20 de julho de 2016

Responda ao questionário de interpretação de textos bíblicos


Eu decidi formular este questionário para testar a capacidade dos meus leitores em interpretar textos bíblicos. Mas há um problema: como eu sou malvado, eu escolhi propositalmente os textos mais dificílimos, obscuros, enigmáticos, misteriosos, indecifráveis e incompreensíveis de toda a Bíblia. Ou seja, se você tem amor à vida, é melhor nem continuar lendo. Nem se arrisque a tentar interpretar algo que você não é capaz. Para interpretar esses textos mega difíceis você vai precisar de um magistério infalível (eu recomendo o magistério romano, é claro) e de um papa infalível que dite tudo em questão de fé, tin tin por tin tin. Só depois de buscar a interpretação do Vaticano é que você poderá voltar aqui e responder ao questionário.

Mas se você é ousado e quer se arriscar a interpretar estes textos com significados ocultos e impenetráveis, eu não me responsabilizo. É por sua própria conta e risco. Então, seguem os textos:

***

Texto 1 “Volta-te, Senhor, e livra-me; salva-me por causa do teu amor leal. Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará?” (Salmos 6:4-5)

Pergunta 1 – Como você interpreta este texto?

a) Quem morreu se lembra de Deus.

b) Quem morreu se lembra de Deus, dos anjos, dos santos, da família, do vizinho, do cachorro e da sogra.

c) Quem morreu não se lembra de Deus.

***

Texto 2 “Os mortos não louvam o Senhor, tampouco nenhum dos que descem ao silêncio” (Salmos 115:17)

Pergunta 2 – Como você interpreta este texto?

a) Os mortos louvam a Deus.

b) Os mortos não louvam a Deus.

c) Os mortos não louvam a Deus porque estão louvando Maria.

***

Texto 3 “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento” (Eclesiastes 9:5)

Pergunta 3 – Como você interpreta este texto?

a) Os mortos sabem de tudo, inclusive estão agora mesmo rogando por nós no céu, intercedendo, mediando orações e fazendo milagres.

b) Os mortos não sabem coisa nenhuma do que acontece na terra, mas sabem de tudo o que acontece no céu.

c) Os mortos não sabem coisa nenhuma.

***

Texto 4 “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente” (Gênesis 2:7)

Pergunta 4 – De acordo com o registro bíblico da criação da natureza humana, o que é a alma?

a) É uma entidade imaterial e imortal que Deus infundiu para dentro do corpo do homem.

b) É o que o ser humano se tornou, como resultado da junção do pó da terra com o fôlego da vida.

c) É uma entidade imortal que Deus colocou no homem sim, mas Deus se esqueceu de registrar isso no relato da criação da natureza humana.

***

Texto 5 “Se o Senhor não tivesse sido o meu auxílio, já a minha alma estaria habitando no lugar do silêncio (Salmos 94:17)

Pergunta 5 – Qual é esse lugar do silêncio para onde a alma do salmista iria caso ele morresse?

a) O céu, com altos louvores a Deus e júbilos ao Senhor.

b) O inferno, com altas gritarias em meio às chamas de fogo.

c) A sepultura.

d) O texto usa o termo “alma”, mas na verdade o que o salmista estava querendo dizer era “somente o corpo e não a alma”.

***

Texto 6 “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o faça com toda a sua força, pois no além, para onde vais, não há atividade alguma e nem planejamento, não há conhecimento e nem sabedoria” (Eclesiastes 9:10)

Pergunta 6 – O que existe no além (no hebraico, Sheol), depois que o homem morre?

a) Muitas e altas aventuras do barulho.

b) Intercessões, orações, preces, louvores a Deus, comunhão dos santos e outras atividades produtivas.

c) Não há atividade alguma.

***

Texto 7 “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (Salmos 146:4)

Pergunta 7 – O que acontece com os pensamentos do homem depois que ele morre?

a) Continuam existindo, pois seu “verdadeiro eu”, a alma, permanece vivinha da silva.

b) São transportados para uma região no além, onde as almas pensarão e farão muitas coisas.

c) Perecem.

***

Texto 8 “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior” (Jó 19:25-27)

Pergunta 8 – Quando Jó esperava se encontrar com Deus?

a) Quando sua alma imortal saísse do corpo e se encontrasse com Deus em um estado incorpóreo.

b) Somente no fim dos tempos, quando, já depois de consumido, ressuscitasse para ver a Deus em sua carne.

***

Texto 9 “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (Salmos 17:15)

Pergunta 9 – Quando o salmista esperava ver a Deus?

a) Quando morresse e sua alma fosse levada ao céu antes mesmo da ressurreição.

b) Somente depois que “despertasse” (obs: no texto acima, a palavra utilizada pelo salmista é quwts, a mesma empregada em Daniel 12:2 e em Isaías 26:19 para falar da ressurreição).

***

Texto 10 “Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita’” (Atos 2:34)

Pergunta 10 – Como você interpreta este texto?

a) Davi já subiu ao céu.

b) Davi não subiu ao céu.

***

Texto 11 “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa. Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39-40)

Pergunta 11 – Como você interpreta este texto?

a) Os heróis da fé já alcançaram a promessa do céu e já estão aperfeiçoados.

b) Os heróis da fé não alcançaram a promessa ainda e só serão aperfeiçoados em conjunto com os vivos.

***

Texto 12 “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com estas palavras(1ª Tessalonicenses 4:13-18)

Pergunta 12 – De que forma Paulo consolou os tessalonicenses, que tinham parentes já falecidos?

a) Ele lhes disse que sua tristeza era inútil já que aqueles mortos já estavam com Cristo no céu.

b) Ele os consolou com o fato de que eles também tinham uma alma imortal que logo em breve também sairia do corpo e se encontraria com esses parentes falecidos em um estado intermediário.

c) Ele os consolou unicamente com a esperança da ressurreição, que acontecerá na volta de Jesus, quando os mortos serão ressuscitados e os vivos arrebatados, e assim estaremos juntos com Cristo para sempre.

***

Texto 13 “Se foi por meras razões humanas que lutei com feras em Éfeso, que ganhei com isso? Se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’” (1ª Coríntios 15:32-32)

Pergunta 13 – O que aconteceria se os mortos não ressuscitassem?

a) Ficaríamos para sempre no céu do mesmo jeito, só que em forma incorpórea (como alma ou espírito), desfrutando de todas as delícias do Paraíso e da presença de Deus e dos santos. A única coisa que mudaria é que não haveria a tal “religação da alma com o corpo” por ocasião da ressurreição.

b) Seria melhor viver de forma hedonista – “comer, beber e depois morrer”, já que não existiria nada depois da morte.

***

Texto 14 “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; ao único que possui a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1ª Timóteo 6:15-16)

Pergunta 15 – De acordo com este texto, quem é o único que possui a imortalidade?

a) Só Deus.

b) Deus e todos os seres humanos, os quais possuem a imortalidade na forma de uma alma imortal infundida em sua natureza.

***

Texto 15 “Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade (Romanos 2:7)

Pergunta 15 – De acordo com o texto acima:

a) A imortalidade é uma possessão natural do ser humano que todos possuem naturalmente na forma de uma alma imortal presa dentro do corpo.

b) Ninguém precisa “buscar a imortalidade”, porque todos já possuem uma alma imortal.

c) Ninguém possui uma alma imortal e nem todos possuirão a imortalidade na ressurreição, razão pela qual a imortalidade é como um prêmio que deve ser buscado.

***

Texto 16 “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda (2ª Timóteo 4:7-8)

Pergunta 16 – Quando é que Paulo obteria sua coroa da justiça?

a) Imediatamente quando morresse e sua alma imortal voasse para o céu, antes mesmo da ressurreição.

b) Somente na vinda de Jesus, momento em que se dá a ressurreição dos mortos (1Co.15:22-23), e até lá a coroa estaria “guardada” para “aquele dia”.

***

Texto 17 “Porque sabemos que aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês” (2ª Coríntios 4:14)

Pergunta 17 – Quando é que Paulo esperava reencontrar os coríntios?

a) Quando cada um morresse e suas almas se encontrassem em um estado intermediário no céu antes da ressurreição.

b) Na ressurreição.

***

Texto 18 “Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior” (Hebreus 11:35)

Pergunta 18 – Por que esses homens aceitaram serem torturados e mortos?

a) Porque sabiam que tinham uma alma imortal que logo subiria ao céu e alcançaria o Paraíso com Deus.

b) Porque esperavam alcançar a ressurreição.

***

Texto 19 “Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos" (Lucas 14:13-14)

Pergunta 19 – Quando os justos serão recompensados?

a) Quando morrerem e sua alma alcançar imediatamente o Paraíso.

b) Na ressurreição dos justos.

***

Texto 20 “Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hebreus 11:13-16)

Pergunta 20 – De acordo com o texto acima:

a) Os heróis da fé já alcançaram a promessa da pátria celestial.

b) Os heróis da fé não alcançaram a promessa, mas ainda esperam a pátria celestial que está preparada para eles.

***

Texto 21 “Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites (Lucas 12:47-48)

Pergunta 21 – De acordo com este texto, os que forem condenados receberão:

a) Infinitos açoites para todo o sempre, pois serão todos igualmente condenados a um sofrimento de tormento eterno e infindável.

b) Muitos ou poucos açoites, em quantidade proporcional às obras de cada um. O “pouco” presume um fim.

c) Podem levar poucos açoites, mas esse “pouco” na verdade significa ser açoitado para sempre durante toda a eternidade sem fim.

***

Texto 22 “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (2ª Pedro 2:6-6)

Pergunta 22 – Como você interpreta este texto?

a) Os ímpios serão preservados em vida para todo o sempre para serem atormentados infinitamente por toda a eternidade.

b) Os ímpios serão reduzidos às cinzas, ou seja, deixarão de existir, da mesma forma que as cidades de Sodoma e Gomorra foram inteiramente destruídas e já não existem mais (no exemplo que Pedro deu no mesmo verso).

c) Os ímpios se tornarão cinzas, mas esse é um tipo de cinza imortal com consciência e personalidade própria, que se preserva incorruptível para todo o sempre e é capaz de sentir dor e sofrimento.

***

Como eu disse, são textos dificílimos, os quais nenhum ser humano comum e mortal tem a capacidade de interpretar, precisando desesperadamente de um magistério infalível para perverter apontar a correta interpretação. De fato, a interpretação desses textos é tão misteriosa e difícil quanto responder a pergunta: “Qual era a cor do cavalo branco de Napoleão?”.

Ao mesmo tempo, ao tentar responder essas perguntas, o prezado leitor poderá se deparar com cinco sintomas típicos de imortalistas: (a) a capacidade de negar o óbvio de um texto; (b) a capacidade de interpretar de forma tão tendenciosa que não engana nem a si mesmo; (c) a capacidade de fazer malabarismos teológicos de Cirque du Soleil; (d) a capacidade de continuar crendo numa coisa que sabe que é falsa, simplesmente porque foi ensinado deste jeito por toda a vida ou porque tal crença é necessária para sustentar outros tipos de heresias; (e) a capacidade de conseguir obscurecer textos de interpretação simples e óbvia, fazendo os trouxas pensarem que precisam de ajuda externa para entenderem algo tão óbvio quanto 1+1=2.

ATENÇÃO: Se persistirem os sintomas, a Bíblia deverá ser consultada. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,

-Meus livros:

- Veja uma lista de livros meus clicando aqui.

- Confira minha página no facebook clicando aqui.

- Acesse meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros blogs:

LucasBanzoli.Com (Um compêndio de todos os artigos já escritos por mim)
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Artigos devocionais e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a imortalidade da alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Fim da Fraude (Refutando as mentiras dos apologistas católicos)

14 de julho de 2016

A frequencia da tortura da Inquisição


Insatisfeitos com mentirem descaradamente sobre a existência dos famosos instrumentos de tortura da Inquisição e sobre o tempo que o suspeito de heresia era torturado, os apologistas católicos revisionistas e desesperados passaram a apelar a outra lenda branca fraudulenta: que a Inquisição torturava as pessoas “muito raramente”. Obviamente, este outro mito também é um completo embuste. Mais uma vez, quem ajudou a difundir esta lenda branca aqui no Brasil foi João Gonzaga, que afirma em seu livro que “insignificante foi o número de réus efetivamente torturados pelo Santo Oficio espanhol”[1]. O sujeito simplesmente não tem vergonha em mentir tão descaradamente.

O fato histórico é que a maior parte dos que eram inquiridos pelo Santo Ofício era torturada. Os manuais da Inquisição, desde cedo, tornavam extremamente fáceis e rotineiras as torturas de qualquer suspeito de heresia. Praticamente todos eram torturados, o que inclui até mesmo aquele que só tivesse uma única testemunha contra si, como escreve assombrosamente Eymerich:

O suspeito que só tenha uma testemunha contra ele é torturado. Realmente, um boato e um depoimento constituem, juntos, uma semiprova, o que não causará espanto a quem sabe que um único depoimento já vale como um indício.[2]

Se uma única testemunha já era o suficiente para levar o indivíduo à tortura, então você já deve ter alguma noção do quão difícil era escapar das torturas da Inquisição, uma vez que praticamente todo mundo que estava ali era porque tinha alguma testemunha contra si – e essa única testemunha já bastava para torturar o sujeito. Não havia nenhum rigor ou critério sério para levar uma pessoa à tortura – qualquer boato ou depoimento de uma única testemunha já era a “prova” que os inquisidores precisavam para levar o suspeito à tortura.

Sobre isso, Peña confirma que “os inquisidores observam, à luz da obra de Eymerich e do exemplo citado, que um único depoimento basta para aplicar a tortura, como demonstra claramente o meu comentário a respeito do sétimo princípio”[3]. Isso mostra com clareza que a prática de torturar rotineiramente não havia se alterado desde a época de Eymerich até a época de Peña. Chega a ser assombroso vê-lo dizendo com tanta naturalidade: “Lembremos que um só testemunho basta para justificar a tortura, sem precisar de indícios fortes ou graves. O conteúdo dos depoimentos basta”[4]. E ele ainda reitera isso com um exemplo:

Vamos ilustrá-lo com um exemplo. Um seguidor da heresia de Lutero foi visto por uma única testemunha, quando destruía imagens de santos, profanando-as, quebrando-as, etc. No mesmo momento, esse crime espalhou-se. Há, neste caso: a) uma testemunha e b) um boato. Foi o suficiente para que o luterano, mesmo negando os fatos, fosse levado à tortura.[5]

Note que, mesmo não havendo nenhuma prova séria ou cabal de que o “seguidor de Lutero” em questão tenha mesmo destruído uma imagem, bastou o testemunho de uma única pessoa para que o luterano em questão fosse torturado pela Inquisição. O que os historiadores revisionistas querem que acreditemos é que o Santo Ofício torturava apenas raramente, em casos excepcionais, quando a gravidade dos indícios era muito alta. Como vemos, era exatamente o contrário. A tortura não era a exceção – era a regra. Qualquer coisa besta e sem fundamento bastava para ser torturado.

Peña deixa isso ainda mais claro quando diz que “é evidente que não denunciar um herege, inclinar-se à passagem de um herege, guardar as cinzas de um herege que foi queimado, tudo isso são graves indícios que justificam a tortura”[6]. Eymerich complementa que “suspeitas e indícios são suficientes... quanto aos padres, basta a suspeita... neste caso, as condições em que tal ocorre são em grande número[7]. Ele claramente afirma que a tortura ocorria «em grande número», enquanto os revisionistas católicos alegam de pés juntos que a Inquisição torturou apenas 10% das vítimas, enquanto outros ainda mais fanáticos e doentes garantem que foi 1%!

Uma prova clara de que a grande maioria das pessoas era mesmo torturada pelo Santo Ofício vem justamente da parte do manual em que Peña discorre sobre quais pessoas deveriam ser torturadas. Ele começa escrevendo:

Interroga-se o réu que não confessou e de quem não se tiver provas de que é herege, durante o decorrer do processo. Se o réu não disser nada quando torturado, será considerado inocente.[8]

Neste trecho vemos que até mesmo aqueles contra os quais os inquisidores não tinham prova nenhuma eram torturados assim mesmo. Mas antes que alguém pense que a tortura era então reservada exclusivamente àqueles contra quem eles não tinham provas, ele complementa:

...O réu indicado que não confessar durante o interrogatório, ou que não confessar, apesar da evidência dos fatos e de depoimentos idôneos; a pessoa sobre a qual não pesarem indícios suficientemente claros para que se possa exigir a abjuração, mas que vacila nas respostas, deve ir para a tortura. Igualmente, a pessoa contra quem houver indícios suficientes para se exigir a abjuração.[9]

Nesta continuação, vemos que também eram torturadas as pessoas contra quem os inquisidores tinham evidências e depoimentos idôneos, ou indícios suficientes. Basicamente, portanto, eram torturadas as pessoas que:

a) Não tinham nenhuma prova contra elas;
b) Tinham evidências e depoimentos contra elas;
c) Tinham indícios suficientes contra elas.

Ou seja, praticamente ninguém escapava da tortura. Tendo provas ou não, tendo indícios ou não, o sujeito entrava para a lista de pessoas torturáveis. Ela não escapava senão por um milagre.

Em outra parte do manual, Francisco Peña faz novamente questão de ressaltar o óbvio: que a Inquisição torturava na maioria dos casos. Ele escreve sem hesitação:

Vamos logo assinalando que, no começo, os inquisidores não torturavam, com medo de cometerem alguma irregularidade. Mandavam aplicar a tortura através de juízes leigos (Inocêncio IV). Mas soube-se logo que, nos tribunais leigos, nem sempre se procedia com o sigilo absoluto exigido nas questões inquisitoriais. E constatou-se que toda questão inquisitorial envolve, por definição, o domínio da fé. Por isso, só os inquisidores devem conduzi-la. Na maioria das vezes, não se levam esses casos até o fim sem recorrer à tortura. Pareceu, então, mais prudente confiar aos inquisidores e bispos a tarefa de torturar, ficando assim determinado nos documentos posteriores em que se baseia Eymerich, como, por exemplo, em Urbano IV (ut negotium).[10]

Desnecessário dizer que quem está afirmando isso era nada a menos que um dos principais inquisidores da Inquisição espanhola, após ter acompanhado séculos de processos inquisitoriais que já haviam existido até então. Ele não é um pseudo-historiador revisionista do século XX ou XXI: é alguém que viveu na época, que testemunhou tudo de perto e que, como inquisidor, tinha acesso a todos os arquivos do Santo Ofício. A não ser que ele estivesse completamente louco ao ponto de decidir escrever uma mentira tão descarada contra a própria Igreja que ele servia de corpo e alma, somos instigados a aceitar seu depoimento tão explícito e incontestável, que deita completamente por terra as pretensões romanistas.

Como se isso não fosse suficientemente claro, Peña testemunha ainda que em seus dias os inquisidores “recorrem tão facilmente à tortura”[11], o que mais uma vez mostra claramente que o comportamento padrão dos inquisidores era de torturar o maior número de gente, sem nenhum escrúpulo ou peso na consciência. Para ele, a tortura deveria acontecer mesmo na falta de provas[12], o que, convenhamos, a Inquisição quase nunca tinha. A esmagadora maioria das acusações não passava de boatos. Mas, mesmo sem provas, a ordem era torturar, precisamente na expectativa de que se encontrassem essas provas durante a tortura (que obrigava o réu a confessar qualquer coisa).

Diante de tudo isso, Leonardo Boff conclui o óbvio: Praticamente todos os suspeitos e acusados passavam por vários tipos de tortura”[13]. Michael Baigent, grande estudioso da Inquisição, também confirma que “a tortura, pelos inquisidores do Santo Ofício, era rotineiramente praticada[14]. Em conformidade com isso, Francisco Bethencourt, autor de um dos mais conhecidos e imparciais livros sobre a Inquisição, reconhece que “a Inquisição portuguesa obteve numerosas confissões por meio da tortura e da intimidação”[15].

A historiadora francesa Escamilla-Colin teve acesso aos arquivos da Inquisição espanhola e concluiu que três a cada quatro judaizantes passavam pela tortura[16]. Já o historiador Toby Green garante que 85% dos mouros investigados pela Inquisição em Valência foram torturados entre 1580 e 1610, e o mesmo aconteceu em Saragoça, com 79% deles[17]. Mais uma vez, é desnecessário dizer que estes números são muito mais elevados do que aqueles apresentados pelos embusteiros da apologética católica e tirados apenas da imaginação deles.

Finalmente, é necessário desmascarar o último truque da apologética católica no que tange à tortura inquisitorial. Trata-se de mais uma meia-verdade, semelhante àquela sobre “a Inquisição só torturava uma vez” e aquela sobre “a Inquisição não aceitava confissões sob tortura”. Desta vez, o truque consiste em alegar que a Inquisição aboliu a tortura. “Apologistas” de fundo de quintal fazem a festa com este argumento. Esbanjam isso com todo orgulho e vanglória, como se tivesse sido um enorme mérito da Igreja Católica, essa instituição tão piedosa e do bem, que decidiu dar um fim à tortura por amor à dignidade humana.

Só que os desonestos se esquecem de dizer que a Igreja Católica só veio a abolir oficialmente a tortura por meio de uma bula papal de 1816, sendo que a Inquisição portuguesa acabou em 1821, e a espanhola em 1834. Ou seja, a Inquisição torturou com todo o rigor centenas de milhares de pessoas durante nada menos 564 anos (entre 1252 e 1821), depois ficou meros 5 a 18 anos sem torturar ninguém, e os apologistas católicos ainda veem motivo para fazer festa!

E pior: ela só acabou com a tortura depois que a Inquisição já estava em franca decadência, quando já quase ninguém era preso ou morto. Quando estava a todo o vapor, nenhum papa ou clérigo pensou em algo tão genial. Nem passou pela cabeça deles. Nunca irão encontrar uma instituição religiosa tão hipócrita quanto a Igreja Católica Romana, e fanáticos tão dispostos a mentir para salvar a pele da “Santa” Igreja. A coisa literalmente toma contornos surreais quando se trata de enganar os leigos.

Depois de mais de cinco séculos torturando a tudo e a todos, a Santa Igreja guiada por papas infalíveis finalmente descobriu que “é condenada a tortura, como uma prática perversa que estimula as falsas confissões”[18]. Todos os exatos 170 papas que viveram no período em que a Inquisição torturava a torto e a direito – e que eram tão infalíveis quanto os que vieram depois deles, lembre-se – não tinham “iluminação” espiritual suficiente para descobrir algo tão óbvio, e então a Santa Igreja faz a descoberta do século: todos os 170 papas anteriores estavam errados, torturando centenas de milhares de pessoas injustamente, mas a Igreja continua sendo santa e infalível assim mesmo.

Daí já se pode ter uma pequena noção do quão perturbada é a mente de um apologista católico, obrigado a defender algo que ele mesmo sabe o quão ridículo que é.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

- Extraído do meu livro: "A Lenda Branca da Inquisição".

Por Cristo e por Seu Reino,

-Meus livros:

- Veja uma lista de livros meus clicando aqui.

- Confira minha página no facebook clicando aqui.

- Acesse meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros blogs:

LucasBanzoli.Com (Um compêndio de todos os artigos já escritos por mim)
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Artigos devocionais e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a imortalidade da alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Fim da Fraude (Refutando as mentiras dos apologistas católicos)



[1] GONZAGA, João Bernardino Garcia. A inquisição em seu mundo. 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 204.
[2] EYMERICH, Nicolau; PEÑA, Francisco. Manual dos Inquisidores. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993, p. 208.
[3] ibid, p. 212.
[4] ibid, p. 213.
[5] ibid, p. 212.
[6] ibid, p. 213.
[7] ibid, p. 209.
[8] ibid, p. 153.
[9] ibid.
[10] ibid, p. 209-210.
[11] ibid, p. 210.
[12] ibid.
[13] ibid, p. 18. Prefácio.
[14] BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 211.
[15] BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 323.
[16] ESCAMILLA-COLIN, M. Crimes et Châtiments dans l’Espagne Inquisitoriale. Paris: Berg International, 1992, vol. I, p. 599.
[17] GREEN, Toby. Inquisição: O Reinado do Medo. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 2007.
[18] Apud BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 48.