3 de julho de 2015

Refutando o preterismo com a História


Neste vídeo eu apresento algumas razões pelas quais o preterismo é insustentável historicamente, argumentando principalmente em duas vias: (1) Nero não pode ser o “anticristo” dos preteristas; (2) o Apocalipse foi escrito depois de 96 d.C, e, portanto, não pode ser uma descrição dos eventos que giraram em torno de 70 d.C.


Uma correção: no minuto 9:20 do vídeo, eu afirmo que Nero foi o imperador romano na época da destruição de Jerusalém, e eu só percebi este erro depois de rever o vídeo (no minuto 7 eu já havia afirmado que Nero havia morrido antes disso, em 68 d.C). O imperador romano na época da destruição de Jerusalém foi Vespasiano. Como eu não sei mexer com edição, achei melhor corrigir por aqui do que refazer o vídeo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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30 de junho de 2015

A Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade!


Os papistas adoram (perdoem-me a redundância) citar um texto na primeira epístola de Paulo a Timóteo, quando disse que a Igreja é a “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm.3:5). Pelo menos dez mil vezes eu tive que ler o repetido jargão de que “é a Igreja a coluna da verdade, e não a Bíblia”. O acréscimo posterior que faz questão de dizer que “não é a Bíblia” existe apenas para acentuar o valor que eles atribuem à Escritura. Um completo desprezo.

Em resposta a este argumento, devemos ressaltar em conjunto com aquilo que foi escrito no livro:

1ª) Paulo não estava falando da Igreja Romana. A adição “romana” no texto não existe. Aliás: existe, mas só na cabeça de quem precisa encontrar “romana” ali para dar sentido ao seu argumento.

2ª) Paulo não estava falando da Igreja como instituição. No capítulo 2 deste livro conferimos inúmeras provas bíblicas de que o real e verdadeiro conceito de ekklesia não é o de uma instituição religiosa, e muito menos a romana, mas refere-se aos próprios cristãos, como o Corpo de Cristo.

3ª) Coluna é uma coisa completamente diferente de fundamento. O papista que argumenta que a verdade está sujeita à Igreja mostra que não entende nada sobre o significado de “Igreja” e menos ainda de “coluna”. A coluna não é um fundamento, mas está edificada sobre o fundamento! Paulo usou aqui duas palavras gregas, uma chamada hedraioma, que significa: “suporte, apoio, escora”[1]. A outra foi stulos, que significa “pilar ou coluna”[2]. Como vemos, nenhuma delas tem o sentido de “fundamento” (como vertem algumas traduções católicas adulteradas), mas de algo que está sobre o fundamento.

Assim sendo, o sentido do texto não é o de que a verdade está sujeita ou dependente da Igreja, mas o contrário. Assim como a coluna é dependente do fundamento, a Igreja é dependente da verdade. O fundamento (verdade) vem antes, e a coluna (Igreja) vem depois. A Igreja, portanto, tem o papel de anunciar esta verdade, e não de manipular essa verdade, como se qualquer coisa que a Igreja dissesse fosse verdade pela única razão de que a Igreja disse.

4ª) Para elucidar a questão, vamos citar o texto onde Paulo usa a mesma palavra grega stulos (coluna) ao dizer:

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas [stulos], estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão” (Gálatas 2:9)

Tiago, Pedro e João obviamente não estavam “acima da verdade”, muito menos acima da Igreja como um todo. Isso também não significa que a Igreja não existiria sem eles. Eles eram apenas “colunas” que se destacavam dentre as demais. Se Pedro estivesse acima da verdade por ser coluna, ele não poderia ter sido repreendido por Paulo (Gl.2:11-14), ou ter negado Jesus (Jo.18:27). Ser uma coluna não garante pregar sempre a verdade, e muito menos estar acima da verdade.

Os apóstolos, assim como os cristãos nos dias de hoje (Igreja), tinham a função de pregar essa verdade, pois são colunas dela. Se os cristãos não pregarem a verdade, o mundo não a ouvirá, e, consequentemente, não crerá no evangelho. É por isso e é neste sentido que a Igreja é a coluna da verdade, pois ela tem a obrigação de proclamar a verdade das Escrituras e manter a verdade tal como ela é.

5ª) Enquanto a Igreja é a coluna da verdade (algo inferior à verdade, que tem a supremacia), a Bíblia é a própria verdade, pois Jesus disse:

“Santifica-os na verdade; a Tua Palavra é a verdade (João 17:17)

Pedro disse o mesmo:

“Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela Palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre" (1ª Pedro 1.22-23)

Antes que algum papista diga que a verdade é a tradição e não a Bíblia, cabe lembrarmos que foi o próprio Senhor Jesus que fez distinção entre uma coisa e outra, ao dizer que os judeus abandonavam a Palavra (referindo-se às Escrituras) por causa das suas tradições:

Mateus 15:6 – Assim vocês anulam a palavra de Deus por causa da tradição de vocês.

Marcos 7:3 – Assim vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas coisas como essa.

Essa Palavra de Deus, que Jesus disse que os fariseus anulavam, e que estava em oposição à tradição, nada mais era senão as Escrituras, de onde ele cita Isaías e os mandamentos de Deus:

Marcos 7:6-7 – Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.

Marcos 7:8 – Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens.

Marcos 7:9 – Vocês estão sempre encontrando uma boa maneira para pôr de lado os mandamentos de Deus, a fim de obedecer às suas tradições!

Mateus 5:13 – E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês?

Os Pais da Igreja concordavam sobre isso também. Agostinho disse que a Bíblia é a “Palavra escrita de Deus”[3], e Ambrósio, seu tutor na fé, disse que a Palavra de Deus é o que está escrito:

“Os incrédulos se recusam a acreditar na Palavra de Deus. Pois o Filho de Deus, como você encontrará escrito no Evangelho, disse: ‘Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei’ (Jo.12:28)”[4]

“Eles não acreditam na Sua eternidade, apesar de na Palavra de Deus estar escrito: ‘No princípio era o Verbo’ (Jo.1:1)”[5]

Em síntese, a Palavra de Deus, seja a Palavra escrita (Escrituras) ou a Palavra revelada (Jesus Cristo) é a própria verdade. Estes sim não podem falhar, e a estes tudo está sujeito, inclusive a Igreja, que não é um “fundamento” da verdade, mas uma coluna, algo que está sobre, e não que coloca sobre si a verdade. A Bíblia realmente não é a coluna da verdade, porque ela é muito mais que uma coluna. Ela não é como uma coluna (que depende de algo), mas o fundamento, a própria verdade.

Todos os verdadeiros cristãos (=a Igreja), por sua vez, são colunas da verdade, pois a eles cabe a obrigação de anunciar e proclamar esta verdade ao mundo. Isso também tem relação com certa frase famosa dita por Agostinho (“eu não creria no evangelho, se não fosse a autoridade da Igreja”), que foi comentada neste artigo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

-Extraído de meu livro: "Em Defesa da Sola Scriptura"


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[1] De acordo com a Concordância de Strong, 1477.
[2] De acordo com a Concordância de Strong, 4769.
[3] Letter 77, 1.
[4] Exposição da Fé Cristã, Livro II, Capítulo 15.
[5] Exposição da Fé Cristã, Livro III, Capítulo 8.

28 de junho de 2015

Um resumo completo do Apocalipse


Resumir o Apocalipse é uma tarefa difícil. Talvez seja a coisa mais difícil que é possível escrever na vida. Por isso, o que se segue é apenas um resumo, e um texto mais elaborado sobre cada detalhe pode ser visto em meu livro "A Igreja na Grande Tribulação" (disponível para download do e-book gratuito e para compra em impresso) e também nos (até agora) 24 artigos sobre preterismo (que podem ser conferidos clicando aqui). Usarei estes artigos como referência quando for comentar resumidamente algo que merece uma análise mais aprofundada. Nestes casos, indicarei o artigo em questão com um “clique aqui”.

Recomendo ainda entusiasticamente o site do Alon –  "A Grande Cidade" – que possui dezenas de ótimos artigos sobre escatologia. Aqui tentarei fazer um resumo capítulo por capítulo, com ênfase aos versos mais polêmicos e importantes e ignorando os de menor relevância ou de mais simples entendimento. Ressalto, por fim, que o Apocalipse será melhor abordado (versículo por versículo) em minha obra "O Novo Testamento Comentado" (que espero que seja publicado em breve).


Apocalipse 1

O verso 1 inicia dizendo que Jesus iria mostrar aos seus servos as coisas que ocorreriam “em breve”. Alguns preteristas mal informados têm usado este verso como uma evidência de que a grande tribulação limitava-se apenas a 70 d.C. Isso não apenas contraria o fato de que historicamente o livro foi escrito em 95 d.C (clique aqui para conferir), mas também o próprio fato de que a volta de Jesus também é descrita como sendo “em breve” (Ap.22:12) – embora a maioria dos preteristas concorde que Jesus não voltou ainda. Como bem observou o apologista Alon Franco, a palavra aqui traduzida por “breve” também pode significar “repentinamente”, implicando somente que a volta de Jesus e a tribulação são acontecimentos rápidos, ao invés de longos processos (clique aqui para conferir).

No verso 9, João faz uma confissão:

“Eu, João, irmão e companheiro de vocês no sofrimento, no Reino e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1:9)

Ele, enquanto escrevia o Apocalipse, não diz que “estou” na ilha de Patmos, mas sim que “estava” na ilha de Patmos. Isso significa, obviamente, que João já havia sido liberto da ilha de Patmos quando escreveu seu livro. Ele obteve as revelações enquanto ainda estava na ilha, mas as passou por escrito depois que já saiu dela. Isso fulmina com a tese preterista, que afirma que João escreveu seu livro enquanto ainda estava na ilha de Patmos, então os enviou dali às sete igrejas antes de 70 d.C, depois voltou a escrever e só terminou em 95 d.C. Este verso prova que todo o livro foi escrito depois de 95 d.C, ou seja, quando João foi liberto, ao final do reinado de Domiciano. Sendo assim, o livro não pode retratar os acontecimentos de 70 d.C, pois aborda um cenário futuro, e não passado.

No verso 10, há uma polêmica sobre o “dia do Senhor”:

No dia do Senhor achei-me no Espírito e ouvi por trás de mim uma voz forte, como de trombeta” (Apocalipse 1:10)

Sabatistas costumam dizer que o “dia do Senhor” neste versículo é o sábado; “domingueiros” costumam dizer que se trata do domingo, mas a verdade é que nesta ocasião não se referia nem ao sábado e nem ao domingo, mas sim ao dia escatológico conhecido em toda a Bíblia como “o dia do Senhor” (Sf.1:7,14; Jl.1:15; Am.5:18; Ez.30:3; 1Ts.5:2, etc), sempre relacionado à volta de Jesus. Em outras palavras, João não estava preocupado em dizer em qual dia recebeu as revelações (o que em si mesmo não faz sentido, já que nenhum profeta em toda a Bíblia jamais fez questão de ressaltar o dia da semana em que recebeu uma revelação!), mas sim dizendo que se viu “em espírito” (arrebatamento de sentidos) naquele dia escatológico da volta de Jesus – uma forma de dizer que viu todos os eventos relacionados ao último dia.

O verso 19 também é requerido por alguns preteristas:

“Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que estão por vir” (Apocalipse 1:19)

Para eles, as coisas “presentes” se referem à grande tribulação, e as “por vir” se referem à volta de Jesus. Esta interpretação falha, em primeiro lugar, em desconsiderar que um livro escrito em 95 d.C não poderia ter descrito uma guerra ocorrida 25 anos antes como se fosse algo “presente”. Na verdade, as coisas “presentes” são as cartas às sete igrejas, com mensagens de exortação, admoestação ou correção, e as “por vir” se referem à tribulação e volta de Jesus. O próprio Cristo ligou o final da tribulação com a Sua segunda vinda (Mt.24:29-30), de modo a tornar impossível e ilegítima uma interpretação que assegure que uma coisa (tribulação) ocorreu no século I, enquanto outra coisa (volta de Jesus) ocorre somente milênios mais tarde.


Apocalipse 2

Começamos as cartas às sete igrejas, e para resumir o conteúdo, podemos ver na tabela abaixo quais igrejas na Ásia permaneciam fieis e quais já haviam apostatado:

IGREJA
CONDIÇÃO ESPIRITUAL
Éfeso
Parcialmente fiel
Esmirna
Fiel
Pérgamo
Parcialmente fiel
Tiatira
Parcialmente fiel
Sardes
Infiel
Filadélfia
Fiel
Laodiceia
Infiel

Como vemos, a situação das igrejas locais ainda no século I d.C já podia ser considerada alarmante. Daquelas sete igrejas, apenas duas só receberam elogios. Três misturavam qualidades com certo nível de apostasia, e outras duas estavam tão corrompidas ao ponto de poderem ser “vomitadas” da boca de Deus (3:16). Isso mostra que o fato de uma igreja local ter sido fundada por um apóstolo ou discípulo de apóstolo não implica em uma incondicional fidelidade – como se fosse infalível e livre da possibilidade de apostasia. Muito pelo contrário!

Roma era uma das comunidades cristãs locais da época. João não escreveu nenhuma carta à igreja de Roma, mas a história nos mostra que nos primeiros dois séculos ela permaneceu relativamente fiel. A apostasia se iniciou, principalmente, a partir da paganização do Cristianismo romano, como eu mostrei neste artigo. Certas igrejas locais já tinham caído em apostasia ainda no século I, mas a igreja de Roma, por puro orgulho e soberba, acredita que ela foi a única que não apostatou nem por um segundo ao longo destes dois mil anos – quando a História nos mostra que ela foi “a mãe de todas as abominações da terra” (Ap.17:5).


Apocalipse 3

No verso 10, temos o versículo preferido pelos pré-tribulacionistas:

“Visto que você guardou a minha palavra de exortação à perseverança, eu também o guardarei da hora da provação que está para vir sobre todo o mundo, para pôr à prova os que habitam na terra” (Apocalipse 3:10)

A parte que diz “te guardarei da hora da provação” é interpretada por eles como significando: “vou te arrebatar secretamente ao céu, para não passar por nada disso”. Um pouquinho de exegese, inteligência e bom senso liquida com esta interpretação estapafúrdia. O salmista Davi escreveu:

“Os justos clamam, o Senhor os ouve e os livra de todas as suas tribulações (Salmos 34:17)

Mesmo assim, a forma com a qual Deus livrou Davi e os demais justos de todas as épocas de suas tribulações não foi abduzindo-os ou os trazendo secretamente ao céu para escapar dos perigos da terra; ao contrário, foi permanecendo nela, embora protegido espiritualmente por Deus. Na oração do Pai Nosso, nós oramos:

“E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém” (Mateus 6:13)

Isso significa que esperamos deixar a terra para sermos “livres do mal”? É claro que não. A proteção do mal é aqui mesmo, na terra. Portanto, vemos que:

TEXTO BÍBLICO DIZ
APLICAÇÃO
“Os justos clamam, o Senhor os ouve e os livra de todas as suas tribulações (Salmos 34:17)
Tanto Davi quanto os outros justos de seu tempo não foram arrebatados sem passarem por tribulações, mas foram protegidos por Deus em meio a elas.
E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém” (Mateus 6:13)
Nós não deixamos a terra quando oramos o Pai Nosso, mas somos protegidos por Deus dos poderes das trevas, mesmo continuando na terra.
“Porquanto guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra” (Apocalipse 3:10)
A Igreja também permanece na terra, mas será protegida por Deus em meio às tribulações.

Mais sobre isso é abordado em meu livro "A Igreja na Grande Tribulação".


Apocalipse 4

Embora desde o primeiro capítulo João trabalhe com alegorias, é a partir do capítulo 4 que a coisa começa a ficar bem mais simbólica, cheia de “enigmas” e “mistérios” a serem desvendados por detrás da linguagem literal. Praticamente nada do que aparece daqui em diante pode ser tomado ao pé da letra, ou senão grandes confusões e desastres teológicos incorrerão necessariamente. É importante ressaltar que nós podemos saber até certo ponto de certeza sobre o significado de algumas destas alegorias, mas há outras em que nós podemos apenas trabalhar no campo das possibilidades, ou então assumir que não temos uma resposta adequada à questão, ao menos por enquanto.

Os quatro seres viventes (4:6), por exemplo, tem sido alvo de debate até hoje. Alguns Pais da Igreja, como Jerônimo, identificaram os quatro seres viventes como sendo os quatro evangelhos, sendo Mateus o anjo, Marcos o leão, Lucas o touro e João a águia. Este site apresenta as evidências bíblicas a este respeito de forma mais aprofundada. Outros têm sugerido que os quatro seres viventes são uma figura dos anjos (algo improvável, já que os anjos são claramente distinguidos dos quatro seres viventes em Ap.7:11). Outros ainda entendem que "os quatro seres viventes tipificam a plenitude terrena de nosso bendito Senhor Jesus Cristo". Particularmente, me sinto mais atraído pela primeira hipótese, mas admito que o debate a este respeito ainda está em aberto.

João ainda nos fala dos 24 anciãos (4:10). O número 24, na numerologia bíblica, é 12+12. Doze é o número das tribos de Israel, e também é o número de apóstolos. Pode representar, por conseguinte, as duas alianças (ou pactos) de Deus para com a humanidade: a antiga aliança (com Israel) e a nova (com a Igreja). João fala também dos “sete espíritos de Deus” (4:5), que também é simbólico e não pode ser de modo algum confundido com o Espírito Santo, a terceira pessoa da trindade. Esses sete espíritos de Deus remetem a Isaías 11:1-2, que diz:

“Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um renovo. O Espírito do Senhor repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor” (Isaías 11:1-2)

Aqui vemos que existe: (1) um espírito de repouso sobre o “tronco de Jessé”; (2) um espírito que dá sabedoria; (3) um espírito que concede entendimento; (4) um espírito que traz conselho; (5) um espírito que atribui poder; (6) um espírito que leva ao conhecimento; (7) um espírito que traz temor ao Senhor. Podem ser resumidos como sendo as qualidades ou dons que Deus pode derramar sobre a nossa vida se formos obedientes a Ele.


Apocalipse 5

Este capítulo começa com um relato interessante: um livro (presume-se que seja o livro da vida) selado, que só podia ser aberto por uma única pessoa: Jesus (5:1-5). Só Jesus nos salva e nos dá o direito de termos nossos nomes escritos no livro da vida. O detalhe interessante é que ninguém mais era digno nem sequer de olhar para o livro (v.3), o que seria bem estranho se houvesse uma “mãe de Deus” e “rainha do céu” imaculada desde a concepção e reinando junto com seu filho no Céu. Como ela não seria digna? Para João, ela não era:

“Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que podia abrir o livro, ou sequer olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele” (Apocalipse 5:3-4)

Então Jesus (aqui representado alegoricamente como um cordeiro ensanguentado) recebe o livro (v.7) e é adorado pelos 24 anciãos e pelos quatro seres viventes. Cada um dos 24 anciãos tinha nas mãos um incenso, que eram as orações dos santos (v.8). Isso significa que cada oração de um servo de Deus temente ao Senhor, tanto no antigo quanto no novo pacto, tem suas orações aqui na terra recebidas por Deus no Céu. Deus não ignora nem despreza nenhuma oração de um servo dEle.


Apocalipse 6

Do capítulo 6 em diante seguem-se os sete selos, as sete trombetas e as sete taças. Cada uma delas tem um significado especial no contexto da grande tribulação. Irei aqui resumir o conteúdo deles (apresentado, como sempre, de forma alegórica) e seu significado:

SETE SELOS
ALEGORIA
SIGNIFICADO
Primeiro Selo
Cavalo branco determinado a vencer
Cavalo branco simboliza Cristo (19:11). Antes do fim, o evangelho seria pregado a toda a terra (Mt.24:14). O cavaleiro branco representa esse êxito na proclamação universal do evangelho
Segundo Selo
Cavaleiro vermelho trazendo a morte
Inicia a grande tribulação, tirando a paz na terra existente até então. Pode ser uma terceira guerra mundial, pois Jesus disse que essa tribulação seria a maior de toda a história (Mt.24:21).
Terceiro Selo
Cavaleiro preto com uma balança na mão
Fome na terra, que não danificaria o “azeite e o vinho” (v.6), ou seja, de alguma forma a Igreja e Israel serão providos por Ele neste estágio da tribulação
Quarto Selo
Cavaleiro amarelo chamado “Morte”, seguido pelo Hades
O amarelo representa a palidez dos corpos mortos, e o Hades (sepultura coletiva dos mortos) é para onde os que morressem na guerra iriam
Quinto Selo
Almas gritando por vingança debaixo de um altar
No ritual da lei de Moisés, o sangue de um animal sacrificado era derramado sobre o altar (Êx.29:12). A figura de linguagem representa que cada servo de Deus que morreu martirizado pela fé em Jesus seria certamente vingado por Ele
Sexto Selo
Um grande terremoto; o sol fica escuro, e as estrelas caem na terra
Na morte de Jesus, ocorreu um grande terremoto (Mt.27:54) e o céu ficou completamente escuro por três horas (Mc.15:33). As estrelas representam anjos (1:20); estrelas caindo, portanto, representam anjos caídos. Jesus vencera o maligno, e agora este, não podendo mais entrar no confronto direto com o Filho de Deus, partiria pra cima do Seu povo escolhido (Igreja)
Sétimo Selo
Silêncio no céu por meia hora
As mulheres foram expulsas do Céu por meia hora

Já é uma descrição do final da tribulação, quando Jesus voltará com todos os santos anjos (Mt.16:27), deixando o Céu vazio e, portanto, em silêncio


Apocalipse 7

No início do capítulo vemos quatro anjos “retendo os quatro ventos” (sinal de destruição) até que os servos de Deus fossem selados. E é aqui que entra a polêmica figura dos 144 mil, que se trata de mais uma simbologia numérica da Bíblia. O número 144 é 12x12. O número 12, na Bíblia, representa a plenitude. Aqui temos o 12 multiplicado por outro 12, e então por mil. Isso serve para enfatizar esta totalidade de salvos durante o tempo da grande tribulação. Quando João pergunta quem são eles, o anjo responde que “estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro” (v.14). Em outras palavras, os 144 mil representam a totalidade da Igreja que estará na grande tribulação e que será protegida espiritualmente por Deus em meio a ela.

João vê aqui também um quadro futuro. O anjo lhe diz:

“Eles estão diante do trono de Deus e o servem dia e noite em seu santuário; e aquele que está assentado no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede. Não cairá sobre eles sol, e nenhum calor abrasador, pois o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor; ele os guiará às fontes de água viva. E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima” (Apocalipse 7:15-17)

Sabemos que este momento em que Deus “enxugará dos seus olhos toda lágrima” ocorre após a criação de novos céus e nova terra, ao término do milênio (21:4). Também a linguagem sobre Deus fazer o seu tabernáculo entre os homens é pós-milenar (21:3), bem como a linguagem sobre não ter mais sede ou calor (22:5), o rio da água da vida (22:1) e os serviços no santuário (22:3). É tudo um quadro futuro. João visualiza momentaneamente os salvos depois da ressurreição.


Apocalipse 8

Um anjo traz um incensário de ouro com as orações de todos os santos, orações essas que subiram para a presença de Deus (vs.3-4), novamente indicando que as orações feitas pelos santos na terra sobem para a presença de Deus no Céu (veja Êx.2:23). Assim começa a segunda fase, a das sete trombetas. Esta parece ser a parte mais tensa da grande tribulação, pois no fim das contas todas as sete trombetas têm um significado em comum: morte, desgraça e destruição. No entanto, mais uma vez, a ampla e rica simbologia apocalíptica nos impede de concluir precipitadamente que os cataclismos e pestes aqui descritos sejam em uma medida literal, ao pé da letra.

Em todas as desgraças mencionadas, é nos dito que essa destruição ocorreu em um terço daquilo que foi atingido. “Um terço” do mar se transformou em sangue (v.8), “um terço” da terra e das árvores são queimadas (v.7), “um terço” das criaturas marinhas morrem (v.9), “um terço” das embarcações são destruídas (v.9), “um terço” das águas se tornam amargas (v.11), e assim por diante. Embora não haja dúvidas quanto ao fato de esta parte do Apocalipse simbolizar a parte mais plena da grande tribulação, não há nada aqui que exija que este “um terço” seja literal. Ele provavelmente decorre do fato de que “um terço” dos anjos caíram (12:4), ou seja, é um simbolismo que mostra que o diabo é o agente por detrás destas pestes, representado pela expressão “um terço”.

O verso 12 lança mais luz a esta concepção alegórica do “um terço” ao dizer que “o quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferido um terço do sol, um terço da lua e um terço das estrelas, de forma que um terço deles escureceu; um terço do dia ficou sem luz, e também um terço da noite”, uma vez que é claramente alegórico. O sentido geral destas calamidades é expresso pelo som que a águia faz (“ai”), ao dizer:

“Enquanto eu olhava, ouvi uma águia que voava pelo meio do céu e dizia em alta voz: ‘Ai, ai, ai dos que habitam na terra’...” (Apocalipse 8:13)


Apocalipse 9

O capítulo inicia dizendo que uma “estrela” (=anjo) havia “caído do céu sobre a terra” (=anjo caído – um demônio), e que a esta “estrela” foi dada a chave do Abismo (v.1). É provável que este “Abismo” aqui descrito seja o mesmo “Tártaro” que Pedro mencionou em sua epístola, ao falar sobre os anjos caídos em prisão (2Pe.2:4). Sabemos que os demônios em geral estão soltos, “nos ares” (Ef.6:12), inclusive bramando ao nosso redor como um leão (1Pe.5:8). Estes anjos caídos, que estão presos e não soltos, não se refere a estes demônios em geral, mas especificamente aos anjos que se envolveram no pecado de Gênesis 6:1-4 (clique aqui para entender melhor) e aos quais Judas também faz menção em sua epístola:

"E aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia" (Judas 1:6)

Estes são os únicos anjos caídos que estão presos neste momento no “Tártaro” ou “Abismo”. O nome do lugar onde eles estão presos não é relevante, uma vez que o Tártaro vem de uma concepção pagã que não tem nada a ver com a cristã, e que a expressão “abismo” apenas sugere um estado espiritual decaído. O que importa é a mensagem sobre eles estarem presos atualmente, e sobre saírem por ocasião da grande tribulação.

O que este demônio (presumivelmente o “Apoliom”, do v.11) faz então é abrir este Abismo, soltando dali todos os demônios que estavam presos até então, e estes demônios passam a atuar na tribulação, piorando ainda mais as coisas. Estes demônios são simbolizados na figura do “gafanhoto” (v.3), que era usado no Antigo Testamento como uma figura de linguagem para o diabo (Ml.3:11). O texto diz que “lhes foi dado poder como o dos escorpiões da terra” (v.3), ou seja, que o poder que estes anjos caídos e agora livres teriam agora seria o mesmo que os outros demônios têm hoje (os que estão livres). No entanto, Deus protege os “144 mil” (=Igreja) dos danos destes demônios (v.4), de modo que apenas os que não foram selados é que sofrerão esta praga em particular.

O verso 14 mostra quatro anjos (provavelmente anjos caídos, pois trazem a morte – v.15) sendo soltos para matar “um terço” da humanidade. Estes quatro anjos são os mesmos quatro anjos do início do capítulo 7, que foram proibidos de causar a destruição até que os 144 mil fossem selados. Isso nos leva a crer que a Igreja também não passará por esta destruição em específico, mas será preservada por Deus em meio à tragédia.

O número de soldados que lutarão nesta guerra é de 200 milhões (v.16). Este número é presumivelmente literal, uma vez que ele não faz parte da numerologia simbólica que a Bíblia costuma empregar para situações deste tipo. Nunca o exército romano teve 200 milhões de soldados (este era o número da população total na época de Jesus!). Este número tão grande de soldados participando desta batalha na grande tribulação também nos ajuda a perceber que João não estava falando da guerra entre Jerusalém e Roma em 70 d.C (que reuniu apenas alguns milhares de soldados), mas sim sobre uma guerra futura de proporções incomparavelmente maiores.


Apocalipse 10

Este capítulo não apresenta muitas novidades, pois basicamente é apenas uma anunciação do que estava por vir em seguida, isto é, a volta de Jesus e a consumação de todas as coisas. Talvez o mais interessante seja a prova bíblica da canção da Damares“tem sabor de mel”:

“Pegue-o e coma-o! Ele será amargo em seu estômago, mas em sua boca será doce como mel (Apocalipse 10:9)

Brincadeiras à parte, o sabor doce que ele sentiu em sua boca diz respeito à aparência de uma coisa boa e agradável, enquanto o sabor amargo em seu estômago relaciona-se com o conteúdo real deste sistema, essencialmente maligno, que traz sofrimento aos homens. Aqui pela primeira vez o sistema da besta começa a ser desvendado. Um falso sistema bonitinho na aparência, mas desastroso e maligno em realidade.


Apocalipse 11

No verso 2, João afirma que os gentios pisariam na cidade santa durante três anos e meio, que é a segunda metade da grande tribulação, o que significa que nesta segunda parte da guerra Israel será invadido. Note que Jerusalém é chamado de “cidade santa” em plena tribulação apocalíptica, o que contrasta fortemente com a teologia preterista, que situa Jerusalém como sendo a “Babilônia” do mal. Então aparece a figura das duas testemunhas, que tragicamente tem sido interpretadas como sendo duas pessoas, como Elias e Enoque, quando na verdade se trata de uma figura da Igreja e de Israel.

Uma das testemunhas é comparada com a oliveira, e a outra com o candelabro (v.4). A oliveira é uma representação de Israel (veja Rm.11:24), e o candelabro é uma representação da Igreja (veja Ap.1:20). Isso significa que, mesmo durante toda a grande tribulação, a Igreja e Israel estarão testemunhando de Deus aqui na terra (Ap.12:17). Paulo nos fala que nos últimos dias haverá um avivamento em Israel de modo que a plenitude dos israelitas será salva (Rm.11:26). Além da pregação aqui na terra, João sinaliza também (de forma alegórica) os sinais que acompanhariam os que creem (v.6), e então diz que a besta os mataria (v.7), que é uma figura da Igreja e Israel tendo muitos mártires neste período da tribulação (isso é reprisado em 13:10). Os seguidores do sistema da besta festejarão estas mortes (v.10).

Por fim, o “candelabro” e a “oliveira” são arrebatados ao céu diante dos descrentes (v.12), simbolizando o arrebatamento da Igreja e de Israel ao final da grande tribulação. Em seguida, vem o toque da última trombeta, que ocorre no mesmo momento da ressurreição e do arrebatamento dos santos ao final da grande tribulação (1Co.15:52). Ela anuncia que então “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (v.15). Este é o momento em que Jesus começa a reinar (v.17) aqui na terra, no milênio. João então abre um parêntese no livro para tratar de outros acontecimentos que ocorreram antes deste tempo.


Apocalipse 12

Apocalipse 12 é um dos capítulos mais controversos, pois é o utilizado pelos católicos para colocar Maria no Apocalipse como sendo a “mulher vestida do sol” (v.1). Entretanto, como eu já mostrei em outro artigo, os Pais da Igreja entenderam este capítulo como se tratando da Igreja, e não de Maria em particular (clique aqui para conferir). A minha interpretação deste versículo é que a mulher aqui representa Israel. É fácil descobrir isso. O verso 1 diz:

“Apareceu no céu um sinal extraordinário: uma mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça” (Apocalipse 12:1)

Onde mais achamos um relato do sol, lua e doze estrelas? É somente em Gênesis 37:9, que diz:

“E teve José outro sonho, e o contou a seus irmãos, e disse: Eis que tive ainda outro sonho; e eis que o sol, e a lua, e onze estrelas se inclinavam a mim” (Gênesis 37:9)

As doze estrelas, portanto, representam as doze tribos de Israel. Em Gênesis 37:9 é mencionado apenas onze estrelas porque não inclui o próprio José, que está incluído em Apocalipse 12:1. O verso 2 diz que a mulher (Israel) estava grávida do Messias (v.5), que de fato provém de Israel. O relato prossegue mostrando a luta entre Satanás e Miguel por ocasião da Queda, que é uma das poucas passagens bíblicas que nos dão alguma informação acerca disso. O “dragão” (Satanás) atrai um terço dos anjos rebeldes e é atirado para a terra, onde viria a pelejar contra o Messias “no momento em que ele nascesse” (v.4).

De fato, foi isso o que Satanás tentou fazer quando Jesus nasceu, por meio de Herodes, que mandou matar todos os bebês de dois anos para baixo (Mt.2:16). O relato prossegue mostrando a ascensão de Cristo (v.5) e a fuga da “mulher” para o deserto (o deserto aqui representa um local de refúgio espiritual). A perseguição do dragão contra a mulher se manifesta até hoje. Basta ver a quantidade gigantesca de anti-semitas que existe em nosso mundo, mesmo quando este anti-semitismo vem mascarado sob a forma de anti-sionismo. Ninguém foi tão perseguido na história quanto o povo judeu. Não foi por acaso que Hitler considerava os judeus particularmente como uma raça sub-humana que tinha que ser exterminada a qualquer custo – e que resultou no massacre de 6 milhões deles.

O relato bíblico prossegue dizendo que Deus continua ajudando Israel (vs.14-16), confirmando Paulo quando disse que Deus não rejeitou o seu povo (Israel) em Romanos 11:2. Paulo chama Israel de “povo de Deus” e diz que Ele não o rejeitou, e é somente isso que explica o porquê que Israel ainda não foi tirado do mapa, mesmo com tanta perseguição que já sofreu até hoje. Mas o diabo também tem um outro inimigo além de Israel. Além de guerrear contra a “mulher” (Israel), ele também luta contra “os seus descendentes”:

“O dragão irou-se contra a mulher e saiu para guerrear contra o restante da sua descendência, os que obedecem aos mandamentos de Deus e se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus” (Apocalipse 12:17)

Quem são os “descendentes” de Israel? Obviamente, os descendentes de Israel não podem ser o próprio Israel. Tem que ser outra coisa. Biblicamente, a resposta é simples: a Igreja. A Igreja é chamada de o “Israel de Deus” (Gl.6:16), que é a descendência espiritual de Abraão (Gl.3:7), os filhos da promessa (Gl.4:28). E para deixar claro que esta Igreja não é uma instituição religiosa de placa A ou B, João a define como sendo “os que obedecem aos mandamentos de Deus e se mantêm fieis ao testemunho de Jesus” (v.17), ou seja, os verdadeiros cristãos. Portanto, aqui mais uma vez vemos que tanto Israel quanto a Igreja estão na mira do dragão e que ele perseguirá ambos na grande tribulação.


Apocalipse 13

Este é um capítulo crucial para a identificação da besta, junto com o capítulo 17. O verso 1 diz:

“Vi uma besta que saía do mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêmia” (Apocalipse 13:1)

Estas sete cabeças são:

Egito.
Síria.
Babilônia.
Medo-Persa.
Grécia.
Roma.
Império da Besta na Grande Tribulação.

Eu não vou abordar aqui as razões pelas quais estas são as sete cabeças, porque farei isso ao comentar o capítulo 17, que trata sobre as cabeças de uma forma mais aprofundada. Por enquanto, basta ter em mente seus nomes. As dez coroas, por sua vez, são “dez reis que ainda não receberam reino” (17:12), os quais eu também deixarei para comentar mais adiante neste estudo.

Então João começa a descrever a besta, dizendo:

“A besta que vi era semelhante a um leopardo, mas tinha pés como os de urso e boca como a de leão. O dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade” (Apocalipse 13:2)

Mais uma vez, é nos dito que a besta é algo com boa aparência, mas com um conteúdo altamente maligno. Essa besta é o comunismo, e eu escrevi sobre isso neste artigo. Resumidamente, algumas das razões que nos levam a isso são:

Paulo diz que o anticristo (líder do sistema da besta) seria alguém que “se opunha a tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração” (2Ts.2:4). Ou seja, ele não pode ser um imperador romano do primeiro século, que adorava os deuses romanos embora ele mesmo também fosse adorado, e também não pode ser um “cristão”, rabino ou religioso do futuro, mas tem que ser alguém que se opõe a todas as formas de culto e adoração religiosas, ou seja, um sistema essencialmente ateísta, o que o comunismo sempre foi. Marx mesmo disse: “o comunismo começa onde começa o ateísmo”[1].

Este sistema é o responsável por uma imensa quantidade de mortes, especialmente de cristãos, e os regimes socialistas foram os que mais massacraram, fuzilaram e exterminaram pessoas em toda a história. O nazismo de Hitler é fichinha comparado ao comunismo. Enquanto Hitler matou 6 milhões de judeus, os comunistas assassinaram mais de 100 milhões de pessoas no mundo todo (sem falar no estupro de mais de 5 milhões de mulheres). Os dados são expostos no "Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror e Repressão", que é uma obra coletiva de professores e pesquisadores universitários europeus. O livro foi editado por Stéphane Courtois, diretor de pesquisas do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), e seu lançamento ocorreu por ocasião dos 80 anos da Revolução Russa. De lá para cá os comunistas já mataram muito mais, mas os dados coletados até aquele momento mostravam:

• 20 milhões de mortos na União Soviética;
• 65 milhões de mortos na República Popular da China;
• 1 milhão de mortos no Vietname;
• 2 milhões de mortos na Coreia do norte;
• 2 milhões de mortos no Camboja;
• 1 milhão de mortos nos Estados Comunistas do Leste Europeu;
• 150 mil mortos na América Latina;
• 1,7 milhões de mortos na África;
• 1,5 milhões de mortos no Afeganistão;
• 10 mil mortes resultantes das ações do movimento internacional comunista e de partidos comunistas fora do poder.

O comunismo foi também o sistema político que mais perseguiu e assassinou cristãos em toda a história. Se por um lado a Igreja Romana (besta que sobe da terra) assassinou 5 milhões de cristãos na Idade Média, por outro lado o comunismo (besta que sobe do mar) assassinou mais de 100 milhões, sendo boa parte deste quantitativo de cristãos.

Foi também o regime que mais caçou e torturou religiosos em toda a história. O pastor Richard Wurmbrand escreveu sobre os horrores das torturas dos comunistas nos campos de concentração em seu livro “Torturado por Amor a Cristo”, onde mostra que os comunas tinham um prazer especial em torturar os religiosos especificamente, cumprindo sua cartilha ateísta.

O comunismo foi também o regime que mais queimou e destruiu igrejas em toda a história, porque isto era tomado como obrigação do Estado para eles. Os comunistas destruíram completamente 41 mil das 48 mil igrejas existentes na Rússia entre 1917 e 1969. Pastores e padres foram assassinados no altar e no púlpito, e os símbolos religiosos foram completamente retirados da vida pública e privada.

João diz que esta “besta” parecia ter sofrido uma “ferida mortal”, mas foi curada:

“Vi uma besta que saía do mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a um leopardo, mas tinha pés como os de urso e boca como a de leão. O dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade. Uma das cabeças da besta parecia ter sofrido um ferimento mortal, mas o ferimento mortal foi curado. Todo o mundo ficou maravilhado e seguiu a besta” (Apocalipse 13:1-3)

Com a Queda do muro de Berlim, em 03/10/1990, o mundo assistia aliviado aquilo que esperava ser o golpe mortal no comunismo. Alguns até hoje pensam que o comunismo está “morto”. Tão ingênuos que é de dar pena. O fracasso na União Soviética e a Queda do muro de Berlim representaram de fato uma ferida “de morte” no comunismo, mas os comunistas não desistiram. Eles temporariamente abandonaram a guerra com tanques e navios e apostaram alto na guerra cultural, naquilo que é conhecido como “marxismo cultural”, e hoje detém o governo de muitos países e tem suas ideologias sendo livremente disseminadas nas escolas públicas, sendo infundidas na cabeça dos alunos como uma verdade absoluta. Essa é realmente uma ferida mortal que foi curada!

A outra evidência forte de que o comunismo é a besta está no próprio contexto da “marca da besta”, que diz:

“Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome” (Apocalipse 13:16-17)

Você não precisa ter muito estudo político para saber que esse regime de regulação econômica nada mais é senão o comunismo. Comunismo significa Estado máximo, em contraste com o liberalismo econômico de livre mercado e de livre iniciativa, que apregoa o Estado mínimo. Quanto mais próximo do comunismo, maior é o intervencionismo estatal, que é o dedo do Estado se metendo na economia. Consequentemente, menor é a liberdade do indivíduo para comprar e vender. Essa parece ser exatamente a descrição apocalíptica de João, em que há fortes restrições estatais em relação a compra e venda, característica bastante típica do comunismo.

Mais uma vez, ressaltamos que nada disso ocorreu no século I. Não há registros históricos de que alguém não pôde comprar ou vender algo por não receber uma marca no corpo. Isso está para o futuro. Em Apocalipse 13, também temos notícia de que aqueles santos que os pré-tribulacionistas afirmam que já estavam arrebatados no Céu numa “vinda secreta” de Jesus (tão secreta que nem a Bíblia ficou sabendo) seriam perseguidos, levados a cativeiro e mortos:

“Se alguém há de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém há de ser morto à espada, à espada haverá de ser morto. Aqui estão a perseverança e a fidelidade dos santos” (Apocalipse 13:10)

Então João vê outra besta (com outro significado), dizendo:

“Então vi outra besta que saía da terra, com dois chifres como cordeiro, mas que falava como dragão. Exercia toda a autoridade da primeira besta, em nome dela, e fazia a terra e seus habitantes adorarem a primeira besta, cujo ferimento mortal havia sido curado” (Apocalipse 13:11-12)

Essa segunda besta é o papado, e falaremos mais sobre isso quando entrarmos no capítulo 17. Haverá uma união temporária entre a Igreja Romana e o sistema comunista da Nova Ordem Mundial (e já vemos a Igreja cada vez mais pendendo para o lado dos comunistas; a CNBB é praticamente um quartel-general do marxismo e o próprio papa Francisco tem se envolvido com teólogos da libertação e se pronunciado diversas vezes de forma pró-esquerdismo). Em Apocalipse 17:16 vemos que essa união será desfeita posteriormente, e o sistema comunista da besta prevalecerá sobre o papado e o destruirá.

O interessante é que no verso 14 é dito que essa segunda besta fará uma imagem de escultura em honra à primeira besta. Quem é que está sempre acostumado a fazer imagens de escultura? Você já sabe a resposta. Os evangélicos não tem o costume de cultuar imagens, e portanto em teoria estão isentos desta possibilidade. Mas há certa religião que se diz “cristã” e está repleta de imagens; e os fieis se prostram diante delas e as cultuam se tão-somente os clérigos e autoridades religiosas lhes disserem para fazer isso. Assim fica fácil saber de quem se trata.

Sobre o número “666”, ele se aplicará de alguma forma a este sistema da besta. É lógico que, uma vez que estes acontecimentos estão no futuro, será inútil especular aqui sobre a quem ou o que isso se aplica. Pode ser que o sistema da besta tenha um nome que faça alusão ao “666”, ou que a soma das letras do seu nome dê “666”. Mas como isso ainda não aconteceu, é melhor fazermos como Irineu de Lyon (130-202 d.C), um bispo do século II que viveu há apenas duas gerações de João (autor do Apocalipse), e que disse:

“Então é mais acertado e menos danoso esperar o cumprimento da profecia do que ficar fazendo adivinhações ou predições acerca dos possíveis nomes que este anticristo possa ter, já que se pode encontrar muitos nomes que possam conter o número mencionado; e a mesma interrogação seguirá sem resolução (...) Porém, agora ele indica o número do nome, para que quando este homem venha possamos precaver-nos, estando alertas a respeito de quem ele é”[2]

Se essa marca na mão é um chip ou não, também não é possível saber ao certo. Se o Apocalipse fosse hoje, é claro que seria um chip. Mas nós não sabemos como será a tecnologia de amanhã. Pode ser que daqui algumas décadas ou séculos surja uma nova tecnologia muito mais avançada do que o chip, e que ela seja usada na implantação da marca da besta. Por isso é precipitado dizer que é “com certeza” um chip. O que podemos dizer é que, quando isso acontecer, todos os cristãos conscientes da Palavra de Deus saberão identificar e discernir a marca.


Apocalipse 14

No verso 4 vemos um verso que é de vez em quando usado pelos papistas na defesa do celibato obrigatório do clero, que é o seguinte:

“Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois se conservaram castos e seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá. Foram comprados dentre os homens e ofertados como primícias a Deus e ao Cordeiro” (Apocalipse 14:4)

No entanto, é preciso ser muito descarado para usar este versículo na defesa do celibato obrigatório, pois esses que “não se contaminaram com mulheres” são os mesmos “144 mil” (v.1), que já vimos que representam toda a Igreja – não são 144 mil pessoas, literalmente. Será que todos os cristãos de todas as eras eram celibatários? É óbvio que não. O sentido do texto é mais uma vez figurado, assim como todo o resto do Apocalipse. Essa contaminação não se refere ao ato sexual (que dentro do casamento não é de modo algum considerado pecaminoso por Deus!), mas sim uma referência à contaminação do pecado, este sim que pode fazer com que um crente perca a salvação.

Segue a isso mais um prenúncio do juízo contra a Babilônia (vs.7-8) e então vem um verso que é ridiculamente tirado do contexto pelos imortalistas, numa vã tentativa de provar o “tormento eterno” pela Bíblia:

“Será ainda atormentado com enxofre ardente na presença dos santos anjos e do Cordeiro, e a fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre. Para todos os que adoram a besta e a sua imagem, e para quem recebe a marca do seu nome, não há descanso, dia e noite" (Apocalipse 14:10-11)

Além de absurdamente tomar estes versos ao pé da letra (quando já vimos que o Apocalipse usa linguagem simbólica e figurada), eles não se dão conta que nem assim conseguem provar o tormento eterno por este versículo. Note que ele não diz que o tormento subiria para todo o sempre, mas sim a fumaça do tormento. Comentando este texto, o mundialmente respeitado teólogo John Stott escreveu:

“O fogo mesmo é chamado ‘eterno’ e ‘inextinguível’, mas seria muito estranho se aquilo que nele fosse jogado se demonstrasse indestrutível. Esperaríamos o oposto: seria consumido para sempre, não atormentado para sempre. Segue-se que é o fumo (evidência de que o fogo efetuou seu trabalho) que ‘sobe para todo o sempre’ (Ap.14:11)”[3]

Há um paralelo bíblico muito claro e interessante com este texto, que está em Isaías 34:9-10, que diz:

“Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó, em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela” (Isaías 34:9-10)

Aqui, mais uma vez é nos dito enfaticamente que o fogo que cairia em Edom nem de dia nem de noite se apagaria, e que subiria para sempre a sua fumaça, de geração após geração. Note que esta é exatamente a mesma linguagem utilizada por João, que usava elementos e expressões bíblicas em seu livro. Mas por acaso há um fogo queimando em Edom até hoje? É claro que não. Edom foi destruído e os edomitas não existem mais. O fogo é “eterno” por ter efeitos eternos, e não por ser eterno em si mesmo (no processo). Em outras palavras, o que há aqui é uma destruição total (aniquilacionismo) que se evidencia através de uma “fumaça eterna”. Ao invés deste texto provar o tormento eterno, ele favorece muito mais o aniquilacionismo!

Nem tampouco a parte que diz que eles “não teriam descanso” é uma prova de tormento eterno. Há duas interpretações possíveis para o termo. Ele pode estar dizendo que eles não terão descanso durante o período de seu tormento (que não é eterno), ou este descanso pode ser uma referência ao descanso eterno (vida eterna), uma vez que apenas dois versos adiante vemos que a mesma palavra “descanso” é usada neste sentido (v.13). Se este for o caso, o que o texto está dizendo é que eles não terão descanso, ou seja, não entrarão no descanso de Deus, que é a vida eterna, da qual estarão eternamente excluídos.

Nos últimos versos do capítulo, há mais um prenúncio da segunda vinda e do juízo (vs.15-20).


Apocalipse 15

O capítulo 15 é apenas uma introdução às sete últimas pragas que estariam por vir. Vamos a elas.


Apocalipse 16

As sete taças da ira de Deus são extremamente semelhantes às pragas oriundas das sete trombetas do capítulo 8, de modo que nos leva a pensar que se referem aos mesmos acontecimentos, com leve variação. Mais uma vez vemos pragas (v.2), mar se transformando em sangue (v.3), pessoas morrendo queimadas (v.9), trevas sobre a terra (v.10), e assim por diante. Interessante é notar que em plena grande tribulação, quando a treta já está rolando solta, Jesus diz isso:

“Eis que venho como ladrão! Feliz aquele que permanece vigilante e conserva consigo as suas vestes, para que não ande nu e não seja vista a sua vergonha” (Apocalipse 16:15)

Ou seja: a volta de Jesus ao final da grande tribulação seria “como um ladrão”, o que fulmina a tese pré-tribulacionista que afirma que esta vinda como um ladrão se dá antes de toda a tribulação apocalíptica.

No verso 13, é nos dito que três espíritos imundos provêm do dragão (Satanás), da besta (sistema mundial comunista operante na tribulação) e do falso profeta (papado), e que estes espíritos fazem sinais miraculosos.

Muita especulação tem sido feita sobre a identidade destes três falsos espíritos. Alguns têm sugerido que se trata de três grandes religiões que seriam influenciadas e levadas a aceitar o domínio do império da besta e do falso profeta enquanto temporariamente unidos. Eu me arrisco a dizer que possivelmente (mas longe de afirmá-lo dogmaticamente) se trata do islamismo (maior religião do mundo e a que mais cresce), do judaísmo (antes dos judeus serem traídos pelo anticristo, como previu o profeta Daniel, em Dn.9:27) e do Cristianismo oficial (i.e, o Cristianismo em sua forma legitimada pelo Estado, que concorda com os princípios anticristãos do sistema da besta, enquanto os legítimos cristãos estarão sendo perseguidos pelo Estado e se reunindo secretamente, como os primeiros cristãos faziam).

Todos eles juntos empregarão forte perseguição contra Israel e a Igreja (e ambos se tornando um só, uma vez que cada vez mais israelitas continuamente se converterão a Cristo e passarão a integrar a Igreja), e é dentro deste contexto que a sétima e última taça é lançada ao ar, de onde vem Jesus para arrebatar sua Igreja:

“O sétimo anjo derramou a sua taça no ar, e do santuário saiu uma forte voz que vinha do trono, dizendo: ‘Está feito!’ Houve, então, relâmpagos, vozes, trovões e um forte terremoto. Nunca havia ocorrido um terremoto tão forte como esse desde que o homem existe sobre a terra. A grande cidade foi fracionada em três partes, e as cidades das nações se desmoronaram. Deus lembrou-se da grande Babilônia e lhe deu o cálice do vinho do furor da sua ira. Todas as ilhas fugiram, e as montanhas desapareceram” (Apocalipse 16:17-20)

O anjo joga a última taça “no ar”, e então diz “está feito”, porque é ali mesmo, nos ares, que Jesus volta, acabando com toda a tribulação na terra (1Ts.4:17). O resto da linguagem é fortemente caracterizado por hipérboles: as nações se desmoronando, as ilhas “fugindo” e as montanhas “desaparecendo” representam a total e completa destruição da antiga ordem e dos ímpios que fazem parte deste sistema. O abalo causado por este acontecimento tão grandioso e impactante é comparado ao “maior terremoto desde que o homem existe sobre a terra” (v.18).


Apocalipse 17

Apocalipse 17 é o capítulo que identifica a Babilônia espiritual mais claramente. O verso 1 começa dizendo que ela é uma “prostituta”. A figura da “prostituta” na Bíblia, quando usada em sentido alegórico, está sempre relacionada à apostasia. É essa a razão pela qual nós nunca vemos o termo “prostituta” sendo usado na Bíblia para qualquer nação ímpia, mas apenas para Israel (ex: Os.6:10; Jr.13:27; Mq.1:7; Jr.3:8). A razão pela qual havia tantos povos ímpios, mas somente Israel era chamado de “prostituta”, é porque os outros povos não apostataram. Para haver a apostasia é preciso “renegar à fé”, e ninguém renega a algo que não estivesse dentro antes. A “prostituição” espiritual envolve sempre alguém que uma vez esteve na fé, mas depois se desviou dela. Foi assim com Israel, por exemplo, nos tempos da antiga aliança (Jr.3:8-10).

Mas no Apocalipse não estamos mais na antiga aliança, mas na nova aliança (Hb.12:24; 8:13; 8:8; 9:15; 2Co.3:6). A “prostituição” (apostasia) aqui não se refere mais ao antigo Israel, que já havia tido o Reino tirado deles e dado à Igreja, no mesmo momento em que condenaram Jesus à morte (Mt.21:43). A partir da morte e ressurreição de Jesus, inicia-se a era da Igreja, e é portanto a uma igreja e não a Israel que se aplica a figura simbólica da “prostituta”.

Mas não é só por isso que Israel não pode ser a prostituta do Apocalipse. Em meu artigo intitulado "Por que Jerusalém não é a Babilônia do Apocalipse", eu listei uma série de evidências bíblicas que fulminam com a tese de que Jerusalém seja a Babilônia, como afirmam os preteristas. Este artigo até hoje não foi comentado nem refutado por preterista nenhum. As evidências são esmagadoras. Alguns contrastes que posso elencar aqui bem resumidamente são:

• A destruição da Babilônia é festejada por Deus e pelos santos (Ap.18:20-24), mas Israel nunca teve sua destruição como sinônimo de alegria ou festa, nem mesmo em seus tempos de maior pecado e apostasia. Ao contrário, a destruição de Israel é sempre sinônimo de enorme tristeza e lamentação (Ne.1:7-9).

• A Babilônia era uma grande cidade que reinava na época de João sobre todos os reis da terra (17:18), mas Jerusalém era apenas uma cidade destruída pelos exércitos romanos e que há séculos já não exercia autoridade nenhuma sobre absolutamente ninguém.

• A destruição da Babilônia seria perpétua (18:21-23), mas, pouco depois do relato da destruição da Babilônia, Jerusalém aparece no Apocalipse como a “cidade amada”, muito bem viva e consolidada (20:9).

• Após a destruição da Babilônia, que os preteristas afirmam que ocorreu em 70 d.C, não haveria nunca mais nela o som dos harpistas, dos músicos, dos flautistas, dos tocadores de trombeta, dos artífices, do ruído de pedras de moinho, de noivos e noivas, nem comércio (18:22-23), mas em Israel há todas essas coisas até hoje.

• A Babilônia, até o momento de sua repentina destruição, estava assentada como rainha e dizia que nunca teria tristeza (18:7). Jerusalém, no entanto, já havia sido saqueada e destruída várias vezes antes de 70 d.C, quando o povo judeu foi deportado de Jerusalém e levado em cativeiro, passando por enorme tristeza e aflição. Jamais a descrição sobre nunca ter tido tristeza se aplicaria a ela, nem tampouco o fato de estar “assentada como rainha”, visto que em 70 d.C Jerusalém não passava de mera província romana, sob o governo de reis romanos.

• A Babilônia é odiada por Deus (18:20-21), mas Deus ama Israel, mesmo quando Israel se desvia de Deus (Mt.5:35).

• A condenação da Babilônia é para sempre (18:22-23), mas a condenação de Jerusalém é temporária, havendo inúmeras promessas de retorno à terra, de restauração e de avivamento em Israel (Zc.14:10-11; At.1:6-7; Rm.11:26).

• A Babilônia nunca mais existiria (18:21), mas Israel existe até hoje.

• A Babilônia seduziria todas as nações com sua feitiçaria (18:23), mas Israel jamais teve uma influência tão grande sobre o mundo todo.

• No dia do Senhor, a Babilônia estaria destruída (18:8), mas neste mesmo dia Jerusalém sairia vitoriosa (Zc.14:1-15).

Biblicamente, o enorme e gigantesco contraste entre Jerusalém e Babilônia elimina por completo qualquer resquício de possibilidade de que Jerusalém seja a Babilônia do Apocalipse, sendo necessário um enorme malabarismo mental e desonestidade intelectual para incluí-la neste rótulo – ou um enorme ódio ao povo judeu, como muitos tem hoje. A tese de que Jerusalém é a Babilônia do Apocalipse é uma tese fracassada que só engana incautos.

Mas se a Babilônia não é Israel, ela só pode se referir a uma igreja, visto que apenas com Israel e com a Igreja é que Deus estabeleceu pactos, e, portanto, é somente a eles que pode se aplicar o termo “prostituta”. Já vimos que Israel, embora tenha cometido prostituição nos tempos do Antigo Testamento, está muito longe de ser a prostituta do Apocalipse, pela enorme quantidade de contrastes entre ambos. Então sobra uma igreja. Quem é ela? João nos dá mais pistas:

• Esta igreja apóstata se prostituiu com os reis da terra (v.2). A Igreja Romana tanto se prostituiu com os reis da terra que tem um Estado inteiro só deles (Estado do Vaticano). Qualquer leigo que faça uma introdução básica em história sabe que houve épocas em que a Igreja Romana tinha um poder tão grande que se sobressaía ao poder do Estado, chegando até a brigar e a depor reis da terra, e a se unir com eles para seus propósitos mundanos. Essa descrição cai como uma luva na Igreja de Roma!

• Esta igreja apóstata está coberta de nomes blasfemos (v.3). A Igreja Romana declara que o papa é o vigário de Cristo e o Sumo Pontífice terreno. O termo vigário, literalmente, significa “substituto”, e o único legítimo substituto que Cristo nos deixou foi o Espírito Santo (Jo.14:16). E biblicamente, apenas Jesus é o nosso Sumo Pontífice, como provei neste artigo (altamente recomendado). Portanto, a Igreja Romana se coloca no lugar de Jesus e do Espírito Santo. Isso é uma enorme blasfêmia (e eu nem vou comentar aqui sobre os dogmas marianos que a colocam quase acima de Deus!).

• Esta igreja apóstata está adornada com ouro, pérolas e pedras preciosas (v.4). Eu nem preciso comentar isso. Qualquer infante sabe qual é a igreja mais rica do mundo, ao ponto de possuir um país inteiro. É a mesma que lucrou enormemente na Idade Média vendendo o perdão dos pecados através das indulgências.

• Esta igreja apóstata está embriagada com o sangue dos mártires (v.6). Todo mundo sabe qual igreja no passado usou a inquisição como um instrumento de perseguição, repressão, tortura e morte de quem não concordava com ela, levando a inúmeros martírios, dentre eles o de William Tyndale, João Huss, Giordano Bruno, Joana d'Arc, dentre muitos outros. O próprio Lutero só não foi assassinado também porque foi salvo pelo príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico III, que o sequestrou durante uma viagem e o protegeu em seu castelo.

• Esta igreja apóstata tem uma forte ligação com a cidade das sete colinas (v.9), que reinava sobre todos os reis da terra no século I (v.18), ou seja: Roma. Curiosamente, esta igreja apóstata se chama Igreja Católica Apostólica... Romana.

Portanto, a mulher montada na besta (prostituta), identificada como sendo a “Babilônia” espiritual do Apocalipse, não é outra coisa senão a Igreja Católica Romana. Uma vez estando isso claro, a figura do “falso profeta” do Apocalipse (16:13; 19:20; 20:10) é com toda a probabilidade o líder religioso deste falso sistema, ou seja, o papa que reinará na época da grande tribulação (não confunda o papa com o anticristo, pois o anticristo é o líder político do sistema da besta, e não um líder religioso como o papa).

Apocalipse 17 fala também das sete cabeças e dez chifres. As sete cabeças, como vimos, são os sete grandes impérios do passado até o presente, sendo eles:

Egito.
Síria.
Babilônia.
Medo-Persa.
Grécia.
Roma.

Note que João afirma:

“São também sete reis. Cinco já caíram, um ainda existe, e o outro ainda não surgiu; mas, quando surgir, deverá permanecer durante pouco tempo” (v.10)

Tenha em mente que João escreveu isso em 96 d.C. Na época, “cinco já caíram”, ou seja, do Egito até a Grécia. “Um existe”, ou seja, Roma. João escrevia justamente no auge do império romano. Mas João também fala de um sétimo que “ainda não surgiu”, mas que quando surgisse duraria pouco tempo. Este é o império da besta em seus primeiros três anos e meio (um tempo extremamente curto se comparado com o tempo em que os outros reinaram).

Este império da besta (cujo nome ainda não sabemos) será uma aliança entre nações e religiões. O anticristo fará uma aliança com os judeus e com a Babilônia, que inicialmente darão apoio à besta. Mas depois desta primeira metade da grande tribulação o anticristo mostrará a sua verdadeira face e romperá o acordo com os judeus (Dn.9:27), passando a persegui-los. Ele também desfará a aliança com a Babilônia, e a destruirá completamente (v.16). Neste momento, o império da besta é dissolvido, pois é fracionado. Então João nos fala sobre um outro império, o oitavo:

“A besta que era, e agora não é, é o oitavo rei. É um dos sete, e caminha para a perdição” (Apocalipse 17:11)

Por muito tempo eu tive problemas com este texto, porque este texto conforme a tradução da NVI (versão usada ao longo de todo este estudo) deixa entender pela expressão “e agora não é” que a besta era algo que já existia antes do tempo de João e deixou de existir em seus dias (o “agora” em questão). Isso acabaria com a tese de que a besta é um sistema comunista. Mas ao conferir o original grego, vi que o “agora” não consta ali. Ao contrário, o texto somente diz:

“και (e) το (a) θηριον (besta) ο (que) ην (era) και (e) ουκ (não) εστιν (é) και (é) αυτος (ele mesmo) ογδοος (o oitavo)

O verso então pode ser simplesmente traduzido como:

“E a besta que era, e não é, é ela mesma o oitavo...”

Ou seja, João não estava falando em termos temporais (i.e, se a besta existia ou não na época dele), mas sim que esta besta é aquela mesma que “era e não é”, fazendo alusão àquilo que ele já havia dito em 13:3, o texto que diz que a besta teve uma ferida de morte (“e não é”), mas que foi curada. Em outras palavras, ele não estava dizendo que a besta existia há um tempo remoto antes dele, depois deixou de existir no tempo dele e voltaria a existir no futuro, mas sim que a besta era aquela mesma que tinha “morrido” e “revivido” em sua visão profética do capítulo 13. E o que corrobora e fortalece essa interpretação é o contexto, que diz que o “sétimo rei” ainda não tinha surgido, e o oitavo viria depois dele.

Ora, se o oitavo rei vem depois do sétimo, e o sétimo ainda não tinha chegado, então de fato era algo que estava no futuro, e não um sistema já vigente nos tempos de João. E João diz que a besta é “um dos sete”, porque de fato esse oitavo império é somente uma continuação do sétimo, após ele ser fracionado e ter a necessidade de se restaurar. É aí que aparece a figura dos “dez chifres”, nas palavras de João:

“Os dez chifres que você viu são dez reis que ainda não receberam reino, mas que por uma hora receberão autoridade como reis, juntamente com a besta. Eles têm um único propósito, e darão seu poder e sua autoridade à besta” (Apocalipse 17:12-13)

A expressão “por uma hora” é uma figura de linguagem que significa “por pouco tempo”. Isso se encaixa perfeitamente bem, dentro da tese de que isso faz referência aos últimos três anos e meio da grande tribulação. Estes dez reis são dez nações (não podemos ainda saber quais são exatamente, mas presumivelmente serão países importantes) que darão apoio à besta (sistema comunista do governo mundial) em sua batalha contra os judeus e cristãos (v.14). Graças ao apoio destes dez reinos, a besta conseguirá destruir a “prostituta”:

“A besta e os dez chifres que você viu odiarão a prostituta. Eles a levarão à ruína e a deixarão nua, comerão a sua carne e a destruirão com fogo, pois Deus colocou no coração deles o desejo de realizar o propósito que ele tem, levando-os a concordarem em dar à besta o poder que eles têm para reinar até que se cumpram as palavras de Deus” (Apocalipse 17:16-17)

É justamente quando a besta se rebela contra a sua até então aliada – a prostituta – que ocorre a destruição da Babilônia, uma vez que a prostituta e a Babilônia representam a mesma coisa. Essa é a tônica de todo o capítulo seguinte.


Apocalipse 18

Este capítulo inteiro é uma comemoração à destruição da “Babilônia”. Ele como um todo demonstra de forma cabal que definitivamente não se trata de Jerusalém, como erroneamente afirmam os preteristas. Quem quiser ver meus comentários a este respeito, juntamente com um estudo mais completo sobre o porquê que Jerusalém não é a Babilônia (cuja tônica está justamente em torno deste capítulo), dirija-se a este artigo.


Apocalipse 19

Após a destruição da Babilônia, há o reencontro entre Cristo e o Seu povo (arrebatamento da Igreja), descrito desta forma:

“E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina. Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. Foi-lhe dado para vestir-se linho fino, brilhante e puro’. O linho fino são os atos justos dos santos. E o anjo me disse: ‘Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro! ‘E acrescentou: "Estas são as palavras verdadeiras de Deus’” (Apocalipse 19:6-9)

Como vemos, o anúncio das bodas do Cordeiro ocorre somente em Apocalipse 19, depois de todas as tribulações apocalípticas, já que a grande tribulação termina no capítulo 18, com a queda da grande Babilônia. Se as bodas do Cordeiro são “vindas” (ou seja, estão próximas) em Apocalipse 19, depois da tribulação, é porque elas não ocorreram ainda. O texto pós-tribulacional de Apocalipse 19:6-7 não diz que as bodas já foram celebradas há sete anos (como ensinam os pré-tribulacionistas), ao contrário: diz que as bodas ainda viriam a ser celebradas! Se no final da tribulação há o anúncio que as bodas estavam chegando, é porque elas só chegariam depois disso. Portanto, a conclusão lógica que se chega é que Cristo comemorará as bodas conosco no milênio (que se inicia logo na sequencia), e não no Céu antes da tribulação.

O verso 10 é um interessante relato de João tentando se prostrar diante do anjo, e sendo repreendido por causa disso:

“Então caí aos seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: ‘Não faça isso! Sou servo como você e como os seus irmãos que se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus. Adore [proskuneo] a Deus! O testemunho de Jesus é o espírito de profecia’" (Apocalipse 19:10)

Como vemos, João praticou proskuneo (adoração) ao anjo, isto é, ele se ajoelhou e se prostrou em homenagem ou reverência expressando respeito a ele, mas qual foi a reação do anjo? Aceitou numa boa, exatamente como os católicos pensam que tem que ser? Ao contrário: disse um sonoro “não faça isso” (que todos os católicos deveriam ouvir), seguido de um: “adore a Deus” (que é o que os evangélicos estão sempre dizendo)! Portanto, o anjo considerou aquele ato como sendo um ato idólatra, de adoração, e que deveria ser dirigido somente a Deus.

Nós não estamos falando de qualquer um. Estamos falando de ninguém menos que o grande apóstolo João, o discípulo amado, o escritor de um evangelho, de três cartas pastorais e do Apocalipse, do “discípulo amado” (Jo.13:23) que conviveu com Jesus durante três anos até a crucificação, que guiou as igrejas cristãs por décadas, inclusive dizendo: “guardem-se dos ídolos” (1Jo.5:21). Portanto, não estamos falando de um pagão, ou de um idólatra, de um ignorante qualquer que não saiba a “diferença entre adorar e venerar”, que não fosse monoteísta ou que pensasse que aquele anjo era um deus. Certamente, o apóstolo pensava que se prostrando diante do anjo não estaria cometendo idolatria, mas estaria apenas o reverenciando, exatamente como os católicos dizem fazer com as imagens dos santos.

Mas o anjo, ao invés de interpretar dessa maneira, condenou a atitude de João considerando um ato idólatra, que somente poderia ser dirigido a Deus. Esse anjo “protestante rebelado” não disse isso à toa. Isso só está na Bíblia porque Deus sabe muito bem que é possível que alguém monoteísta, cristão, que sabe que só se deve adorar a Deus e que sabe bem a diferença entre um ídolo e um humano (ou anjo), mesmo assim cometa idolatria se prostrando diante de alguém que não seja Deus, pois este ato é condenado biblicamente, salvo quando é apenas um cumprimento natural entre duas pessoas como fruto da tradição e cultura de toda uma sociedade, como é o caso dos patriarcas no Antigo Testamento, ou dos japoneses até hoje.

Obviamente essa não é a realidade no Brasil: católicos se prostram diante de imagens de pau e de pedra para prestar-lhes culto, coisa que já no tempo do Novo Testamento era proibido. Mas os católicos se superam: não apenas se prostram diante das imagens, como também rezam a elas, pedem intercessão, entoam louvores, tocam, beijam, levam em procissão, enchem os templos com elas, fazem promessas a elas, as cultuam, e mais uma série de coisas que nem Cornélio (At.10:25-26) nem João (19:10) fizeram, e foram repreendidos por muito menos. E depois dizem que só veneram!

No final do capítulo, há o relato de como Jesus e o seu exército destroem todos os ímpios que haviam restado na terra (vs.17-21), restando assim apenas os santos ressurretos ou arrebatados para passar o milênio na terra.


Apocalipse 20

Nos versos 1 a 3, há o xeque-mate em toda a baboseira amilenista e pós-milenista, no texto que diz:

“Vi descer do céu um anjo que trazia na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o acorrentou por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs um selo sobre ele, para assim impedi-lo de enganar as nações até que terminassem os mil anos. Depois disso, é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo” (Apocalipse 20:1-3)

É preciso entender que, na visão preterista, a grande tribulação é a guerra entre Jerusalém e Roma, que se culminou em 72 d.C, com a destruição do templo de Jerusalém. Como o milênio é pós-tribulacional, então para eles o milênio se estende de 72 d.C até o dia da volta de Jesus. Mas essa teologia cria inúmeros conflitos com a Bíblia, uma vez que o texto é claro em dizer que no milênio Satanás estará preso, e não solto! Olhe o mundo à sua volta e me diga que o diabo está “preso”. Guerras, assassinatos, estupros, violência generalizada, drogas, prostituição, adultérios, pedofilia, promiscuidade cada vez mais crescente... se Satanás está preso hoje, então imagine como o mundo estaria se ele estivesse solto!

Deveríamos esperar que o mundo antes de 72 d.C (Satanás solto) fosse infinitamente pior do que o mundo depois de 72 d.C (Satanás preso). Mas é a mesma porcaria. Não mudou nada. Satanás não foi preso coisa nenhuma. A teoria de que Satanás está “preso” é fruto do malabarismo dos preteristas em seu desespero de tentar conciliar os dados bíblicos com sua linha escatológica, e esta incompatibilidade dá nisso: uma teologia furada que qualquer menino de cinco anos consegue perceber os erros grotescos. É uma teologia de costura e remendo: se certo dado claramente contradiz a doutrina deles, eles preferem dar cambalhotas de eisegese para enfiá-la dentro da teologia assim mesmo, do que voltar atrás e reconhecer que estão errados.

João segue falando agora da ressurreição dos mortos:

“Vi tronos em que se assentaram aqueles a quem havia sido dada autoridade para julgar. Vi as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus. Eles não tinham adorado a besta nem a sua imagem, e não tinham recebido a sua marca na testa nem nas mãos. Eles ressuscitaram e reinaram com Cristo durante mil anos. O restante dos mortos não voltou a viver até se completarem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição” (Apocalipse 20:4-5)

Dizer que essa ressurreição é meramente espiritual e significa somente que durante o “milênio presente” a Igreja está reinando com Cristo no Céu é ferir a exegese e o bom senso. Para os imortalistas, a Igreja já estava reinando antes de 72 d.C; portanto, antes do “milênio” dos amilenistas. O que mudou? Nada. É um milênio de mentirinha, que não muda nem altera uma vírgula do que aconteceria caso ele não existisse. Fantasia pura. Dizer que a Igreja no Céu estará “vencendo” ou “reinando” é redundância total. Desnecessário. É lógico que no Céu há vitória. Mas João parece estar dizendo bem mais do que isso. A ressurreição aqui é literal, ao final da grande tribulação que está por vir.

O principal ponto de disputa é se aqui a ressurreição física é somente dos mártires, ou se os mártires representam todo o povo de Deus. Embora eu já tenha defendido a primeira posição, hoje penso que a segunda seja bem mais defensável, especialmente com base no texto de 1ª Tessalonicenses 4:13-18, quando Paulo vai consolar os parentes falecidos dos tessalonicenses com a esperança de que eles os veriam novamente por ocasião da ressurreição (e não em um estado intermediário no Céu, como creem os imortalistas!), e diz que isso ocorrerá na volta de Jesus. Portanto, aqueles santos que já haviam morrido ressuscitarão na segunda vinda de Cristo, e não ao final do milênio. Isso me leva a crer que os mártires aqui são uma representação de todos os salvos, de todas as eras.

De que forma isso pode ser possível? Lembre-se mais uma vez que João trabalhava em cima de alegorias. Jesus disse que “se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc.9:23). Paulo confirmou isso dizendo que eu morro todos os dias” (1Co.15:31). Em certo sentido, portanto, todos os crentes são mártires, porque morrem para si mesmos, a fim de viverem para Cristo. Levando em consideração o ensino geral das Escrituras sobre ressurreição, juntamente com o fato de João trabalhar com alegorias e essa se encaixar bem, é provável, portanto, que a primeira ressurreição seja a ressurreição de todos os justos, e a segunda ressurreição (ao término do milênio) de todos os maus.

Jesus então reina com a Igreja na terra por mil anos, mas, ao final deles, João diz:

“Quando terminarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá para enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim de reuni-las para a batalha. Seu número é como a areia do mar. As nações marcharam por toda a superfície da terra e cercaram o acampamento dos santos, a cidade amada; mas um fogo desceu do céu e as devorou” (Apocalipse 20:7-9)

Muitos têm me perguntado: quem é essa multidão que Satanás ajunta para atacar os salvos em Jerusalém? Os pré-tribulacionistas sugerem que sejam gerações posteriores de ímpios sobreviventes à grande tribulação, mas a Bíblia não fala de ímpios sobreviventes. Jesus disse que todos seriam destruídos por ocasião da sua vinda (Mt.17:26-30), comparando com a destruição de todos os ímpios no dilúvio (Lc.17:27) e de todos os ímpios de Sodoma e Gomorra (Lc.17:29), e é isso o que 19:31 parece indicar, ao dizer que os demais [i.e, todos os outros] foram mortos com a espada que saía da boca daquele que está montado no cavalo”. Então o texto não está falando de gerações posteriores de ímpios sobreviventes no milênio, período no qual só haverá justos na terra. Ele está falando de quem?

A resposta está justamente no verso anterior (v.5), que diz que há uma segunda ressurreição, após o milênio. Por inferência lógica, se a primeira ressurreição, como vimos, se refere a todos os justos, então a segunda ressurreição só pode se referir aos demais, ou seja, a todos os ímpios. Estes ímpios ressuscitam ao final do milênio, no mesmo momento em que Satanás é solto da prisão, e Satanás se junta a eles para uma batalha final contra Cristo e o Seu povo em Jerusalém, a “cidade amada” (20:9). O resultado disso é que os ímpios e Satanás são totalmente devorados pelo fogo (v.9), aniquilados para todo o sempre.

O verso 10 tem sido utilizado por alguns imortalistas na defesa do tormento eterno do diabo, o qual não possui nenhuma base fora daqui. Mas tendo em vista que a besta é um sistema e não uma pessoa, dificilmente este “tormento pelos séculos por séculos” significa o que estamos acostumados a entender em livros histórico-literais, diferentes do Apocalipse, o qual é fundamentalmente alegórico-hiperbólico. F. F. Bruce, um dos maiores teólogos e eruditos de todos os tempos, reconheceu isso ao dizer que este verso ensina a total destruição do mal, ao invés de um “tormento eterno” impossível de ser sofrido por um sistema ou reino:

"Os dois prisioneiros anteriores evidentemente ainda estão aí, pois, junto com seu novo companheiro, serão atormentados dia e noite, para todo o sempre. Visto que a besta e o falso profeta são figuras representativas de sistemas, e não de indivíduos, está em vista aqui evidentemente a destruição definitiva do mal”[4]

[Eu escrevi mais sobre isso neste, neste e neste artigo]

No verso 13, João nos diz:

“O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feito. Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte” (Apocalipse 20:13-14)

Este verso também é fatal para os imortalistas, pois eles creem que o Hades seja o inferno (i.e, um lugar de sofrimento com fogo), e também creem que o lago de fogo seja um lago de fogo literal, também com sofrimento. Então você já pode pensar na cena em que um lago de fogo literal é lançado para dentro de outro lago de fogo literal! Essa é a maravilhosa teologia imortalista: um inferno sendo lançado para dentro de outro inferno. Sensacional!

Saindo do campo das loucuras e entrando no espectro bíblico, o Hades (o Sheol do Antigo Testamento), como eu escrevi neste artigo, não tem nada a ver com um lugar de sofrimento ou “inferno”, mas é, primariamente, a sepultura coletiva e universal de todos os mortos. Isso traz novamente sentido ao texto violado pelos imortalistas. O mar dá os seus mortos (i.e, todos os corpos que estavam dentro dele), o Hades também (i.e, todos os corpos que estavam na terra), e a morte também (i.e, todos os corpos que já haviam deixado de existir e não estavam mais em algum local físico da terra). Nenhum trata de almas incorpóreas sendo religadas a corpos físicos, nem de inferno sendo lançado em outro inferno. Isso é bizarrice imortalista, fruto da teologia deturpada deles.

O sentido básico do texto é que aquelas pessoas que haviam passado pela primeira morte agora passariam pela segunda morte (simbolizada pela figura do “lago de fogo”), que é a morte final e definitiva. A diferença entre a primeira e a segunda morte é que a primeira é uma morte temporária, porque existe ressurreição para o juízo e castigo, enquanto a segunda morte é eterna, porque o morto não irá ressuscitar para voltar à vida nunca mais. Esta é a “segunda morte”.


Apocalipse 21

Apocalipse 21 é um capítulo que necessita de poucas explanações; basicamente ele é a prova de que passaremos a eternidade na nova terra e não no céu, como se crê tradicionalmente. Se você quiser ler um estudo aprofundado sobre isso, clique aqui, que é onde eu explano sobre isso mais profundamente. Aqui eu irei apenas resumir o que o capítulo 21 de Apocalipse ensina sobre isso. No verso 1, é dito que Deus fez novo céu e nova terra. No verso 2, a “Nova Jerusalém” desce do céu para a nova terra, se estabelecendo aqui, e não lá. No verso 3, é dito que “agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá”. Note que não é o homem que vai até o tabernáculo de Deus, e sim o tabernáculo de Deus que então estará com os homens, e, por isso, “Deus estará com eles(ao invés de dizer que “eles estarão com Deus”).

Nesta nova criação de Deus, o mal estará para sempre eliminado, pois “não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (v.4). O mal será definitivamente aniquilado, a morte será definitivamente vencida, Satanás será definitivamente destruído, os ímpios serão definitivamente liquidados; nunca mais haverá blasfêmia, maldição, gritos, clamor, dor, luto ou sofrimento algum em parte nenhuma do Universo. Será a vitória definitiva e conclusiva da luz sobre as trevas. O mal receberá, de uma vez por todas, o seu golpe mais fatal. Nunca mais haverá nenhuma mancha de pecado, em parte alguma do Universo. Ao invés de ser a perpetuação do pecado e do mal, será a eliminação do pecado e do mal.

O que se segue é uma breve descrição de como será a cidade celestial que se estabelecerá na terra transformada (vs.10-27).


Apocalipse 22

No verso 2, aparece a árvore da vida, a mesma que estava no Jardim do Éden, que concederia imortalidade a Adão e a Eva caso eles a comessem (Gn.3:22). Mas eles não comeram desta árvore da vida, e foram expulsos do Paraíso, o qual foi guardado com anjos para que nenhum homem tentasse entrar no Jardim e comer da árvore da vida (Gn.3:24). Séculos mais tarde, acontece um evento universal e marcante na história da humanidade: o dilúvio, o qual devastou toda a terra e mudou completamente a configuração do planeta (clique aqui para ler mais a respeito). O dilúvio também destruiria o Jardim, mas, segundo a tradição judaica, pouco antes do dilúvio ocorrer Deus decidiu trazer o Paraíso terrestre para junto da sua presença, para que ele não fosse destruído no cataclismo.

Assim sendo, o Paraíso terrestre (Jardim do Éden) sobe ao Céu, se tornando um Paraíso celestial. É por isso que no Novo Testamento vemos o apóstolo Paulo dizendo que o Paraíso está hoje no terceiro céu, na presença de Deus (2Co.12:2-4). Ali está a árvore da vida (imortalidade) da qual os seres humanos se afastaram, atraindo para si a mortalidade natural. Mas Deus nos deu uma promessa: chegará o dia em que este Paraíso descerá novamente a terra (21:2), ocasião na qual o homem desfrutará de imortalidade, comendo livremente da árvore da vida.

O Paraíso subiu aos céus para ser poupado da destruição da terra, mas voltará a terra quando a mesma for regenerada. O homem optou pela mortalidade quando decidiu desobedecer ao Senhor (Gn.3:4), mas desfrutará da imortalidade através Daquele que por nós morreu e ressuscitou, pois Ele próprio é “a ressurreição e a vida” (Jo.11:25). Essa é a promessa que Ele nos deu: a “regeneração de todas as coisas” (Mt.19:28), que voltarão ao seu devido lugar quando Jesus retornar em poder e em glória, ressuscitando os mortos e lhes dando vida eterna. E, assim, no mesmo lugar onde o primeiro Adão caiu, o segundo Adão reinará para todo o sempre.

Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1] Marx, Terceiro Manuscrito econômico e filosófico, XXXIX, V.
[2] Contra as Heresias, Livro V, XXX.
[3] John Stott e David L. Edwards, Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue (London: Hodder and Stoughton, 1988), pág. 316..
[4] Comentário Bíblico NVI, F. F. Bruce, sobre Apocalipse 20:10, pág. 2255.