22 de maio de 2015

"Ouça a tradição da Igreja". Mas qual?


A carta na manga de todo e qualquer papista desesperado em um debate chama-se: tradição. Mais especificamente, uma tradição oral que supostamente serve para fundamentar doutrinas que não se encontram em parte nenhuma da Bíblia. Funciona da seguinte maneira: o católico está debatendo com um evangélico citando os versos isolados do Paulo Porcão, o evangélico vai lá e refuta a interpretação porca e em seguida o papista chora e começa a apelar para a “autoridade da tradição”. É como quando uma criança não aceita perder um joguinho e vai pedir ajuda pra mamãe. E essa tradição oral, por sua vez, funciona como uma cartola de um mágico: você pode tirar dali qualquer coisa que quiser, à vontade. Qualquer coisa que sirva para refutar um protestante pode ser colocado na conta desta fantasmagórica tradição oral.

Em meu livro "Em Defesa da Sola Scriptura", eu refuto o conceito romanista de “tradição” usando os escritos dos Pais da Igreja, que nunca falaram sobre uma suposta tradição oral que sirva para fundamentar doutrinas que não se encontram na Bíblia. Sim, os Pais falam sobre a “tradição”, mas após averiguar milhares de obras patrísticas notei algo interessante: a tradição era sempre relacionada a costumes, dados históricos ou interpretações de coisas que estão na Bíblia, e nunca de doutrinas que não se encontram nela. Se os Pais cressem neste tipo de tradição, estariam entrando em contradição com centenas e centenas de citações patrísticas em favor da Sola Scriptura que o leitor pode conferir clicando aqui.

O conceito patrístico de “tradição” não difere em absolutamente nada do conceito reformado da mesma, e não tem absolutamente nada a ver com a “tradição” papista. Usar a tradição do tempo bíblico e patrístico para fundamentar a tradição romanista atual é puro anacronismo. Mas neste artigo não irei repetir as centenas senão milhares de citações patrísticas que provam isso, mas sim derrubar o conceito tradicional romano de que a suposta tradição oral doutrinária é “incorruptível” e subsiste apenas e exclusivamente na Igreja Romana atual. Diz o terceiro catecismo católico:

“A tradição é a Palavra de Deus não escrita, mas comunicada de viva-voz por Jesus Cristo e pelos apóstolos, e transmitida inalterada de séculos em séculos até nós[1]

Embora eles digam que essa fabulosa tradição oral foi transmitida de forma inalterada desde o século I até hoje, as evidências apontam que já nos primeiros séculos ninguém sabia qual “tradição” era a certa. E isso desde muito cedo. Ainda no século II, o bispo de Roma, chamado Vitor, defendia que a Páscoa deveria ser comemorada no primeiro domingo após a páscoa judaica, e Polícrates, bispo de Éfeso e representante das igrejas da Ásia, defendia que a Páscoa deveria ser comemorada em 14 de Nisã. O detalhe curioso da história é que ambos se baseavam na “tradição” para fundamentar o costume. Vitor se apoiava na tradição herdada por seus antecessores (os bispos romanos que o antecederam), enquanto Polícrates se apoiava na tradição que teria sido passada pelo apóstolo João e transmitida de bispo por bispo até chegar a ele.

Temos aqui um caso óbvio de corruptibilidade da tradição. Ou a tradição de Vitor estava errada, ou era a tradição de Polícrates que estava errada, ou as duas. De qualquer forma, temos aqui um caso patente de tradição alterável com o passar dos tempos. Isso aconteceu ainda na primeira metade do século II, menos de cem anos depois da morte dos apóstolos. Em outras palavras, o que os papistas querem nos convencer é que aquela mesma tradição que não era boa o suficiente para ser mantida incorruptível por menos de um século, mesmo assim é boa o bastante para ser transmitida incorruptível por vinte séculos. É brincadeira?

O engraçado da história toda é que nem Vitor conseguiu provar que a tradição dele era a certa, nem Polícrates conseguiu provar que a tradição dele era a certa. Os dois se apoiavam na autoridade da tradição, mas as tradições eram conflitantes. Então eles saíram no tapa. Vitor decidiu usar toda a sua enorme autoridade de bispo romano para excomungar todos os bispos que não concordavam com a tradição dele. Resultado: fracassou miseravelmente. Ele não apenas não conseguiu excomungar nem um pernilongo, como também foi severamente repreendido por todos os outros bispos, entre eles Irineu.

Eusébio de Cesareia (265-339) atesta que “restam as expressões que empregaram para pressionar com grande severidade a Vitor. Entre eles também estava Irineu”[2], e o erudito em patrística, Hans van Campenhausen, ressaltou que “quando Vítor de Roma aceitou ser persuadido a romper relações eclesiásticas com as igrejas da Ásia Menor, por causa das diferenças duradouras sobre a festa da Páscoa, Irineu lhe escreveu uma vigorosa carta na qual condenava esta ação ditatorial de uma maneira conveniente[3]. Eusébio, em sua famosa “História Eclesiástica”, alegou também que:

“Ante isto, Victor, que presidia a igreja de Roma, tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou uma condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem exceção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou a todos os bispos, que por sua parte exorta¬vam-no a ter em conta a paz e a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se inclusive as palavras destes, que repreendem Victor com bastante energia[4]

Em outras palavras, o grande e ilustre bispo romano não conseguiu nem provar que sua tradição era a verdadeira, nem tampouco teve autoridade suficiente para excomungar os bispos que discordavam dele. Ele foi totalmente silenciado, e até repreendido pelos demais bispos! Ironicamente, é a tradição de Vitor que a Igreja Romana alega de pés juntos que é “incorruptível” e que não foi nem minimamente alterada até chegar a nós. Haja a paciência.

Mas este não foi o único caso em que uma tradição se perdeu ou se corrompeu. Um exemplo simples a ser citado é a autoria da carta aos Hebreus, que é um mistério para os teólogos até hoje. Na época de Eusébio, a igreja de Roma jurava de pés juntos que era de Paulo, enquanto as outras igrejas não tinham a mesma “tradição” e não alegavam nada[5]. Sim, a magnífica tradição oral não servia nem para descobrir quem escreveu a carta, e mesmo assim eles acham que servia e serve até hoje para fundamentar doutrinas, algo muito mais abrangente e complexo. O pior é que a Igreja Romana não afirma mais hoje, de forma categórica como afirmava antigamente, que a carta aos Hebreus é de Paulo. Eles abandonaram sua própria tradição antiga, e hoje tratam a autoria da epístola como apenas conjectura.

Os vários exemplos de graves divergências doutrinárias entre os Pais da Igreja também provam que não existe uma tradição oral doutrinária incorruptível correndo solta nos primeiros séculos de Igreja. No século IV, havia três hipóteses para os irmãos de Jesus. Havia a tese tradicional de que eles eram irmãos de sangue (Tertuliano e Helvídio), havia a tese de que eles eram filhos de um casamento anterior de José (extraído principalmente do proto-evangelho de Tiago e crido por Hipólito e Eusébio), e havia também a tese de que eles eram “primos” (inventada primeiramente por Jerônimo).

Com tantas hipóteses, seria de se esperar que alguém se agarrasse à autoridade infalível e toda-poderosa da tradição oral para resolver este dilema de forma cabal e definitiva. Mas não houve. Jerônimo, ao escrever um tratado contra Helvídio onde defende com unhas e dentes sua tese particular de que esses irmãos eram primos, em momento nenhum sequer cita a palavra “tradição” em seu tratado. Ele prefere fazer malabarismos pseudo-exegéticos do que apelar à tradição, que segundo os católicos já existia naquela época e provava irrefutavelmente que tais irmãos de Jesus eram seus primos. Se esta tradição oral realmente existisse, Jerônimo teria sido o primeiro a usá-la contra Helvídio e todos os seus oponentes, ao invés de tentar usar somente a Bíblia para fundamentar sua posição. A tradição oral seria o “xeque-mate” em Helvídio. Mas em todo o tratado ele mostra desconhecer completamente a existência de uma tradição que lhe fosse favorável.

Pior ainda é ele esquecer essa tradição em uma obra onde diz:

“Tiago, que é chamado de ‘irmão do Senhor’, de sobrenome ‘o Justo’, o filho de José com outra mulher, como alguns dizem, mas, como me parece, filho de Maria irmã da mãe de nosso Senhor, que João faz menção em seu livro, após a paixão de nosso Senhor. Ele foi ordenado pelos apóstolos bispo de Jerusalém...”[6]

Interessante. Jerônimo faz menção à crença popular na época de que Tiago não era primo de Jesus, mas sim meio-irmão (por parte de pai), então diz que “me parece” que esta crença estava errada, pois ele defendia a tese de que Tiago fosse primo de Jesus. Onde vemos Jerônimo se apoiando na “tradição oral” para reforçar sua crença e provar que ela era a verdadeira e as outras teses erradas? Em lugar nenhum. Jerônimo se apoiava somente no seu próprio parecer, naquilo que “lhe parecia”. Não existia nenhuma tradição oral correndo solta na época (século IV) e dizendo que este irmão de Jesus era primo. Mesmo assim, os romanistas do século XXI juram de pés juntos que a crença de que os irmãos de Jesus eram primos é sim proveniente de uma tradição oral incorruptível que surgiu no século I e foi mantida “inalterável através dos séculos”, ainda que totalmente desconhecida por Jerônimo no século IV. Patético.

Havia ainda outras dezenas de discussões doutrinárias dos Pais da Igreja que sequer existiriam caso houvesse uma tradição oral infalível que explicasse tin tin por tin tin qual é a crença verdadeira em cada caso. Em meu livro eu cito uma a uma, e passo todas as citações. Como aqui o espaço é curto, preferi montar uma tabela onde exponho estas contradições, e quem advogava por qual lado:

CRENÇA
QUEM APOIAVA
QUEM DISCORDAVA
Paulo foi dissimulado em Gálatas 2:11-14
Jerônimo
Agostinho
Canonicidade dos livros apócrifos
Agostinho, Concílio de Cartago, Concílio de Hipona
Jerônimo, Milito de Sardes, Teófilo, Orígenes, Júlio Africano, Eusébio, Atanásio, Hilário, Apolinário, Epifânio, Basílio, Cirilo de Jerusalém, Gregório Nazianzeno, Rufino, Gregório Magno, João Damasceno
Literalidade do milênio
Papias, Irineu, Tertuliano, Justino, Lactâncio
Eusébio, Agostinho
Imaculada conceição de Maria
Hipólito, Agostinho
Orígenes, Tertuliano, Crisóstomo, Gregório Magno
Imortalidade incondicional da alma
Agostinho, Irineu, Tertuliano, Cipriano
Inácio, Teófilo, Taciano, Policarpo, Arnóbio
Universalismo
Orígenes, Gregório de Nissa
Todos os outros
Aniquilacionismo
A maioria dos cristãos até o século IV (segundo Agostinho e Basílio)
A maioria dos cristãos depois disso
Culto às imagens
João Damasceno, II Concílio de Niceia (em diante)
Eusébio, Irineu, Tertuliano, Epifânio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Cipriano, Concílio de Elvira
Dia da celebração da Páscoa em 14 de Nisã
Polícrates, Irineu, Policarpo, bispos de Ásia
Vitor, Aniceto, bispos de Roma
Rebatismo dos hereges
Agostinho
Cipriano
Batismo infantil
Agostinho, Hipólito
Tertuliano, Didaquê
Divórcio em casos de adultério
Tertuliano, Lactâncio, Teodoreto, Cirilo de Alexandria
Jerônimo, Clemente de Alexandria, Orígenes, Agostinho, Tertuliano
Uso da força
Agostinho
Lactâncio
Juramentos
Agostinho
João Crisóstomo
Pré-existência das almas
Orígenes
Outros pais em geral
Traducianismo espiritualista
Agostinho
Outros pais em geral
Traducianismo materialista
Tertuliano
Outros pais em geral
Determinismo
Agostinho
Clemente de Alexandria
Celibato obrigatório
Concílio de Niceia
Eusébio, Clemente de Alexandria
Eleição incondicional
Agostinho
Justino, Hilário, Teodoreto

Estes são só alguns exemplos. Existem muitos, muitos, muitos outros, por toda parte. Para descobrir discordâncias entre os Pais da Igreja não é preciso fazer mais do que abrir um livro de qualquer um deles. Mesmo sendo figuras tão importantes nos primeiros séculos, e reconhecidamente dentro da Igreja cristã, eles mantinham várias divergências em praticamente todos os assuntos em que os evangélicos também discutem entre si, e em muitos outros. Se o argumento católico-romano de que é a crença na Sola Scriptura que leva à diversidade de opiniões e doutrinas divergentes, então obviamente os Pais da Igreja devem ser reconhecidos como os maiores Sola Scripturistas que este mundo já conheceu.

Se realmente houvesse um magistério em Roma interpretando a Bíblia infalivelmente, é claro que não existira qualquer uma das vinte discussões mostradas aqui, dentre muitas outras que existiram na Igreja da época. Ninguém iria discutir com ninguém, e qualquer divergência seria facilmente solucionada levando a questão para o infalível magistério romano decidir o ponto de fé.

Contudo, nunca vemos um ponto doutrinário sendo levado a um magistério romano decidir a questão. Todos eles mantiveram suas opiniões até o fim da vida, mesmo sabendo que estavam em conflito com a opinião de outros Pais. Se realmente existia um magistério romano interpretando a Bíblia infalivelmente, ele era tão invisível e tão pouco notório que ninguém fazia a mínima questão de levar as divergências doutrinárias a ele. Era um magistério tão poderoso que era dispensado por todos os Pais da Igreja. Eles preferiam continuar crendo da forma que criam do que resolver a questão levando-a a Roma.

Além disso, se realmente existia alguma tradição oral completamente preservada com todos os pontos intactos da fé que havia sido originalmente dita pelos apóstolos, por que nenhum Pai recorria à autoridade desta tradição para resolver suas intrigas doutrinárias uns com os outros? Por que Agostinho não disse a Jerônimo que a tradição mostra que a interpretação dele é a certa? Por que ele não recorreu a uma suposta tradição oral para reforçar seu argumento de que a sua visão de determinismo, eleição e predestinação era a certa, e que os demais estavam errados por ignorar essa tradição?

Por que Orígenes, Tertuliano, Agostinho ou qualquer outro Pai que se esforçou em definir a origem da alma com conclusões sempre divergentes não evocou a autoridade da tradição não-escrita para liquidar a questão de uma vez e mostrar que a sua interpretação era a verdadeira? Por que nenhum dos vários Pais que discutiram sobre o tema do divórcio não lembrou o que foi “preservado” pela tradição oral para decidir a questão sem deixar brechas para discordâncias?

Por que Jerônimo se esforçou em provar somente pela Bíblia que Maria foi sempre virgem, ao invés de recordar a Helvídio a existência da tradição oral? Por que os Pais que eram contra a virgindade perpétua da mãe de Jesus não lembravam o que a tradição dizia e mudavam de opinião? Por que nenhum Pai que era contra ou a favor da imortalidade da alma afirmou que chegou a esta crença através de uma tradição não-escrita? Por que a dúvida sobre o milênio, se havia mesmo uma tradição intacta e incorruptível que dizia com exatidão se ele existia ou não?

Por que Epifânio não sabia o que aconteceu nos últimos dias de Maria (em função de que a Bíblia silenciava a respeito), se a Igreja Romana diz ter certeza de que a tradição oral comprova a assunção dela? Qual tradição oral era essa, que era desconhecida por um bispo do século IV e conhecida por um papa do século XX?

Como confiar em uma tradição oral que não preserva nem a autoria do livro de Hebreus? Por que seus destinatários, que sabiam quem era o autor, não transmitiram adiante este conhecimento? Se transmitiram, por que não foi preservado pela tradição? Se algo tão simples como o nome de uma pessoa não pôde ter sido preservado oralmente, como é que podemos ter certeza de que doutrinas e pensamentos complexos o foram?

Todas estas questões – e muitas outras que poderíamos levantar – só podem ser satisfatoriamente respondidas se a resposta for que os Pais da Igreja desconheciam a existência de uma tradição oral incorrupta que fundamentava doutrinas, e que eles criam somente na Bíblia como fonte de doutrina. Isso explica por que havia tantas divergências e por que ninguém definia uma questão polêmica com a “autoridade” da tradição: todos interpretavam livremente a Bíblia, e, consequentemente, podiam chegar a interpretações diferentes, e a posições doutrinárias distintas – exatamente o mesmo que os católicos tanto contestam nos evangélicos.

O exame detido dos escritos dos Pais nos mostra que eles ignoravam completamente a existência de qualquer tradição oral incorruptível que tivesse a mesma força para fundamentar doutrinas que a Escritura tinha, e que em todas as questões doutrinárias eles recorriam somente à Escritura para resolver a questão, independentemente de qual doutrina fosse.

Outro problema com o uso da tradição oral pelos apologistas romanos é que os irmãos ortodoxos também se sustentam em alegadas tradições para fundamentar suas doutrinas, que em alguns casos também não são bíblicas, mas muitas tradições cridas por eles são completamente diferentes das tradições cridas por Roma. Vejamos algumas diferenças entre a Igreja Romana e a Ortodoxa:

Igreja Católica Romana
Igreja Católica Ortodoxa
Adota vinte e um concílios
Admite apenas sete concílios
O bispo de Roma tem poder pleno, supremo e universal na Igreja
Não admite a primazia do bispo romano sobre todos os demais
O papa (bispo de Roma) é infalível em matéria de fé, discursando em ex cathedra
Não admite a infalibilidade papal
Existência do purgatório
Não existe o purgatório
Existência do limbo
Não existe o limbo
Existência de indulgências
Não admite a existência de indulgências
Dogma da imaculada concepção de Maria
Maria foi concebida em estado de pecado original
Comunhão aos fieis somente com o pão (hóstia) na Ceia (eucaristia)
Comunhão com ambos os elementos aos fieis
Existência de imagens de escultura nos templos
Não se permitem imagens de escultura nos templos, mas somente ícones
Batismo por aspersão
Batismo por imersão
O Espírito Santo procede somente do Pai
O Espírito Santo procede do Pai e do Filho
Rejeita a canonicidade de 3ª e 4ª Macabeus, 3ª e 4ª Esdras, Oração de Manassés e o Salmo 151
Considera canônicos todos estes livros rejeitados pelos romanos
Celibato obrigatório dos sacerdotes
Sacerdotes podem optar entre o celibato ou o matrimônio
Existência de dois juízos (um individual e um geral)
Existência de um único juízo universal

Vamos por um momento supor que exista mesmo uma tradição oral incorruptível e inalterável que atravessou os séculos e foi admitida como regra de fé paralela às Escrituras. Vamos também supor que um evangélico esteja desesperadamente disposto a seguir essa tão importante tradição oral. Em primeiro lugar, qual tradição ele deveria seguir? A tradição da Igreja Romana, a da Igreja Ortodoxa ou um misto das duas?

Mais uma vez, ressaltamos que ambas alegam ter dois mil anos e remeter aos apóstolos por sucessão. Ambas também afirmam guardar como um depósito a “tradição apostólica”. Porém, as tradições de uma são totalmente diferentes das tradições da outra. A tradição romana diz que o purgatório existe; a tradição da ortodoxa diz que não existe. A tradição romana diz que a comunhão aos fieis na Ceia é feita somente com a hóstia; a tradição da ortodoxa diz que é com ambos os elementos. A tradição romana é de um batismo por aspersão, e da ortodoxa por imersão.

Se um evangélico tivesse que seguir a tradição, como poderia ter certeza de qual tradição é a certa? Ele deveria seguir aquela tradição que diz que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho ou aquela que diz que ele procede apenas do Pai? Ele deveria crer na tradição que diz que o limbo existe ou naquela que nega a existência dele? Ele deveria obedecer a tradição que diz que Maria nasceu sem o pecado original ou aquela que desconhece esse dogma? Qual é a tradição certa?

E como podemos ter absoluta certeza de qual é a tradição certa, se ambas dizem remeter aos apóstolos e ter sido passada adiante sem alteração através dos séculos? Como poderíamos satisfatoriamente seguir a tradição romana porque Roma diz que é a certa, e ignorar a tradição ortodoxa que também diz que ela é a verdadeira? Qual tradição é essa que é tão diferente no ocidente e no oriente? Por que eles não seguem a mesma tradição? Por que há tantas divergências?

A resposta é uma só: porque a tradição oral não é nem segura e nem confiável, mas é facilmente corrompida. Todo este quadro nos mostra que pelo menos várias tradições foram corrompidas com o tempo, seja pelos romanos ou pelos ortodoxos, já que não cremos na existência de duas verdades opostas, o que cairia no relativismo secular e herético. Obviamente, a tradição foi corrompida, adulterada, transformada, modificada. Ela tomou diferentes formas, em diferentes lugares e em diferentes épocas. Ela não é nem um pouco confiável.

Se fosse, a tradição no oriente seria exatamente a mesma do ocidente. Se fosse, as igrejas romana e ortodoxa falariam a mesma língua quando o assunto é a tradição apostólica. Se fosse, ninguém estaria disputando o posto de “guardião da verdadeira tradição”. Se fosse, não haveria o Cisma. Se fosse, teríamos algo sério para refutar neste artigo. Mas, infelizmente, não é.

A tradição oral é tão confiável quanto um telefone sem fio em uma roda de amigos, que nunca termina com o mesmo resultado de outra roda com a mesma pauta. Isso explica por que uma roda (romanos) terminou com um resultado e outra roda (ortodoxos) terminou com outro: nenhuma tradição oral é segura. Resultados diferentes é o que se deveria esperar de algo que é impossível de se conservar pela mera transmissão oral. É tão frágil quanto um telefone sem fio.

Antes de concluir este artigo, quero passar novamente aqui um desafio que eu fiz recentemente a um católico que apelava para a autoridade da “tradição”:

“Não adianta apelar para a tradição sem antes definir o que é a tradição. Qual tradição é a verdadeira? É a tradição romana ocidental, que diz que o batismo deve ser feito por aspersão e que o purgatório existe, ou é a tradição ortodoxa oriental, que diz que o batismo deve ser feito por imersão e nega a existência do purgatório? Eu não quero blá-blá-blá ou achismos, eu quero provas. Eu quero que você me prove com documentos históricos de que a tradição romana é a única tradição certa, que todas as outras tradições que remetem às outras igrejas do início da era cristã e que divergem da igreja de Roma são todas falsas, que a sua e apenas a sua tradição é incorruptível e que jamais passou por acréscimo, alteração, subtração ou modificação nenhuma, e que devemos rejeitar todos os argumentos ortodoxos para a tradição deles e ficar somente com a tradição de vocês. Você pode fazer isso, por favor? Apelar somente à palavrinha ‘tradição’ nos escritos dos Pais não é suficiente, pois a Igreja Ortodoxa faz exatamente a mesma coisa para provar a tradição deles. Eu quero provas decentes, que sejam satisfatórias. Só depois disso você volte aqui para apelar a tradições orais fantasmagóricas a fim de justificar suas teses papistas”

Nenhum católico tem capacidade de responder a isto, porque eles já foram treinados a dar aquelas respostinhas prontas de “ouça a tradição da Igreja”, mas ninguém jamais os ensinou a responder à pergunta: “Mas qual?”. Falar que existe a “tradição” é a parte fácil. Qualquer papagaio faz isso. Delimitar exatamente e com precisão qual tradição é verdadeira e qual é falsa, essa sim é a parte difícil. Quem arrisca?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1] Terceiro Catecismo Católico, pág. 152.
[2] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro V, cap. XXIV.
[3] Hans van Campenhausen, Os Pais da Igreja, pág. 24.
[4] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro V, 24:9
[5] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, 3:5.
[6] Jerônimo, De Viris Illustribus, Cap. 2.

20 de maio de 2015

Vamos rezar aos santos, porque Deus é ocupado demais. Ou: até onde alguém vai para justificar sua idolatria.



Que a Igreja Romana é idólatra e pagã, isso todo mundo já sabe. Mas a coisa está ficando tão descarada ultimamente que tem até perdido a graça. Para justificar a existência de imagens de escultura que supostamente servem de intermediários entre nós e Deus – ao invés de pedirmos direto a Deus – eles agora chegaram à incrível e sensacional conclusão de que Deus é igual ao Presidente da República: ele é “ocupado demais”, e por isso é melhor falarmos com aqueles que podem levar as mensagens até ele...


Diga a verdade: você não tem raiva destes protestantes malvados, que “não sabem nada da Igreja Católica” e tem a audácia de incomodar a Deus com suas orações diretamente a ele? Esses rebelados filhos de Lutero são tão atrevidos que nem sequer esperam na fila para pegar a ficha de espera até que o Deus católico super ocupado e sem tempo para cuidar dos problemas de todo mundo possa finalmente decidir escutar o que você tem a dizer a ele. Então é melhor pedir para os “santos”, vai que deste jeito a mensagem chega até Deus mais rápido! A conclusão é que Deus não está “ocupado demais” para atender as nossas orações que passam pelos santos para depois chegar até ele, mas ele está “ocupado demais” para atender as orações que são feitas diretamente a ele. Que vá para a lata do lixo tudo aquilo que aprendemos sobre a onisciência e eternidade de Deus – é um verdadeiro vale-tudo para salvar a idolatria católica!

Se você pensa que são só os “catoleigos” que entram nesta onda de desvario e insanidade, acompanhe esta publicação do prof. Felipe Aquino, um dos ídolos master dos católicos da “Canção Nova”:


Sim, acredite: é Maria, e não Jesus, a “sede da nossa salvação”. E depois eles ainda querem ter a cara de pau de dizer que são monoteístas e nada idólatras!

O detalhe é que esta publicação foi feita por um dos principais líderes da Canção Nova e um dos mais “respeitados” neste meio, e teve nada a menos que 21 mil curtidas e quase 7 mil compartilhamentos, o que mostra que na mentalidade do católico comum não há problema nenhum nesta frase, porque eles já estão tão habituados à idolatria que já não conseguem perceber o tamanho do disparate que representa uma coisa dessas.

Foram anos e anos de lavagem cerebral que foram gradualmente tornando a mente do indivíduo cada vez mais suscetível e receptiva à idolatria e à descentralização de Cristo, de tal forma que já não sobrou mais nem um pedaço de bom senso ou Cristianismo genuíno neste meio. Ele passa a aceitar as frases idólatras sem sequer refletir sobre elas. É um processo lento de dominação da mente para torná-la cada vez mais aberta ao paganismo e fechada para Cristo. A idolatria é pregada explicitamente e eles já não se importam. E o pior é ver que existe católico tão ludibriado que defende este tipo de declaração nos debates!

Mas de todas as aberrações papistas que são cridas sem pensar, nada, nada, NADA se compara a isso:


Sim, para eles, Deus passou a existir por causa de Maria. E acredite: a mente deles já está tão escravizada a Roma que se um papista estiver lendo este texto agora terá a coragem de dizer que não vê problema nenhum em uma afirmação desta natureza. E coisas do tipo ocorrem aos montões, todos os dias, em todos os lugares onde exista um católico fanático. Perderia o dia todo aqui se quisesse passar exemplo por exemplo de atitudes idólatras que são apoiadas pelos próprios católicos. Mas para não perder tempo com mais “catoleigos”, vejamos o que um santo e doutor da Igreja, Afonso de Ligório, escreveu em um livro chamado “Glórias de Maria” (de quem mais poderia ser?), que é considerado hoje um livro oficial da ICAR e recomendadíssimo pelos padres:

“Feliz aquele que se abraça amorosa e confiadamente a essas duas âncoras de salvação: Jesus e Maria! Não perecerá eternamente” (página 31)

“Por conseguinte estão sujeitos ao domínio de Maria os anjos, os homens e todas as coisas do céu e da terra” (página 35)

“Maria, para salvar as nossas almas, sacrificou com amor a vida de seu Filho” (página 47)

“Maria imolou a sua alma para a salvação de muitas almas” (página 47)

“Do Eterno Pai diz o Evangelho que amou os homens a ponto de por eles entregar à morte seu Filho Unigênito (João 3.16). O mesmo também se pode dizer de Maria: Tanto amou os homens, que por eles entregou seu Filho Unigênito” (página 53)

“Então com suma dor e com intenso amor para conosco, Maria estava sacrificando por nós a vida de seu Filho” (página 56)

“Os pecadores só por intercessão de Maria recebem o perdão” (página 76)

“Seguindo a Maria, não errarás o caminho da salvação” (página 85)

Sois onipotente, ó Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo quanto vós quereis” (página 100)

“Ide a Maria! O Senhor decretou não conceder favor algum sem a mediação de Maria. Por isso nas mãos dela está nossa salvação (página 144)

“Quando nos vem tentar o demônio, não deixemos de fazer como os pintinhos, que, mal enxergam o gavião, correm logo a refugiar-se sob as asas da mãe. Logo que nos assaltam tentações, sem discorrer com elas, refugiemo-nos depressa sob o manto de Maria. E vós, Senhora, deveis defender-nos (...) Depois de Deus outro refúgio não temos senão vós, que sois a nossa única esperança protetora, em quem confiamos” (página 85)

“Ah! Como fogem os demônios à presença de Nossa Senhora! Se na hora da morte tivemos Maria a nosso favor, que poderemos recear de todo o inferno?” (página 90)

“Salve esperança de minha alma (...) salve, ó segura salvação dos cristãos, auxílio dos pecadores, defesa dos fiéis, salvação do mundo (página 98)

“Em vós, Senhora, tendo colocado toda a minha esperança e de vós espero minha salvação (página 147)

“Acolhei-nos sob a vossa proteção se salvos nos quereis ver; pois só por vosso intermédio esperamos a salvação (página 147)

“É tributada ao Filho e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha” (página 131)

“Maria é advogada poderosa para a todos salvar (página 151)

“Maria é toda poderosa junto a Deus“ (página 151)

E as minhas preferidas:

“Se Maria é por nós, quem será contra nós?” (página 90)

“Muitas coisas se pedem a Deus, e não se alcançam. Pedem-se a Maria, e conseguem-se” (página 118)

Se isso é o que disse um doutor e santo da Igreja Romana, então não deveríamos esperar nada de surpreendente vindo de catoleigos, olavetes e tridentinos que pipocam por aí.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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