29 de novembro de 2015

Jerônimo e Agostinho debatendo sobre doutrina e interpretação bíblica


Muitos católicos apontam as discussões teológicas entre evangélicos como uma “prova” de que somos divididos, porque, se fôssemos unidos, não discutiríamos coisa alguma relacionada à doutrina. Se este critério for levado a sério, então a própria igreja primitiva era “dividida”, visto que claramente os primeiros cristãos e os Pais da Igreja criam em muitas doutrinas diferentes um do outro e inclusive incorriam em erros doutrinários graves, como eu mostrei neste artigo. Aqui pretendo apenas exemplificar este ponto através da troca de cartas entre Jerônimo e Agostinho, mais especificamente na Carta 112 de Jerônimo, sem entrar no âmbito da discussão sobre quem na minha opinião estava certo e quem estava errado.

Os dois exerceram cargos importantes na igreja, foram os maiores de sua época, são considerados santos pela Igreja Católica Romana e Ortodoxa, e são muito respeitados nas igrejas evangélicas também. Ou seja: não estamos falando aqui de um herege discutindo com outro herege, mas com um cristão de alto nível discutindo com outro cristão de alto nível. E eles discutiram sobre mais de um assunto, mas aqui irei abordar apenas a discussão dos dois sobre o episódio de Gálatas 2:11, onde Paulo discute com Pedro em Antioquia. Basicamente, Jerônimo dava razão a Pedro, e Agostinho a Paulo.

Jerônimo pensava que Paulo estava sendo falso ao repreender Pedro, pois ele havia feito o mesmo em outra ocasião, quando Tiago o instigou a mostrar diante de todos que ele ainda seguia a lei (veja em Atos 21:18-24). Ou seja: na opinião de Jerônimo, Paulo estava sendo cínico ao repreender Pedro por ter seguido a lei, quando o próprio Paulo havia usado a mesma dissimulação em outra ocasião. Mas Agostinho defendeu Paulo, mostrando que se tratava de circunstâncias diferentes, e que Paulo estava certo em repreender Pedro. Para sustentar essa oposição, Agostinho disse que Paulo, como judeu, ainda guardava a lei, o que explica Atos 21:18-24. Apenas os cristãos não-judeus é que estavam livres da lei, segundo Agostinho.

Isso então levantou um debate maior, que era sobre a vigência ou fim da lei para os judeus convertidos. O debate foi longo e teve resposta de Agostinho, mas para não alongar demasiadamente este artigo passarei aqui apenas a parte dos ataques de Jerônimo. Antes de tudo, é importante mostrar que os dois se baseavam em sua opinião pessoal, ou seja, naquilo que os dois inferiam a partir dos textos bíblicos. Em outras palavras, os dois praticavam livre exame, e em nenhum momento algum deles coagiu o outro a interpretar de acordo com algum magistério infalível fantasioso, ou deu a entender que o outro não podia interpretar a Bíblia livremente, de acordo com seu próprio óculos.

Isso fica claro no seguinte texto:

“Eles, em resposta, deram a melhor interpretação da passagem que poderia encontrar, e qual é a interpretação que você tem a propor? Certamente você deve ter a intenção de dizer algo melhor do que eles disseram, uma vez que você rejeita a opinião dos comentaristas antigos”[1]

Note que Jerônimo não impõe um magistério romano infalível como a norma da qual Agostinho deveria se alinhar, mas tenta convencê-lo pela “opinião dos comentaristas antigos”, ou seja, tenta mostrar que os Pais da Igreja de data anterior estavam ao seu lado. E mesmo assim, Agostinho ainda estava livre para se opor a esta opinião dos comentaristas antigos, desde que levantasse uma interpretação melhor. Nada disso se parece com um debatedor papista, que tenta calar o oponente tirando a liberdade que o adversário tem de interpretar as Escrituras.

Pouco adiante, Jerônimo afirma:

“A matéria em debate, ou melhor, a sua opinião sobre ela, se resume nisto: que, desde a pregação do evangelho de Cristo, os judeus crentes fazem bem em observar os preceitos da lei, ou seja, na oferta de sacrifícios como Paulo fez, em circuncidar seus filhos, como Paulo fez no caso de Timóteo, e mantendo o sábado judaico, como todos os judeus foram ensinados a fazer. Se isso for verdade, vamos cair na heresia de Cerinto e Ebion, que, apesar de crerem em Cristo, foram anatematizados pelos pais por esse erro, uma vez que eles misturaram as cerimônias da lei com o evangelho de Cristo, professando sua fé no que era novo, sem deixar o que era velho”[2]

Após dar a entender que a opinião de Agostinho levava à heresia de Cerinto e Ebion, Jerônimo passa a elevar o tom:

Pode um cristão submeter-se a ouvir o que é dito em sua carta? ‘Paulo era verdadeiramente um judeu, e quando ele havia se tornado um cristão, ele não tinha abandonado as cerimônias judaicas, que as pessoas tinham recebido no caminho certo, e por um certo tempo determinado. Portanto, mesmo quando ele era um apóstolo de Cristo, ele participou e observou [os ritos judaicos] com essa mesma visão, para que pudesse mostrar que eles não eram de nenhum modo prejudiciais para aqueles que, mesmo depois de terem crido em Cristo, desejavam manter as cerimônias que pela lei eles tinham aprendido de seus pais’. Agora eu te imploro para ouvir pacientemente a minha queixa. Paulo, mesmo quando ele era um apóstolo de Cristo, observava cerimônias judaicas, e você afirma que elas não são de nenhum modo prejudiciais para aqueles que desejam mantê-las como eles tinham recebido de seus pais pela lei. Eu, pelo contrário, devo contestar, e, se o mundo fosse protestar contra a minha opinião, eu poderia ousadamente declarar que a cerimônias judaicas são para os cristãos um tanto dolorosas e fatais, e que quem os observa, seja ele judeu ou gentio originalmente, é lançado no abismo da perdição[3]

Mais ainda, Jerônimo reage à posição de Agostinho a chamando de “doutrina perigosa”, nas seguintes palavras:

“Eu não compreendo perfeitamente o que você quer dizer com as palavras: ‘sem acreditar que elas sejam de todo necessárias para a salvação’. Porque, se eles [os rituais cerimoniais judaicos] não contribuem para a salvação, por que eles são observados? (...) A observância de cerimônias legais não é uma coisa indiferente, é boa ou ruim. Você diz que é bom. Eu afirmo que ela seja ruim, e ruim não apenas quando feito por gentios convertidos, mas também quando feito por judeus que creram. Nesta passagem você cai, se não me engano, em um erro, evitando outro. Pois enquanto você protege-se contra as blasfêmias de Porfírio, você se enrosca nas armadilhas de Ebion; pronunciando que a lei é obrigatória para aqueles que dentre os judeus creram. Percebe, novamente, que o que você disse é uma doutrina perigosa, tentando classificá-la por palavras que são apenas supérfluas?[4]

O mais importante é que nenhum deles tentava convencer o outro com base em um suposto magistério romano infalível, e muito menos condicionava a interpretação à opinião do bispo romano sobre o tema. Essa ideia de que a interpretação correta (ou mesmo a liberdade de interpretar) está condicionada a Roma é uma ridícula caricatura papista de algo que nunca existiu na Igreja primitiva, a qual desconhecia inteiramente que “só o papa pode interpretar a Bíblia”...

Há muito mais sobre a treta entre Jerônimo e Agostinho, mas só dos textos que vimos, podemos constatar que:

Jerônimo e Agostinho tinham divergências doutrinárias.

Nenhum dos dois tentava convencer o outro de que estava com a razão porque um suposto magistério infalível estava do lado dele e contra o outro.

Para Jerônimo, a posição de Agostinho levava à heresia de Cerinto e Ebion.

Para Jerônimo, um cristão não podia se submeter ao que era ensinado por Agostinho no que tange à questão.

Para Jerônimo, a doutrina pregada por Agostinho era perigosa, e podia lançar o fiel no “abismo da perdição”.

E, mesmo assim, os dois eram legitimamente cristãos, os dois são reconhecidos por todas as igrejas cristãs atuais, e os dois foram pilares fundamentais do Cristianismo no século IV e V. Isso mostra que divergências doutrinárias não são sinais de “divisão” necessariamente, a não ser que a Igreja de Agostinho e Jerônimo (que os papistas afirmam que era a deles) já fosse dividida.


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


-Meus livros:

- Veja uma lista de livros meus clicando aqui.

- Confira minha página no facebook clicando aqui.

- Acesse meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros blogs:

LucasBanzoli.Com (Um compêndio de todos os artigos já escritos por mim)
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Artigos devocionais e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a imortalidade da alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Fim da Fraude (Refutando as mentiras dos apologistas católicos)



[1] Letter 112, 3:11.
[2] Letter 112, 4:13.
[3] Letter 112, 4:14.
[4] Letter 112, 4:16.

27 de novembro de 2015

Como a Igreja de Roma rachou a Igreja de Cristo


Em 1054 d.C, a Igreja sofre o seu primeiro grande cisma, que é mais conhecido como o “Cisma do Oriente”, quando teoricamente a Igreja do Oriente se revolta contra a Igreja do Ocidente e se separa. Mas historiadores das mais diversas vertentes religiosas têm observado que esta é uma perspectiva distorcida dos acontecimentos, uma vez que reflete apenas a visão do próprio ocidente, isto é, dos católicos romanos. Na perspectiva dos ortodoxos, o cisma é na verdade “do Ocidente”, e não “do Oriente”, uma vez que quem rompeu a comunhão não foi o Oriente, mas o Ocidente. Se isso é verdade, é uma bomba atômica nas costas daqueles que acusam Lutero de “causar cisma”, já que eles mesmos causaram um cisma séculos antes.

Um famoso site ortodoxo afirma:

“Ao contrário do que alguns historiadores afirmam, o cisma é realmente ‘do Ocidente’, visto que foi a Igreja Romana quem se separou da comunhão de Fé das Igrejas Irmãs (...) De fato, a Igreja de Roma, graças a fatores essencialmente políticos, de ambição do poder temporal, desenvolveu a partir da Idade Média, a doutrina da primazia do Papa (título, aliás, dado aos Patriarcas de Roma e de Alexandria) como último e, depois, como único recurso em matéria de Fé. Ora, isto era, é e será, completamente estranho à Tradição da Igreja dos Apóstolos, dos Mártires, dos Santos e dos Sete Concílios Ecumênicos”[1]

De fato, a evidência histórica unânime e esmagadora é que não existia um papado nos primeiros séculos. Com isso, obviamente não estou querendo dizer que nenhum bispo de Roma era chamado de “papa”, porque papa era um apelido carinhoso que significa “papai”, concedido a todos os bispos importantes das mais diversas comunidades cristãs de prestígio, e não apenas ao bispo romano. O que não existia na Igreja da época é aquilo que hoje é considerado “papado” pela Igreja Romana, ou seja, o bispo de Roma governando toda a Igreja com “poder pleno, supremo e universal”[2], como afirma explicitamente o catecismo católico.

Provas históricas abundantes contra o papado têm sido encontradas amplamente em toda a patrística e em toda a história eclesiástica. Há tempos atrás publiquei sobre isso no artigo intitulado "Provas históricas incontestáveis contra o papado", e o Elisson Freire traduziu um excelente artigo ortodoxo que derruba por completo o primado jurisdicional do bispo romano, disponível aqui. Resumidamente, a “primazia” da Igreja de Roma na época não era no sentido de governar sobre as demais igrejas, mas meramente no sentido de ser a mais importante por estar na capital do império.

Fazendo analogia, seria como o governador de São Paulo, que é sem sombra de dúvidas mais importante do que o governador do Acre, isto é, que exerce mais influência sobre o Brasil, e no entanto não tem qualquer autoridade para governar o estado do Acre. Por mais importante e influente que o governador de São Paulo seja, ele não tem nenhuma autoridade para governar os outros estados. Cada estado tem seu próprio governador, e este governador é responsável por seu próprio estado, sem se intrometer no governo dos outros estados.

Assim era a igreja em seus primórdios. Existiam bispos com influência e importância maior do que outros (principalmente os de Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla), mas mesmo estes bispos de maior importância tinham uma jurisdição limitada, que se restringia à sua própria diocese, e, quando muito, a uma diocese próxima, sujeita ao bispo metropolitano. É assim que o próprio Concílio de Niceia (325) deixa claro:

“O bispo de Alexandria terá jurisdição sobre o Egito, Líbia e Pentápolis; assim como o bispo romano sobre o que está sujeito a Roma. Assim, também, o bispo de Antioquia e os outros, sobre o que está sob sua jurisdição. Se alguém foi feito bispo contrariamente ao juízo do Metropolita, não se torne bispo. No caso de ser de acordo com os cânones e com o sufrágio da maioria, se três são contra, a objeção deles não terá força”[3]

Está óbvio que a jurisdição do bispo romano se limitava à própria Roma, e não universalmente. A jurisdição do bispo romano era tão local quanto a dos bispos de Alexandria e de Antioquia, citados no mesmo cânone. Roma era certamente a mais importante, mas nunca, em momento algum, exerceu qualquer tipo do governo sobre as demais igrejas, nem tampouco uma jurisdição universal, e muito menos tinha um “poder pleno, supremo e universal”, como alega o catecismo católico. Das muitas causas que levaram ao cisma, a principal foi justamente a insistência dos arrogantes bispos romanos em alargar seu poder ainda mais, para governar sobre todas as outras igrejas, o que jamais havia sido admitido pelas igrejas orientais.

Este orgulho e esta sede cada vez maior pelo poder, mesmo quando já possuía uma autoridade muito grande, foi justamente o que levou à queda de “Lúcifer”[4], aquele que já era um dos principais anjos de Deus, mas, não satisfeito com isso, cobiçava o lugar do próprio Deus, para governar sobre todo mundo. A Igreja de Roma caiu pela mesma razão daquele que disse:

“Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo" (Isaías 14:13-14)

Nada mais próprio para tratar do papado ao longo dos séculos do que aquilo que Salomão já havia escrito há milênios: “o orgulho precede a queda” (Pv.16:18).

Isso aconteceu em 1054 d.C, quando o legado papal viajou a Constantinopla para obrigar o patriarca bizantino a reconhecer Roma como a “mãe de todas as igrejas”. O patriarca ortodoxo, é claro, rejeitou. Como consequencia foi excomungado pelo papa, e de retaliação excomungou o papa também. Ou seja: quem começou o cisma e rompeu a comunhão não foi o patriarca ortodoxo, mas o papa romano. A excomunhão por parte dos ortodoxos só veio depois que o papa o tinha desligado da comunhão. Foi o papa que rompeu a unidade, e não o contrário. Foi a cobiça por cada vez mais poder, domínio e autoridade que o fez passar por cima de qualquer um que não se dobrasse diante dele.

O que consolidou politicamente este rompimento foi o saque de Constantinopla, ocorrido em 1204, durante a quarta cruzada. O exército do papa decidiu mudar o rumo da viagem e dar uma passadinha por Constantinopla, a principal cidade dos ortodoxos, apenas para arruiná-la completamente. O site ortodoxo comenta:

“Esta separação oficial, decidida pela Igreja Romana, teria sua confirmação em 1204, quando os cruzados, que se intitulavam cristãos, assaltaram Constantinopla, saquearam e pilharam, fizeram entrar as prostitutas que traziam consigo para dentro do santuário de Santa, sentaram uma delas no trono do Patriarca, destruíram a iconostase e o altar, que eram de prata. E o mesmo aconteceu em todas as igrejas de Constantinopla”[5]

Depois de saquear a principal cidade dos ortodoxos e arruinar por completo a relação já tensa entre as duas facções, os cruzados fundaram o “Império Latino de Constantinopla”, em 1204, e só em 1261 é que os gregos a reconquistaram.

Portanto, historicamente falando, a causa principal do cisma foi a ambição de poder cada vez maior por parte de Roma; quem começou excomungando o outro e rompendo os laços de comunhão também foi Roma, e quem consolidou este rompimento politicamente foi Roma também. O cisma, de fato, é “do Ocidente” – causado pelo papa e por seus correligionários. É por isso que um papista, ao atacar um protestante em um debate sob a alegação de que Lutero “rachou” a Igreja, está dando um tiro no próprio pé, e um atestado de ignorância histórica. Foram eles que começaram a rachar a Igreja cinco séculos antes, e depois ainda querem condenar os protestantes por terem causado um novo cisma.

A sede megalomaníaca dos papas pelo poder era tão insuperavelmente dantesca que, depois de romper com os ortodoxos ao forçar-lhes a submissão a Roma, procurando mais alguém com quem pudesse agora brigar, decidiu forçar a submissão do próprio imperador(!), para que se dobrasse diante do papa e a ele se submetesse. Isso começou pouco depois do Cisma, com Gregório VII (1073-1085), o qual, em 1075, ditou um memorando em que definia os princípios da teocracia pontífica, entre eles[6]:

IX. “O papa é o único homem ao qual todos os príncipes beijam os pés”.

XII. “Está-lhe permitido depor aos imperadores”.

Ou seja: depois de querer que os ortodoxos se dobrassem diante dele, agora estava cobiçando algo maior: o próprio poder temporal do imperador!

É claro que o imperador (Henrique IV) se indignou com tamanha afronta, reunindo 24 bispos alemães e dois italianos em Worms, onde depôs o papa. Gregório VII respondeu então excomungando o imperador e o proibindo de governar! Nessa queda de braço entre o papa e o imperador, o papa prevaleceu, e Henrique IV foi deposto do trono.

Na luta papal pela supremacia sobre o imperador, o papa Inocêncio III convocou o IV Concílio de Latrão (1215), onde proclamou:

“Assim como a lua deriva a sua luz da do sol e na verdade é inferior ao sol tanto em quantidade como em qualidade, em posição como em efeito, da mesma maneira o poder real deriva o esplendor da sua dignidade da autoridade pontífica”[7]

A coisa foi piorando cada vez mais até que Bonifácio VIII tentou submeter à sua autoridade ao rei da França, até que o rei se cansasse de ser afrontado e finalmente decidisse prender o papa, o que ocorreu em 1302. Sem ter mais com quem brigar, o papa começa então a brigar com outro papa, em 1378. Nessa época havia um papa em Avinhão e outro papa em Roma, cada qual excomungando todos os seguidores do papa oposto. Para solucionar este tremendo dilema, os bispos tiveram uma ideia genial: criar um terceiro papa.

Assim, em 1409, o concílio universal de Pisa elege o terceiro papa, Alexandre V, o qual excomunga os outros dois, é claro. Mas a alegria durou pouco, porque cinco anos mais tarde o Concílio de Constança, em 1414, excomunga dois dos três papas (incluindo o de Pisa), e recebe a abdicação do terceiro, ficando assim sem papa nenhum, até que, em 1417, Matinho V é eleito como papa único.

A história do papado pode ser resumida em uma palavra: ganância. Com uma sede insuperável pelo poder, a fim de alargá-lo cada vez mais, começa brigando com os bispos do oriente, depois com o imperador, depois com os reis, e, por fim, entre eles mesmos. Certamente, se existisse vida em outros planetas, o papa iria brigar com os aliens até que eles reconhecessem sua “supremacia” e se submetessem a ele também – e se os aliens discordassem, seriam os aliens os “cismáticos”, e nunca o papa megalomaníaco, é lógico.

O mais importante é que, muito antes de Lutero sequer existir, a Igreja Romana já estava rachando a Igreja e causando cismas. Lutero apenas pegou uma igreja quebrada, corrupta e corrompida por papas gananciosos, e tentou restaurá-la. O novo cisma só foi necessário porque o papa bateu o pé e se recusou terminantemente fazer as devidas concessões morais e doutrinárias necessárias. Como eu mostrei neste artigo, um cisma nem sempre é errado, dependendo dos motivos que se teve para causá-lo. A diferença é que os católicos romanos se acham certos em causar um cisma em função de ganância e sede de poder papal, enquanto rejeitam o cisma causado por alguém que era contra a corrupção da Igreja, contra a venda da salvação por dinheiro, contra as milhares de falsas relíquias e contra a matança indiscriminada de não-católicos.


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


-Meus livros:

- Veja uma lista de livros meus clicando aqui.

- Confira minha página no facebook clicando aqui.

- Acesse meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros blogs:

LucasBanzoli.Com (Um compêndio de todos os artigos já escritos por mim)
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Artigos devocionais e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a imortalidade da alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Fim da Fraude (Refutando as mentiras dos apologistas católicos)




[3] Concílio de Nicéia, Cânon VI.
[4] Coloco entre aspas porque, a bem da verdade, “Lúcifer” não deveria ser considerado um nome próprio, contrariando a crendice popular. Quanto a isso, eu escrevi neste artigo: http://ocristianismoemfoco.blogspot.com.br/2015/09/o-nome-do-diabo-e-lucifer.html
[6] Apud FLUCK, Marlon Ronald. História do Cristianismo: modelos, panoramas e teologia. 1ª ed. Curitiba: Cia. de Escritores, 2009, p. 32.
[7] INOCÊNCIO III, apud Fernanda ESPINOSA, Antologia de textos históricos medievais, 3ª ed. Lisboa: Sá da Costa, 1981, pp. 300s.