3 de agosto de 2015

Os Pais da Igreja contra a confissão auricular



Introdução

Decidi traduzir um trecho de um excelente livro antigo chamado “A las fuentes del Cristianismo” (originalmente em espanhol), escrito por Samuel Vila, que converteu muitos católicos no século passado ao Cristianismo genuíno, levando-os a reconhecer Jesus Cristo como salvador único e suficiente de suas vidas. A parte que eu decidi traduzir é sobre a confissão auricular. Além do que está aqui traduzido, ele escreveu mais coisas sobre o mesmo tema, que eu decidi deixar de fora para que o artigo não ficasse demasiadamente extenso. Se você quiser ler o conteúdo integral, basta clicar aqui e ler. Ano passado eu escrevi um artigo sobre o tema, que você pode ler clicando aqui. Este artigo é importante para servir de base para o que será dito em seguida.


Pedro e Simão Mago

Uma prova inegável de que assim entenderam os próprios apóstolos é o caso de Pedro com Simão Mago. Quando este se mostrou arrependido diante da repreensão do grande apóstolo, este lhe disse:

“Arrependa-se dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele lhe perdoe tal pensamento do seu coração” (Atos 8:22)

Essa sem dúvida é uma clara negação de que o apóstolo se considerava autorizado a exercer o poder das chaves, como a Igreja Católica atribui a ele. Pedro, melhor do que ninguém, podia entender o verdadeiro significado das palavras de Cristo: “A quem reter os pecados, serão retidos” (Jo.20:23), mas sua atitude demonstra que ele não as compreendia senão do modo que acabamos de explicar, ou seja, em nossa forma cristã evangélica.

Mas então – dizem os católicos – por que encontramos nos escritos patrísticos tantas declarações atribuindo aos ministros religiosos a autoridade de perdoar pecados? Mas nós perguntamos: a que classe de perdão se referiam? Vejamos.


O Perdão Eclesiástico

No Novo Testamento temos um interessante exemplo de perdão eclesiástico (que não tem nada a ver com o perdão divino para a salvação da alma), mas nem mesmo este perdão legal é concedido por uma pessoa, e sim por uma comunidade de crentes. Um membro da igreja de Corinto havia caído em pecado, e os cristãos da referida igreja, reunidos em uma sessão especial, o declaram indigno de participar da comunhão e o separam da Igreja. O pecador reconhece sua falta, e o apóstolo recomenda benignidade para com o arrependido, dizendo:

“Àquele que vocês perdoaram, eu também perdôo” (2ª Coríntios 2:10)

Estas palavras “àquele que vocês perdoaram” nos indicam, clara a evidentemente, que a autoridade de conceder o perdão não era um atributo de nenhum indivíduo em particular, mas sim de uma assembleia de crentes. Nem o apóstolo, nem nenhum outro membro da igreja de Corinto, atribuiu a si próprio neste caso uma autoridade pessoal de perdoar, mas foi a Igreja em conjunto que pronunciou a sentença e declarou outra vez que o irmão arrependido era digno da comunhão.

É inegável que, à medida que se consolidou a hierarquia eclesiástica nas igrejas primitivas, se deu mais importância ao perdão eclesiástico, o qual era dado publicamente pelo bispo, em nome da Igreja, aos excomungados por qualquer motivo; e aos «lapsi» que haviam negado a fé durante as perseguições. As palavras de Cristo: “Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu” (Mt.18:18) eram citadas frequentemente com referência ao perdão público concedido aos bispos.

Jerônimo (347-420) descreveu o modo como era dada a absolvição em seu tempo. E por esta declaração, que copiamos precisamente do opúsculo Ego te absolvo, publicado por nossos opositores, o leitor poderá ter perfeitamente em conta de que se trata de algo muito diferente da confissão auricular dos nossos tempos. Ele disse:

“O sacerdote impõe a mão no sujeito, invoca a volta do Espírito Santo (a volta do Espírito Santo à alma é sinal de justificação), e assim, havendo-se ordenando fazer uma oração ao povo (se fazia rogar ao povo cristão pelos penitentes), reconcilia com o altar, para que o espírito seja salvo àquele que havia sido entregue a Satanás para a morte da carne”

Estudamos cuidadosamente as declarações citadas por nossos oponentes, de Gregório Magno (540-604), Leão Magno (400-461), Cirilo de Alexandria (375-444), Agostinho (354-430) e Crisóstomo (347-407), mas todas elas, como a de Jerônimo que acabamos de conferir, se referem à confissão pública dos membros disciplinados, alguns deles penitentes voluntários por graves pecados, os quais se submetiam de bom grado às cerimônias de disciplina eclesiástica e conseguinte reconciliação diante de toda a assembleia de fieis, pensando ganhar deste modo o perdão e favor divino.

Nenhuma destas declarações mencionadas tem nada a ver com a confissão auricular moderna feita ao sacerdote. Lamentavelmente não temos espaço para copiar todas com a extensão conveniente, pois elas seriam a melhor evidência para qualquer leitor criterioso de que não existia confissão auricular nas igrejas primitivas, senão um sistema de disciplina eclesiástica muito rigoroso, que levava com frequencia os fieis à confissão pública diante de toda a Igreja; nunca a um sacerdote em particular.


Sem Confissão Auricular

Bom conhecedor da história eclesiástica, o polêmico evangélico Teófilo Gay exclama:

“Todos os Pais da Igreja dos primeiros quatro séculos viveram sem se confessar segundo o sistema católico-romano e sem haver tampouco se confessado a ninguém. Na vida dos santos posteriores a Inocêncio III (1161-1216) frequentemente encontramos menções de que eles se confessavam, mas nas dos santos anteriores àquela época não existe nem a mais mínima menção da confissão”[1]

Com efeito, temos a vida de Paulo de Tebas, do terceiro século. Ainda que se dêem os detalhes mais minuciosos de suas ações, não há uma só palavra que nos fale do costume de ir ao confessório. E toda evidência aponta que ele viveu e morreu sem confissão auricular.

Caso semelhante é o de Maria do Egito. Vemos a triste história de suas desordens e escândalos em sua juventude; temos o relato edificante da sua conversão, de suas orações fervorosas, de seus longos jejuns no deserto, de sua enfermidade e sua morte... mas de confissões a um homem, nem uma só palavra.

O diácono Pôncio escreveu a vida de Cipriano, que viveu no terceiro século. E se alguma coisa era evidente nesta vida, era que jamais o santo bispo se confessou a ninguém. Uma coisa também é evidente na referida biografia, que é o fato de que ele foi excomungado pelo até então bispo de Roma, Estêvão, que o excomungou publicamente, e Cipriano morreu sem ter tido jamais a absolvição. Mas isso não o impediu de ir ao céu, pois os outros papas posteriores o declararam santo.

Gregório de Niceia nos deixou a interessante vida de Gregório de Cesareia, do século III, e de Basílio, o bispo do século IV. E se há alguma coisa provada em ambas, é que esses santos bispos não se confessaram nunca, nem usaram de confissão auricular, nem tampouco se confessaram a homem nenhum.

Teodoreto nos deixou a história da vida, sofrimentos e morte de João Crisóstomo, e nela não há absolutamente nada sobre confissão auricular, que se existisse em seu tempo deveria ter levado a cabo muitíssimas vezes com algum ou alguns de seus presbíteros, ou com outro bispo.

Quem escreveu com mais detalhes e eloquência sobre temas práticos da fé e moral, dos costumes privados e públicos de seu tempo, do que   Jerônimo no século V? Estas cartas, que temos em vista, não mencionam de modo nenhum a confissão auricular. Grande número de suas cartas eram dirigidas aos presbíteros que lhe haviam pedido regras práticas de conduta para desempenhar seu ministério. Como é possível existir tal costume ou regra na Igreja, e se omitissem de falar de seus deveres como confessores?

Ademais, em sua carta ao presbítero Nepociano, ele diz:

“Não esteja nunca sozinho com mulher, sem testemunha ocular. Se você tem alguma coisa particular para falar, que fale a alguma outra pessoa da casa: donzela, viúva ou casada, e não seja tão ignorante das regras de conveniência, para ousar comunicar coisas que aos outros não comunicaria”[2]

O mesmo podemos dizer de Ambrósio, quanto à sua biografia escrita por Paulino. A vida de Martín de Tours, do século IV, escrita por Severo Sulpício, do século V, também é um monumento irrefutável deixado pela antiguidade para nos mostrar que o dogma da confissão auricular é uma invenção moderna, sendo evidente que Martín de Tours viveu sem ter pensado nunca em se confessar a outro que não a Deus.


Os Pais da Igreja ensinaram?

Por isso que, referindo-se à confissão com Deus, essencial para todos os cristãos, e tratando de reprimir a euforia espetacular daqueles que pensavam que seriam melhor perdoados se confessassem seus pecados publicamente diante de toda a Igreja para receber solenemente a absolvição dos lábios do pastor ou bispo, Basílio declara:

“Eu não me ponho em espetáculo diante do mundo para fazer uma confissão com meus lábios, eu fecho meus olhos e faço a confissão no secreto do meu coração. É só diante de Ti, ó meu Deus, onde eu deixo escapar meus suspiros. Só o Senhor é testemunha dos meus pecados. Meu gemido é no secreto da minha alma. Não fazem falta muitas palavras para confessar: os gemidos e os suspiros do coração são a confissão mais aceitável. Sim, Deus meu, as lamentações que partem do fundo da minha alma e que vão até teu trono são a melhor confissão”[3]

Santo Agostinho nos deixou um livro famoso intitulado Confissões, no qual ele nos conta sua vida com todos os detalhes, nos fala de seus antigos pecados e de sua conversão. O seguimos passo a passo em seus atos e ainda em seus mais secretos pensamentos, mas em nenhuma parte ele diz que foi confessar as suas culpas a um sacerdote ou bispo do seu tempo. A razão disso é porque Agostinho nunca apostatou da fé depois da conversão, razão pela qual não teve que ser submetido a nenhuma disciplina ou penitência que requeresse a absolvição sacerdotal. E, em segundo lugar, porque mesmo enquanto pecador perdoado continuou expondo suas debilidades e fraquezas praticando sua confissão a sós com Deus, segundo nos manifesta no livro 10, cap. 2, de suas Confissões, onde diz:

“Assim, pois, minha confissão em Tua presença, Deus meu, é calma e não silenciosa; calma quanto ao ruído (das palavras), clamorosa quanto à fé”[4]

E no capítulo 3:

“Que tenho, pois, eu a ver com os homens, para que ouçam minhas confissões, como se eles fossem sarar todas as minhas enfermidades?”[5]

E em outra de suas obras declara:

“Eu confessarei meus pecados a meu Deus; e ele me perdoará todas as iniquidades do meu coração; não é com a boca, senão unicamente com o coração, como esta confissão há de ser feita. Ainda não abri minha boca para confessar os pecados e já estão perdoados, porque Deus ouviu verdadeiramente a voz do meu coração”[6]

E em outro lugar, ele diz:

“Por que iria eu expor aos homens as chagas da minha alma? É o Espírito Santo que perdoa os pecados; o homem não pode fazer isso porque tem necessidade de médico da mesma maneira que aquele que nele busca remédio. E se me dizes: ‘Como se realiza a promessa que Cristo fez aos apóstolos, que tudo o que desligares na terra será desligado nos céus?’, contesto que o Senhor prometeu enviar seu Espírito, por meio do qual deveriam ser perdoados os pecados. É o Seu Espírito que Ele envia, e nós somos seus servos. Como o Espírito Santo é Deus, então é Deus quem perdoa os pecados, e não vós”[7]

João Crisóstomo, o grande pregador do século IV, chamado com razão de “boca de ouro”, escreveu em um de seus sermões:

“Não é necessário que haja testemunho algum de vossa confissão. Reconhecei vossas iniquidades, e que Deus somente, sem que ninguém o saiba, ouça vossa confissão”[8]

Em outra de suas obras, ele diz:

“Assim, eu vos suplico e os conjuro a confessar seus pecados a Deus constantemente. Eu não os demando, de nenhuma maneira, que confessem seus pecados aos homens: é a Deus a quem vocês devem mostrar as chagas de vossa alma, e somente a Ele vocês devem esperar a cura. Ide a Ele, e Ele não os rechaçará. Ele conhece tudo”[9]

E em outro lugar, declara:

“Confessai vossos pecados todos os dias em vossa oração... o que pode nos fazer duvidar de obras assim? Eu não os mando a ir confessar a um homem pecador como vocês, que poderia desprezá-los se lhes contassem vossas faltas; mas conte elas a Deus, que pode perdoá-las”[10]

E em outro lugar:

“Dize-me: Por que vocês têm vergonha de confessar seus pecados? Por acaso alguém os obriga a revelá-los a um homem, que poderia desprezá-lo? Alguém pede que vocês se confessem a um de vossos semelhantes, que poderia publicá-los e desonrá-los? A única coisa que demandamos é que mostrem vossas chagas a vosso Mestre e Senhor, que é vosso amigo, vosso guardião e vosso médico”[11]


Conclusão

Este processo longo e solene de reconciliação dos pecadores com a igreja local a que pertenciam, no qual o nome de um penitente era citado publicamente para que toda a igreja orasse por ele, é algo muito diferente da moderna confissão auricular, que se realiza em secreto, em alguns minutos e sem nenhuma solenidade especial. Depois isso (e bem ao contrário do que ocorria com aquelas excomunhões severas e reconciliações dos tempos de ouro da Igreja) veio a se tornar o dogma moderno da confissão auricular, uma espécie de passaporte para a prática reiterada dos mesmos pecados.

Por: Samuel Vila.
Tradução: Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Diccionario de Controversia, pág. 143.
[2] Epíst. a Nepociano, vol. 2, pág. 203.
[3] Comentário do Salmo 37.
[4] Confissões, Livro X, c. 2.
[5] Confissões, Livro X, c. 3.
[6] Homília sobre o Salmo 31.
[7] Sermão 99, De Verb. Evang. Lucas 7.
[8] Homília sobre o arrependimento, tomo IV, coluna 901.
[9] Homília V, Sobre a natureza incompreensível de Deus. Vol. I, pág. 490.
[10] Homília sobre o Salmo 1.
[11] Homília sobre Lázaro, tomo I, pág. 757.

2 de agosto de 2015

Astronauta católico Rafael Rodrigues refutado de novo, desta vez sobre a tradição


Mal se passou um dia desde a minha terceira refutação seguida ao astronauta embusteiro (se você não viu os três artigos, clique aqui, aqui e aqui), e Alon Franco lhe deu mais uma bela surra sobre a questão da tradição oral, publicada em nosso blog:


Acho que já chegou a hora de declarar formalmente que, a partir de hoje, o astronauta católico está sendo promovido ao patamar de saco de pancadas oficial do protestantismo (e calma, vem mais por aí nos próximos dias, bem mais).

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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31 de julho de 2015

Refutando astronauta católico (III): Justino cria na imortalidade da alma e tormento eterno?



Introdução

Chegamos agora à terceira parte da nossa refutação ao astronauta católico, desta vez para refutar os devaneios e delírios do mesmo em torno de Justino Mártir (100-165). Se você ainda não leu as outras duas partes da refutação, clique aqui e aqui e leia. Antes de iniciarmos a contra-argumentação em si, é necessário explicarmos brevemente quem foi Justino. Para quem não sabe, Justino não nasceu cristão, nem de família cristã. Ele não foi doutrinado desde a infância por professores cristãos. Em vez disso, ele era um filósofo platônico (admirador e seguidor da filosofia grega de Platão), que, como todo mundo sabe, foi a mais forte propulsora da doutrina da imortalidade da alma no mundo antigo, pois a “alma imortal” era o motor por detrás de toda a filosofia de Platão.

Em outras palavras, Justino era um ferrenho defensor da doutrina da imortalidade da alma antes de se converter, e é essa a razão pela qual ainda vemos alguns vestígios desta doutrina em seu primeiro trabalho como cristão (a 1ª Apologia), quando ele ainda não tinha toda a maturidade e conhecimento de todas as doutrinas cristãs, mas ainda conservava alguns dos seus conceitos platônicos que tinha antes. Depois da 1ª Apologia, Justino mostrou uma evolução e compreensão muito maior da doutrina cristã, e dali em diante ele não apenas não ensinou imortalidade da alma em lugar nenhum, como também passou a combatê-la em todas as suas obras. A 2ª Apologia e o Diálogo com Trifão, em especial, estão cheios de citações sobre a dissolução da alma entre a morte e a ressurreição, sobre a vida eterna ser apenas após a ressurreição e sobre o aniquilacionismo final dos ímpios, e é com estas obras que trabalharemos aqui.


Justino cria no tormento eterno?

Assim como fez com Inácio, o astronauta católico copiou e colou uma série de trechos onde Justino usa a terminologia de “fogo eterno”, como se isso por si mesmo já fosse o bastante para sugerir que Justino cria em um “tormento eterno”. Não perderei nem tempo com essa baboseira, porque tal insânia já foi refutada em meu artigo anterior sobre Inácio (clique aqui e leia). Como vimos anteriormente, mortalistas também usam naturalmente a linguagem de “fogo eterno” sem absolutamente conotação nenhuma de “tormento eterno”, e a Bíblia está repleta de citações onde um fogo “eterno” ou “inextinguível” não existe para sempre, mas é somente uma figura de aniquilacionismo com efeitos eternos (irreversíveis). Em outras palavras, significa apenas que o fogo consome a pessoa de uma vez para sempre – uma morte eterna, sem volta.

Há ainda várias evidências nos escritos de Justino de que ele não interpretava o “fogo eterno” da maneira com a qual os imortalistas o interpretam. Em seu Diálogo com Trifão, por exemplo, ele escreveu:

“Mas Deus poderosamente as tirará de nós, quando ressuscitar a todos, tornando uns incorruptíveis, imortais, isentos de dor e colocando-os em seu reino eterno e indestrutível, e enviando outros para o suplício do fogo eterno”[1]

Note que Justine disse que os ímpios irão para o fogo eterno, entretanto:

(a) Isso só ocorrerá depois da ressurreição!

(b) Eles não serão imortais, pois “imortais” Justino diz que somente os justos serão!

Portanto, a visão de Justino do “fogo eterno” não era a visão imortalista, onde os ímpios já estão agora mesmo (antes da ressurreição) queimando no fogo, e onde eles ficarão ali para sempre sem morrer (sendo imortais). Ao contrário: Justino cria que os ímpios seriam lançados no fogo somente depois que ressuscitarem, e esse tormento no fogo não poderia ser eterno, pois tanto a incorruptibilidade quanto a isenção de dor e a imortalidade eram atributos exclusivos dos salvos. É claro que o astronauta católico não observa nada disso, porque na infantilidade e amadorismo dele basta a expressão “fogo eterno” para sair alardeando por aí que Justino era um “imortalista”. Puro amadorismo.

Em sua 2ª Apologia, Justino mostra o mesmo parecer de que os ímpios não estão atualmente no fogo eterno, mas ainda serão (no futuro) lançados nele. Por exemplo, ele diz que o fogo eterno está “preparado” para os ímpios:

“Todavia, logo que conheceu os ensinamentos de Cristo, não só se tornou casta, como procurava também persuadir seu marido à castidade, referindo-lhe os mesmos ensinamentos e anunciando-lhe o castigo do fogo eterno, preparado para os que não vivem castamente e conforme a reta razão”[2]

É óbvio: se o fogo eterno está “preparado” para o momento em que os ímpios serão lançados ali, é porque eles não “estão” ali agora. Qualquer principiante com meia dúzia de aulas de português sabe disso. A punição é algo que os ímpios “devem sofrer”, não algo que eles “estão sofrendo”:

“E não se oponham a que costumam dizer os que se têm por filósofos, que não são mais que apenas ruído e espantalhos o que afirmamos sobre a punição que os ímpios devem sofrer no fogo eterno”[3]

Há apenas um lugar em que Justino fala do “fogo eterno” como algo presente, e mesmo assim o sentido é tão claramente figurado que para ele até os demônios estão neste “fogo eterno”!

“No princípio, Deus criou livres tanto os anjos como o gênero humano e, por isso, receberam com justiça o castigo de seus pecados no fogo eterno”[4]

Veja que Justino diz “receberam”, no plural, referindo-se tanto aos homens maus quanto também aos anjos maus. Mas até o mais néscio dos cristãos sabe que os demônios não estão queimando agora em algum “fogo eterno”, mas estão soltos, “nos ares” (Ef.6:12), “bramando como um leão, procurando a quem possa tragar” (1Pe.5:8). A citação de Justino pode significar que eles já receberam o castigo divino do fogo eterno no sentido do fogo eterno já ter sido preparado por Deus para eles (ou seja, que Deus já decidiu e definiu a condenação deles). É assim que Justino alude um pouco adiante, ao falar novamente do destino do diabo:

“Eles [os demônios] receberam merecido tormento e castigo, aprisionados no fogo eterno. Se eles agora são vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo, isso é aviso do futuro castigo no fogo eterno que os espera, juntamente com aqueles que os servem. Todos os profetas anunciaram isso de antemão e isso também nos ensinou o nosso mestre Jesus”[5]

Perceba que Justino inicia o verso dizendo que os demônios “receberam” o “merecido tormento” e que já estão no “fogo eterno”, mas logo depois diz que isso é apenas um “aviso do futuro”, do “fogo eterno” que ainda os espera. Será que ele estava se contradizendo tão gritantemente dentro de tão poucas linhas? É claro que não. Na primeira parte, estar no “fogo eterno” sendo “castigado” para Justino era uma alegoria para o fato de que os demônios “são agora vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo”, e o castigo de fato, em sentido literal, ocorreria no futuro, quando os demônios e os homens serão lançados no “fogo eterno”. O astronauta católico, como era de se esperar, também não observou nada disso, porque o desespero dele era somente em correr para catar o máximo de citações possíveis onde o termo “fogo eterno” aparece em Justino, sem nem sequer ler os textos que cita. Amadorismo total.

O destino futuro dos ímpios, para Justino, era claramente a cessação da existência, a destruição completa. Ele primeiro diz que os demônios serão destruídos:

“Sim, com efeito, como já dissemos, o Verbo se fez homem por desígnio de Deus Pai e nasceu para a salvação dos que crêem e destruição dos demônios[6]

Essa destruição é também equiparada à morte:

“Por meio de quem [Cristo] Deus destrói tanto a serpente quanto os anjos e homens que estão com ela, mas liberta da morte aqueles que se arrependem de suas iniquidades e creem nEle”[7]

Depois, Justino é ainda mais claro e enfático ao dizer que Deus porá um “fim” nos ímpios, e para deixar claro que este “fim” é a destruição total e não o tormento eterno, ele complementa dizendo que é “do mesmo modo como não deixou ninguém vivo antes do dilúvio”:

“Assim, Deus também adia pôr um fim à confusão e destruição do universo, por causa da semente dos cristãos, recém-espalhada pelo mundo, que ele sabe ser a causa da conservação da natureza. De fato, se assim não fosse, vós não teríeis poder para fazer nada daquilo que faz eis conosco, nem seríeis manejados pelos demônios, como instrumentos de sua ação; mas descendo o fogo de julgamento, já teria separado tudo sem exceção, do mesmo modo como não deixou vivo ninguém antes do dilúvio, a não ser aquele que nós chamamos Noé, juntamente com os seus, e que vós chamais Deucalião, do qual nasceu de novo numerosa multidão de homens, uns maus, outros bons”[8]

A lógica de Justino era precisa: Deus vai destruir os ímpios dando um fim à existência deles, e só não fez isso ainda por misericórdia dos cristãos. Pedro disse que “Deus não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe.3:9). Em outras palavras, o momento da destruição final dos ímpios só não chegou ainda porque Deus quer estender o tempo de oportunidade de arrependimento para cada cristão, dando oportunidade para que o máximo número de pessoas se salve. Então chegará a “destruição do universo” que Justino afirma em conformidade com Hebreus 1:10-12, quando Deus fará “novos céus e nova terra” (Ap.21:1), recomeçando tudo de novo, somente com os salvos.

Que Justino não cria que este “fim” e “destruição” fossem meros símbolos para um “tormento eterno” do qual ele jamais disse, isso fica claro pela comparação que ele faz com o dilúvio: no dilúvio, apenas Noé e sua família se salvaram, e todos os ímpios deixaram de existir. Em outras palavras, quando Deus criar “novas todas as coisas” (Ap.21:5), o destino dos ímpios não será uma existência eterna, mas uma destruição total e cessação de existência, assim como os ímpios que foram completamente destruídos pelo dilúvio e deixaram de viver.  

No Diálogo com Trifão, o velho cristão afirma:

“As almas que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas”[9]

Perceba que é só as almas dos justos que “não morrem”. Se apenas as almas dos justos é que não morrem, então é óbvio que as almas dos ímpios morrem. É por isso que o texto prossegue dizendo que as outras almas [as dos ímpios] são castigadas pelo tempo que Deus quiser que elas existam e sejam castigadas (uma declaração explícita do castigo temporário e proporcional, que os mortalistas sempre afirmaram), ao invés de dizer que elas existirão “para sempre”. Le Roy Edwin Froom comenta que “Justino afirma, por antítese, que os ímpios finalmente deixarão de existir após o castigo, quando Deus determinar”[10].

E para acabar de uma vez com todo e qualquer resquício de probabilidade de Justino ser um imortalista, ele diz com todas as letras que os demônios e os anjos devem deixar de existir:

“Deus atrasou a confusão e destruição de todo o mundo, pelo qual os anjos maus e os demônios e os homens devem deixar de existir[11]

Se existe alguma forma mais clara e evidente de pregar o aniquilacionismo do que a expressão “deixar de existir”, sinceramente, eu não sei qual é. Vou deixar que o astronauta católico me indique. Se nem o termo “deixar de existir” implica em “deixar de existir” (mas sim em um “tormento eterno”), então acho que eu também sou imortalista (risos).

As evidências de que Justino era aniquilacionista são tão esmagadoras que hoje em dia qualquer estudioso patrístico honesto admite isso. Teólogos das mais diferentes religiões têm reconhecido que Justino foi um típico mortalista. Le Roy Edwin Froom, em seu excepcional trabalho intitulado “The Conditionalist faith of Our fathers”, que para quem não sabe são dois volumes gigantes que totalizam 2.500 páginas apenas para provar a mortalidade da alma nos escritos dos primeiros Pais (seria bom que o astronauta os lesse para deixar de ser tão ignorante), cita vários teólogos imortalistas que reconhecem que Justino era aniquilacionista. Entre eles:

• Kitto: “Justino cria que as punições iriam cessar em algum momento”[12].

• Richard Rothe: “Justino Mártir pensava que Deus aniquilaria o perdido”[13].

• K. R. Hagenbach: “Justino afirmou que a alma era mortal, parecida com o corpo, e que a imortalidade era como uma recompensa que teria que ser adquirida”[14].

• Hosea Ballou: “Justino defendia que os ímpios serão, eventualmente, aniquilados”[15].

• Beecher: “Justino mantinha e ensinava o aniquilacionismo final dos ímpios, como a maioria dos eminentes estudiosos admite”[16].

• John C. L. Gieseler: “Justino dizia que as almas dos ímpios seriam, em algum momento, totalmente aniquiladas”[17].

• Alger: “Justino não acreditava em tormento sem fim, mas no aniquilacionismo final dos ímpios”[18].

• Constable: “Justino cria na destruição total da existência no inferno”[19].

Mas embora todos os estudiosos de respeito sejam suficientemente honestos para admitir o óbvio (que Justino era aniquilacionista), o astronauta católico vai continuar ensinando aos seus leitores burros e desinformados que Justino era “um imortalista”, primeiro porque ele não é estudioso de nada, e segundo porque não tem honestidade suficiente para admitir o óbvio, quando esse óbvio é contrário a uma doutrina pagã da igreja pagã a que ele serve.


Justino cria no estado intermediário?

Já vimos que Justino não cria no fantasioso e monstruoso “tormento eterno” da Igreja Católica, mas será que ele cria no tal do “estado intermediário”? É lógico que não. Justino cria que a vida eterna seria herdada somente após a ressurreição, e não antes dela:

“Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés, sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa ressurreição, nos dará a posse eterna[20]

Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e incorruptível bem:

“E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem[21]

Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria que os que morreram já estão no Céu. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da ressurreição dos mortos, e não antes:

“E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a vida eterna[22]

O Dr. Dustin Smith concluiu que “Justino diz muitas coisas para mostrar que ele não acredita que a alma seja imortal. Ele cita também trechos da Bíblia que mostram que as almas podem morrer e que a verdadeira esperança dum crente está no futuro cumprimento do Reino de Deus”[23].

Nada disso o astronauta católico refutou em seu artigo medíocre. Em vez disso, ele só esboçou uma “refutação” à minha abordagem sobre o diálogo entre Justino e o homem velho. Para o nosso amigo astronauta católico, Justino não contradizia a imortalidade da alma “cristã”, mas apenas a imortalidade da alma “platônica” (como se houvesse muita diferença). Segundo ele, Justino era um imortalista convencional que apenas não cria na pré-existência das almas (ensinada por Platão), ou seja, Justino cria que Deus criou a alma naturalmente imortal, e não que a alma é imortal por si mesma (sem Deus).

Contudo, qualquer principiante que leia o Diálogo com Trifão percebe que Justino não estava contrapondo apenas a imortalidade da alma platônica, pois para ele essa era a única forma lógica da alma ser “imortal” (na concepção de Justino, se alma fosse gerada, então ela não podia ser imortal). Em outras palavras, Justino segue a linha filosófica de que se a alma não é gerada então ela é imortal, e se a alma é gerada então ela não é imortal (não existia “meio termo” para ele!). Essa ideia de alma “gerada e ao mesmo tempo imortal” simplesmente não existia no mundo antigo, nem tampouco nos primeiros Pais da Igreja.

O astronauta católico, com sua desonestidade típica, cita como “prova” que Justino era imortalista a primeira parte da sua conversa com o velho cristão, onde Justino responde:

Velho cristão – Qual é a nossa semelhança com Deus? Será que a alma é divina e imortal, uma partícula daquela soberana inteligência, e como aquela vê a Deus, também é possível para a nossa compreender a divindade e gozar a felicidade que dela provém?

Justino – Sem dúvida nenhuma.

O astronauta tira então do contexto essa primeira parte, para enganar seus leitores néscios e fazê-los pensar que Justino enquanto cristão era um imortalista. O que o malandro esqueceu de mencionar por razões óbvias é que este é um relato de Justino sobre a sua conversão, ou seja, ele ainda era pagão quando começou a conversar com o homem velho. Foi o homem velho quem o convenceu por meio dos argumentos de que Justino estava errado, e no decorrer da conversa isso vai ficando cada vez mais claro, pois o velho vai convencendo Justino de que a alma não é imortal coisa nenhuma. Aí o astronauta espertalhão tira do contexto essa parte inicial em que Justino como pagão respondia que a alma era imortal e tenta aplicar isso para quando Justino já era cristão! A quem esse malandro pensa que engana?

Vamos continuar o relato da conversa de Justino com o velho cristão que o converteu, para vermos se Justino manteve essa posição ou não:

Velho cristão – E todas as almas dos seres vivos têm a mesma capacidade? Ou a alma dos homens é diferente da alma de um cavalo ou de um jumento?

Justino – Não há nenhuma diferença. Elas são as mesmas em todos.

Velho cristão – Logo, os cavalos e os asnos também vêem a Deus ou já o terão visto!

Justino – Não. Nem mesmo muitos homens o vêem. Para isso, é preciso que se viva com retidão, depois de se purificar com a justiça e todas as outras virtudes.

Velho cristão – Então o homem não vê a Deus por causa de sua semelhança com ele, nem porque tem inteligência, mas porque é sensato e justo.

Justino – Exatamente. E porque tem capacidade para entender a Deus.

Velho cristão – Muito bem. Será que as cabras e ovelhas cometem injustiça contra alguém?

Justino – De modo nenhum.

Velho cristão – Então, segundo o teu raciocínio, também esses animais verão a Deus.

Justino – Não. Porque o corpo deles, segundo a sua natureza, os impede.

Velho cristão – Se esses animais recebessem voz, talvez com muito maior razão prorromperiam em injúrias contra o nosso corpo. Todavia, deixemos esse assunto e aceitemos o que dizes. Dize-me apenas uma coisa: a alma vê a Deus enquanto está no corpo ou quando está separada dele?

Justino – É possível para ela, mesmo estando na forma humana, chegar a isso por meio da inteligência. Contudo, desligada do corpo e tornada ela mesma, é aí então que ela alcança tudo aquilo que almejou durante todo o tempo.

Até aqui o velho começa a pressionar Justino. Veja que depois de Justino dizer que a alma era imortal (conforme ele cria até então no platonismo), ele começa a pressioná-lo com perguntas difíceis, como as que vimos (se os animais também tem alma, etc). Justino vai levando o debate até este ponto (ele ainda não abriu mão de suas premissas platônicas), mas o velho o continua encurralando, colocando ele contra a parede:

Velho cristão – E ela se lembra disso quando volta outra vez ao homem?

Justino – Penso que não.

Veja que aqui Justino já começa a fraquejar. Ele já não responde com a mesma convicção do início, mas apenas “acha” que não. Mas o velho continua:

Velho cristão – Então, que proveito ela tira de vê-lo, ou que vantagem tem aquele que viu sobre aquele que não viu, uma vez que disso não permanece nenhuma lembrança?

Justino – Não se o que te responder.

Agora o velho consegue colocar Justino em xeque. Justino já não sabe mais o que responder. Tudo o que ele aprendeu do platonismo (imortalidade da alma) está sendo destruído. E o velho continua:

Velho cristão – E que castigo sofrem aquelas julgadas indignas dessa visão?

Justino – Vivem acorrentadas no corpo de feras, e esse é o castigo delas.

Velho cristão – E elas sabem que vivem nesses corpos por essa causa, como castigo de algum pecado?

Justino – Penso que não.

Velho cristão – Portanto, nem essas tiram proveito algum de seu castigo. E eu diria ainda que nem castigo sofrem, uma vez que não têm consciência do castigo.

Justino – Sim, de fato.

Velho cristão – Portanto, nem essas tiram proveito algum de seu castigo. E eu diria ainda que nem castigo sofrem, uma vez que não têm consciência do castigo.

Justino – Sim, de fato.

Velho cristão – Portanto, nem as almas veem a Deus, nem transmigram para outros corpos, pois dessa forma elas saberiam que esse é o seu castigo e temeriam cometer o mais leve pecado no corpo sucessivo. Contudo, também concordo que elas sejam capazes de entender que Deus existe e que a justiça e a piedade são um bem.

Justino – Falaste corretamente.

Note que nos trechos acima o velho ataca e derruba a outra tese platônica de Justino, a transmigração das almas. Ele vai colocando Justino contra a parede até ele admitir que estava errado, e dissesse: “falaste corretamente”. Então o velho dispara pesado:

Velho cristão – Portanto, esses filósofos nada sabem sobre essas questões, pois não são capazes de dizer sequer o que é a alma.

Justino – Parece que não sabem.

Aqui Justino já começa a abrir mão do seu platonismo. Depois de ser encurralado pelo velho e de ter que admitir que ele estava certo, o velho conclui que esses filósofos platônicos não sabem do que estão falando, e Justino concorda. Pela primeira vez, Justino está deixando de lado a sua filosofia platônica e dando ouvidos para o que aquele velho cristão estava dizendo. E o velho prossegue:

Velho cristão – Tampouco, se pode dizer que ela seja imortal, porque, se é imortal, é claro que deva ser incriada.

Justino – De fato alguns, chamados platônicos, a consideram incriada e imortal.

Velho cristão – Tu também consideras o mundo incriado?

Justino – Alguns dizem isso, mas eu não tenho a mesma opinião.

Esta é a parte em que o velho ataca a doutrina da imortalidade da alma em cheio. Você lembra que quando o diálogo começou, era exatamente este o ponto em que o velho queria chegar. Ele perguntou se Justino cria na imortalidade da alma, e Justino, como filósofo platônico, obviamente respondeu que “sim, sem dúvida nenhuma” (como qualquer filósofo platônico faria). Mas depois que o velho destruiu a filosofia platônica de Justino, ele voltou a fazer a mesma pergunta, e Justino admitiu que embora os platônicos dissessem que a alma era imortal, ele agora já não tinha a mesma opinião!

Velho cristão – Fazes muito bem. Com efeito, por qual motivo um corpo tão sólido, resistente, composto e variável e que a cada dia morre e nasce, procederia de algum princípio? Todavia, se o mundo é criado, forçosamente as almas também o serão e haverá um momento em que elas não existirão. De fato, foram feitas por causa dos homens e dos outros seres vivos, ainda que digas que elas foram criadas completamente separadas e não junto com seus próprios corpos.

Justino – Parece que é exatamente assim.

Velho cristão – Então são imortais?

Justino – Não, uma vez que o mundo se manifesta como criado.

Xeque-mate! O velho cristão o colocou numa cilada: ou o mundo é incriado e as almas são imortais, ou o mundo é criado e as almas são mortais. Justino concorda com a premissa e é obrigado a aceitar a conclusão lógica que se segue: a alma é mortal!

Então vem a parte que o astronauta católico tira do contexto, que é quando o velho diz:

Velho cristão – Contudo, eu não afirmo que todas as almas morram. Isso seria uma verdadeira sorte para os maus. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento. Desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas.

O velho não estava se contradizendo com o que ele próprio havia dito sobre a alma ser mortal, e nem com aquilo que ele disse um pouco adiante, quando afirmou que a alma deixa de existir quando ocorre a morte corporal. Se ela deixa de existir, então é óbvio que ele não estava falando do estado intermediário aqui, mas do estado final (i.e, depois da ressurreição). A palavra aqui traduzida por “julgamento” no grego é krima, que é a mesma palavra grega usada para “condenação”[24]. Em outras palavras, o velho não estava dizendo que as almas dos bons ficam em um estado intermediário “do bem” e as almas dos maus ficam em um estado intermediário “do mau”, mas sim que depois da ressurreição (que é quando a alma volta à existência) as almas dos justos estarão em um lugar bom e não morrerão, enquanto as almas dos ímpios estarão em um lugar ruim (castigo no geena) e então morrerão (que é a condenação em questão). Isso é exatamente o que os mortalistas afirmam desde sempre.

O velho não estava refutando nada do mortalismo bíblico, mas sim da filosofia estóica, que cria que a morte é a cessação total de existência para sempre (ou seja, que não existe vida após a morte). É claro que os cristãos não creem nisso. Nós cremos que existe vida após a morte (através da ressurreição) e também cremos que haverá castigo para os maus no geena (se não houvesse castigo, seria “uma verdadeira sorte para os maus”). Dito em termos simples, o velho já havia detonado com a imortalidade da alma, mas agora ele faz um adendo, para mostrar a Justino que ele não ia para o outro extremo dos estóicos (que criam que “morreu acabou”), mas que ele cria em vida eterna para os bons e castigo temporário para os maus (antes da morte deles).

É assim também que Paul Vicent Spade, o tradutor para o inglês do texto em grego do Diálogo com Trifão, entende esta passagem. Ele comentou nas notas de rodapé do texto:

“A teoria, então, é que apesar de todas as almas serem naturalmente propensas a serem destruídas, as boas almas são preservadas por Deus, enquanto as más almas são punidas por um tempo, e depois são destruídas”[25]

Portanto, diferente do que o astronauta católico alega, o velho não cria em estado intermediário porcaria nenhuma. Mas continuemos com o Diálogo:

Justino – Por acaso, estás dizendo o mesmo que Platão sugere no Timeu a respeito do mundo, isto é, que em si mesmo, enquanto foi criado, ele também é corruptível, mas não se dissolverá, nem terá parte na morte por vontade de Deus? Pensas o mesmo também a respeito da alma e, em geral, a respeito de todo o resto?

Velho cristão – Com efeito, além de Deus, tudo o que existe ou há de existir possui natureza corruptível e sujeita a desaparecer e deixar de existir. Apenas Deus é incriado e incorruptível e, por isso, ele é Deus; mas, além dele, todo o resto é criado e corruptível. Por esse motivo, as almas morrem e são castigadas. De fato, se fossem incriadas, elas não pecariam, nem estariam cheias de insensatez, nem seriam covardes ou temerárias, nem passariam voluntariamente para os corpos de porcos, serpentes ou cães, nem seria lícito obrigá-las a isso, caso fossem incriadas. De fato, o incriado é semelhante ao incriado e não apenas semelhante, mas igual e idêntico, sem que seja possível um ultrapassar o outro em poder ou em honra. Daí se conclui que não é possível existir dois seres incriados. De fato, se neles houvesse alguma diferença, jamais poderíamos encontrar a causa dela, por mais que a procurássemos; pelo contrário, remontando com o pensamento até o infinito, teríamos que parar, vencidos, num só incriado, e dizer que ele é a causa de todo o mais.

O astronauta católico tira do contexto apenas a parte que diz que “está sujeita a desaparecer e deixar de existir”, mas o espertalhão embusteiro ignora propositalmente a continuação que diz que por esse motivo, as almas morrem e são castigadas”. Em outras palavras, para o velho cristão as almas não apenas podem morrer, mas elas morrem efetivamente. O fato de a alma estar “sujeita” à morte era somente uma premissa necessária para o fato de ela morrer efetivamente, que era a crença do velho cristão.

E então vem a parte em que o astronauta embusteiro comete a maior pérola de todo o seu lixo de artigo:

Justino – Por acaso, tudo isso passou distraído a Platão e Pitágoras, homens sábios, que se tornaram para nós como a muralha e fortaleza da filosofia?

Velho cristão – Não me importo com Platão ou Pitágoras ou qualquer outra pessoa que tenha sustentado essas opiniões. De fato, a verdade é esta e podes compreendê-la com o seguinte raciocínio: a alma ou é vida ou tem vida. Se ela é vida, terá que fazer viver outra coisa e não a si mesma, da mesma forma que o movimento move outra coisa mais do que a si mesmo. Ninguém poderá contradizer o fato de que a alma viva. Portanto, se ela vive, ela não vive por ser vida, mas porque participa da vida. Uma coisa é aquilo que participa e outra aquilo do qual participa. Se a alma participa da vida é porque Deus quer que ela viva. Portanto, da mesma forma, um dia ela deixará de participar, quando Deus quiser que ela não viva. De fato, o viver não é próprio dela como o é de Deus. Como o homem não subsiste sempre e a alma não está sempre unida ao corpo, mas quando chega o momento de se desfazer essa harmonia, a alma abandona o corpo e o homem deixa de existir. De modo semelhante, chegando o momento em que a alma tenha que deixar de existir, o espírito vivificante se afasta dela e a alma deixa de existir, voltando novamente para o lugar de onde tinha sido tomada.

Aqui o velho diz explicitamente, com todas as letras, sem mais nem menos, que a alma deixa de existir. Como foi que o astronauta bobão respondeu a isso? Morram de rir com este print:

(Clique na imagem para ampliar)

Sim, na cabeça do embusteiro desonesto, a frase é de Trifão!

Depois dessa, eu fecharia aquele site de astronautas e pediria perdão ao público por tanta desonestidade e enganação. A mentira é tão descarada que basta ir ao “New Advent” (site católico que reproduz os escritos dos Pais) para ver de quem é a frase em questão:

(Clique na imagem para ampliar)

Sim, a frase era do Velho Cristão, e não de Trifão, que nem sequer estava conversando com Justino naquele momento! Justino só volta a falar com Trifão no capítulo 8!

A safadeza do cidadão é tão gigante que até mesmo a tradução ao português feita pela Editora Paulus (católica), que ele usa, diz que foi o velho que falou (veja aqui). Então não é por ignorância, é por desonestidade mesmo. Ele pensa que seus leitores católicos tridentinos são tão burros que não vão se dar ao trabalho de conferir na obra (e são mesmo). E para piorar ainda mais as coisas, Trifão não era mortalista (como ele disse), ele era um judeu do grupo dos fariseus, que naquela época criam na imortalidade da alma (veja Josefo, História dos Hebreus, Livro X, c. 2). Não tem escapatória: quem disse que a alma morre foi o velho cristão, que estava convertendo e doutrinando Justino.

Será que esse astronauta embusteiro vai finalmente admitir que só copia bobagens e mente, ou será que vai manter aquele artigo ridículo e mentiroso no site dele? É o que veremos...

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Diálogo Com Trifão, c. 117.
[2] 2ª Apologia 2:2.
[3] 2ª Apologia 9:1.
[4] 2ª Apologia 6:4.
[5] 2ª Apologia 7:4-5.
[6] 2ª Apologia 5:4.
[7] Diálogo com Trifão, c. 100.
[8] 2ª Apologia 6:1-2.
[9] Diálogo com Trifão, 5:2.
[10] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, vol. 1, p. 828.
[11] Other Fragments From Lost Writings of Justin, No. 11, in ANF, vol. 1, p. 301;
[12] Kitto, Cyclopedia of Biblical Literature, art., “Soul”.
[13] Richard Rothe, Dogmatik, vol. 3, p. 158.
[14] K. R. Hagenbach, Compendium of the History o f Doctrines, vol. 1, pp. 162-164, art. “Immortality”.
[15] Hosea Ballou, 2d, Ancient History of Universalism, p. 58.
[16] Beecher, op. cit., pp. 211, 212. C. F. Hudson (Debt and Grace, p. 315) lista Grotius, Huet, Rössler, Du Pin, Doederlein, Münscher, Munter, Daniel, Hase, Starck, Kern, Otto, Ritter, J. Pye Smith, Bloomfield e Gieseler confirmando o mesmo.
[17] John C. L. Gieseler, A Textbook of Church History, sec. 45.
[18] Alger, The Destiny of the Soul, p. 195.
[19] Constable, Duration and Nature of Future Punishment, p . 178.
[20] Diálogo com Trifão, c. 113.
[21] Diálogo com Trifão, c. 139.
[22] Tratado sobre a Ressurreição, 1.
[23] Dustin Smith, Justin Martyr, p. 9.
[24] De acordo com a Concordância de Strong, 2917.
[25] An Early Christian Philosopher: Justin Martyr’s Dialogue with Trypho, Chapters One to Nine, (“Philosophia patrum,” vol. 1); Leiden: E. J. Brill, 1971.