3 de março de 2015

A perseguição da Igreja Católica contra a Bíblia: Crimes, Terror e Repressão

AS PERSEGUIÇÕES DO CATOLICISMO CONTRA A BÍBLIA
(David Cloud)

Durante o período em que a Igreja Católica esteve no poder, ela fez tudo o que pôde para manter a Bíblia fora das mãos do povo comum. Era ilegal traduzir a Bíblia para a linguagem popular, ainda que a maioria das pessoas não pudesse ler a Bíblia oficial católica por ela estar em latim, um idioma conhecido apenas pelos que possuíam a mais alta instrução.

Considere algumas das leis católicas feitas contra a tradução da Bíblia. Essas leis tiveram início no 13° século e vigoraram até o 19°.

(1) No ano de 1215, o papa Inocêncio III emitiu uma lei ordenando "que devem ser presos para interrogatório e julgamento, quem estiver envolvido na tradução dos volumes sacros, ou que mantém reuniões secretas, ou que pregue sem a autorização dos superiores; contra quem o processo deve ser iniciado sem qualquer permissão para apelo" (J.P. Callender, Illustrations of Popery, 1838, p. 387). Inocêncio declarou "que como pela lei antiga, o animal que tocasse o monte santo era apedrejado até a morte, assim simples e iletrados homens não eram autorizados a tocar na Bíblia ou fazer qualquer ato de pregação de suas doutrinas" (Schaff, History of the Christian Church, VI, p. 723).
 
(2) O Concílio de Toulouse (1229) proibiu os leigos de possuir ou ler traduções do vernáculo da Bíblia (Allix, Ecclesiastical History, II, p. 213). Este concílio ordenou que "os bispos deveriam nomear, em cada paróquia um sacerdote e dois ou três leigos, que deveriam se engajar sob juramento, para fazer uma busca rigorosa a todos os hereges e seus cúmplices, e para essa finalidade vistoriar cada casa, do sótão a adega, juntamente com todos os lugares subterrâneos, onde eles poderiam esconder-se" (Thomas M’Crie, History of the Reformation in Spain, 1856, p. 82).  Eles também buscavam por Bíblias ilegais. 
 
(3) O concílio de Tarragona (1234) "ordenou que todas as versões do vernáculo deveriam ser trazidas aos bispos para serem queimadas" (Paris Simms, Bible from the Beginning, p. 1929, 162).

(4) Em 1483, o infame inquisidor general Tomás de Torquemada, iniciou seu reinado de terror como chefe da inquisição espanhola; o rei Fernando e sua rainha "proibiram todos, sob severas penalidades, de traduzir a Escritura Sagrada para o dialeto popular, ou de usá-la quando traduzida de outros idiomas" (M’Crie, p. 192). Por mais de três séculos a Bíblia na linguagem comum foi um livro proibido na Espanha e milhares de cópias foram queimadas nas fogueiras, junto com aqueles que as possuíam.

(5) Na Inglaterra, também, leis foram emitidas pelas autoridades católicas contra as Bíblias vernaculares. As Constituições de Thomas Arundel, emitidas em 1408 pelo arcebispo de Canterbury, fez essa impetuosa demanda: "Por isso, decretamos e ordenamos que nenhum homem, daqui por diante, por sua própria autoridade, traduza qualquer texto da Escritura para o inglês, ou qualquer outra língua, por meio de livro, folheto, ou tratado, agora recentemente estabelecido no tempo de John Wyclife, ou depois, ou que venha a ser estabelecido, em parte do todo, ou privada e abertamente, sob pena de excomunhão maior, até a referida tradução ser permitida pela autoridade do lugar, ou, se o caso assim exigir, pelo concílio provincial" (John Eadie, The English Bible, vol. 1, 1876, p. 89). Observe a consideração de Arundel do homem que deu ao povo de fala inglesa a sua primeira Bíblia: "Este pestilento miserável John Wycliffe de memória condenável, um filho do diabo, e ele mesmo um pupilo do anticristo, que enquanto viveu, andou na vaidade da sua mente... coroando sua maldade traduzindo as Escrituras para a língua materna" (Fountain, John Wycliffe, p. 45).
 
(6) Papa Leão X (1513-1521), que se opôs contra os esforços de Lutero em seguir o preceito bíblico de fé e Escrituras somente, iniciou o quinto Concílio de Latrão (1513-1517), que denunciou que nenhum livro devesse ser impresso, exceto os aprovados pela Igreja Católica: "Por isso, para sempre e a partir de agora, a ninguém deve ser permitido imprimir qualquer livro ou escrito, sem uma avaliação prévia, para servir de testemunho por assinatura manual, pelo vigário papal e mestre do sagrado palácio em Roma, e em outras cidades e dioceses pela Inquisição, e o bispo ou um perito por ele nomeado. Por negligência desta, a punição era a excomunhão, a perda da edição, que era para ser queimada, uma multa de 100 ducados para a construção da basílica de São Pedro, e a suspensão de negócios por um ano" (Henry Lea, The Inquisition of the Middle Ages).

(7) Essas restrições foram repetidas pelo Concílio de Trento em 1546, que colocaram as traduções da Bíblia, como a alemã, espanhola e inglesa, na sua lista de livros proibidos, bem como proibidos a qualquer pessoa de ler a Bíblia sem a licença de um bispo católico ou inquisidor. Segue uma citação do Concílio de Trento: "...será considerado ilegal que alguém imprima ou tenha imprimido quaisquer livros que lidem com questões doutrinárias, sem o nome do autor, ou no futuro para vendê-los, ou mesmo tê-los como sua posse, a menos que tenham sido previamente examinados e aprovados pela autoridade, sob pena de anátema e multa prescrita pelo último Conselho de Latrão" (Fourth session, April 8, 1546, The Canons and Decrees of the Council of Trent, Translated by H.J. Schroeder, pp. 17-19).

Essas regras foram afixadas no Índice de Livros Proibidos e foram constantemente reafirmadas pelos papas nos séculos 16, 17, 18 e 19. Estas proibições, de fato, nunca foram revogadas. É verdade que o Concílio de Trento não proibiu absolutamente a leitura das Escrituras em todas as circunstâncias. Permitiu algumas exceções. Os padres tinham permissão de ler a Bíblia Latina. Bispos e inquisidores foram autorizados a conceder licença para certos fiéis católicos de ler a Bíblia em latim, desde que estas Escrituras fossem acompanhadas por notas católicas e se cressem que estes não seriam "prejudicados" por tal leitura. Na prática, porém, as proclamações do Concílio de Trento proibiram a leitura das Escrituras Sagradas para, pelo menos, 90% da população. A reivindicação de Roma de possuir autoridade para determinar quem pode e quem não pode traduzir, publicar e ler a Bíblia é uma das afirmações mais blasfemas já feitas sob este sol.

A atitude das autoridades católicas do século 16 em relação à Bíblia ficou evidente a partir de um discurso de Richard Du Mans entregue em Trento, no qual ele disse que "as Escrituras se tornaram inúteis, uma vez que o escolásticos haviam estabelecido a verdade de todas as doutrinas; e ainda que elas fossem antigamente lidas na igreja, para a instrução do povo, e ainda lidas no serviço, no entanto, não deveria ser feito um estudo, porque os luteranos vinham ganhando todos aqueles que as liam” (William M’Gavin, The Protestant, 1846, p. 144). É verdade que a Bíblia leva o homem para fora do catolicismo, mas isto é somente porque o catolicismo não é fundamentado sobre a Palavra de Deus!

Papa Clemente VIII (1592-1605) confirmou as proclamações do Concílio de Trento contra traduções da Bíblia (Eadie, History of the English Bible, II, p. 112) e foi ainda mais longe, proibindo a concessão de licenças para a leitura da Bíblia sob quaisquer condições (Richard Littledale, Plain Reasons Against Joining the Church of Rome, 1924, p. 91).
 
(8) As restrições contra a posse das Escrituras vernaculares foram repetidas pelos papas até o final do século 19:

Papa Bento XIV (1740-1758) confirmou as proclamações o Conselho de Trento contra traduções da Bíblia (Eadie, History of the English Bible, II, p. 112) e emitiu uma liminar "que nenhuma versão deve ser oferecida para ser lida, mas as que forem aprovadas pela Santa Sé, acompanhadas de notas provenientes dos escritos dos santos pais da Igreja, ou de outros autores e mestres católicos" (D.B. Ray, The Papal Controversy, p. 479).
 
Foi durante o reinado do Papa Pio VII (1800-1823) que o movimento das modernas sociedades Bíblicas começou. A British and Foreign Bible Society foi formada em março de 1804, com o objetivo de "incentivar uma maior circulação das Sagradas Escrituras, sem nota ou comentário". Outras sociedades foram logo criadas com o mesmo exaltado propósito. Alemanha (1804), Irlanda (1806), Canadá (1807); Edimburgo (1809); Hungria (1811), Finlândia, Glasgow, Zurique, Prússia (1812), Rússia (1813); Dinamarca e na Suécia (1814); Holanda, Islândia (1815); Estados Unidos, Noruega e dos valdenses (1816), Austrália, Malta, Paris (1817), etc. Uma das sociedades começou a distribuir uma Bíblia polonesa na Polônia. O Papa, em vez de louvar ao Senhor que a Palavra eterna de Deus estava sendo colocada nas mãos das multidões de pessoas espiritualmente carentes, mostrou seu descontentamento através da emissão de uma bula contra as Sociedades Bíblicas em 29 de junho de 1816.

O Papa expressou-se como estando "chocado" com a circulação das Escrituras na língua polonesa. Ele caracterizou essa prática como um "um dos mais astutos dispositivos pelo qual as próprias bases da religião são prejudicadas", "uma peste", que deve ser "curada e abolida", "uma profanação da fé, eminentemente perigosa para as almas". O Papa Pio VII também repreendeu o arcebispo de Buhusz, de Mohiley na Rússia, por causa de seu endosso de uma recém-formada Sociedade Bíblica naquele país (Kenneth Latourette, The Nineteenth Century in Europe, p. 448). A declaração papal, datada de 3 de setembro de 1816, declarou que "se as Sagradas Escrituras fossem permitidas na língua vulgar em todos os lugares, sem discriminação, mais prejuízo do que benefícios poderiam surgir" (Jacobus, Roman Catholic and Protestant Versions Compared, p. 236).

Papa Leão XII (1823-29) emitiu uma bula aos bispos da Irlanda em 3 de maio de 1824, no qual ele afirmava o Concílio de Trento e condenava a distribuição da Bíblia: "Não é segredo para vós, veneráveis ​​irmãos, que uma certa sociedade, vulgarmente chamada de Sociedade Bíblica, está audaciosamente espalhando-se por todo o mundo. Depois de desprezar as tradições dos santos pais, e em oposição ao bem conhecido decreto do Concílio de Trento, esta Sociedade tem juntado todas as suas forças, e dirige todos os meios para um objeto - a tradução, ou melhor, a perversão da Bíblia para as línguas vernaculares de todas as nações (...) se as Sagradas Escrituras forem indiscriminadamente publicadas por toda parte, mais males do que vantagens surgirão, por conta da imprudência dos homens" (Bull of Leo XII, May 3, 1824; cited from Charles Elliott, Delineation of Roman Catholicism, 1851, p. 21). Este Papa republicou o Índice de Livros Proibidos em 26 de março de 1825, e determinou que os decretos do Concílio de Trento fossem aplicados contra a distribuição das Escrituras (R.P. Blakeney, Popery in Its Social Aspect, p. 137).

Papa Gregório XVI (1831-46) ratificou os decretos de seus antecessores, proibindo a livre distribuição das Escrituras. Em sua encíclica de 8 de maio de 1844, o Papa afirmou: "Além disso, confirmo e renovo os decretos acima recitados, entregue em tempos antigos por autoridade apostólica, contra a publicação, distribuição, leitura e posse de livros das Sagradas Escrituras traduzidas para a língua vulgar" (James Wylie, The Papacy, 1867, p. 182). Esta encíclica foi proferida contra as sociedades bíblicas em geral, e mencionou em particular a Aliança Cristã, que foi formada em 1843 em Nova York com a finalidade de distribuir Escrituras.

Papa Pio IX (1846-78) em novembro de 1846 emitiu uma carta encíclica em que denunciou todos os adversários do catolicismo, entre os quais ele incluiu "as insidiosas Sociedades Bíblicas". Ele disse que a sociedades bíblicas estavam "renovando os artifícios dos hereges antigos", ao distribuir a "todos os tipos de homens, mesmo os menos instruídos, gratuitamente e a imensas custas, cópias em grande número dos livros da Sagrada Escritura traduzidas contra as mais sagradas regras da Igreja em várias línguas vulgares...". Que crime horrível! Distribuir as Escrituras livremente a todas as pessoas! Foi Pio IX que declarou os papas "infalíveis" no Concílio Vaticano I em 1870.
 
Papa Leão XIII (1878-1903) publicou a "Constituição Apostólica" em 1897, que declarava: "Todas as versões do vernáculo, até mesmo as católicas, estão totalmente proibidas, a menos que sejam aprovadas pela Santa Sé, ou publicadas sob os cuidados vigilantes dos Bispos, com anotações tomadas dos pais da Igreja e escritores católicos" (Melancthon Jacobus, Roman Catholic and Protestant Bibles, p. 237).

Onde a Igreja Católica Romana estava no poder, a Bíblia sempre foi um artigo escasso. Considere alguns exemplos: quando o governo de Nova Orleans foi assumido em 1803, "não foi formalizado o juramento de posse até que fosse concluída uma longa procura por uma Bíblia para isso, quando uma Vulgata Latina foi finalmente obtida de um padre" (William Canton, The Bible and the Anglo-Saxon People, I, p. 245). Em Quebec, até 1826, muitas pessoas nunca tinham ouvido falar do Novo Testamento (Canton, II, 61). A situação era a mesma na América do Sul, onde "por cerca de três séculos se passaram quase que inteiramente sem a Bíblia". Foi em 1831 que a primeira Bíblia foi impressa na América espanhola, e mesmo assim as cópias eram exorbitantemente caras (Canton, II, 347).

Assim, mesmo quando as autoridades católicas finalmente imprimiram algumas Bíblias, os preços estavam muito além do alcance da maioria das pessoas. Entre dezembro de 1907 e fevereiro 1908 uma diligente pesquisa foi feita para determinar quantas Bíblias estavam disponíveis na Irlanda católica. Nenhuma parte da Bíblia estava disponível nas livrarias em Athlone, Balbriggan, Drogheda, Mullingar, Wexford, e Clonmel. Um assistente de loja em Mullingar disse: "Eu nunca vi uma Bíblia católica". Quando perguntado sobre o Novo Testamento, um vendedor da Catholic Truth Society respondeu: "Nós não a temos". Aqueles que fizeram o extenso levantamento concluíram que, “em 90% das cidades, vilas e aldeias ou na Irlanda, um católico não poderia encontrar uma cópia da Bíblia católica ou do Novo Testamento" (Alexander Robertson, The Papal Conquest, 1909, pp. 166-167).
 
Estes fatos descobrem apenas a ponta do iceberg em relação à atitude de Roma em relação à Bíblia nos tempos antigos.

Os valdenses são um exemplo do que ocorreu durante este período. Eles viviam nas montanhas da Itália e da França e eventualmente se espalharam por toda a Europa; eles se recusaram a aderir à Igreja Católica ou reconhecer o papa. Eles receberam a Bíblia como a única fonte de fé e prática e tinham suas próprias traduções, que diligentemente reproduziam em cópias escritas à mão. Roma perseguiu os valdenses por toda a Idade das Trevas (Idade Média) até o século 18.
 
Algumas descrições breves das perseguições contra os valdenses seguem. Note que muitos livros foram escritos sobre essas perseguições e os fatos a seguir apenas sugerem a destruição e tormento derramado sobre essas pessoas.

SÉCULO 12

A Igreja Católica Romana perseguiu Pedro Valdo e se recusou a aceitar a sua tradução do Novo Testamento para a língua Romana. O Papa Alexandre III (1159-1181) expulsou Valdo e seus seguidores de sua diocese, e o próximo papa, Lúcio III, lançou a maldição papal sobre eles (William Blackburn, History of the Christian Church, 1880, pp. 309, 310). O Concílio de Tours, em 1163 promoveu a inquisição contra os crentes da Bíblia, emitindo um decreto que declarava: "Ninguém deve receber ou ajudar hereges, nem comprar ou vender alguma coisa com eles, que fazendo assim, os privando do conforto e humanidade, possam ser obrigados a se arrepender do erro do seu caminho" (Gideon Ouseley, A Short Defence of the Old Religion, 1821, p. 221). "Muitos Albigenses, recusando os termos, foram queimados em diferentes cidades no sul da França" (G.H. Orchard, A Concise History of the Baptists, 1855, p. 199). O Terceiro Concílio de Latrão "deu permissão aos príncipes para submeter os hereges à escravidão e encurtou o tempo de penitência por dois anos para aqueles que pegassem em armas contra eles" (Philip Schaff, History of the Christian Church, V, p. 519).

SÉCULO 13

No ano de 1209, o Papa Inocêncio III convocou a uma cruzada contra os valdenses na França. Qualquer pessoa que se voluntariasse para a guerra contra os "hereges" (assim chamados por Roma porque discordavam de seus dogmas) era prometido o perdão de pecados e muitas recompensas. Dezenas de milhares pegaram em armas pelo Papa e marcharam contra os odiados valdenses. Cerca de 200.000 dissidentes foram mortos pelo exército do Papa em poucos meses. Duas grandes cidades, Beziers e Carcasone, foram destruídas, juntamente com muitas pequenas cidades e aldeias. A guerra se estendeu por 20 anos!

Milhares ficaram desabrigados e foram obrigados a vagar nas matas e montanhas para escapar de seus algozes. As crueldades praticadas pelos perseguidores católicos foram horríveis. Os cristãos eram jogados de penhascos elevados, enforcados, estripados, trespassados repetidamente, afogados, rasgados por cães, queimados vivos, crucificados. Em um caso, 400 mães fugiram para um refúgio com seus bebês em uma caverna em Castelluzzo, localizada a mais de 600 metros acima do vale em que viviam. Eles foram descobertos pelos católicos furiosos, um grande incêndio foi feito na boca da caverna e eles morreram sufocados.
 
SÉCULO 15

Em 1487 o papa Inocêncio VIII convocou uma cruzada contra os valdenses na Itália, Alemanha, e em outros lugares. Ele prometeu o perdão dos pecados e uma parte do saque para aqueles que aderissem. Carlos VIII da França e Carlos II de Sabóia concordaram em levantar um exército para a destruição dos valdenses. Este exército regular era de cerca de 18.000 soldados e milhares de "rufiões" juntaram-se, instigados pela promessa de perdão dos pecados e da expectativa de obtenção do espólio das posses valdenses. Wylie descreve esses voluntários como "fanáticos ambiciosos, saqueadores imprudentes, assassinos impiedosos" (James Wylie, History of the Waldenses, 1860, p. 29).

Este exército atacou simultaneamente os vales valdenses pelo norte da Itália, nas planícies ao sul e pela França ao oeste. Milhares de cristãos crentes na Bíblia pereceram nesta cruzada. Suas casas e plantações foram destruídas. Muitas aldeias inteiras foram destruídas. Suas mulheres foram estupradas e depois brutalmente assassinadas. Seus filhos foram jogados contra as árvores e penhascos. Mais de 3000 cristãos valdenses, homens, mulheres e crianças morreram em uma caverna chamada Aigue-Froid para onde tinham fugido para se proteger. Estes eram os habitantes de toda a aldeia de Val Loyse, e as propriedades dessas pobres pessoas foi distribuída entre os participantes da cruzada. Muitos vales inteiros foram queimados, pilhados e despovoados. Esta cruzada contra os valdenses durou um ano.

SÉCULO 16

Segue-se uma breve descrição das perseguições no século 16 como dadas por um pastor valdense:

"Não há uma cidade no Piemonte sob um pastor valdense que alguns de nossos irmãos não tenham sido condenados à morte (...) Hugo Chiamps de Finestrelle teve suas entranhas arrancadas de seu corpo ainda vivo, em Turim. Pedro Geymarali de Bobbio, da mesma maneira, teve suas entranhas arrancadas em Lucerna, e um felino feroz foi colocado no lugar para torturá-lo ainda mais; Maria Romano foi enterrada viva em Rocco-Patia; Magdalen Foulano sofreu o mesmo destino em San Giovanni; Susan Michelini teve as mãos e pés atados, e deixada a perecer de frio e fome em Saracena. Bartolomeu Fache, cortado com sabres, teve as feridas preenchidas com cal virgem, e pereceu, assim, em agonia em Fenile; Daniel Michelini teve sua língua arrancada em Bobbio, por ter louvado a Deus. James Baridari pereceu coberto de mechas sulfurosas, que foram enfiadas em sua carne sob as unhas, entre os dedos, nas narinas, nos lábios, e sobre todo o seu corpo, e então queimado. Daniel Revelli teve a boca cheia de pólvora, que, sendo acesa, explodiu a sua cabeça em pedaços. Maria Monnen, presa em Liousa, teve a carne de seu rosto cortado até o osso do queixo, de modo que sua mandíbula foi deixada nua, e ela ficou, assim, a perecer. Paul Garnier foi lentamente cortado em pedaços em Rora. Thomas Margueti foi mutilado de uma maneira indescritível em Miraboco, e Susan Jaquin cortada em pequenos pedaços em La Torre. Sara Rostagnol foi aberta das pernas ao peito, e assim deixada a perecer na estrada entre Eyral e Lucerna. Anne Charbonnier foi empalada e levada assim, em uma lança, como um estandarte, de San Giovanni a La Torre. Daniel Rambaud, em Paesano, teve suas unhas arrancadas, depois seus dedos decepados, então seus pés e mãos, braços e pernas, a cada recusa sucessiva de sua parte em abjurar o Evangelho" (Alex Muston, A History of the Waldenses: The Israel of the Alps, 1866).

Não somente os cristãos valdenses foram destruídos pelos exércitos, mas a sua literatura e Escrituras vernaculares foram destruídas por vingança durante essas perseguições. Os padres católicos que acompanharam os exércitos fizeram isso conscientemente. Assim, muitas cópias das Escrituras valdenses foram destruídas por isso temos pouca informação sobre as suas Bíblias.
 
No século 17, Samuel Morland visitou os valdenses no norte da Itália como representante do governante da Inglaterra, Oliver Cromwell. Morland tentou ajudar os valdenses nas amargas perseguições que ainda estavam sendo derramadas sobre eles. Exércitos inteiros haviam sido enviados para destruir as aldeias valdenses no século 17. Praticamente todos os seus documentos haviam sido destruídos. Morland recolheu todos os materiais restantes que pode encontrar e em 1658 mandou para a Inglaterra para ser depositado na biblioteca da Universidade de Cambridge. As coleções de Morland ainda estão disponíveis.

Em 2 de junho de 2004, J.S. Ringrose, responsável pelos manuscritos na biblioteca da universidade de Cambridge, escreveu a Justin Savino, estudante do Emmanuel Baptist Theological Seminary, Newington, Connecticut, como segue: "Existem duas principais coleções de manuscritos valdenses, ambos depositados por Samuel Morland em 1658. MSS (manuscritos) Dd. 3. 25-38 (Morland MSS GV) são manuscritos do século XVII, principalmente transcrições de fontes históricas anteriores. MSS. Dd. 15,29-34 (Morland AF) são medievais". O pacote F de Morland contém manuscritos do século 14 com o Novo Testamento inteiro e partes do Antigo e escritos apócrifos no dialeto do Piemonte provençal ou ocitano. Em uma visita a biblioteca em abril de 2005 examinei o pacote F. Ele contém seis pequenos itens, incluindo um Novo Testamento (embora não contendo todos os livros).
 
 
CONSIDERE ALGUNS EXEMPLOS DE COMO A BÍBLIA FOI PERSEGUIDA POR ROMA:
   
A BÍBLIA INGLESA FOI PERSEGUIDA

John Wycliffe (1324-1384), o pai da Bíblia em inglês, é um exemplo de como Roma tratou a Bíblia nestes dias.

Wycliffe, vigário da Igreja de Saint Mary em Lutterworth, completou o Novo Testamento inglês em 1380 e o Velho Testamento em 1382. Ele rejeitou muitas das heresias de Roma, incluindo a doutrina de que o povo não deveria ter a Bíblia em sua própria língua. Aqui está uma das poderosas afirmações que ele fez para as autoridades católicas:

"Você diz que é uma heresia falar das Sagradas Escrituras em inglês. Você me chama de herege, porque eu traduzi a Bíblia para a língua comum do povo. Você sabe quem blasfema? Não dá o Espírito Santo a Palavra de Deus em primeiro lugar na língua materna das nações a quem foi dirigida? Por que você fala contra o Espírito Santo? Você diz que a Igreja de Deus está em perigo com este livro. Como pode ser isso? Não é somente da Bíblia que aprendemos que Deus criou uma sociedade tal como Igreja sobre a terra? Não é a Bíblia que dá toda a sua autoridade à Igreja? Não é da Bíblia que aprendemos quem é o Construtor e Soberano da Igreja, quais são as leis pelas quais ela é governada, e os direitos e privilégios dos seus membros? Sem a Bíblia, que permissão tem a Igreja para mostrar tais coisas a todos esses? É você quem coloca a Igreja em perigo ao esconder o mandado Divino, a missiva real de seu Rei, a autoridade que ela exerce e a fé que ela ordena" (David Fountain, John Wycliffe, pp. 45-47).

Roma perseguiu amargamente Wycliffe e tentou, sem sucesso, prendê-lo. O papa Gregório XI emitiu cinco bulas contra Wycliffe, mas ele foi protegido pela rainha da Inglaterra e outros. Wycliffe morreu em 31 de dezembro de 1384, e 43 anos mais tarde, em 1428, a Igreja Católica desenterrou os seus ossos e os queimou. Roma também perseguiu os seguidores de Wycliffe, os lolardos, aprisionando-os e condenando muitos deles à morte. A torre dos lolardos em Londres foi assim chamada porque é um dos lugares onde eles foram presos e torturados. Era ilegal possuir uma cópia da Bíblia de Wycliffe, e a maioria das inestimáveis Escrituras manuscritas foram queimadas.
 
William Tyndale (1484-1536), o primeiro a traduzir a Bíblia em inglês do grego e hebraico, é outro exemplo das perseguições de Roma. Quando jovem, Tyndale sentiu que tinha a obrigação de traduzir a Bíblia para o inglês diretamente do hebraico e grego, para que seu povo pudesse ter a Palavra de Deus das mais puras fontes. Quando ele expressou este plano para as autoridades católicas na Inglaterra, então sob domínio católico, ele soube que não seria possível fazer este trabalho em seu próprio país.
 
Enquanto trabalhava em Little Sodbury Manor após a sua graduação em Oxford, Tyndale pregou naquela parte do oeste da Inglaterra e debateu a verdade com padres católicos. Uma noite, um padre exclamou: "Estamos melhor sem as leis de Deus do que as do papa". Ouvindo isso, Tyndale replicou: "Se Deus poupar minha vida por muitos anos, farei com que um menino que empurra um arado saiba mais das Escrituras do que vós".

Tyndale viajou para o continente para alcançar este objetivo, onde ele teve que se mudar de um lugar para outro e esconder seu trabalho por causa das autoridades eclesiásticas. Depois de completar o Novo Testamento e uma porção do Velho, Tyndale foi preso em maio de 1535. Ele ficou preso por 16 meses no castelo de Vilvorde, Bélgica. Em 6 de outubro de 1536, Tyndale foi estrangulado e depois queimado na fogueira. Suas cinzas foram jogadas no rio que corria ao lado do castelo.


A BÍBLIA ALEMÃ FOI PERSEGUIDA

As Bíblias alemãs pré-Lutero foram perseguidas no século 15. A primeira Bíblia completa impressa em alemão foi publicada por Johann Mentelin (John Mentel) em Estrasburgo em 1466 (Olaf Norlie, The Translated Bible, 1934, p. 73). Mainz era o centro mais ativo de publicação na Alemanha naquela época, e em 1485, o arcebispo de lá emitiu um édito de prescrição censurando todas as traduções da Bíblia. O edital proíbia as Escrituras de serem dadas a homens simples e ignorantes bem como a mulheres. A seguir está um trecho:

"Temos observado livros contendo o ofício da missa e também contendo coisas divinas e assuntos sublimes de nossa religião e traduzidas do latim para a língua alemã, não sem danos à religião (significando a religião católica), circulando entre as mãos do vulgar [pessoas comuns] (...) pois quem vai dar às pessoas ignorantes e iletradas e para o sexo feminino em cujas mãos os manuscritos sagrados de aprendizagem caem, a capacidade de encontrar o verdadeiro sentido? Nenhuma pessoa sã iria negar que os textos dos Santos Evangelhos e das epístolas de Paulo requerem muitos acréscimos e explicações de outros escritos"
 
A Bíblia de Lutero, que apareceu pela primeira vez em 1522, também foi ferozmente perseguida. D'Aubigne, em sua History of the Reformation, descreve como Roma respondeu a este marco na história da Alemanha:

"Padres ignorantes estremeceram com o pensamento de que cada cidadão, ou melhor, que cada camponês, agora seria capaz de disputar com eles sobre os preceitos de nosso Senhor. O rei da Inglaterra denunciou as ações do príncipe Frederico e George, duque da Saxônia. Mas, logo no mês de novembro, o duque ordenou a seus súditos depositar todas as cópias do Novo Testamento de Lutero nas mãos dos magistrados. Baviera, Brandenburgo, Áustria, e todos os estados devotados a Roma publicaram decretos semelhantes. Em alguns lugares eles fizeram um terrível sacrilégio: fogueiras desses livros sagrados nas praças públicas" (D’Aubigne, III, p. 77).

Perseguições foram lançadas pelas autoridades católicas sobre aqueles que lessem as obras de Lutero. Um exemplo dos que foram atormentados por distribuir o Novo Testamento alemão de Lutero foi o de um livreiro chamado João, em Buda, na Hungria. Ele tinha circulado as Escrituras alemãs em todo o país: "Ele foi amarrado a uma estaca; seus perseguidores, em seguida, empilharam seus livros ao seu redor, colocando-os como se fosse uma torre, e depois atearam fogo neles. João manifestou inabalável coragem, exclamando do meio das chamas, que estava contente por sofrer pela causa do Senhor" (D’Aubigne, III, p. 152).
 
Em 1520 uma busca rigorosa por Bíblias Luteranas e livros teve início em Veneza, e aqueles encontrados foram destruídos (M'Crie, Reformation in Italy, p. 28).


As Bíblias anabatistas alemãs foram perseguidas

A Bíblia alemã produzida por anabatistas apareceram em 1529, cinco anos antes da Bíblia completa de Lutero. Ela foi chamado a de a Bíblia de Worms, de acordo com o nome da cidade em que foi publicada. A tradução foi feita por dois anabatistas, Ludwig Hetzer e Hans Denck, "talentosos eruditos, bem versados em hebraico e grego, bem como em latim. Denck estudou e recebeu o grau de mestre na Universidade de Basel, sob e com Erasmus. Hetzer foi um aluno de Basel, e também da Universidade de Paris" (John Porter, The World’s Debt to the Baptists, 1914, p. 138). "Na época da sua publicação a aprovação da edição Denck-Hetzer foi ilimitada e universal. No prazo de três anos treze edições separadas apareceram em Estrasburgo, Augsburgo, Hagenau, e outros lugares (...) Em uma palavra, em toda a Alemanha o livro dos desprezados anabatistas foi comprado, lido, e estimado" (Ludwig Keller, Hans Denck, Ein Apostel der Wiedertaufer, p. 211; cited by Porter, p. 139).

Esta Bíblia alemã e seus tradutores sofreram o destino que já vimos tantas vezes: "Denck, sofrendo com a tuberculose, sob o decreto de banimento e proscrição, morreu na clandestinidade, na Basiléia, em 1529, um pouco antes da Bíblia vir a ser impressa. Hetzer foi preso, condenado como herege, e decapitado no mesmo ano em Constance (...) todo o esforço possível foi feito para suprimir esta “Bíblia herética”; escritórios de impressão, lugares onde o livro era vendido, casas particulares e pessoas foram revistadas, e todas as cópias encontradas eram destruídas. Apenas três cópias que são acessíveis a acadêmicos vieram agora ao conhecimento da existência, uma está na biblioteca da Universidade de Bonn, uma em uma biblioteca em Stuttgart, e uma na Biblioteca Pública de Nova York".


A BÍBLIA ESPANHOLA FOI PERSEGUIDA

No século XV, um padre católico chamado Bonifácio Ferrer traduziu todas as Escrituras no dialeto valenciano ou catalão da Espanha. Ele morreu em 1417, mas a sua tradução foi impressa em Valência em 1478. Apesar do fato de ser produzida por um católico, "ela mal tinha feito a sua aparição quando foi suprimida pela Inquisição, que ordenou que toda a impressão deveria ser devorada pelas chamas. Tão rigorosamente essa ordem foi posta em execução, que dificilmente uma única cópia parece ter escapado" (M’Crie, History of the Progress and Suppression of the Reformation in Spain, 1829, pp. 191, 92). Em 1645 quatro folhas desta tradução foram descobertas em um mosteiro.
 
Em 1543 o Novo Testamento do espanhol Francisco de Enzinas foi publicado com o título "O Novo Testamento, isto é, a Nova Aliança de nosso único Redentor e Salvador Jesus Cristo, traduzido do grego para a língua castelhana [Espanhol]". Enzinas apresentou um cópia do seu Novo Testamento para Carlos V, imperador do Império Romano (1519-1558), durante a visita do imperador a Bruxelas, que por sua vez, a deu ao seu confessor católico, Pedro de Soto. "Depois de vários atrasos, Enzinas, tendo esperado o confessor, foi repreendido por ele como um inimigo da religião, por haver manchado a honra de seu país natal, e se recusando a reconhecer a sua falha ao traduzir esta obra, foi preso pelos oficiais de justiça e lançado na prisão" (M'Crie, History of the Reformation in Spain, pp. 194-95).

O pai e tios de Francisco o visitaram na prisão, e o repreenderam para desonrar sua família. Após 15 meses confinado ele milagrosamente escapou da prisão em Bruxelas e fugiu para a Antuérpia, em seguida, para a Inglaterra, onde, em 1548, recebeu a cadeira de grego na Universidade de Cambridge. Ele voltou para o continente em 1550 e morreu de peste em Estrasburgo em 1553. A maioria de seus Novos Testamentos foram queimados e todos os seus manuscritos foram destruídos pela Inquisição.

Outro homem que foi levantado por Deus para prover o mundo espanhol com uma Bíblia em seu idioma foi Juan Perez de Pineda (1490-1567). Em Sevilha, Espanha, como chefe do Colégio de Doutrina, começou a estudar a Bíblia e rejeitou doutrina católica. Quando a perseguição começou contra os crentes nessa área, Perez e alguns de seus amigos conseguiram fugir da Espanha. Perez estabeleceu-se em Genebra e foi o primeiro a formar uma igreja espanhola naquela cidade (M'Crie, p. 363). Depois ele se mudou para a França. Sua tradução do Novo Testamento para o espanhol, confiando totalmente na versão de Enzinas, foi publicada em 1556 em Genebra.

Outro dos homens que fugiram dos terrores da inquisição na Espanha foi Cassiodoro de Reina (1520-1594). Como um monge no mosteiro de San Isidro del Campo, em Sevilha, ele se uniu ao reavivamento protestante e rejeitou a doutrina católica. Preso e condenado à morte, Reina conseguiu escapar da prisão e fugir para Londres, onde pregou a uma congregação espanhola (Lupton, A History of the Geneva Bible, I, p. 40). Mais tarde, ele viajou para Genebra, e juntou-se com a igreja protestante espanhola de lá, pastoreada pelo já mencionado Juan Pérez de Pineda. Reina em 1567 completou um Novo Testamento Espanhol que "é aclamado até hoje como o maior triunfo da história literária espanhola". Reina estabeleceu-se na Basiléia, e a Bíblia completa apareceu em 1569.
 
A obra de Reina foi abraçada por Cipriano de Valera (1532-1602?). Como Enzinas e Reina, Valera havia fugido da inquisição na Espanha. Em 1565 Valera juntou-se a Universidade de Oxford e tornou-se conhecido por sua experiência linguística, "tendo domínio de pelo menos dez línguas". Ele revisou e corrigiu a obra de Reina e publicou o Novo Testamento em Londres, em 1596, e, toda a Bíblia em 1602 em Amsterdã. Todas estas Bíblias espanholas "foram acompanhadas com reivindicações para a prática de traduzir as Escrituras em línguas vernaculares e o direito das pessoas de as lerem" (M’Crie, p. 202).

Contrastando com isso foi a atitude da Igreja Católica. Ainda em 1747, o inquisidor-geral na Espanha descontente que "alguns homens tinham a audácia extrema e execrável de pedir permissão para ler as Sagradas Escrituras na língua vulgar, não tinha medo de encontrar neles o veneno mais letal" (M’Crie, p. 202, f3).

O papa Júlio III dirigiu uma bula aos inquisidores em 1550 no qual advertiu-os das Bíblias espanholas que estavam sendo contrabandeadas para o país (M'Crie, History of the Reformation in Spain, p. 203). Os inquisidores receberam instruções "para apreender todas as cópias, e proceder com o máximo rigor contra aqueles que as portavam, sem excetuar os membros de universidades, faculdades ou mosteiros (...) ao mesmo tempo as mais rigorosas precauções foram adotadas para impedir a importação de tais livros, colocando agentes em todos os portos marítimos e em fronteiras de terra, com autoridade para vasculhar todos os pacotes e todos os viajantes que entrassem no reino" (M'Crie, p. 204).


A BÍBLIA FRANCESA FOI PERSEGUIDA

Jacques Lefevre (1455-1536), um professor da Universidade de Paris, publicou um Novo Testamento em francês em 1523 e a Bíblia francesesa completa em 1528. Por seu trabalho de amor para com o povo francês, o idoso Lefevre foi odiado e perseguido pelas autoridades romanistas. Uma das coisas que os amargurava foi o princípio de Lafevre de que todos os cristãos deveriam ler as Escrituras. Uma dessas autoridades com raiva, exclamou:

"Será que ele não se atreve em recomendar a todos os fiéis ler as Escrituras? Será que ele não diz que quem não ama a Palavra de Cristo não é um cristão? E que a Palavra de Deus é suficiente para conduzir à vida eterna?" (D’Aubigne, III, p. 385)

A Sorbonne, a faculdade teológica da Universidade de Paris, condenou Lefevre como herege e ele foi forçado a fugir para Estrasburgo em 1525. Em 1531, Lefevre se refugiou no sul da França e lá permaneceu até sua morte (Durant, The Story of Civilization, VI, p. 502). A Sorbonne declarou guerra à impressão e aos impressores. Em 1534, vinte homens e uma mulher foram queimados vivos. Um deles era um impressor cujo único crime foi a impressão alguns dos escritos de Lutero, enquanto que outro foi um livreiro que tinha vendido os mesmos.
 
Um édito foi emitido em 1546 pelas autoridades católicas contra Lefevre e sua obra, em que a seguinte declaração é encontrada: "Não é nem conveniente nem útil para o público cristão que qualquer tradução da Bíblia deva ser autorizada a ser impressa, mas que elas sejam suprimidas como prejudiciais". Também foi ordenado que qualquer pessoa que possuísse uma cópia deveria entregá-la no prazo de oito dias (John Beardslee, The Bible among the Nations, 1899, pp. 211, 12).
 
Muitos crentes franceses foram queimados por distribuir a Bíblia. O Martirológio integral de Foxe é um conjunto enorme de livros. Eu possuo um exemplar da oitava edição, que foi impressa em 1641. É um fólio de 3 volumes, 3227 páginas, três volumes juntos de quase um metro de largura, e cada página com 22,86cm x 34,29 cm. Cerca de 150 destas grandes páginas são dedicadas a uma enumeração de alguns dos mártires franceses. Seguem-se alguns exemplos:
 
Em 1525, um pregador do Evangelho chamado Schuch foi queimado na cidade de Nancy, na França. Quando ele foi preso e julgado, ele tinha sua Bíblia em mãos, e mantendo a mesma diante de seus acusadores, pregou a eles sobre as Escrituras e "humildemente confessou ainda forçosamente a Cristo crucificado". Suas palavras foram tão incisivas que seus algozes "tomados de raiva, lançaram-se sobre ele com gritos violentos, arrancando a Bíblia em que ele estava lendo este texto ameaçador, e como cães raivosos, incapazes de morder sua doutrina, eles a queimaram em seu convento".

O homem foi imediatamente condenado a ser queimado vivo, e a sentença foi rapidamente executada. No dia 19 de agosto de 1525 toda a cidade de Nancy estava em movimento. Os sinos dobravam para a morte de um herege. O cortejo fúnebre partiu. Quando o mártir chegou ao local da execução, seus livros foram queimados diante dele; ele foi então convidado a retratar-se, mas se recusou, dizendo: "És tu, ó Deus, que me chamaste, e tu me darás força até o fim". Tendo montado a pilha, ele continuou a recitar um Salmo, até a fumaça e as chamas sufocarem a sua voz" (D’Aubigne, History of the Reformation, III, pp. 468, 69).
 
Em 1546 Peter Chapot foi queimado até a morte por trazer Bíblias em francês para a França e vendê-las. Por causa de seu corajoso testemunho no local da execução, um decreto determinou que "todos os que fossem queimados, que não se retratassem no fogo, deveriam ter suas línguas cortadas. Essa lei foi diligentemente observada" (Foxe, unabridged, 1641, II, p. 133).
 
Stephen Polliot também foi preso em 1546 com uma bolsa de Escrituras e livros evangélicos que estava distribuindo. Sua língua foi cortada e ele foi queimado, "com sua mochila de livros pendurada ao seu pescoço" (Foxe, unabridged, II, p. 134). Nicholas Nayle, um sapateiro, foi preso em Paris e queimado em 1553 por levar pacotes de livros para distribuir entre os crentes. Em 1554, Dionísio Vayre, que tinha contrabandeado muitos livros para a França, foi preso na Normandia e condenado a ser "queimado vivo, onde três vezes se levantou, caindo novamente no fogo" (Foxe, unabridged, II, p. 145).
 
O livreiro valdense Bartolomeu Heitor foi preso em 1556. Quando o juiz da inquisição disse: "Você foi pego por vender livros que contêm heresia; o que tem a dizer sobre isso?" Heitor respondeu: "Se a Bíblia é uma heresia para você, é a verdade para mim". Depois de definhar na prisão por vários meses, Heitor foi queimado na estaca.


A BÍBLIA HOLANDESA FOI PERSEGUIDA

Em 1270, Jacob van Maerlandt completou os quatro Evangelhos em holandês. "Este esforço despertou a ira do bispo da Igreja Católica de Utrecht, que pensou que era desrespeitoso para com as Escrituras, assim, trazê-las ao alcance das pessoas comuns, e Van Maerlandt quase perdeu a vida como recompensa por seu trabalho". (John Beardslee, The Bible among the Nations, p. 175).
 
Em 1526 a primeira Bíblia completa em holandês foi publicada por Jacob van Liesveldt na Antuérpia, e 20 anos depois Liesveldt foi decapitado também na Antuérpia "por seu trabalho de impressão" (Lupton, A History of the Geneva Bible, I, p. 35).
 
 
A BÍBLIA ITALIANA FOI PERSEGUIDA
 
Antônio Brucioli publicou um Novo Testamento italiano em Veneza em 1530 e uma Bíblia inteira, dois anos depois. Brucioli também produziu um comentário sobre a Bíblia inteira, que foi publicado em sete volumes. "Suas traduções da Bíblia foram colocados na primeira classe de livros proibidos, e todas as suas obras, sobre quaisquer assuntos "publicados ou a serem publicados", juntamente com todos os livros que saíam da sua imprensa, mesmo após sua morte, eram estritamente proibidos (...) medidas violentas foram posteriormente empregadas para a sua supressão" (M'Crie, Reformation in Italy, 1856, pp. 56, 57).

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira. 

Extraído de: Discernimento Bíblico.


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28 de fevereiro de 2015

Padre desmascara as "aparições" de Fátima e diz: "Fátima Nunca Mais"!


No dia 18 deste mês eu escrevi um artigo onde afirmo que todos os militantes católicos são como zumbis, que não tem capacidade de pensar por si mesmos e por isso deixam que o papa pense no lugar deles, o que os torna cada vez mais facilmente manipuláveis e suscetíveis às mais diversas formas de lavagem cerebral, como de fato ocorre. Mas eu estava errado. Existe pelo menos um padre, um português chamado Mário de Oliveira, que não apenas não acredita nas “aparições” de Fátima, como também escreveu um livro inteiro refutando essa bobagem. Se ele ainda continua padre ou se já foi excomungado pela “Santa Igreja”, eu não faço a menor ideia. Mas pelo menos mostra que até Roma de vez em quando falha em suas técnicas de lavagem cerebral. Quem diria!



Vídeo do Padre Desmascarando “Fátima”:



Trecho do Primeiro Capítulo do Livro:

Quando, há tempos, aceitei participar num debate promovido pela sic e respondi abertamente "não!" à pergunta "acredita nas aparições de Fátima?", foi um escândalo (quase) nacional. Nunca tal se ouvira na televisão, para mais, da boca de um padre católico. Infelizmente, o debate abortou pouco depois de ter começado, e quase não me foi possível apontar as razões do meu não. O que terá deixado toda a gente mais ou menos frustrada. E até a pensar menos bem de mim. Mas o impacto da minha resposta foi tal, que até o próprio jornalista que conduzia o debate não conseguiu esconder o seu ar de espanto.

Apressei-me, por isso, a recordar tanto a ele como a todas as portuguesas e portugueses que, nessa hora, sintonizavam-se na sic - e deveriam ser milhões, tal o impacto do debate que, ao contrário do que pensa a maior parte das pessoas, mesmo não católicas, as aparições de Fátima não fazem parte do núcleo da fé cristã católica; o que quer dizer que se pode não acreditar em Fátima e continuar a ser cristão católico romano.

Mesmo assim, e talvez porque não costuma ser esta a mensagem-informação sobre as aparições de Fátima que passa nas pregações dos párocos e dos bispos, nem nas peregrinações que, um pouco de todo o país e de muitas partes do mundo, são reiteradamente organizadas para lá, a verdade é que, se eu já era um padre meio maldito, passei, desde então, a ser maldito de todo, aos olhos de quase todos os meus irmãos e irmãs de fé católica.

Entretanto, se ainda me aflijo com isso, não é por mim que me aflijo, mas por todos aqueles e aquelas que, preguiçosamente, preferem continuar a escandalizar-se com as minhas declarações, honestamente ditadas pela fé cristã que me anima e dá sentido à minha vida, em vez de, interpelados por elas, apressarem-se, elas e eles também, a meter mãos ao trabalho para investigarem seriamente o que se passa à volta de Fátima.

É que, com posições assim preguiçosas e acomodada objetivamente tão contrárias à fé cristã, dificilmente conseguiremos ir longe em liberdade e em responsabilidade humanas. E, em vez disso, manter-nos-emos, geração após geração, como uma espécie de Portugal dos pequeninos e uma igreja de crianças (não é verdade que na generalidade, todos os que nos confessamos católicos, fomos batizados poucos dias ou poucas semanas depois de termos nascido e que nunca mais crescemos na fé nem nas razões dela?), inevitavelmente à mercê de influentes hierarquias políticas e eclesiásticas! Uma postura social e eclesial que, indubitavelmente, também a senhora de Fátima tem ajudado, e muito, a implementar. Não só em Portugal, mas também um pouco por todo o mundo católico.

Entretanto, quando, na sic, respondi que não acreditava nas aparições de Fátima, mais não fiz do que retomar hoje a mesma atitude que a igreja católica em Portugal tomou entre 1917 e 1930. Na verdade, durante 13 anos, também ela não acreditou nas aparições de Fátima. e podia ter-se apressado a reconhecê-las, porque, até então, eram já muitos os milhares de pessoas que acorriam a Fátima, entre 13 de maio e 13 de outubro, de cada ano. E, inclusive, havia já ocorrido o chamado "milagre do sol", no dia 13 de outubro de 1917. Porém, só em 1930 é que a igreja católica reconhece Fátima.

Um reconhecimento oficial a que não terá sido alheio o fato de ter saído vitorioso o golpe militar de 28 de maio de 1926. O novo regime, obscurantista católico, saído deste golpe militar e presidido pela dupla Salazar-cardeal Cerejeira, carecia de uma coisa assim, para mais facilmente se implantar nas populações. A Senhora de Fátima, com a mensagem retrógrada, moralista e subserviente que lhe é atribuída e que, ainda hoje, vai tão ao encontro da generalidade dos nossos funcionários eclesiásticos católicos e do paganismo religioso-católico das nossas populações, vinha mesmo a matar. Nem sequer era preciso.

Esforçar-se por arregimentar as populações à volta do clero. Bastava ir ao seu encontro, todos os meses, em Fátima. Vai daí, em lugar de continuar a demarcar-se do fenômeno e até a hostilizá-lo, a hierarquia maior da igreja católica, em 1930, mudou radicalmente de estratégia e reconheceu-o e canonizou-o, como sobrenatural. Terá percebido nessa altura que, se não adiasse mais esse reconhecimento, os lucros seriam enormes, como, efetivamente, foram. Lucros financeiros, lucros políticos, lucros clericais. Lucros eclesiástico-católicos.

Algo assim como um verdadeiro "milagre", não de Deus, evidentemente, que Deus nunca faz milagres - com eles, faria de nós uns súbditos assustados, em vez de filhas e filhos livres e responsáveis-, mas um "milagre" produzido por aquela vertente demoníaca que, sobretudo em horas de maior aflição, sempre se manifesta no mais fundo dos seres humanos e os leva a prostrar-se de joelhos não só diante de imagens surdas e mudas, mas também diante dos representantes do idolatrado poder religioso e eclesiástico, na ilusória esperança de que, assim, as suas muitas aflições poderão encontrar uma qualquer mágica saída.

Por outro lado, esta nova atitude da hierarquia maior da igreja católica veio revelar-se, igualmente, como um verdadeiro trunfo contra a república de 1910 e contra a liberdade. Contra a autonomia individual. E contra todas as outras igrejas não católicas. Contra a maçonaria e contra a laicidade e a cidadania, então incipientes. Mas o pior - e parece que na igreja católica ainda ninguém, entre os mais responsáveis, deu por isso - é que essa surpreendente mudança de estratégia da hierarquia maior católica, relativamente às "aparições" de Fátima, materializava também uma histórica traição ao evangelho de Jesus Cristo. Uma traição que acabou por desfigurar completamente o Cristianismo, tal como o próprio Jesus Cristo o inspirou com a sua prática e palavra, no sentido de que ele materializasse, na história, a via de realização humana integral, saudavelmente cômoda, como o sal da terra, e libertadoramente subversiva, como a luz do mundo (Mt 5).

Só que Fátima e as suas pretensas aparições resumiam-se, nessa altura, praticamente a nada. Para cúmulo, das três crianças que, em 1917, afirmaram a pés juntos que tinham visto nossa senhora - uma delas, Francisco, nunca ouviu nada e tanto ele, como a sua irmã, Jacinta, nunca disseram uma palavra que fosse à senhora das "aparições", apenas Lúcia foi protagonista, o que prova que até nas "aparições do céu" há discriminação!

Duas delas já tinham morrido, há uns dez-onze anos, de pneumonia. E também em consequência do terror que a senhora de Fátima lhes incutiu (entenda-se, certas catequeses moralistas e terroristas de grande parte do clero de então). Na circunstância, valeu, por isso, ao regime e à sua poderosa dupla, Salazar-cardeal Cerejeira, a existência de Lúcia, a mais velha das três antigas crianças "videntes". Talvez, por ser mais vigorosa e menos impressionável, conseguiu sobreviver a todo aquele terror que a Senhora de Fátima materializava e materializa ainda hoje.

Entretanto, alguns clérigos mais fanáticos do catolicismo obscurantista e moralista de então - eles viam nas "aparições de Fátima" não a presença do demoníaco, como elas efetivamente são, mas sim a presença do divino, e até um verdadeiro milagre do céu - haviam conseguido arrastar a pequenina Lúcia, poucos anos depois de 1917, para fora da sua aldeia e encurralaram-na, primeiro, no asilo de vilar, no porto, e, depois, num convento da Galiza. Foram ao ponto de lhe arrancar o nome (é o mesmo que tirar-lhe a identidade) e passaram a chamar-lhe - imagine-se! - irmã Maria das Dores. Ao mesmo tempo, proibiram-lhe que alguma vez falasse a alguém das "aparições".

O terreno estava, pois, mais do que preparado para obter desta antiga "vidente" uns relatos bem mais completos das "aparições", os quais, duma vez por todas, impusessem Fátima à igreja e ao mundo. E, se bem o pensaram, melhor o fizeram. Deram ordens à irmã dores (atualmente, ela é, de novo, Lúcia), sempre em nome, é claro, do voto de obediência, para que ela escrevesse. E até lhe forneceram, antes de cada relato, orientações muito precisas sobre o que ela deveria escrever. Finalmente, corrigiram-lhe os textos que ela manuscreveu, para que pudessem ser publicados sem erros e com boa pontuação. Tudo muito isento, como se vê...!

***

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Colaboração: Dionatan Silva.


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25 de fevereiro de 2015

Uma análise das experiências de quase morte sob uma perspectiva científica e bíblica


Eu planejava escrever uma continuação ao meu artigo anterior, "Mais um argumento contra a existência de uma alma imortal", mas mudei de ideia ao ver que algumas pessoas ainda levam em consideração as experiências de quase morte (que ao longo deste texto serão retratadas apenas pela sigla “EQM”) como uma evidência para a sobrevivência consciente da alma na morte. Particularmente, este argumento nunca me chamou muita atenção, nem mesmo na época em que eu ainda era imortalista, razão pela qual eu não escrevo nem uma linha sobre ele ao longo de todas as mais de 800 páginas do meu livro sobre o tema. Eu me preocupava somente com as evidências bíblicas, como venho fazendo por meio de artigos também. Mas como este tema é de interesse de muita gente, decidi escrever algo a respeito sob uma perspectiva espiritual e científica.


1. Sob uma perspectiva científica

Se as EQM fossem uma prova definitiva e cabal para a existência de uma alma imortal presa em algum lugar no interior do corpo humano, então seria de se perguntar o porquê que ainda existem cientistas e médicos que não creem na existência de uma alma no sentido platônico da mesma. Não deveriam existir médicos ou cientistas ateus, por exemplo. Deveriam estar todos bem convertidos. No mínimo, as evidências nesta área não são muito convincentes ou conclusivas, razão pela qual ela é desdenhada pela esmagadora maioria da comunidade científica. Há muitos cientistas que creem na alma, mas apenas uma minoria insignificante de cientistas que creem na alma por causa das EQM. A maioria crê por razões religiosas, pura e simplesmente. E muitos não creem em nada.

No fundo, o que os imortalistas querem mesmo nos convencer é que temos que crer nas EQM porque a ciência diz isso, quando quase nenhum cientista crê nas EQM! Quem crê geralmente são leigos, estimulados por um ou outro médico em especial. É interessante notar que quase sempre os que estão lutando pela veracidade das EQM como uma “prova” da sobrevivência da alma são pessoas que são qualquer coisa, menos neurologistas. Ou seja: são como jogadores de hóquei no gelo opinando sobre jogadas de xadrez. Os neurologistas mesmo, ou seja, os que estudam a área do cérebro, quase nunca se preocupam em escrever livros ou defender as EQM – na verdade, a grande maioria deles as ignora completamente.

Um artigo escrito por um médico chamado Alex Likerman, publicado originalmente no Happiness in this World e traduzido para o português pelo site Ceticismo Aberto discorre sobre as EQM e refuta a tese de que elas sejam uma prova cabal da sobrevivência ou mesmo existência da alma. Ele escreve:

«Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, é provável não apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?

Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas apenas porque milhões de pessoas já viveram EQMs, isso não significa que a explicação mais comumente aceita para elas – que almas deixam os corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – esteja correta.

Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., “a vida após a morte é real”) do que como resultado da experiência em si. Acontece que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.

Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente será causado). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.

A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson descobriu em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele descobriu que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é localizado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luzes, sensações fora do corpo e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.

A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel, tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguíneo dos olhos.

Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada têm a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se de anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).

Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes conscientes no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.

Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando variava a corrente e a localização do estímulo, podia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!

Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou-se e mudou de posições.

Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vêm de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que adormeciam, sugerindo fortemente que a imagem que viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída em sua memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada, esta permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.

Em suma, embora longe de estar provada como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita»

Como vemos, a ciência já é capaz de explicar cientificamente as EQM sem apelar para a resposta fácil de que “é uma alma saindo do corpo”. E mesmo que ainda não tenhamos todas as respostas para tudo, isso não significa que tenhamos que apelar para a “alma” como a resposta. Isso porque a ciência é um campo que está em constante desenvolvimento; nós sabemos mais hoje do que sabíamos ontem, e conheceremos mais amanhã do que conhecemos hoje.

Todas as evidências científicas apontam causas racionais e não espirituais para as EQM, e mesmo que nós não tenhamos todas as respostas hoje não significa que não tenhamos todas as respostas amanhã, nem justifica uma resposta evasiva e supersticiosa. O fato de os homens do passado não saberem o que causava os raios não justificava que a resposta fosse “os deuses”. O fato de não termos certas respostas hoje no campo da neurologia não justifica que a resposta seja “a alma”.


2. Sob uma perspectiva espiritual/bíblica

Se algo ainda precisa ser explicado espiritualmente, não há problemas com isso, uma vez que os evangélicos e católicos em geral já aceitam com facilidade que coisas como necromancia e mediunidade, por exemplo, não são “provas” da existência de almas ou espíritos ou vida no além, mas sim de demônios. O que o diabo ganharia com isso? A resposta é simples: reforçar uma crença falsa. O objetivo de Satanás é afastar as pessoas da Bíblia através de confirmações “sobrenaturais” de algo antibíblico, que possa distanciar o homem de Deus.

Se cremos que de fato a imortalidade da alma é a primeira mentira de Satanás, presente desde o Jardim do Éden, e que o “certamente não morrerás” (Gn.3:4) é seu lema principal, então é óbvio que ele vai empregar todos os seus esforços para tentar validar esta crença, seja por meios “bíblicos” (deturpando passagens bíblicas isoladas) ou por meios “extra-bíblicos” (fazendo parecer que existe vida fora do corpo). Se o diabo está comprometido com a crença na imortalidade da alma, é ele quem se encarga de dar continuidade e validade à lenda. É por isso que existem centros espíritas com evocação de mortos, é por isso que existem várias visões marianas em tudo quanto é lugar, é por isso que existem milagres em seitas e é por isso que existem as EQM.

O problema é que a esmagadora maioria das pessoas tem extrema facilidade em aceitar o fato de que espíritos malignos estão presentes em coisas como mediunidade, porque crescemos aprendendo isso. E os evangélicos também não vêem problema em pensar o mesmo sobre as “aparições” marianas, pela mesma razão. Mas, paradoxalmente, temos uma enorme hesitação em aceitar que o mesmo princípio se aplica às EQM, isso porque fomos educados com a crença na imortalidade da alma, que com o tempo vai fazendo com a nossa cabeça o que chamamos de tradição.

A dificuldade reside no fato de que derrubar algo que já chegou ao status de tradição é extremamente difícil, ainda mais se o indivíduo em questão for alguém fechado à verdade, que vive dentro de uma bolha. Por causa desta tradição, não usamos do mesmo critério quando pensamos nas EQM, porque parece a princípio absurdo que o demônio esteja envolvido em algo que nós aprendemos que é verdadeiro, embora seja fácil demais acreditarmos que ele esteja envolvido em algo que nós aprendemos que é falso.

Se ele pode aparecer mentalmente em um médium, o que impediria ele de aparecer mentalmente em uma pessoa comum, fazendo-a pensar que viu coisas? Por que a lógica que vale para um caso não vale para outro? Se tivéssemos sido criados desde sempre contra a crença imortalista, a aceitação de que o que ocorre nessas visões mentais é relacionado ao demônio seria muito mais fácil, até porque a mesma razão pela qual o demônio atua em um caso é também a razão pela qual atua no outro: validar uma crença falsa, deixando em dúvida o que consta na Bíblia. Para isso bastaria que o demônio entrasse na mente do indivíduo da mesma forma que entra na mente de um médium e que lhe passasse um quadro mental em que a pessoa “se vê” em um Paraíso.

Mas há ainda muitos outros problemas com as EQM que, se fossem levados em consideração, destruiria o Cristianismo por completo. Em primeiro lugar, é notável que na esmagadora maioria das vezes a pessoa que experimenta uma EQM se vê no Céu, e não no inferno. Existem algumas raras exceções, é verdade, mas são poucas. Pelo menos 99% dos pacientes dizem se ver em um Paraíso. O problema é que estes dados confrontam abertamente o que a Bíblia tem a dizer a respeito. Segundo Jesus, a maioria se perderá, e apenas uma minoria se salvará. Ele disse:

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram" (Mateus 7:13-14)

“Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, serão poucos os salvos?’ Ele lhes disse: ‘Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão’” (Lucas 13:23-24)

Biblicamente, são poucos os que se salvam, e são muitos os que se perdem. Nas EQM, em contraste, ocorre que são muitos os que se salvam, e são poucos os que se perdem. Se as EQM realmente retratam uma realidade espiritual, devemos questionar seriamente o que Jesus disse nos evangelhos, e confrontar o ensino bíblico pela “realidade” das EQM. Devemos escolher entre ficar com os relatos de EQM ou com Jesus. Não há meio-termo. Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque a maioria das pessoas pensa que irá morar no Céu, e não no inferno.

Em segundo lugar, todas as experiências relatadas trazem resultados conflitantes não apenas entre si, mas, principalmente, com a Bíblia. Os relatos são tudo aquilo que deveríamos esperar caso tudo fosse fruto da mente humana: o muçulmano se vê no Paraíso islâmico das sete virgens; o espírita se vê no “mundo dos espíritos” de Alan Kardec; o católico é recepcionado por algum santo na portaria do “Céu”; o hindu se vê no seu tipo de “Paraíso”, e assim por diante. É impressionante notar que não há similaridade nenhuma nos relatos, o que aconteceria caso as EQM fossem reais (neste caso, todas as pessoas estariam descrevendo o mesmo Céu dos cristãos imortalistas ocidentais!).

O Dr. Sammuelle Bacchiocchi, em sua clássica obra “Imortalidade ou Ressurreição?”, escreveu:

“Karlis Osis e Erlendur Haraldsson avaliaram os relatos de mais de 1.000 experiências de quase-morte nos EUA e Índia. Descobriram que a visão dos pacientes hindus era tipicamente indiana, enquanto a dos americanos era ocidental e cristã. Por exemplo, uma mulher indiana de formação universitária teve a experiência de ser conduzida ao céu sobre uma vaca, enquanto um paciente americano que havia orado a São José encontrou o seu santo padroeiro na experiência. Tais relatos sobre experiências de quase morte refletem as crenças pessoais dos pacientes. O que experimentaram no processo de morrer quase certamente condiciona-se a suas crenças pessoais”

É por isso que até hoje nunca houve um médico, cientista ou neurologista que se convertesse ao Cristianismo após analisar os relatos de EQM: porque esses relatos apenas confirmam as crenças pessoas de cada um, seja a pessoa budista, hinduísta, judeu, católico, protestante, espírita, etc. Não me surpreenderia se um dia algum ateu morresse e relatasse uma EQM onde se viu com Richard Dawkins, seu ídolo máster! (Isso infelizmente não é possível porque Dawkins ainda está vivo. Mas espere só alguns anos!).

Se tomássemos como verdadeiras provas da imortalidade da alma os relatos de EQM, não seríamos apenas imortalistas: seríamos relativistas religiosos, daquele tipo que alega que todos os caminhos levam a Deus e que todas as religiões são igualmente verdadeiras. Perceba a ironia aqui presente: o mesmo argumento que o imortalista usa contra o mortalista para validar a crença na imortalidade da alma também poderia ser igualmente usado pelo relativista convencer o imortalista sobre o relativismo religioso! Os dois teriam o mesmo peso, porque partem da premissa de que as EQM são verdadeiros acontecimentos do pós-morte. Naturalmente, o imortalista cristão não faz isso – ele simplesmente faz de conta que todos os relatos de EQM no mundo todo só fazem menção ao Céu cristão e da sua religião em particular.

Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque as pessoas pensam que o Céu da sua religião é o verdadeiro, e não o Céu das outras religiões.

Em terceiro lugar, se os relatos de EQM são uma prova da sobrevivência da alma, então teríamos que mutilar a Bíblia na questão do juízo. Isso porque o autor de Hebreus é claro ao dizer que depois da morte segue-se o juízo (Hb.9:27), mas em absolutamente nenhum relato de EQM o paciente diz ter ido ao juízo! Ninguém se viu diante de um julgamento; ao contrário, todos se viam no Céu direto. Mais uma vez somos forçados a escolher entre o que as EQM dizem e o que a Bíblia diz, que é isso:

“O homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo (Hebreus 9:27)

O autor de Hebreus não diz que o homem morre uma vez e depois disso se encontra no Céu com os anjinhos e ali reencontra a vovozinha e São Pedro com as chaves do céu; ao contrário: ele explicitamente diz que o acontecimento que se segue à morte é o juízo. Quantas pessoas que relataram EQM se viram no juízo? Nenhuma que eu saiba! Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque as pessoas em geral não estão familiarizadas com a crença bíblica de que após a morte vem o juízo. Elas pensam que vão pro Céu direto.

Em quarto lugar, como o próprio nome afirma por si mesmo, as “experiências de quase morte” não são experiências de pós morte. Para ser claro: aquelas pessoas não tinham morrido ainda. O que o imortalista fanático quer nos fazer acreditar é que a alma da criatura saiu do corpo dela antes mesmo da morte corporal! Isso é fantástico! Na Bíblia não há sequer uma única passagem que diga que a alma sai do corpo na morte, mas esses imortalistas vão além, e chegam ao cúmulo de dizer que a alma sai do corpo antes mesmo da morte!

Isso se parece muito com aquela estorinha que saiu na internet há algum tempo atrás (e para toda fofoca de internet tem sempre um idiota que acredita), que mostrava uma foto em que a tal “alma” do falecido é fotografada saindo do corpo de um paciente. (Depois provaram que a foto era uma falsificação barata. Que surpresa.) Mas como que a alma teria sido fotografada se ela é imaterial, e por esta mesma razão não pode ser vista por olhos humanos ou sair por aí em um álbum de fotos? Se a alma é imaterial, ela não pode ser fotografada. Então, se foi fotografada, não é a alma. Da mesma forma: se a alma só deixa o corpo na morte (conforme a crença imortalista tradicional), ela não sai antes da morte. Então, se algo “saiu” antes da morte, não é a alma.

Em quinto lugar, há outro problema fatal para os “teólogos da EQM”: o fato de milhões e milhões de pessoas terem passado pelo estado de “quase morte” e não terem tido nenhuma história para contar. Há até casos documentados em que pessoas morreram, voltaram à vida e a primeira coisa que vieram importunar, como não podia ser diferente, é “o que viu lá”. E a resposta foi somente: “nada”. Não havia nada para contar. Nenhuma historinha, nenhum anjinho, nenhum Satã no quinto dos infernos, nenhum porteiro no Céu, nenhuma luz no fim do túnel, simplesmente nada. Isso saiu há anos atrás em fóruns adventistas, mas eu fiz questão de não colocar isso como argumento no livro, cujo propósito é estritamente bíblico e histórico. Porém, para os que creem nas EQM, perguntaremos: aquelas pessoas que não tiveram nada a contar é porque não tinham alma? Será que o espírito delas não estava funcionando direito? Será que elas tiveram uma “amnésia celestial”?

Nada disso. A verdade é que isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque há pessoas que não creem em nada depois da morte, e elas estão menos propensas a se verem em algum lugar depois de morrer.

O Dr. Bacchiocchi foi muito oportuno ao dizer, no mesmo livro recém mencionado, que:

“A Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11), mas nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. Lázaro, que foi trazido à vida após estar clinicamente morto por quatro dias, não trouxe qualquer relato de emocionantes experiências fora do corpo. A razão para isso é simples: a morte, segundo a Bíblia, é a cessação da vida da pessoa inteira, corpo e alma. Não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurreição. Os mortos repousam inconscientemente em suas sepulturas até que Cristo os chame no glorioso dia de Sua vinda”

Não é formidável observar que a Bíblia teve todas as oportunidades do mundo para relatar uma “EQM”, uma vez que teve nada a menos que sete pessoas que de fato morreram e poderiam ter contado um monte de historinhas, mas que, curiosamente, nenhuma vez relatou alguma “experiência pós-morte” destas pessoas? Não é surpreendente notar que nenhuma delas teve alguma história para contar sobre os dias em que estiveram mortas? Não é curioso saber que os imortalistas correm desesperados em busca de milhares de relatos de EQM, em que os pacientes contam com a maior empolgação suas histórias como se fosse a coisa mais importante do mundo, mas a Bíblia as ignora completamente, mesmo tendo perfeita e oportuna ocasião para fazê-lo?

O resumo deste estudo é que, seja do ponto de vista científico ou espiritual, não há base sólida suficiente para estabelecer as EQM como uma “prova”, ou mesmo como “evidência” de vida após a morte. O que todas as evidências apontam em conjunto é que essas experiências são frutos da individualidade e subjetividade de cada um, e isso explica tudo: explica porquê quase ninguém se vê no inferno, explica porquê ninguém se vê em um juízo, explica porquê todas elas se vêem no Céu da sua própria religião, explica até mesmo porquê que muita gente não passa por EQM nenhuma!

Nós temos todas as evidências necessárias de que isso é meramente fruto da atividade cerebral do indivíduo em seus últimos momentos de vida, só não sabemos perfeitamente como que isto se dá: e é para isso que existe a neurologia, que cada vez mais lança luz nesta área, colocando os teóricos da EQM com cada vez menos espaço, tendo que recuar cada vez mais. O que nós sabemos é que não precisamos da “alma” para explicar as coisas e seguir adiante. Os teóricos da EQM precisam se agarrar à explicação fantasiosa e irracional para sustentar sua crença em uma alma imortal; nós precisamos apenas deixar que a ciência tome o seu caminho, que os neurologistas sigam o seu curso e que a Bíblia nos direcione em toda a verdade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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