21 de fevereiro de 2017

A tradição e as tradições. Devemos confiar nelas?


No artigo mais recente, onde mostro as provas de que João não é o autor do quarto evangelho, o que derruba mais uma lenda da tradição, um leitor me perguntou algo importante: pra que serve a tradição? Eu dei uma resposta resumida, mas decidi escrever este artigo para aprofundar melhor a questão. O primeiro e mais importante de tudo é definir o que é a “tradição”. Apologistas católicos vivem falando da tradição e a exaltando, até mesmo a usando em debates, mas nenhum deles é capaz de dizer o que ela significa realmente, e muito menos delimitar toda a extensão da tradição, isto é, colocar numa folha de papel exatamente todas as doutrinas que são fruto da tradição, quais vieram da Bíblia e quais foram criadas pelo magistério (as três autoridades dos católicos).

A Igreja Romana tem seu “cânon bíblico” da mesma forma que as outras igrejas, mas não tem um “cânon da tradição”, isto é, nunca afirmou o que faz parte da tradição, quais os seus ensinos, da onde que cada tradição surgiu, quais as provas da autenticidade de cada uma delas, etc. Não há simplesmente nada. Os apologistas católicos repetem à exaustão a “tradição”, sem sequer fazer a menor ideia do que estão falando. Mas, neste quesito, admito que nem é culpa da preguiça mental e da ignorância característica a todo e qualquer apologista católico, mas, neste caso, é da própria Igreja Romana, que simplesmente não lhes dá subsídios nesta questão. O atual catecismo católico tem um verbete inteiro sobre a tradição (veja aqui), mas a coisa toda é tão vaga e imprecisa, que duvido que tenha ajudado algum romanista a resolver o “mistério”.

Talvez por isso, não é nada raro ouvirmos por aí apologistas católicos afirmando que a tradição é “tudo”, ou seja, todo o depósito da fé, todo o conjunto de ensinos, normas e práticas da Igreja, e que a própria Bíblia seria apenas parte dessa tão vultuosa tradição. Você certamente já deve ter ouvido isso em algum lugar. Alguns tem até um argumento pronto, na ponta da língua: “Como é que vocês protestantes podem aceitar a Escritura e rejeitar a tradição, se a Escritura é parte da tradição?”. O problema é que, por mais vago que o catecismo seja, ele não é vago o suficiente para dar suporte a essa concepção particular de certos papistas em relação ao que vem a ser a “tradição”.

O terceiro catecismo católico, por exemplo, afirmava que “à tradição deve dar-se o valor que se dá à Palavra de Deus revelada, contida nas Sagradas Escrituras”[1]. Note que o catecismo em questão faz clara distinção entre o que é a “Palavra de Deus” (Sagradas Escrituras) e o que é a “tradição”, embora teime que as duas tenham o mesmo valor. O atual catecismo também deixa clara tal distinção, quando diz que “o patrimônio sagrado da fé está contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura”[2] (grifo meu). E, voltando ao terceiro catecismo, é afirmado que “a tradição é a Palavra de Deus não escrita, mas comunicada de viva-voz por Jesus Cristo e pelos apóstolos, e transmitida inalterada de séculos em séculos até nós”[3].

Se a tradição é o que não foi escrito, então não pode ser a Bíblia (que foi escrita!). Trata-se, portanto, de supostos ensinamentos orais que supostamente remetem a Cristo e aos apóstolos (mesmo sem nenhuma prova disso), e que não foram registrados por escrito na Bíblia ou em outra fonte. Ou para ser mais claro: são estórias de pescador para fazer o boi dormir. A tradição romanista nada mais é do que o amontoado de uma série de ensinos e práticas que não foram registradas em lugar nenhum, das quais não se tem a menor linha de evidência, indício ou prova de sua veracidade, mas que a Igreja Romana simplesmente “sabe” que são verdadeiras, e você é obrigado a confiar nisso sem questionar.

E como ela não tem prova nenhuma de que tais coisas foram realmente ensinadas oralmente pelos apóstolos, não ousa fazer uma “lista de tradições”, para não passar vergonha. Então, no fim das contas, a “tradição” acaba se resumindo apenas a um chapéu de mágico, que pode tirar dali quantos e quais coelhos (doutrinas) quiser, e quando quiser. Tudo o que vale é a criatividade e a conveniência do momento. Eu já expliquei isso detalhadamente neste artigo.

E aqui podemos desmantelar o primeiro truque da apologética católica, que consiste em considerar a tradição como se fosse uma coisa só, bem concreta e definida, quando, na verdade, é apenas um amontoado de tradições diferentes, sem fundamento nenhum, numa coisa tão obscura e vergonhosa que nem a própria Igreja Romana define o que vem a ser precisamente. E se algum evangélico se recusa a crer nesta tradição, ou melhor, nas tradições, é imediatamente bombardeado com o “argumento do cânon”, que funciona deste jeito:

• O cânon bíblico é uma tradição católica.
• Os protestantes creem no cânon bíblico.
• Logo, os protestantes são obrigados a crer na tradição católica.

Mesmo se fizéssemos de conta que a primeira premissa fosse verdadeira, ainda assim a conclusão seria falha: no máximo, seríamos obrigados a crer nessa tradição (por a considerarmos plausível), mas não necessariamente em todas as tradições (por serem implausíveis). Nós não somos judeus simplesmente por aceitarmos o cânon deles do AT, e não seríamos católicos somente por aceitarmos o cânon católico do NT. Mas observe que no silogismo católico e nas argumentações deles a tradição é sempre apresentada como se fosse uma coisa só, como se você tivesse que aceitar todas as tradições deles se quiser aceitar essa.

É como quando você baixa um programa na internet, e durante a instalação desse programa, você tem que instalar também o “Baidu”, o “Hao123”, o “Babylon” e outras maravilhas da internet. Com a diferença de que você geralmente tem a opção de desmarcar esses programas na hora da instalação, enquanto os papistas não lhes dão esse direito: se você aceita uma tradição que eles consideram deles, você tem que aceitar todas as outras, incluindo algumas mais ridículas e toscas do que o Baidu e o Hao123.

Ou você aceita o “pacote completo”, ou não aceita nada. Assim, ao invés de debater tradição por tradição, uma a uma (o que eles não fazem, porque sabem que nenhuma tem fundamento e seriam derrotados facilmente em cada uma delas), eles jogam o argumento do cânon e outros semelhantes para exigir a aceitação de todas as outras tradições, que, na cabeça do católico, são todas uma coisa só – “a Tradição”.

É claro que, além de a conclusão ser falsa, as premissas também o são. Nem o cânon foi formado pela Igreja Romana, nem teve a participação ativa de qualquer papa, nem mesmo é parte de uma “tradição oral” (a não ser que algum papista seja insano o suficiente para alegar que o cânon verdadeiro foi transmitido adiante geração após geração direto dos apóstolos...). Ou seja: trata-se de um argumento flagrantemente falso desde as suas premissas até a conclusão, que eu já refutei em centenas de artigos neste blog e nos meus livros, mas é o melhor que os apologistas católicos têm para defender a tal “tradição”.

Se analisássemos as tradições, isto é, tradição por tradição, veríamos que nenhuma tem qualquer fundamento sólido, e outras são inclusive aberrantes, flagrantemente contra o ensino bíblico e dos primeiros escritores cristãos. Aqui darei apenas alguns exemplos bem rápidos, por razões óbvias. Primeiro porque, se eu fosse refutar cada uma das tradições papistas, teria que escrever um livro inteiro. E segundo porque todas elas já foram refutadas em artigos específicos sobre cada uma delas. Por isso passarei aqui apenas um breve resumo de algumas delas, com links que redirecionam para artigos onde explano melhor a questão.


Amilenismo

A posição amilenista da Igreja Católica não encontra nenhum amparo nos primeiros Pais da Igreja, que ensinaram explicitamente o contrário, em diversas ocasiões diferentes. Clemente (35-97) afirmou que os bons habitariam na terra[4], a Didaquê (60-90) diz que os mansos receberiam a terra como herança[5], tanto Policarpo[6] (69-155) como a Didaquê[7] afirmavam expressamente que só os justos ressuscitariam na volta de Jesus (porque os demais ressuscitariam no fim do milênio, o que confronta a tese amilenista de que todos ressuscitarão juntos quando Cristo voltar), e Irineu (130-202) dizia que de maneira nenhuma podemos entender que Ele estará bebendo o fruto da vide quando se colocar com os Seus [discípulos] em um palácio celestial[8].

Justino (100-165) sustentava que “eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída, adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram”[9]. Jerônimo (347-420), que viveu em séculos posteriores, quando já se aceitava o amilenismo, testemunhava que os Pais da Igreja mais antigos, como Papias (70-163), Irineu (130-202), Apolinário (séc. II), Tertuliano (160-220), Vitorino e Lactâncio eram todos milenaristas[10].

O caso mais impressionante fica por conta de Papias, que teria convivido pessoalmente com discípulos diretos dos apóstolos e era contemporâneo de João, e era declaradamente milenarista. Sua crença incomodou Eusébio de Cesareia, escritor mais tardio que, já no século IV, adotava o amilenismo e tentava desqualificar o testemunho de Papias nas seguintes palavras:

“Ele [Papias] diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milênio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico. A verdade é que, pelo que se pode deduzir de seus próprios discursos, Papias parece ser homem de inteligência curta. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escritores eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antiguidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qualquer outro que manifeste professar ideias parecidas”[11]

É isso mesmo: ele literalmente chama Papias de burro, para não admitir que ele (muito mais perto dos apóstolos) estava certo, e o próprio Eusébio (muito mais longe da época dos apóstolos) estava errado. O que temos aqui é um caso flagrante em que a “tradição” romanista funciona exatamente da forma CONTRÁRIA à que alega funcionar. Em vez de ser um ensino transmitido pelos apóstolos e preservado de geração após geração, é justamente o inverso daquilo que os que conviveram mais perto dos apóstolos criam.

Ou seja, para um católico crer nesta tradição, é preciso quase que arrancar o cérebro. É bastante simples: só precisa acreditar que os Pais da Igreja dos séculos I e II, que conviveram pessoalmente com os apóstolos ou com discípulos dos apóstolos, estavam errados e não entenderam nada do que os apóstolos disseram, mas que os Pais dos séculos IV em diante, que nunca viram um apóstolo ou discípulo de apóstolo na vida, “conservaram” a tradição “incorruptível” desde o século I até seus dias! Daí para se crer em Batman, duendes, fada dos dentes e porcos voadores é somente um passo.

Leia mais sobre isso neste artigo.


Assunção de Maria

Outro caso flagrante de tradição sem pé e nem cabeça. Vem de uma “tradição” tão confiável, que o primeiro Pai da Igreja a falar disso foi João Damasceno, que escreveu sobre isso no oitavo século depois de Cristo, isso mesmo, a nada a menos que 700 anos depois dos apóstolos, e que com certeza sabia bem do que estava falando...

Dos Pais da Igreja anteriores a ele, nenhum mencionou qualquer assunção de Maria, nem mesmo os mais “marianos”, nem sequer aqueles que faziam sermões ou escreviam obras inteiras para falar de Maria. Simplesmente nada de nada de nada. Epifânio (310-403), no século IV, escreveu uma obra inteira chamada “Os Últimos Dias da Virgem Maria”. Ali era a ocasião mais que perfeita para relatar aquilo que todo apologista católico moderno crê de pés juntos: que Maria foi assunta aos céus de corpo e alma. Mas na parte final do livro, ele simplesmente diz que “se Maria morreu ou não, nós não sabemos[12].

E termina o livro, sem assunção nem nada. Quer dizer: um reconhecido Pai da Igreja do século IV que pesquisou a fundo os últimos dias de Maria em todas as fontes possíveis da época não sabia nada a respeito se ela morreu ou não, nem disse nada sobre uma suposta assunção, mas em pleno ano de 1950 o papa Pio XII tinha certeza desse dogma, e pior ainda, querendo nos convencer de que foi um ensino passado adiante de boca em boca até chegar ao século XX! Que católico escreveria um livro só para falar dos últimos dias da virgem Maria e se esqueceria de mencionar justamente a parte mais importante, o tão consagrado dogma da assunção, que distingue Maria de praticamente todas as outras criaturas que já pisaram na terra?

É evidente que tal ensino se trata de uma invenção tardia que não possui nenhum fundamento nem no que foi registrado por escrito e nem no que foi transmitido oralmente, e por essa razão não aparece nem na Bíblia e nem nos Pais da Igreja dos primeiros séculos. Qualquer pesquisador sério, honesto e decente descartaria esta doutrina e a trataria como espúria, mas a Igreja Romana, como quer se destacar em relação a todos os demais, não apenas alega que este ensino é verdadeiro, como também o torna como dogma, ou seja, como necessário crer para ser considerado católico e, consequentemente, necessário para a salvação, visto que “fora da Igreja não há salvação”. É este o nível de seriedade que a Igreja Católica tem ao formular suas doutrinas.


Imaculada conceição de Maria

Este é um caso mais grave do que o anterior, porque não temos nem mesmo um Pai da Igreja do século oitavo defendendo tal coisa, o que temos são todos os Pais da Igreja unanimemente contra, como Keith Thompson provou neste artigo que eu traduzi para o blog no ano retrasado, onde ele cita nomes como Tertuliano, Irineu, Basílio, Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Cirilo de Jerusalém, Gregório Nazianzeno, Agostinho, Ambrósio, entre outros, e tudo isso com a confirmação de respeitados teólogos e historiadores católicos romanos que admitem este fato (isso sem falar na total omissão dos primeiros Pais da Igreja à pessoa de Maria, quanto mais a este dogma em específico).

Os sites mentirosos de apologética católica (me perdoem a redundância) estão repletos de citações que “provam” que este ou aquele Pai da Igreja cria na imaculada conceição, com citações totalmente distorcidas que NUNCA dizem que Maria foi livre do pecado original, mas que, na melhor das hipóteses, afirmam que ela não cometeu nenhum pecado pessoal em vida (que era a posição de Agostinho, por exemplo), o que não é a mesma coisa que imaculada conceição, que é o dogma católico. Na verdade, até Agostinho reconhecia que o Senhor Jesus era o único entre os nascidos de mulher que teve um nascimento imaculado:

“O Senhor Jesus, o absolutamente santo entre os nascidos de mulher, é o único que, pela novidade do parto imaculado, não conheceu o contágio da corrupção terrena e o rechaçou com sua celestial majestade”[13]

E, para a surpresa e o espanto de muitos, até o próprio Tomás de Aquino, famoso filósofo medieval católico, era contra a imaculada conceição, e afirmava explicitamente que Maria contraiu sim o pecado original. Em sua Suma Teológica, Tomás afirma que "a bem aventurada virgem contraiu o pecado original"[14]. E, como se não bastasse, ele diz ainda que se Maria nunca houvesse sido contagiada pelo pecado original, isso iria derrotar a dignidade de Cristo!

“Respondemos que a santificação da bem-aventurada Virgem não pode entender-se antes de receber a vida... se a bem-aventurada Virgem houvesse sido santificada de qualquer modo antes de receber a vida, nunca teria incorrido na mancha do pecado original; e, portanto, não teria necessitado da redenção e da salvação, que é por Cristo, de quem se diz: ...porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mat. 1.21). Mas é inconveniente que Cristo não seja o salvador de todos os homens como se diz (I Tm. 4.10). Logo, segue-se que se a santificação da bem-aventurada Virgem nunca houvesse sido contagiada do pecado original, isto derrocaria a dignidade de Cristo, que não necessitou ser salvo, como salvador universal, pois a maior pureza seria a da bem-aventurada Virgem[15]

Há tempos atrás um arruinado apologista católico tentou consertar a lambança com uma ainda maior, inventando que Tomás de Aquino havia “mudado de opinião” no final da vida, achando que ninguém iria perceber a sandice e que não seria desmascarado nunca. Mas a alegria durou pouco, porque logo depois o Bruno Lima, especialista em desmascarar fraudes católicas, descobriu isso e o desmascarou em seu blog, e no final o apologista católico em questão se cansou de levar uma porrada atrás da outra e simplesmente fugiu do debate (o Bruno continua esperando a tal “resposta” até hoje...). Vejam aqui e aqui.

E, mesmo assim, ou seja, mesmo com todos os Pais da Igreja nos primeiros séculos e espantosamente até mesmo com doutores medievais católicos contra, ainda assim a Igreja Romana alega que esse dogma é fruto da “tradição”, como se os apóstolos tivessem ensinado isso oralmente e passado adiante de geração em geração de forma incorruptível até chegar a nós nos dias de hoje, como ensina o catecismo católico. É simplesmente o cúmulo do ridículo. É preciso ser um verdadeiro mestre na arte de ser engando para se crer numa coisa dessas.


Conclusão

As tradições romanistas apresentam todos os indícios característicos que fariam qualquer estudioso sério e honesto com um mínimo de senso crítico classificar como a maior fraude da face da terra, demandando um nível de ingenuidade supremo e desconhecido no universo para se crer nelas. Simplesmente não tem como serem mais patentemente falsas do que já se apresentam ser. E aqui eu citei apenas três casos de tradições católicas completamente sem fundamento, nem bíblico, nem histórico, nem lógico e nem de lugar nenhum, os quais são completamente destroçados pela Sagrada Escritura e pelos primeiros escritores cristãos, mas poderia citar muito, muito mais.

Vários outros casos de tradições poderiam ser citados, não apenas entre os dogmas e doutrinas tidos como oficiais, mas até mesmo em relação a crendices populares que chegaram até nós via tradição, isto é, porque há algum tempo atrás no passado alguém disse que as coisas eram assim, e outros sem qualquer senso crítico as passaram adiante, até que um dia todo mundo pensasse que certo ensinamento era mesmo uma verdade absoluta.

Como eu disse no meu artigo anterior, Irineu dizia que Jesus morreu com mais de 50 anos, e o pior é que ele não alegou isso como uma mera opinião pessoal, mas disse que foi transmitido adiante por João e pelos outros apóstolos![16] Por sorte, os evangelistas, principalmente Lucas, foram bastante precisos em determinar os tempos dos acontecimentos (ex: Lc.3:1-2), e, graças a isso e somente a isso, cristãos mais inteligentes de tempos posteriores não seguiram o conto de Irineu, e hoje sabemos que Cristo morreu aos trinta e três.

Mas imagine se a Bíblia não fosse tão precisa assim em determinar a idade do Mestre: neste caso, seria altamente provável que o conto de Irineu seguisse adiante; as pessoas dariam crédito a esse Pai da Igreja do segundo século e pensariam que a tal “tradição de João e dos apóstolos” era autêntica, e então a copiariam e a transmitiriam de geração após geração, ganhando o status de “tradição”, e, como tal, “inquestionável” – ainda que fosse um erro flagrante. É exatamente o que ocorre em muitos outros assuntos, onde erros conseguem encontrar refúgio e abrigo sob o manto da “tradição”, e, desta forma, se reproduzir como um vírus e transmitir adiante tais enganos, que são cridos como verdade de forma totalmente acrítica pela grande maioria das pessoas.

No mês passado eu postei um vídeo tratando exatamente sobre isso, com alguns exemplos simples como a “fé do tamanho de um grão de mostarda”, os “três reis magos que visitaram Jesus na manjedoura”, as “cinco virgens que caíram no sono”, e, finalmente, os “dois ladrões crucificados com Jesus”:


E, como já foi dito, o artigo mais recente, onde o Alon e eu provamos que João não pode ter sido o autor do quarto evangelho (veja aqui). Há uma quantidade esmagadora de mitos que se creem hoje em dia apenas por tradição, sem qualquer base ou fundamento bíblico, nem sequer uma lógica consistente. Talvez um dos casos mais notáveis seja a da Lenda da Imortalidade da Alma, que é um assunto que eu venho tocando há oito anos, com bastante profundidade e detalhes. Mas há muitos outros que ainda serão abordados, sejam eles de passagens pontuais, ou de doutrinas inteiras.

O problema, como eu já apontei, é que é difícil tirar da cabeça das pessoas um conceito que elas aprenderam a vida inteira como sendo o certo e o verdadeiro, de modo que mesmo quando mostramos evidências suficientes que em qualquer outra circunstância seriam mais do que o bastante para se provar algum ponto, as pessoas insistem em não querer aceitar pelo simples fato de que isso confronta o que elas aprenderam desde sempre. É a velha mentalidade do “gado”, da “vaquinha de presépio”, do “papagaio” que só sabe repetir e repetir aquilo que lhe foi dito, mas não tem a mente aberta para criar algo novo ou confrontar algo já recebido.

Algumas pessoas, com a mente mais aberta para a verdade, tão logo percebem que a tradição falhou outra vez e que todas as evidências estão contra elas, se libertam e aceitam que estavam erradas. Outras, mais apegadas à tradição e com mais dificuldade de se desprender dela, só aceitam depois de muita luta e relutância, quando não tem mais como continuar negando. Mas outras, do tipo mais fanático, bitolado e cego, não aceitam mesmo que se jogue toda a verdade na cara delas. Porque elas simplesmente não estão preocupadas com a verdade, mas com o que lhe é mais conveniente. Se os fatos não são convenientes, rejeitam-se os fatos, para manter a falsa crença de pé. A verdade, em si, é o que menos importa.

A lavagem cerebral feita nestes meios é tão forte, que eles preferem crer que o banco é preto, se quem fez a lavagem cerebral assim disser. E isso não é brincadeira: é exatamente o jeito que eles creem. E o pior: eles próprios admitem isso. Há tempos atrás uma página de fanáticos tridentinos desocupados e de índole neonazista chamada “Cruzados Católicos” publicou um post que eu reproduzi na parte 2 da minha série sobre os zumbis tridentinos, que eu reproduzo novamente agora:


Sim, eles mesmos explicam de forma fácil e simples como funciona a lavagem cerebral no catolicismo. É simplesmente assustador. Nega-se tanto os fatos, rejeita-se tanto as evidências, luta-se tanto contra a verdade, que eles assumidamente abdicam à tarefa de pensar, e deixam de usar o cérebro para que uma outra pessoa pense no lugar deles. Isso pode soar como uma piada, mas é chocante e triste. Não é para rir, mas para chorar. Parece engraçado, mas é de dar pena.

Essa era a mesma mentalidade que os leigos católicos da Idade Média tinham para aceitar de forma tão passional e acrítica a venda de indulgências para o perdão dos pecados (trocar $ por salvação), ou para aceitar “relíquias” ridículas como essas daqui, o que inclui as (várias) cabeças de João Batista, o leite das mamas da Virgem Maria e tantos pedaços da cruz de Cristo ao ponto de poder construir um navio – mas que soavam tão reais e autênticas para leigos católicos da época que, sob forte carga de lavagem cerebral que diariamente recebiam, abdicavam à capacidade de pensar por si mesmos e acreditavam em qualquer estória de pescador, pois jamais passaria pela cabeça deles a hipótese de que a Igreja “Santa” e “infalível” estivesse... errada.

Se eles são treinados para rejeitarem como verdade até mesmo aquilo que eles veem com toda a clareza diante dos seus olhos, como o branco ser branco, como darão o braço a torcer em torno de interpretações bíblicas que refutam as tradições deles? Obviamente, é impossível. Felizmente, o lado positivo de tudo isso é que não estamos aqui para convencer os zumbis acerca de alguma coisa, mas para alertar aqueles que ainda não abriram mão da capacidade de pensar por si mesmos, a estarem cada vez mais de mente aberta, a terem cada vez mais senso crítico, a seguirem as evidências para onde elas levarem, ainda que seja para um lugar tão diferente e distante daquele lugar-comum, tão cômodo e confortável, que esteve durante toda a vida.

Não, isso não é para qualquer um. O próprio Senhor Jesus deixou de contar certas coisas aos apóstolos pela incapacidade deles de suportar tais verdades naquele momento (Jo.16:12). Isso é apenas para aqueles que estão tão determinados a serem honestos consigo mesmos ao ponto de abrirem mão da tradição, quando perceberem que esta, na verdade, é apenas um codinome para contradição.

Não creia em algo por ser “tradição”. Creia em algo por ser verdade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,

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[1] Terceiro Catecismo Católico, p. 154.
[2] §84 do Catecismo Católico.
[3] Terceiro Catecismo Católico, p. 152.
[4] Clemente aos Coríntios, 14:3-4.
[5] Didaquê 1:7.
[6] Policarpo aos Filipenses, 2:1-3
[7] Didaquê 16:6-8.
[8] Contra as Heresias, Livro V, c. 33.
[9] Diálogo com Trifão, c. 80.
[10] De Viris Illustribus, 18.
[11] História Eclesiástica, Livro III, 39:12-1.
[13] Contra Juliano, Livro I, c. 10.
[14] “Suma Teológica”, Parte III, Questão XXVII, Artigo II.
[15] “Suma Teológica”, art. II, parte III, pergunta XXVII.
[16] Contra as Heresias, 2.22.5-6.

16 de fevereiro de 2017

Não, João não escreveu o quarto evangelho

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(O artigo em questão é todo ele pensado e idealizado por Alon Franco, já conhecido por quem segue este blog há algum tempo, e a mim coube apenas redigir o texto com a minha forma argumentativa e desenvolver os argumentos com base nas pesquisas dele)

Por muito tempo, desde o final do século II até o tempo presente, tem-se crido piamente que João é o autor do quarto evangelho, de acordo com a tradição que o aponta como o autor do livro. Muitos, sem qualquer senso crítico ou pesquisa prévia, tomam isso como verdade absoluta pelo simples fato de terem sido ensinados assim a vida inteira, ainda que sem qualquer base objetiva que fundamente essa visão. Neste artigo mostrarei que não apenas a Bíblia se silencia em relação a João ser o autor do quarto evangelho (o que já é conhecido por todos), mas principalmente que ela nos passa indícios objetivos de que João não pode ter sido o autor.

A primeira observação que nos leva a isso vem do fato de o discípulo amado, que se declara como o autor do quarto evangelho (Jo.21:24), ser conhecido do sumo sacerdote, o que lhe permitiu entrar na casa do mesmo, enquanto Pedro ficou de fora:

“Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta” (João 18:15-16)

Para entendermos como isso torna altamente improvável que João fosse o discípulo em questão, temos que entender duas coisas. Primeiro, que o sumo sacerdote não era uma pessoa qualquer. Ele era nada a mais e nada a menos que a maior autoridade de todos os judeus, o sucessor de Arão, aquele ao qual todos os judeus prestavam toda reverência e se submetiam à sua autoridade. Ele era a autoridade máxima do Judaísmo, mais ou menos aquilo que o papa é para o catolicismo romano nos dias de hoje, ou o que o Dalai Lama é para os budistas tibetanos, ou o que o califa era para os muçulmanos, e assim por diante.

Tal como seria difícil um católico nos dias de hoje ser amigo do papa Francisco (mesmo com toda a tecnologia e globalização), ainda mais difícil seria ser amigo do sumo sacerdote numa época em que a única forma de se manter um relacionamento era pessoalmente, e o sumo sacerdote era cercado pelas maiores e mais respeitadas autoridades de Israel. Poucos eram os que tinham o privilégio de serem amigos do sumo sacerdote ou conhecidos a nome por ele, ao ponto do mesmo deixa-lo entrar em sua casa. Mas o discípulo amado conseguiu.

E aqui entra o segundo ponto: João praticamente não tinha chance nenhuma de ser tão próximo do sumo sacerdote como o texto pressupõe ser. Em primeiro lugar, porque ele era apenas um mero adolescente naquela ocasião. A tradição cristã sempre o considerou o discípulo mais jovem de Jesus, e os sites católicos, embora não encontrem um consenso, costumam considerar seu nascimento entre 6 e 15 d.C. Levando em consideração que Jesus nasceu em algum momento entre os anos 7 e 4 a.C, João teria entre 12 (data mais baixa) e 24 anos (data mais alta), de acordo com a própria tradição católica. Tirando a média, ficaria em torno dos 18 anos. Mas é altamente provável que a data real tenha sido ainda menor, o que pode ser comprovado pela leitura do meu artigo sobre a idade dos apóstolos, onde provo que todos os doze apóstolos (exceto Pedro) tinham menos de 21 anos, e que João, o menor deles, provavelmente não passava dos quinze:

A Idade dos Discípulos (clique para ler)

O Alon também escreveu um artigo mais aprofundado a respeito:

A Idade de João no Exílio (clique para ler)

Em uma época em que quase ninguém passava dos 70 anos, e na qual a expectativa de vida era muito abaixo da atual (não há qualquer registro antigo de alguém vivendo mais de noventa anos), um discípulo que morreu em 100 d.C tinha que ser muito jovem em 27-30 d.C, data estimada da morte de Jesus. E se quinze anos é a idade que João tinha quando Jesus morreu, a idade que ele tinha quando foi chamado por ele era doze. Depois disso ele passou a seguir o Mestre por onde ele andava, o qual raramente vinha a Jerusalém, mas situava seu ministério nas regiões mais afastadas de Israel, como na Galileia e em Cafarnaum (veja Mt.4:12-13).

Ou seja: neste período, João não tinha a menor chance de conhecer o sumo sacerdote e se tornar seu amigo, uma vez que João percorria as regiões mais afastadas de Israel junto a Cristo e seus discípulos, e o sumo sacerdote permanecia fixo em Jerusalém. Portanto, se João era mesmo amigo do sumo sacerdote, ele teria que ter construído essa amizade antes de seguir a Cristo, ou seja, quando ele ainda tinha por volta de doze anos! João era tão adolescente que, mesmo depois de seguir Jesus, ainda andava acompanhado pela sua mãe pra lá e pra cá (Mt.20:20), enquanto Pedro já tinha esposa (Mt.8:14). Seria cômico e altissimamente improvável que a maior autoridade de todo Israel, ocupada e cercada pelos mais altos líderes entre os judeus e os romanos, a qual nem o judeu comum tinha acesso, fosse amigo de um menino de doze anos!

A coisa piora ainda mais quando observamos que este garoto de apenas doze anos era somente um mero pescador sem instrução (Mt.4:21), e ainda na Galileia (Mt.4:18), região muito afastada de Jerusalém, onde residia o sumo sacerdote. Sejamos honestos: qual é a chance de a maior autoridade entre todos os judeus ser amigo de um adolescente de aproximadamente doze anos, o qual era apenas um pescador sem instrução cuja atividade era seguir seu pai e seu irmão na pesca, em uma região bastante afastada de onde residia o sumo sacerdote, e em uma época em que não havia telefone, internet, nem carro ou avião? A resposta é óbvia: nenhuma!

Isso, por si só, já deveria ser o suficiente para provar que João não pode ter sido o discípulo amado. Mas as evidências não terminam por aqui, é apenas o começo. No mesmo relato onde é dito que o discípulo amado entrou na casa do sumo sacerdote por ser conhecido dele, é dito algo totalmente diferente com relação a outro discípulo, Pedro:

“Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a moça encarregada da porta e fez Pedro entrar. Ela então perguntou a Pedro: ‘Você não é um dos discípulos desse homem?’ Ele respondeu: ‘Não sou’” (João 18:15-17)

Não vou passar toda a continuação do texto aqui, porque já é conhecido por todos: Pedro se amedronta, tem medo de morrer e nega a Jesus três vezes. Mas note o mais interessante: enquanto Pedro estava acovardado e amedrontado, o tal do discípulo amado estava entrando numa boa na casa do seu amigo, o sumo sacerdote! Note que esse discípulo amado não parecia com medo, nem estava acovardado, não tinha receios nem pavor. Ele simplesmente entrou na casa do sumo sacerdote, como quem já lhe fosse familiar. Para a tradição, esse discípulo era João, alguém muito próximo a Pedro.

É difícil acreditar que, de dois discípulos muito próximos a Jesus e próximos entre si, um fosse tão familiar ao sumo sacerdote, estivesse tão destemido e numa boa, enquanto o outro, que em teoria deveria estar em condição semelhante, estava completamente aterrorizado. Se um discípulo de Jesus conseguiu entrar tão facilmente na casa do sumo sacerdote com livre acesso e sem risco de morte, por que Pedro iria se apavorar tanto pela sua própria vida? Lembre-se que, se o discípulo amado for João, já seria conhecido por todos o fato de ele ser discípulo de Jesus da mesma forma que Pedro, de modo que o simples fato de ser discípulo dele não seria um impedimento a entrar na casa, já que João teria conseguido. Então, por que Pedro não entrou?

Há ainda um detalhe que geralmente passa despercebido pela maioria dos teólogos, que está em Atos 5. Logo depois da ascensão de Jesus, os apóstolos passam a pregar no templo de Jerusalém. Então é dito que:

“...o sumo sacerdote e todos os seus companheiros, membros do partido dos saduceus, ficaram cheios de inveja. Por isso, mandaram prender os apóstolos, colocando-os numa prisão pública” (Atos 5:17-18)

Note que todos os doze apóstolos (agora com Matias no lugar de Judas) foram presos. Isso inclui João, o “discípulo amado” segundo a tradição. O que aconteceu depois? O texto diz que o sumo sacerdote e os demais líderes religiosos dos judeus “ficaram furiosos e queriam matá-los” (v.33). Sim, isso mesmo: o “amigão” do discípulo amado, que há apenas um mês atrás o deixava entrar numa boa em sua própria residência (mesmo já sabendo que seguia Jesus), agora já estava querendo matá-lo!

É essa a conclusão que tiramos segundo a tradição: na Páscoa o sumo sacerdote não vê problema nenhum em João ser discípulo de Jesus, o permite entrar em sua casa, não há qualquer ameaça de morte ou transtorno nisso, e de repente, apenas um mês depois, o simples fato de pregar o evangelho já era o suficiente para ele mudar tão radicalmente de opinião ao ponto de querer assassiná-lo, o que só não ocorreu por causa da intervenção de Gamaliel (vs.34-40)! Parece que a amizade entre o sumo sacerdote e o pescador adolescente da Galileia foi pro brejo...

Mais impressionante ainda que isso é quando Jesus disse claramente que TODOS os doze discípulos o abandonariam:

“Disse-lhes Jesus: Vocês todos me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas’” (Marcos 14:27)

E, aqui, o “todos” não é mera hipérbole ou força de expressão, mas algo tão literal que o evangelho sinóptico de Mateus também faz questão de acentuar o “todos”:

“Então Jesus lhes disse: Ainda esta noite todos vocês me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’” (Mateus 26:31)

Jesus foi suficientemente claro: TODOS os doze discípulos o abandonariam! Contudo, segundo a tradição, o discípulo amado que se manteve fiel a Jesus e o seguiu até a casa do sumo sacerdote, e depois até o pé da cruz, foi João, um dos doze que Jesus disse que o abandonariam! Se João se manteve fiel a Jesus até o fim, então a palavra do Mestre de que todos os doze o abandonariam teria caído por terra. Portanto, o discípulo amado não pode ser João.

Para terminar, o mesmo argumento em relação à idade de João pode ser usado novamente quanto ao texto em que o discípulo amado aparece ao pé da cruz, e Jesus lhe entrega sua mãe aos seus cuidados:

“Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19:26-27)

Vamos retomar o ponto: João, a esta altura, tinha em torno de quinze anos, dificilmente mais do que isso, e impossível que tivesse mais que 20 anos (eu abordo isso detalhadamente neste artigo, e o Alon neste artigo). Jesus só pagou o imposto do templo a ele mesmo e a Pedro (Mt.17:24-27). A razão pela qual ele não pagou pelos outros discípulos é porque tal imposto só era cobrado de quem tinha mais que vinte anos (Êx.30.11-16,38; 25-26). Por implicação lógica, todos os outros discípulos tinham menos de vinte. E João era o mais novo deles, o que implica que provavelmente tinha bem menos que vinte. E, segundo a tradição, foi a esse adolescente que Jesus entregou sua mãe!

Pela tradição judaica, era costume que, na morte do marido, os filhos ou os parentes cuidassem da viúva. Para os católicos, Jesus não quis entregar sua mãe aos seus irmãos, porque estes não existiam. Também não quis entregar aos seus “primos”, que nos evangelhos andavam com ela pra cima e pra baixo (Mc.3:31; Jo.2:12; Mt.12:46; Lc.8:19; Mc.3:31; At.1:14). Também não quis entregar a ninguém com mais experiência ou maturidade. Não: em vez disso, a entregou aos cuidados de um adolescente!

Mas o lado cômico não termina por aí: não bastasse Jesus ter escolhido um garoto para cuidar de uma senhora (sozinho, diga-se de passagem), ainda foi escolher um apóstolo que tinha a incumbência de percorrer o mundo inteiro para pregar o evangelho a toda criatura como um missionário itinerante (Mc.16:15), o qual tinha a promessa de passar por várias e severas perseguições por toda a parte (Mt.24:9), sem sequer ter residência certa (1Co.4:11)! Em vez de escolher um irmão ou primo, ou qualquer pessoa com mais experiência ou maturidade, foi escolher justamente um adolescente que teria que andar pelo mundo todo anunciando o evangelho e que seria perseguido em todo lugar! Você entregaria a sua mãe a alguém nestas condições? Para a tradição, Jesus fez exatamente isso!

Mas a coisa piora quando passamos a Atos e às epístolas, e não vemos João com Maria em parte nenhuma! Embora o texto tenha sido claro o suficiente ao dizer que daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (Jo.19:27) – e não que a levou para casa anos mais tarde –, não há qualquer registro, seja bíblico ou histórico, de João levando sua “nova mãe” Maria a algum lugar, ou dela sendo acompanhada por ele. Na única ocasião em que os dois são mencionados juntos, é dito expressamente que Maria estava com os irmãos de Jesus, e não acompanhada por João:

“Quando chegaram, subiram ao aposento onde estavam hospedados. Achavam-se presentes Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelote, e Judas, filho de Tiago. Todos eles se reuniam sempre em oração, com as mulheres, inclusive Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus (Atos 1:13-14)

João é mencionado junto com os outros apóstolos, mas não aparece associado pessoalmente a Maria. Quando ela é mencionada, é associada aos irmãos de Jesus, seus filhos (de acordo com a Bíblia) ou “primos” (de acordo com a tradição romanista). E como se isso não fosse o bastante, João sai para viagens missionárias sem levar Maria, a qual deveria estar sob seus cuidados desde aquele dia na cruz:

“Os apóstolos em Jerusalém, ouvindo que Samaria havia aceitado a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João (Atos 8:14)

Note que João não foi acompanhado de Maria, mas apenas na companhia de Pedro. E ele não voltou de lá com Maria, mas apenas com Pedro:

“Tendo testemunhado e proclamado a palavra do Senhor, Pedro e João voltaram a Jerusalém, pregando o evangelho em muitos povoados samaritanos” (Atos 8:25)

Embora o texto “joanino” seja claro ao dizer que “daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa (Jo.19:27), não parece que João ficou em casa (Jerusalém?) com Maria, mas, pelo registros de Atos, ele passou o tempo viajando de cidade em cidade como missionário, tal como os outros apóstolos, todos eles com a incumbência de pregar a todos os povos, em vez de ficar em uma única cidade, dentro de casa, cuidado de alguma pessoa.

E naquela época, sem carro ou avião, essas viagens levavam meses e meses para ir e voltar, não eram como as viagens de hoje, que você pode pegar um avião e voltar no mesmo fim de semana. Ou seja, sendo João um missionário, Maria ficaria meses sem a sua companhia, abandonada em casa enquanto o mesmo viajava, o que não apenas confronta a clareza do texto bíblico (Jo.19:27), mas também o próprio bom senso do Mestre que, sabendo que João levaria uma vida assim, daria sua mãe aos cuidados de alguém que estivesse mais apto a essa função.

Da onde, então, surgiu a lenda de que João foi o autor do quarto evangelho? O primeiro a afirmar isso foi Irineu de Lyon, já no final do século II, o qual não conviveu pessoalmente com apóstolo nenhum. Esse é o mesmo Pai da Igreja que também afirmou, “segundo a tradição”, que Jesus morreu na faixa dos 50 anos, quando qualquer criança que faça catequese ou escolinha dominical nos dias de hoje sabe que ele morreu aos 33. Os Pais que escreveram antes dele não taxavam João como o autor, mas apenas faziam referência ao fato de existirem quatro evangelhos. E, infelizmente, os Pais que vieram depois seguiram o conto de Irineu e o transmitiram adiante, e com o tempo foi ganhando o status de tradição, como se isso fosse algo certo ou concreto.

Muito mais poderia ser dito, mas, por hora, concluirei por aqui. O que foi apresentado já é mais que o suficiente para mostrar o quanto a tradição definitivamente não é confiável, mesmo quando ela aparenta ser bem antiga. Se uma tradição que provém do século II e que foi crida por todo mundo depois disso ainda assim errou de forma tão manifesta, imagine o que não erram as tradições romanistas que provém de muitos séculos mais tarde e sem nenhuma unanimidade, de onde eles fundamentam suas doutrinas e dogmas antibíblicos! É o bom senso e a lógica que nos leva a nos afastar do que é afirmado sem qualquer base bíblica, e ainda mais daquilo que é afirmado contra a autoridade das Escrituras, como é o caso aqui explanado.

Não, não vou dizer ainda quem é esse discípulo amado. O Alon e eu temos um palpite muito bom, e talvez alguns que leram este artigo com um raciocínio mais apurado já devem ter decifrado. Mas eu ainda escreverei um artigo em complemento a este, não mais para provar que não foi João (o que já foi refutado), mas para mostrar as evidências de quem é. E não, não é Lázaro... 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,

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