetrar na cidade em julho de 1099. O que aconteceria então seria marcado como uma das maiores carnificinas da história das guerras:

Os exilados ainda tremem cada vez que falam nisso, seu olhar se esfria como se eles ainda tivessem diante dos olhos aqueles guerreiros louros, protegidos de armaduras, que espalham pelas ruas o sabre cortante, desembainhado, degolando homens, mulheres e crianças, pilhando as casas, saqueando as mesquitas. Dois dias depois de cessada a chacina não havia mais um só muçulmano do lado de dentro das cidades. Alguns aproveitaram-se da confusão para fugir, pelas portas que os invasores haviam arrombado. Outros jaziam, aos milhares, em poças de sangue na soleira de suas casas ou nas proximidades das mesquitas. Entre eles, um grande número de imãs, ulemás e ascetas sufis que haviam deixado sua terra para viver um retiro piedoso, nesses santos lugares. Os últimos sobreviventes forçados a cumprir a pior das tarefas: transportar os cadáveres dos seus, amontoando-os, sem sepultura, nos terrenos baldios para em seguida queimá-los. Os sobreviventes por sua vez deveriam proteger-se para não serem massacrados ou vendidos como escravos.[3]

Ibn Al-Qalanissi diz que “a matança não poupou nem as crianças, nem os voluntários, nem as pessoas da cidade”[4]. Nem os cristãos ortodoxos que habitavam na cidade foram poupados do terrível massacre:

Seus próprios correligionários não foram poupados: uma das primeiras medidas tomadas pelos francos é expulsar da igreja do Santo Sepulcro todos os sacerdotes dos ritos orientais – gregos, georgianos, armênios, coptas e sírios – que oficiavam juntos, segundo uma antiga tradição que todos os conquistadores haviam respeitado até então. Pasmos com tanto fanatismo, os dignitários das comunidades cristãs orientais decidem resistir.[5]

Um cronista anônimo citado por Jacques Le Goff escreve:

O templo inteiro brilhava com seu sangue. Por fim, depois de ter massacrado os pagãos, os nossos se apoderaram no templo de um grande número de mulheres e crianças e mataram ou deixaram com vida quem eles queriam (...) Na manhã seguinte os nossos escalaram o telhado do templo e atacaram os sarracenos, homens e mulheres, e tirando suas espadas os decapitaram. Alguns se jogaram do alto do templo.[6]

Mulheres, crianças, judeus, ortodoxos, todos pereceram diante dos francos. O que mais chama a atenção é a insensibilidade dos cruzados diante de tudo isso. Conta o clérigo Raymond de Agiles, que estava ali, que se viram “coisas maravilhosas”. Essas “coisas maravilhosas” que ele descreve se referem ao “grande número de sarracenos decapitados, outros atravessados com flechas ou obrigados a saltar das muralhas; alguns foram torturados durante vários dias e por último queimados vivos. Nas ruas, se viam montões de cabeças, de braços, de pés”[7].

Um cronista anônimo escreve:

Montões de cabeças, mãos e pés viam-se nas ruas da cidade. Era necessário abrir passagem entre os corpos dos homens e cavalos. Mas isso não era nada comparado com o que sucedeu no templo de Salomão, um lugar onde comumente se celebravam os serviços religiosos. O que aconteceu lá? Se disser a verdade, sem dúvida será mais do que você aceitaria acreditar. Assim basta-me dizer, pelo menos, que no templo e no pórtico de Salomão, cavaleiros andavam em meio ao sangue, o qual atingia até seus joelhos e até as rédeas dos cavalos. Realmente, foi um juízo justo e magnífico de Deus que este lugar se enchesse do sangue dos incrédulos![8]

Esses monstros que conquistaram Jerusalém eram tão insensíveis e ordinários que não descreviam a chacina como um episódio lamentável ou como um excesso repudiável, mas sim como uma glória, um “justo juízo” de Deus, porque se tratava de incrédulos. Raimundo d’Agiles, capelão do conde de Tolosa, chega a exclamar: Coisa engraçada era ver os turcos, perseguidos pelos nossos, tropeçarem uns nos outros, ao fugir, empurrando-se mutuamente nos precipícios; era um espetáculo divertido e deleitável[9].

A insensibilidade moral dos católicos em frente ao massacre também se fez presente na corte de Luís XIV, quando o jesuíta Luís Maimbourg sustentava que as Cruzadas ainda eram guerras santas, nas quais todas as barbaridades se justificavam pelo seu “elevado objetivo espiritual”. E descrevia com prazer o modo como os cristãos “usaram, em toda a sua extensão, os direitos da vitória... deparava-se, em toda a parte, com cabeças erguidas aos ventos, pernas cortadas, braços despedaçados, corpos em pedaços... matavam-se crianças transportadas ao colo das mães para exterminar, se possível, essa raça maldita, tal como Deus desejara[10].

Nessa “raça maldita” que merecia ser exterminada “como Deus desejara” estavam os judeus, desde sempre o alvo preferido dos fanáticos romanistas. Ivan Lins descreve o que aconteceu com os judeus, que, assim como na Cruzada Popular, também não foram poupados:

Indescritíveis as crueldades, que praticaram, levados já pelo fanatismo, já pelo muito que haviam padecido nos três intérminos anos da expedição. Enorme multidão de velhos, mulheres e crianças, que se abrigara no Templo de Salomão, foi chacinada com os mais hediondos requintes , sendo flechados os que se haviam refugiado no teto, enquanto outros eram atirados ao chão, de cabeça para baixo, partindo-se contra as pedras. Quanto aos judeus, foram, sem piedade, reunidos e queimados vivos na sinagoga, da qual se fez imensa fogueira. Espalhando-se a notícia de haverem os sarracenos engolido os seus besantes de ouro, pôs-se a arraia miuda dos cruzados a abrir-lhes o ventre, revistando-lhes as entranhas muitas vezes ainda palpitantes. Sendo morosa a operação, sobretudo à vista do elevado número de mortos, resolveram queimar os cadáveres e procurar, nas cinzas, o ouro.[11]

Maalouf também descreve a forma com que os judeus foram covardemente assassinados:

Os louros cavaleiros começavam a invadir as ruas da cidade. A comunidade inteira, reproduzindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga principal para orar. Os francos então bloquearam todos os acessos. Depois, empilhando feixes de lenha em torno, atearam fogo. Os que tentavam sair eram mortos nos becos vizinhos, os outros, queimados vivos.[12]

Quando o legado papal e Godofredo de Bouillón escreveram ao papa relatando os acontecimentos, escreveram:

Se Vossa Majestade deseja saber o que se fez aos inimigos encontrados em Jerusalém, saiba que nos pórticos de Paloma e nos templos, os nossos cavalgaram entre o sangue imundo dos sarracenos, e que caminhávamos entre o sangue até os tornozelos.[13]

O autor da Gesta Francorum, um cavaleiro cristão que estava junto na matança, escreveu:

Depois disso, muitos homens se lançaram por toda a cidade, recolhendo ouro e prata, cavalos e mulas, e saqueando as casas cheias de toda classe de bens, e todos voltaram regozijados, chorando de alegria, para orar no Sepulcro do nosso Salvador, Jesus, e ali se reconheceram como seus servos. À manhã seguinte subiram ao teto do templo e atacaram os sarracenos, homens e mulheres, cortando cabeças com seus espadas desnudas.[14]

Outro cronista, autor da “História Anônima da Primeira Cruzada”, registrou:

Perseguiam, massacravam os muçulmanos até o Templo de Salomão, onde houve tal carnificina que os nosso caminhavam com sangue até os tornozelos (...) Os muçulmanos vivos arrastavam seus mortos para fora da cidade e diante das suas portas formavam montes tão altos como as casas.[15]

Um autor franco descreve as cenas de terror e vandalismo praticados pelos cruzados nas seguintes palavras:

Por todas as partes havia partes de corpos humanos e o solo estava coberto pelo sangue dos derrotados. Ainda mais espantoso era ver aos vencedores encharcados de sangue da cabeça aos pés.[16]

Lins escreve ainda sobre as torturas e crueldades que os cruzados fizeram os prisioneiros muçulmanos passarem. Godofredo de Bouillón, o homem tão exaltado e admirado por sua pretensa “piedade” e “humildade” pelos revisionistas católicos, furou os olhos de vinte prisioneiros, e Raimundo de Saint-Gilles, conde de Tolosa, antes de matar os seus, fez arrancar-lhes os olhos e cortar-lhes os pés, as mãos e os narizes[17]. Ele relata também que “levou muitos dias a chacina dos vencidos, porquanto, alegando alguns chefes a necessidade de inspirar terror aos muçulmanos, não foram poupados os que haviam sido a princípio escravizados, salvo, por um requinte de perversidade, um pequeno número para enterrar seus irmãos e amigos”[18].

O viajante Ibn Jobair, um árabe da Espanha que visitou a Palestina um século após o início da invasão franca, escreveu:

É preciso pedir perdão e misericórdia a Deus para evitar tal erro. Um dos horrores que saltam aos olhos de quem mora no território dos cristãos é o espetáculo dos prisioneiros muçulmanos tropeçando nos grilhões, usados para trabalhos forçados quando são tratados como escravos. O mesmo ocorre com o espetáculo das cativas muçulmanas que trazem aos pés anéis de ferro. Os corações despedaçam-se a essa visão, mas piedade não lhes serve para nada.[19]

Lins escreve ainda:

Todos os inimigos que haviam sido, a princípio, poupados pela humanidade ou pela fadiga da carnificina, todos os que haviam sido salvos pela esperança de rico resgate, foram indistintamente sacrificados. Eram forçados a precipitar-se do alto das torres e das casas; eram atirados às chamas; eram arrancados do fundo dos subterrâneos, em que se haviam abrigado, e arrastados pelas praças públicas, onde eram imolados sobre montões de cadáveres. Nem as lágrimas das mulheres, nem os gritos das criancinhas, nem o aspecto dos lugares em que Jesus perdoou a seus algozes, nada podia abrandar um vencedor irritado.[20]

Os historiadores orientais, de acordo, neste ponto, com os latinos, avaliam em mais de setenta mil o número dos muçulmanos mortos em Jerusalém, sem contar judeus, queimados em sua sinagoga. Alguns poucos prisioneiros muçulmanos, que haviam escapado da morte para cair em horrível servidão, foram incubidos de enterrar os corpos mutilados e desfigurados de seus amigos e irmãos. Eles choravam – diz o monge Roberto – e lugubremente transportavam os cadáveres para fora de Jerusalém.[21]

Tão grande foi a matança que, segundo o depoimento de Albert d’Aix, se encontravam cadáveres empilhados não só nos palácios, nos templos, nas ruas, mas ainda nos lugares mais escondidos e solitários[22]. Nunca é tarde lembrar que todo este horror foi praticado:

• Contra os muçulmanos fatímidas, com os quais os cruzados haviam assinado um acordo de não-agressão e de cooperação mútua (Antioquia e Síria ficariam para os cristãos; Palestina e Jerusalém para os fatímidas). Os cristãos não apenas não cumpriram o acordo, como também exterminaram os próprios fatímidas.

• Contra cristãos ortodoxos e judeus, que a princípio não tinham nada a ver com isso, e que poderiam ser poupados caso os cruzados quisessem.

• Contra mulheres, bebês e crianças de colo, indefesos e que não apresentavam possibilidade de resistência.

• Depois que o líder Omar havia tomado Jerusalém (637) sem assassinar cristão nenhum, e respeitando as liberdades individuais, o direito de culto e o direito de ir e vir de cada cidadão cristão.

Era essa a razão pela qual tanto o Império Bizantino como os muçulmanos consideravam os cruzados como nada a mais que cães virulentos e bárbaros sanguinários, como meros animais guiados pelo instinto, que não tinham outra virtude além da coragem e da luta[23]. Posteriormente, Saladino iria dar outra lição moral nos católicos, ao reconquistar Jerusalém sem derramar uma gota de sangue, sem devolver a chacina praticada pelos cruzados.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

- Extraído do meu livro: "Cruzadas - O Terrorismo Católico".

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] ibid, p. 57.
[2] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 385.
[3] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 12.
[4] Apud MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 58.
[5] ibid, p. 57.
[6] LE GOFF, Jacques. La Baja Edad Media. 1ª ed. Madrid: Siglo XXI, 1971, p. 128.
[7] Apud DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 385-386.
[8] Apud MELO, Saulo de. História da Igreja e o Evangelismo Brasileiro. 1ª ed. Maringá: Massoni, 2011, p. 78.
[9] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 327.
[10] Apud ROPER, Hugh Trevor. A Formação da Europa Cristã. 1ª ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1975, p. 107-108.
[11] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 323-324.
[12] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 12.
[13] ibid.
[14] Gesta Francorum, trad. De Rosalind Hill (Nelson’s Medieval Texts, 1962), adaptado de: cf. R. W. Southern: Making of the Middle Ages, Londres, 1953, p. 105.
[15] Apud FRANCO, Hilário. As Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 43-44.
[16] Apud PHILLIPS, Jonathan. La cuarta cruzada y el saco de Constantinopla. 1ª Ed. Barcelona: CRÍTICA, S. L., 2005, p. 23.
[17] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 325-326.
[18] ibid.
[19] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 15.
[20] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 326-327.
[21] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 327.
[22] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 326-327.
[23] MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: A Bibliografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

1 de maio de 2016

A Primeira Cruzada (Os massacres em Antioquia e Maara)


A Cruzada Oficial

A Primeira Cruzada reuniu uma multidão imensa de pessoas para os padrões da época. Os cronistas falam em 700 ou 800 mil, mas Duché alerta que essas são cifras medievais, que não devem ser levadas muito a sério[1]. Foucher de Chartres, que participou da Primeira Cruzada, avaliou em 600 mil a multidão imensa de clérigos, criados e servos, arqueiros, mulheres e crianças que formavam o confuso e heterogênico séquito dos barões[2]. A princesa Ana Comnena, filha do imperador Aleixo I, disse que a Europa estava arrancada de seus fundamentos e se precipitava sobre a Ásia, ao contemplar a inumerável multidão dos cruzados[3].

Todavia, os cruzados não tinham um plano de conjunto, nem eram liderados por um único comandante. Em vez disso, cada cavaleiro se juntou a quem lhe agradava:

Faltou um completo plano de conjunto. Cada cavaleiro se agregou a quem lhe agradava, mas sem se comprometer tampouco a lhe obedecer. Distribuídos por nações, se encaminharam por diferentes rotas: os alemães e os franceses do Norte, dirigidos por Godofredo de Bouillón, duque da Baja Lorena, e seu irmão Balduino, seguiram o curso do Danubio; Raimundo de Tolosa com os demais cruzados provinciais e o legado papal passaram por Lombardía para Dalmacia e o Epiro; os normandos de Sicilia, com Boemundo de Tarento, cruzaram o Adriático e se dirigiam a Bizâncio; finalmente, os franceses, que mandavam Hugo de Vermandois, irmão do rei da França, Roberto de Normandía e o conde de Flandes seguiram pela Itália até Brindisi, e ali embarcaram para seguir a mesma rota que os sicilianos. Todos se reuniram em Constantinopla.[4]

Lins confirma que “cada contingente agia isoladamente sob a direção de seu respectivo chefe feudal, cujas insígnias seguia. Chegou, assim, cada esquadrão a Constantinopla”[5].


Em Constantinopla

Ao chegarem a Constantinopla, “não foram muito bem recebidos pelo imperador Aleixo I Comneno, que se mostrou receoso das intenções que puderam animar aos chefes de tão grande exército, ao que proibiu penetrar em Constantinopla”[6]. Roper diz que “o imperador de Constantinopla ficou compreensivelmente alarmado com a resposta ao seu apelo. Sentia-se como o aprendiz de feiticeiro que conjurara uma força mais terrível do que imaginara”[7], e Duché alega que “o patriarca havia pedido ajuda, e a resposta havia superado todas as suas esperanças e as convertia em terror”[8]. Vara afirma que “os exércitos que convergiram em Constantinopla alarmaram os bizantinos, que só haviam solicitado mercenários, tal como nos descreve Ana Comneno”[9].

Valentin diz que o próprio fato deste movimento partir da Igreja Romana, para a qual a Igreja Grega era maldita, já era suspeito demais[10]. Franco explica a desaprovação dos bizantinos às Cruzadas nas seguintes palavras:

Desenvolveu-se no Ocidente a concepção de guerra santa, existente, aliás, entre os muçulmanos. Os bizantinos, contudo, não aceitavam aquela ideia, já que para eles nenhuma guerra era santa, mas apenas necessária; morrer na luta não seria um martírio, pois os mártires enfrentavam o inimigo apenas com as armas da fé. A princesa e cronista bizantina Ana Comneno indignava-se ao ver cruzados lutando na Semana Santa, e entre eles sacerdotes armados e empenhados no combate. Esta diferente visão das coisas explica, a par de razões políticas e econômicas, a desaprovação bizantina frente às Cruzadas.[11]

Tal era a desaprovação dos bizantinos às Cruzadas que Michaud diz que os gregos “não podiam compreender o que se ia fazer em Jerusalém”[12].

Enquanto esperavam no lado de fora, os cruzados admiravam as “incomparáveis fortificações de Constantinopla”[13], e, ao entrar, Godofredo de Villehardouin descreve o quão maravilhados os cruzados ficaram ao contemplar uma cidade tão magnífica, à qual nada na Europa se comparava:

Posso assegurar que todos aqueles que não haviam visto Constantinopla antes contemplavam a cidade com toda sua atenção, pois nunca haviam imaginado que pudesse existir no mundo um lugar tão maravilhoso. Olhavam suas altas muralhas e nas sublimes torres que a rodeavam, avistaram seus ricos palácios e suas elevadas igrejas, que eram tantas que ninguém teria crido se não tivessem visto com seus próprios olhos, e viram o comprimento e largura que era essa cidade que reina suprema sobre todas as demais.[14]  

Michaud descreve também que “os cavaleiros, segundo dizem os historiadores do tempo, não se cansavam de admirar os palácios, os belos edifícios, as riquezas da capital”[15]. Eles viam pela primeira vez “o espetáculo do luxo do Oriente”[16], diante do qual ficaram espantados[17].

Depois de algum tempo, o imperador Aleixo permitiu que os cruzados entrassem em Constantinopla, após obrigá-los a prestar um juramento no qual prometiam que iriam devolver todas as terras conquistadas aos bizantinos. Como já vimos no capítulo 3, esta promessa não foi cumprida por nenhum deles. O conde de Tolosa foi o único a se recusar a prestar juramento, e até “ameaçou destruir Constantinopla”[18]. O imperador, para dobrar o orgulho de Raimundo e de seus provençais foi obrigado a se prostrar diante deles[19].

Boemundo, não satisfeito, decidiu saquear Constantinopla, o que só não ocorreu graças à paciência de Godofredo:

Boemundo acabava de chegar a Durazzo. Julgou que era chegado o momento de atacar o império grego e de dividir seus despojos. Mandou embaixadores a Godofredo para convidá-lo a se apoderar de Bizâncio, prometendo unir-se a ele com todas as suas forças para aquele grande empreendimento; mas Godofredo não se esqueceu de que havia tomado as armas para a defesa do santo sepulcro: rejeitou por isso as propostas de Boemundo, lembrando-lhe o juramento que tinham feito de combater os infiéis.[20]

Mesmo assim, a multidão de desocupados e revoltados começou a realizar saques na cidade:

Aleixo estava pronto para lidar com eles. Suas tropas escoltaram-nos através dos Balcãs e, em seguida, por serem numerosas demais para serem alimentados e vigiados em um único acampamento, dividiram-nos em três companhias. Uma passaria o inverno em um acampamento nas proximidades de Filipópolis, a segunda, perto de Adrianópolis e a terceira, nos arredores de Rodosto – mas, mesmo assim, eram demasiado turbulentos para serem controlados. Os três grupos começaram a assolar a região em que se encontravam, saqueando as cidades, arrombando celeiros e roubando até as igrejas.[21]

Àquela altura, porém, já chegara aos lombardos a notícia de que havia outros cruzados a caminho. Recusaram-se a transpor o Bósforo enquanto os reforços não chegassem. Para obrigá-los a prosseguir, as autoridades imperiais cortaram-lhes os suprimentos – pelo que eles imediatamente atacaram os muros da cidade e invadiram o pátio do palácio imperial de Blacherne, onde mataram um dos leões de estimação do imperador e tentaram forçar os portões. O arcebispo de Milão e o conde de Biandrate, que haviam sido bem recebidos pelo imperador, ficaram horrorizados. Correram para o meio da multidão revoltosa e conseguiram ao menos convencê-los a retornar para o acampamento. Em seguida, tiveram de enfrentar a tarefa de apaziguar o imperador.[22]

A esta altura, o imperador Aleixo I Comneno já havia se arrependido de ter deixado os cruzados entrarem na cidade[23]. Mas já era tarde. “A multidão atacava as regiões vizinhas e as devastava; não poupava nem mesmo as casas imperiais e a capital, não obstante suas defesas, temia os horrores do saque”[24]. Michaud escreve:

O que havia de mais aflitivo, é que todos pareciam ter esquecido os turcos. Os guerreiros latinos teriam preferido fazer guerra aos gregos, por causa dos despojos; Alexis estava ocupado somente em submeter ao seu império, os príncipes da cruz, e não pensava mais que as bandeiras muçulmanas flutuavam em Niceia.[25]

Depois de muito tumulto e confusão causados pelos cruzados, Aleixo finalmente conseguiu enviá-los para o Bósforo, onde encontrariam Niceia, seu primeiro triunfo nas terras inimigas.


Em Niceia

Os cruzados chegaram em Niceia em maio de 1097, e tomaram a cidade depois de um mês de difícil cerco[26]. No entanto, eles não conseguiram tomar a cidade para si, porque os turcos preferiram entregar a cidade a Aleixo do que serem trucidados pelos cruzados sedentos de sangue, o que deixou os cruzados furiosos:

A campanha começou com o cerco à cidade de Niceia, que os turcos haviam ocupado alguns anos antes, local estrategicamente importante por sua proximidade de Constantinopla. O bloqueio dos cruzados por terra foi eficiente, mas eles precisavam de apoio naval, que o imperador forneceu, isolando totalmente a cidade. Assim, os turcos resolveram capitular, entregando Niceia a Aleixo, que garantia em troca respeitar a vida de seus habitantes. Para os cruzados esse acordo foi encarado como uma traição, que arrancava aos ocidentais a possibilidade de uma vitória militar completa, cheia de glória e saques.[27]


Em Edessa

Edessa não fazia parte do caminho necessário para chegar a Jerusalém, mas fazia parte dos planos pessoais de Balduíno, que com a morte de sua esposa rica precisava de novas terras e riquezas para si. Por isso ele foi ao encontro desta cidade, ainda governada por um líder cristão ortodoxo, mandou assassiná-lo e tomou o comando:

Se sabia que em Edessa, Balduíno havia obrigado a Thoros, príncipe armênio que de milagre sustinha ainda a cidade em pleno país turco, a que o reconhecesse como filho adotivo e herdeiro: emocionante cerimônia, no transcurso da qual o velho príncipe havia selado com um beijo o intercâmbio de fés, depois do qual, uma providencial revolta havia acabado com o pai adotivo e levado o primeiro barão franco a um trono do Oriente.[28]

Morrisson diz que “nem por um momento se considerou a possibilidade de devolver a Bizâncio essa cidade que lhe pertencera anteriormente à chegada dos turcos”[29]. Depois de assassinar o príncipe cristão que governava a cidade e tomá-la para si, os cruzados seguiram para Antioquia.


Em Antioquia

Assim como em Edessa, tomar Antioquia não era obrigatoriamente necessário para se chegar a Jerusalém. No entanto, os cruzados seguiram com a prática de tomar territórios para fins pessoais, desta vez para Boemundo. Duché escreve que “tomar Antioquia era para Boemundo um assunto pessoal. Ou seja, que tentava tomar para ele. E os outros barões, dando conta de que nada podiam fazer sem aquele diabo de homem, o consentiram”[30]. O fato de a cidade ter ainda maioria cristã não importava. Todos seriam mortos pela ambição pessoal de Boemundo por terras e riquezas.

Em Antioquia ocorreu um dos acordos mais infames da história das Cruzadas: muçulmanos fatímidas propuseram um acordo com os cruzados, onde Antioquia e Síria ficariam para os cristãos, e a Palestina e Jerusalém para eles. O trato foi aceito, mas o tempo iria mostrar que nunca é boa ideia fazer acordos com os bárbaros...

Em escala superior, os califas fatímitas do Cairo não reconheciam aos califas de Bagdá subjugados pelos turcos, e Síria e Palestina eram reivindicadas – como muitos anos através o haviam sido – pelo Egito. Os francos, diante de Antioquia, viram chegar uma embaixada fatímita; para os francos, Antioquia e Síria; para os egípcios, Jerusalém e Palestina. O grande visir do Cairo era um armênio convertido ao Islã que compreendeu clarissimamente o espírito de conquista dos cruzados, mas não de todo o entusiasmo religioso que os empurrava para a Terra Santa. Trato feito, enquanto esperavam uma ocasião para rompê-lo.[31]

Maalouf aborda mais sobre o acordo selado com os muçulmanos fatímidas:

Tendo-lhe o emir despachado uma embaixada, um acordo é rapidamente concluído: não somente Sultan compromete-se a abastecer os francos, como também os autoriza a vir comprar cavalos no mercado de Chayzar e lhes fornecerá guias para que possam atravessar sem problemas o resto da Síria.[32]

Como parte do acordo, os egípcios atacaram os turcos na retaguarda pelo Istmo de Suez[33], enquanto o exército cruzado manteve o cerco à cidade de Antioquia. O problema é que os cruzados não esperavam que o cerco fosse levar tanto tempo. Impenetrável, os muros de Antioquia ficaram firmes por oito meses, período no qual os cruzados passaram por severa fome, chegando ao ponto de praticar canibalismo. Duché comenta:

O que encontrava um cachorro ou um gato mortos o comia com grande gosto. Comeram alguns cavalos, mas havia que guardá-los para as batalhas. Comeram couro, erva, prisioneiros – salvo as cabeças, que colocavam sobre largas estacas à vista dos inimigos.[34]

Foucher de Chartres, um cronista que presenciou os acontecimentos, escreveu que “teríeis rido, ou talvez chorado, ao ver muitos dos nossos, na falta de cavalos, fazer pacotes dos objetos que lhes pertenciam, e colocá-los sobre o dorso de carneiros, cabras, suínos e cães. E viam-se cavaleiros armados, montados em bois”[35]. Outro cronista, também testemunha ocular dos eventos, disse que “de tal modo os nossos sofreram sede, que alguns abriam as veias de seus cavalos e jumentos a fim de beber seu sangue; outros pediam a um companheiro que colhesse com as mãos a urina, para com ela mitigar a sede; outros ainda escavavam o solo úmido, deitavam-se e espalhavam terra no peito, tamanho era o ardor da sua sede”[36].

Michaud diz também que “os homens, os cavalos e os animais de carga morriam de fome, de sede e de cansaço”[37]. Brentano escreve:

Não encontrando mais, em volta de seu imenso acampamento, ervas, cascas e raízes que lhes aplacassem a fome, passaram a comer seus cavalos, jumentos, camelos, cães e até os ratos que conseguiam apanhar, chegando o poviléu – a famosa gent du roi Tafur da epopeia contemporânea – Chanson d’Antioche – a devorar cadáveres dos sarracenos mortos nos recontros, indo alguns ao ponto de desenterrá-los no cemitério, que ficava fora dos muros de Antioquia.[38]

Um cronista que presenciou estas cenas dantescas disse que “se algum dos nossos se distanciava do campo e encontrava alguém, também dos nossos, um matava o outro para despojá-lo”[39]. Não obstante a fome fosse severa, no acampamento dos cruzados a prostituição rolava à solta, como já era de costume. Lins diz que “os cruzados cometiam os piores excessos, transformando-lhes o acampamento em imensa orgia, a ponto de dizer Gibbon que a história das guerras profanas raramente oferece cenas de tamanha depravação”[40]. Ele escreve:

Se dermos crédito aos autores contemporâneos – comenta Michaud, historiador profundamente católico, e, portanto, insuspeito – todos os vícios de Babilônia reinavam entre os libertadores de Jerusalém. Espetáculo estranho e inaudito: sob a tenda dos cruzados, viam-se, a um tempo, a fome e a volúpia, o amor impuro e a desenfreada paixão do jogo: misturavam-se enfim, à imagem da morte, todos os excessos da orgia.[41]

Era esse o ambiente em que congregavam os “heróis da civilização Ocidental”, os “santos guerreiros de Deus” e mártires que os revisionistas históricos tanto admiram...

Lins comenta que “os mais severos castigos não conseguiam deter a prostituição, que se tornara geral”[42], e para acalmar a cólera do Senhor eles resolveram expulsar as prostitutas do acampamento, as quais obviamente retornaram após a vitória[43].

Depois de oito meses de difícil cerco, os cruzados conseguiram subornar um traidor muçulmano que abriu uma brecha na muralha e possibilitou a entrada dos cruzados. Ao entrarem, passaram ao fio da espada a homens, mulheres e crianças, poupando poucos deles para virarem seus escravos pelo resto da vida. O massacre foi gigantesco. Maalouf o descreve:

A cidade está incendiada e o sangue corre. Homens, mulheres e crianças tentam fugir pelas ruelas lamacentas, mas os cavaleiros os alcançam sem esforço e cortam-lhes o pescoço imediatamente. Pouco a pouco, os gritos de horror dos últimos sobreviventes se apagam, logo substituídos pelas vozes desafinadas de alguns saqueadores francos já embriagados. A fumaça sobe de muitas casas incendiadas. Ao meio-dia, um véu de luto envolve a cidade.[44]

O que mais apavora no genocídio de Antioquia é que a maior parte da população assassinada da cidade era cristã. Os cruzados não tiveram misericórdia nem consideração por este fato. Massacraram os cristãos ortodoxos sem piedade, juntamente com os muçulmanos. Quanto aos turcos escravizados, Bastos diz que “era com satisfação que os barões feudais cortavam os narizes e os lábios dos turcos que aprisionavam”[45]. O exército de bestas selvagens e bárbaros encolerizados estava mostrando sua verdadeira face.

Terminada a chacina, os cruzados tomaram conta de Antioquia e se tornaram sitiados por um exército muçulmano que havia chegado tardiamente para o auxílio do povo antioqueno. Os cruzados já estavam sem ânimo e sem recursos, já que os oito meses de cerco na cidade também a haviam deixado sem suprimentos. Até que um acontecimento curioso causou uma reviravolta no cenário: a santa lança. Um padre chamado Barthélemy havia supostamente encontrado aquela que seria a mesma lança que o soldado romano usou para perfurar o lado de Cristo na cruz. Essa fantástica e milagrosa descoberta reforçou os ânimos dos cruzados, que partiram para cima dos muçulmanos que cercavam a cidade, os quais partiram em retirada.

Tragicamente para o padre, o legado pontifico não acreditou no suposto milagre. Depois de oito meses de acirrados debates, mandaram o padre para o justíssimo “julgamento de Deus”, que Lins explica como funcionava:

Entre as várias modalidades de julgamento de Deus, eram muito usadas as que consistiam em segurar ou pisar uma barra de ferro em brasa; meter o braço numa caldeira d’água fervente; engolir um pedaço de pão ou de queijo, depois de conjurado a ficar preso na garganta do paciente, caso fosse este culpado, etc. Submetido o padre Pierre Barthélemy ao julgamento de Deus, que, no seu caso, consistiu em atravessar, de pés descalços, uma fogueira, morreu de tremendas queimaduras, ficando, destarte, evidenciada, com grande gáudio dos inimigos do conde de Tolosa, a fraude do encontro da santa lança, a qual, depois de despertar indescritível entusiasmo, operando o milagre de uma vitória tida por impossível, caiu em tal descrédito que acabou perdendo-se sem saber como...[46]

Assim, condenado ao julgamento do fogo, morre o padre Barthélemy, e os cruzados perdem uma de suas milhares de relíquias sagradas...


Em Maara

Após a conquista de Antioquia, com as mortes pela espada e principalmente pela fome, restaram apenas 20 mil soldados de infantaria e 2 mil de cavalaria no exército cruzado[47]. A próxima etapa natural seria Jerusalém, mas antes disso “cada chefe cruzado empenhou-se em ações isoladas procurando realizar uma conquista territorial para benefício próprio”[48]. A mais sangrenta, imoral e vergonhosa de todas foi a conquista de Maara, que marcou um dos episódios mais lamentáveis e deploráveis das Cruzadas. Após assinar um tratado de paz com os cidadãos da cidade, dando um salvo-conduto de não-agressão em caso de rendição, os habitantes de Maara desgraçadamente acreditam na palavra dos monstros morais e sofrem um massacre memorável:

Chega a noite de 11 de dezembro. Está muito escuro e os francos ainda não ousam penetrar na cidade. Os notáveis de Maara entram em contato com Boemundo, o novo senhor de Antioquia, que se encontra à frente dos atacantes. O chefe franco promete garantias se cessarem o combate, deixando para trás algumas construções. Agarrando-se desesperadamente à sua palavra, as famílias reúnem-se nas casas e porões da cidade e, a noite toda, esperam tremendo. Na alvorada, chegam os francos. É uma carnificina. Durante três dias, eles matam mais de cem mil pessoas pela espada, e fazem muitos prisioneiros.[49]

Poucos exércitos na história se igualam em termos de monstruosidade ou ao menos são comparáveis neste quesito ao exército cruzado. Instauraram um genocídio em uma cidade indefesa que já havia se rendido, após terem prometido um salvo-conduto em caso de rendição. Queimaram crianças de colo e mulheres vulneráveis após ter lhes prometido que deixariam viver. O cronista franco Raoul de Caen, testemunha ocular dos acontecimentos, escreveu que “os nossos faziam ferver os pagãos adultos em caldeira, fincavam as crianças em espetos e as devoravam grelhadas”[50]. E são esses monstros canalhas que são louvados hoje em dia pela apologética católica e por outros cretinos.

Como se não bastasse o genocídio covarde em Maara, os cruzados ainda praticaram canibalismo com os cadáveres dos vencidos. Maalouf descreve os francos fanatizados, que “se espalham pelos acampamentos, clamando bem alto que querem devorar a carne dos sarracenos, e que se reúnem à noite ao redor do fogo para devorar suas presas”[51]. Baudri, o arcebispo de Dôle, defendia o canibalismo sob o argumento de que “comer cadáveres de infiéis é ainda fazer-lhes guerra”[52]. Lins declara que os cruzados devoraram cadáveres de muçulmanos “até mesmo já em estado de putrefação”[53].

O cronista franco Albert de Aix iria dizer que “os nossos não repugnavam em comer não só a carne dos turcos e dos sarracenos mortos como também a carne dos cães”[54]. Um capelão do conde de Tolosa, também testemunha ocular, escreveu que “chegaram os cruzados da classe popular a devorar, com avidez, corpos de sarracenos decompostos e já fétidos, que se encontravam nos pântanos, junto da cidade, desde quinze e mais dias”[55]. Por tudo isso, em toda a sua literatura épica, os francos seriam invariavelmente descritos como antropófagos[56].

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

- Extraído do meu livro: "Cruzadas - O Terrorismo Católico".

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 377.
[2] (INS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 314.
[3] ibid.
[4] BALLESTEROS, Manuel; ALBORG, Juan Luis. Historia Universal Hasta el Siglo XIII. 4ª ed. Madrid: Editorial Gredos, S. A., 1967, p. 430.
[5] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 313.
[6] TORNELL, Ricardo Vera. Historia de la Civilización – Tomo I. 1ª ed. Barcelona: Editorial Ramón Sopena, 1958, p. 590.
[7] ROPER, Hugh Trevor. A Formação da Europa Cristã. 1ª ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1975, p. 112.
[8] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 378.
[9] VARA, Julián Donado; ARSUAGA, Ana Echevarría. La Edad Media: Siglos V-XII. 1ª ed. Madrid: Editorial universitaria Ramón Areces, 2010, p. 303.
[10] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo II. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 10.
[11] FRANCO, Hilário. As Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 36.
[12] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 167-168.
[13] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo II. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 253.
[14] Godofredo de Villehardouin, The Conquest of Constantinopla. Chronicles of the Crusades, tradução inglesa de M. R. B. Shaw, Londres, 1963, pp. 58-59.
[15] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 175.
[16] ibid.
[17] ibid.
[18] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 171.
[19] ibid.
[20] ibid, p. 168-169.
[21] RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas, Volume II: O Reino de Jerusalém e o Oriente Franco, 1100-1187. 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002, p. 28.
[22] ibid.
[23] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 163-164.
[24] ibid, p. 177.
[25] ibid.
[26] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 314.
[27] FRANCO, Hilário. As Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 42.
[28] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 382.
[29] MORRISSON, Cécile. Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: L&PM Pocket, 2009.
[30] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 382.
[31] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 382-383.
[32] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 48.
[33] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 383.
[34] ibid, p. 383.
[35] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 315.
[36] Apud FRANCO, Hilário. As Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 40.
[37] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Segundo. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 273.
[38] BRENTANO, Les Croisades, p. 57-58. Citado também em LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 317.
[39] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 317.
[40] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 316.
[41] ibid, p. 318.
[42] ibid, p. 319.
[43] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 35.
[44] ibid, p. 41.
[45] BASTOS, Plínio. História do Mundo - Da pré-história aos nossos dias. 3ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Império, 1983, p. 92.
[46] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 322.
[47] TORNELL, Ricardo Vera. Historia de la Civilización – Tomo I. 1ª ed. Barcelona: Editorial Ramón Sopena, 1958, p. 593.
[48] FRANCO, Hilário. As Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 43.
[49] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 46.
[50] Apud MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 47. Também citado em: NAZARIO, Luiz. Autos-de-fé como espetáculos de massa. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Fapesp, 2005, p. 39.
[51] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 47.
[52] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 317.
[53] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 322.
[54] Apud MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 47.
[55] Apud LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 322-323.
[56] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 47.