31 de janeiro de 2014

O terceiro Tiago, o irmão de Jesus


Os católicos alegam que o irmão de Jesus chamado Tiago é, na verdade, um primo dele, que também era seu discípulo, e se trata do “Tiago menor” (Mc.15:14), filho de Maria, irmã da mãe de Jesus. A argumentação deles acerca disso pode ser vista neste vídeo do padre Paulo Ricardo (sim, é aquele mesmo que chamou os evangélicos de “otários”, veja aqui). Como vocês podem ver no vídeo do padre, toda a argumentação dele possui uma base, que se sustenta em Gálatas 1:19, que diz:

“E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor (Gálatas 1:19)

Neste texto Paulo deixa bem claro que Tiago não era primo (anepsios) de Jesus, mas irmão (adelphos) dele. No grego bíblico existia distinção entre irmão e primo, e Paulo (que escrevia no grego) disse que Tiago era adelphos (=irmão) de Jesus, e não anepsios (=primo) dele, como ele faz quando se refere a “Marcos, primo [anepsios] de Barnabé” (Cl.4:10). Portanto, esta é uma prova óbvia e evidente de que Tiago era mesmo irmão de Jesus, e não primo.

Mas não para o padre Paulo Ricardo.

Ele argumenta:

“Nós sabemos que esse Tiago, que está nomeado como ‘irmão do Senhor’, é um apóstolo. Mas se nós formos à lista dos doze apóstolos, quem são os ‘Tiagos’?”

Essa é toda a base argumentativa dele que sustenta todo o restante da sua argumentação, totalmente embasada na tese de que não existiam outros apóstolos além dos doze, razão pela qual ele crê que esse Tiago tinha que ser um dos doze discípulos de Jesus. De fato, se não existiam outros apóstolos além dos doze, então realmente esse Tiago teria que ser um deles, como diz o padre. Mas será mesmo que não existiam apóstolos além dos doze? Vejamos:

“Ouvindo, porém, isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes, e saltaram para o meio da multidão, clamando” (Atos 14:14)

Aqui vemos que Paulo e Barnabé eram apóstolos, embora nenhum deles estava entre os doze discípulos! Outros que também são chamados de apóstolos sem estarem entre os doze são Andrônico e Júnias:

“Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo” (Romanos 16:7)

Portanto, a conclusão lógica a que chegamos é que existiam apóstolos além dos doze discípulos. E, portanto, não há qualquer necessidade de esse Tiago mencionado em Gálatas 1:19 ter sido um dos dois discípulos de Jesus. O “Tiago maior” não poderia ser o irmão de Jesus mencionado em Gálatas 1:19 porque ele morreu cedo, foi o primeiro apóstolo mártir da Igreja, e não estava vivo quando Paulo escreveu aquilo (At.12:2). O “Tiago menor” também não poderia ter sido o irmão de Jesus, porque ele era primo (anepsios) dele, e não irmão (adelphos), como diz Paulo (Gl.1:19)[1]. Logo, o irmão de Jesus era um terceiro Tiago, filho de José e Maria, legitimamente irmão de Jesus[2].

Vale ressaltar que o próprio evangelista João faz clara distinção entre os discípulos de Jesus e os irmãos dele, como sendo dois grupos diferentes, o que elimina a possibilidade de os irmãos de Jesus (ou “primos”, como querem os católicos assassinando a gramática grega) se tratarem da mesma coisa:

“Disseram-lhe, pois, seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes (...) Porque nem os seus irmãos criam nele” (João 7:3-5)

Percebe-se claramente que os irmãos de Jesus não são discípulos dele, mas outras pessoas, que nem ao menos criam nele (e os discípulos criam!). Isso bate frontalmente com a tese do padre Paulo, de que o Tiago teria que ser um dos doze discípulos. Deve ser por isso que ele concluiu dizendo:

“Isso é muito importante para nós, católicos: a nossa certeza a respeito da virgindade de Maria não deriva da Bíblia. Deriva da nossa fé e da tradição da Igreja”

É o que eu sempre digo: a Bíblia nunca pode converter alguém ao catolicismo, pois contraria vigorosamente as suas teses, por isso é melhor mesmo apelar para a “tradição”, mesmo sendo algo vago que nem os romanos nem os ortodoxos conseguem decidir qual deles tem a tradição certa, já que os romanos afirmam que os irmãos de Jesus eram seus primos e os ortodoxos declaram que eram filhos de José, e ambos apelam para a “tradição” para provar isso.

Portanto, seria mais honesto dizer que só creem por fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1]Escrevi sobre os irmãos de Jesus à luz da gramática grega neste artigo: <http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2012/09/os-irmaos-de-jesus-eram-primos.html>.
[2]Tiago era um nome bem comum naquela época, e não surpreende que dois dos doze discípulos de Jesus e um dos quatro irmãos dele tivessem esse nome. 

29 de janeiro de 2014

Tiago ensinava a justificação pelas obras?



“Sabemos, contudo, que ninguém será justificado pela prática da lei, mas somente pela fé [εαν μη δια πιστις] em Jesus Cristo. Também nós cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justificação da fé em Cristo, e não pela prática da lei. Pois, pela prática da lei, nenhum homem será justificado” (Gálatas 2:16) 

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Antes da leitura deste artigo, recomendo a leitura destee desteartigo que trata sobre o mesmo tema.
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PAULO E TIAGO NÃO SE CONTRADIZEM SOBRE FÉ E OBRAS
(João Calvino)

Nossos adversários dizem que ainda nos resta enfrentar Tiago, o qual, segundo eles, nos contradiz em termos irrefutáveis. Pois ele ensina que não só “foi Abraão justificado pelas obras” [Tg 2.21], como também “nós todos somos justificados pelas obras, não pela fé somente” [Tg 2.24]. E então? Porventura arrastarão Paulo a um conflito com Tiago? Se a Tiago têm por ministro de Cristo, é preciso interpretar suas palavras de forma que não estejam em conflito com o que Cristo disse pelos lábios de Paulo. O Espírito declara pela boca de Paulo que pela fé, não pelas obras, Abraão alcançou a justiça [Rm 4.3; Gl 3.6]; por isso, nós também ensinamos que todos são justificados pela fé, sem o concurso das obras da lei. O mesmo Espírito ensina através de Tiago que não só a justiça de Abraão, mas também a nossa, se embasam nas obras, não somente na fé. Que certamente o Espírito não se põe em conflito consigo mesmo. Portanto, como conciliar os dois apóstolos?

Diferença na concepção de “fé”

Como naquele tempo havia muitos – mal que costuma ser perpétuo na Igreja – que punham abertamente à mostra sua infidelidade, negligenciando e deixando de lado todas as obras que são próprias dos fiéis, contudo, não cessavam de gloriar-se do falso nome de fé, Tiago aqui ridiculariza a estulta confiança de tais indivíduos. Portanto, ele não tem o propósito de, em qualquer aspecto, enfraquecer a força da verdadeira fé; ao contrário, seu propósito era mostrar quão insensatamente esses paroleiros se vangloriavam da mera aparência de fé; e, contentes com esta, se entregavam despreocupadamente a todo desbragamento de vícios.

Uma vez percebida esta condição, é fácil notar onde tropeçam nossos adversários. Ora, eles incidem em duplo paralogismo: um, na palavra fé; outro, no termo justificar. Que o apóstolo chame fé a uma opinião fútil, que nada tem a ver com a verdadeira fé, ele o faz à guisa de concessão, em nada denegrindo sua causa, o que demonstra desde o início com estas palavras: “Que proveito há, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, porém não tiver obras?”[Tg 2.14]. Ele não diz: “Se alguém tiver fé sem obras”; mas: “se alguém se vangloria de tê-la.” Pouco depois, ainda mais claramente, onde ironicamente a faz pior que o conhecimento diabólico [Tg 2.19], e finalmente onde a denomina de “morta” [Tg 2.20].

Mas da própria definição que apresenta haverás de depreender suficientemente o que ele queria dizer. “Tu crês”, diz ele, “que Deus existe” [Tg 2.19]. Obviamente, se nessa fé nada se contêm senão que se creia existir um Deus, não surpreende que a fé não justifique. E não é preciso pensar que isso tira algo à fé cristã, cuja natureza é bem distinta. Pois, de que modo a verdadeira fé justifica, senão quando nos une a Cristo, de sorte que, feitos um com ele, usufruímos da participação de sua justiça? Logo, ela não justifica por concebermos certo conhecimento da essência divina, mas por descansarmos na certeza da sua misericórdia.

Tiago e Paulo usam o termo justificação em acepções diversas: aquele reportando-se ao aspecto do testemunho da fé (penhor de justificação); este, ao aspecto da imputação (meio de justificação)

Ainda não teremos atingido a meta, a menos que discutamos também o outro paralogismo: se de fato Tiago põe uma parte da justificação nas obras. Caso queiras que Tiago concorde não apenas com as demais Escrituras, mas também consigo próprio, é necessário que tomes o termo justificar em outra acepção além da acepção de Paulo. Porquanto Paulo diz que somos justificados quando, obliterada a lembrança de nossa justiça pessoal, somos reputados por justos. Se Tiago tivesse olhado nessa direção, ele teria citado diversamente esta afirmação da parte de Moisés: “Abraão creu em Deus” etc. [Tg 2.23; Gn 15.6]; pois assim arrazoa: Abraão alcançou a justiça pelas obras, porque, ante a ordem de Deus, não hesitou em imolar o filho [Tg 2.21], e assim se cumpriu a Escritura que diz: “e Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça” [Tg 2.23].

Se é absurdo que o efeito seja anterior à sua causa, ou Moisés, nessa passagem, testifica falsamente que a fé foi imputada a Abraão para justiça, ou dessa obediência que exibiu em oferecendo a Isaque ele não mereceu a justiça. Antes que Ismael fosse concebido, que já era adolescente quando Isaque nasceu, Abraão fora justificado por sua fé. Como, pois, diremos que ele granjeara para si a justiça em virtude de uma obediência, quando esta veio depois? Daí, ou Tiago inverteu incorretamente a ordem, o que não é justo pensar, ou não quis dizer que ele foi justificado, como se merecesse ser considerado justo.

E então? Por certo, é evidente que ele está falando de declaração de justiça, contudo, não de sua imputação, como se quisesse dizer: Aqueles que são justos mercê de verdadeira fé, esses provam sua justiça através da obediência e das boas obras, não mediante um espectro desnudo e imaginário de fé. Em suma, Tiago não está discutindo de que maneira são justificados, mas está exigindo dos fiéis uma justiça que produza obras. E como Paulo declara que somos justificados sem o concurso das obras, assim aqui Tiago não admite que sejam tidos por justos os que não produzem boas obras.

A análise deste escopo nos desvencilhará de toda dificuldade, porque nossos adversários se enganam, sobretudo, ao crerem que Tiago determina o modo como os homens são justificados, quando outra coisa não busca senão demolir a fútil segurança daqueles que, para escusar a negligência das boas obras, se gloriam falsamente no título de . Portanto, de todos modos que torçam as palavras de Tiago, nada expressarão senão duas proposições: que um inútil simulacro de fé não justifica, e que o fiel, não contente com tal mistificação, declara sua justiça com boas obras. 

Por: João Calvino (Institutas, 3.17.11-12)


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27 de janeiro de 2014

A história da Igreja Católica em 20 minutos


(Não significa que eu concorde com 100% do que foi dito, mas que ele disse algumas boas verdades que já estavam engasgadas há muito tempo, isso é fato).


Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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26 de janeiro de 2014

Novo Livro - "As Provas da Existência de Deus"


Este é um livro de 317 páginas escrito por mim e por Emmanuel Dijon que aborda os seguintes temas:

• Deus existe. Isso é provado por:
         • Prova do Movimento
         • A Causalidade Eficiente
         • Prova da Contingência
         • Prova da Perfeição
         • Prova do Governo do Mundo
         • Argumento Teleológico
         • Argumento Cosmológico
         • Argumento da Moralidade
         • O Design Inteligente

• Deus é um ser pessoal. Isso é provado por:
         • Argumento Cosmológico
         • Argumento da Moralidade
         • O Design Inteligente

• A teoria da evolução é falsa. Isso é provado por:
         • Provas do Design Inteligente
         • O Registro Fóssil
         • Mutações
         • Origem da Vida

• Jesus realmente existiu. Isso é provado por:
         • Testemunhos não-cristãos sobre Jesus no primeiro século.
         • A existência de cristãos no primeiro século.
         • A inexistência de plágio de mitos pagãos.

• Jesus realmente ressuscitou. Isso é provado por:
         • Provas lógicas da ressurreição de Cristo.
         • Prova científica da ressurreição de Cristo.

• O Novo Testamento é autêntico. Isso é provado por:
         • Mais manuscritos antigos.
         • Menor intervalo entre o original e a cópia mais antiga.
         • Mais fontes de apoio.
         • Inexistência de variantes que comprometam doutrina.

• Apêndice 1: “A religião é o ópio do povo?”
         • De qual lado estão os cientistas?
         • Quem matou mais? Religiosos ou ateus?
         • Qual é a visão de mundo mais moral?

• Apêndice 2: “Como explicar o mal?”
         • Deus criou o mal?
         • Por que Deus permite o mal?


SUMÁRIO DO LIVRO

INTRODUÇÃO         

CAP. 1 - EVIDÊNCIAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS        

1º A Prova do Movimento   
2º A Causalidade Eficiente  
3º Prova da Contingência   
4º Prova da Perfeição       
5º Prova do governo do mundo    
• O Argumento Teleológico 
• Quem criou Deus? 
• O Argumento da Moralidade
        
CAP. 2 – A TEORIA DA EVOLUÇÃO         

• O Design Inteligente        
• A religião atrasa o progresso científico? 
• Onde estão os trabalhos científicos dos teóricos do Design Inteligente?       
• O Design Inteligente não é ciência, é religião    
• O que dizer das pesquisas naturalistas? 
• O registro fóssil    
• A Seleção Natural 
• As mutações e a macroevolução
• O darwinismo de mãos dadas com a eugenia   
• Ateísmo: o mito histórico 

CAP. 3 - JESUS REALMENTE EXISTIU?  

• Provas históricas da existência de Cristo
Flávio Josefo (37 – 100 d.C)        
Tácito (55 – 120 d.C)        
Luciano de Samosata (125 – 181 d.C)     
Plínio, o Jovem (61 – 114 d.C)      
Imperador Trajano (53 – 117 d.C)
Suetônio (69 – 141 d.C)     
Talo (55 d.C)
Flêgão (Século I)     
Mara Bar-Serapião (73 d.C)
Talmude       
Rei Abgar V  
O ossuário do irmão de Jesus       
Constantino e o Concílio de Niceia  
Considerações Finais

CAP. 4 - JESUS É UM PLÁGIO DE MITOS PAGÃOS?
        
1º Nascimento no dia 25 de Dezembro    
2º Três reis magos  
3º O nascimento virginal    
4º Jesus e seus doze anos 
5º A ressurreição    
6º Adjetivos dos deuses mitológicos        
7º Morte por crucificação   
8º Semelhanças depois de Cristo  
9º Cristianismo e Mitraísmo
Considerações Finais

CAP. 5 - JESUS REALMENTE RESSUSCITOU?
        
1º Teoria do desfalecimento refutada      
2º Teoria da alucinação refutada   
3º Teoria do irmão gêmeo refutada        
• Mas e os mártires muçulmanos? 

CAP. 6 - O SUDÁRIO DE TURIM  

Premissa 1 – Não é uma falsificação medieval   
Premissa 2 – Este homem trata-se de Jesus Cristo       
Premissa 3 – Este homem ressuscitou     
Conclusão – Jesus Cristo ressuscitou dos mortos

CAP. 7 - A AUTENTICIDADE DO NOVO TESTAMENTO

• Quantidade de cópias antigas do Novo Testamento     
• Tempo entre a cópia e o original 
• Os Pais da Igreja  
• Respondendo aos Céticos 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

APÊNDICE 1 – A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO?       

APÊNDICE 2 – COMO EXPLICAR O MAL?           


ONDE COMPRAR O LIVRO IMPRESSO

O livro em impresso custa R$ 32,28 e pode ser comprado online neste site:


(Dentro de uma a duas semanas chega por correio na casa de cada um).


E-BOOK GRATUITO

O livro completo em formato digital está disponível gratuitamente nestes dois links para download:



Se alguém não conseguir fazer o download do livro, basta enviar um e-mail para mim (lucas_banzoli@yahoo.com.br) que eu envio por anexo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.


Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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19 de janeiro de 2014

Estudo exegético completo sobre Mateus 16:18 - "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja"


Quando todos os seus argumentos para o primado de Pedro fracassam e são sistematicamente derrubados, eles apelam para um último texto bíblico que seria a salvação da tese do primado petrino: Mateus 16:18. O texto é usado pelos católicos de forma isolada, quando se recorta metade do versículo e se omite completamente seus versos antecedentes, e desta forma pegam fora de contexto a parte que diz “tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, para daí tirarem a ideia do papado.

Mas será mesmo que Mateus 16:18 oferece algum suporte sobre a tese do primado de Pedro e da sucessão papal?

É claro que não. Em primeiro lugar, há teólogos evangélicos que creem que Pedro é a pedra de Mateus 16:18, e mesmo assim negam o primado de Pedro e o papado do bispo romano. Embora o número de intérpretes que creem que a pedra em questão seja Cristo ou a confissão de fé de Pedro em Cristo seja muito maior, há uma parte que crê que de fato se trata de Pedro, e mesmo assim permanecem evangélicos, pois sabem que esse texto, mesmo se lido da forma católico-romana, não implica em absolutamente nada de primado de Pedro nem dá margens para alguma tese de papado.

Um dos mais respeitados teólogos protestantes que crê que Pedro é a pedra é o Dr. Samuele Bacchiocchi, que não deixa de se opor fortemente à tese do primado de Pedro e do papado por causa disso. Portanto, por mais importante que seja refutar a tese de que Pedro seja a pedra de Mateus 16:18, devemos ter bem em mente que esse argumento católico não implica em nada. As chaves sim poderiam implicar em uma posição de autoridade superior, caso tivessem sido entregues exclusivamente a Pedro, mas veremos nos capítulos seguintes deste livro que todos os discípulos eram detentores do poder das chaves, não somente Pedro.

Sendo assim, mostraremos que a pedra em questão é Cristo, o Filho do Deus vivo, não porque se fosse Pedro isso implicaria em alguma coisa, mas porque muitos católicos têm usado isso como argumento, como o carro-forte do catolicismo romano. Não é preciso fazer muito esforço para refutar tal pretensão católica, pois o próprio contexto deixa claro que a pedra era a confissão de fé de Pedro em Cristo, ou seja, que a pedra é “Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16):

Mateus 16

13 E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? 
14 E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. 
15 Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? 
16 E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo[a declaração de fé de Pedro]
17 E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque isto [a declaração de fé de Pedro] não foi lhe foi revelado pela carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. 
18 Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra [a declaração de fé de Pedro] edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Como vemos, todo o contexto aponta que a pedra em questão se trata da declaração de Pedro sobre Cristo ser o Filho do Deus vivo. Em outras palavras, se tirarmos o verso 18 de seu contexto (como os católicos fazem) a pedra realmente parecerá se tratar de Pedro, mas quando contextualizamos o texto bíblico (como os católicos não fazem) aparece uma outra sugestão, que parece muito mais condizente com o contexto e com o todo das Escrituras, que é a pedra sendo aquilo que Pedro havia confessado. Ou seja: a pedra era Cristo! 

Quando deixamos os recortes católicos de lado e revelamos todo o contexto, desde o início vemos que a pedra era a declaração de fé de Pedro em Cristo Jesus. O que estava em jogo era quem era o Filho do homem, e não quem era Pedro. Pedro, então, é o primeiro a se adiantar e responder aquilo que seria a pedra fundamental da Igreja – tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Cristo, em seguida, começa a trabalhar através desta mesma confissão de Pedro. Ele afirma que “isso” (referindo-se ainda ao fato de Cristo ser o Filho de Deus) havia sido revelado por Deus a ele (Pedro), e que sobre “esta pedra” (i.e, essa mesma confissão) a Igreja estaria edificada.

O “esta pedra” não é, diante dos versos que antecedem, uma referência distinta do “isso” que Jesus falava no verso anterior (v.17) e diante de todo o contexto. O foco não saiu de Cristo e se voltou para Pedro; ao contrário, continuou com Cristo: sobre aquilo que Pedro confessou sobre Cristo, e que seria a pedra fundamental da Igreja!

Sem dúvidas, se isolarmos o verso 18 de seu contexto e lermos apenas a linguagem em português, o “esta” sempre vai se referir ao antecedente mais próximo, que, em Mateus 16:18, se trata de Pedro. Ocorre, porém, que o Novo Testamento não foi escrito em português, foi escrito em grego. E a forma de expressão da língua grega é diferente do nosso português. W. C. Taylor, em sua gramática, nos dá uma importante informação para a compreensão desse uso em grego. Ele diz: “não há pronome grego correspondente ao nosso ‘esse’”[1].

O “sobre este” do tradutor faz muita gente pensar que esteja se referindo a Pedro, visto que todos nós aprendemos que em português se deve usar “este” para se referir ao que está mais perto e “esse” para o que está mais longe, mas em grego não existe essa distinção. Como não há um equivalente exato para “esse” em grego, ainda que possamos traduzir por “esta” pedra, a referência pode ser não ao antecedente mais próximo, mas ao mais distante. No caso de Mateus 16:18, a pedra seria a confissão de fé de Pedro em Jesus, dizendo que “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, no verso 16.

Neste caso, Pedro teria confessado que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e Jesus afirmou a Pedro em seguida que seria sobre esta pedra (que ele havia confessado) é que a Igreja estaria edificada. Isto é, não sobre Pedro como pessoa, mas sobre a confissão de Pedro, sobre “Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16), o que foi confessado por ele. Tal entendimento é provado em versículos como Atos 7:17-19, em que o “este” se refere não ao antecedente mais próximo, mas ao mais distante:

“À proporção que se aproximava o tempo da promessa que Deus fez a Abraão, crescia o povo, e multiplicava-se no Egito, até que se levantou ali outro rei, que não conhecia a José. Este rei usou de astúcia contra a nossa raça e afligiu nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus filhos, para que não vivessem” (Atos 7:17-19)

No caso acima, o tradutor preferiu incluir a palavra “rei” no verso 19 para deixar claro que a menção não é a José, mas ao Faraó. Ocorre, porém, que a palavra “rei” não existe no verso 19, que diz: χρι οὗἀνέστη βασιλες τερος π’ Αγυπτον ς οκ δει τν ωσήφ, οτοςκατασοφισάμενος τ γένος μνκάκωσεν τος πατέρας”. A tradução literal seria: “este usou de astúcia...”. Embora o antecedente direto seja José, a referência evidentemente não é a ele, mas ao antecedente mais distante, o Faraó. O mesmo podemos observar em outros casos, como, por exemplo, o de Atos 4:10-11:

“Seja conhecido de vós todos, e de todo o provo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é quem este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós…” (Atos 4:10,11)

Aqui, os tradutores optaram por colocar “ele” no verso 11, quando o original traz “este”, e não “ele”. Literalmente, o texto bíblico diz: este é a pedra que foi rejeitada por vós...”. Evidentemente, a referência não é imediatamente ao mais próximo no relato (o paralítico curado), mas ao antecedente mais remoto, Jesus, que foi citado no início do verso anterior, que é a pedra de que Pedro fala no verso 11. E, se usássemos a mesma lógica católica, deveríamos crer que Jesus é o anticristo, pois João diz:

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este mesmo é o anticristo, que nega o Pai e o Filho” ( João 2:22)

No original grego lemos:

Τίς στιν  ψεύστης ε μ  ρνούμενος τι ησος οκ στιν Χριστός οτος στιν  ντίχριστος ὁἀρνούμενος τν πατέρα κα τν υόν

Perceba que οὗτος (traduzido por “este” na grande maioria das vezes em que se encontra no NT) segue imediatamente a Χριστός (traduzido por Cristo), mas seria completamente descontextual, e até mesmo blasfêmia, considerarmos que o “este mesmo” se referia ao antecedente mais direto, que é Jesus, quando na verdade é uma referência ao antecedente mais remoto, o “mentiroso” que aparece no início do verso.

A própria Concordância de Strong mostra que a palavra grega traduzida por “esta” em Mateus 16:18 (taute) pode ser vertida por “esta”, como também pode ser traduzida por “aquela”:

5026 ταυτη taute e ταυτην tauten e ταυτης tautes
caso dativo, acusativo e genitivo respectivamente do feminino singular de 3778; pron.
1) a este, a aquela, o mesmo.

O The NAS New Testament Lexicon grego dá o mesmo significado abrangente a taute, podendo significar “isto ou aquilo”[2], ou seja, o antecedente mais próximo ou o mais remoto.

Em outras palavras, taute é uma palavra abrangente, com uma extensão muito maior do que o “este” da nossa língua portuguesa, que sempre vai se referir ao antecedente mais próximo. Ao contrário do português, o taute do grego pode significar “este” como o mais próximo, como também pode significar “aquele”, passando claramente a ideia de um referencial mais distante. Assim, o verso de Mateus 16:18 poderia ser perfeitamente traduzido (ou entendido) como sendo:

“Tu és Pedro, e sobre aquela pedra edificarei a minha Igreja...”

Em outras palavras, o taute, que tem como um de seus significados principais “aquela”, estaria dando nitidamente o sentido de que a pedra de edificação da Igreja é aquilo que Pedro havia anteriormente confessado, dizendo que Cristo é o Filho do Deus vivo. O problema é que nós estamos tão viciados à leitura do texto em português, com as regras gramaticais que regem a língua portuguesa, que nem pensamos em outra possibilidade quando lemos o “esta”. Mas um grego do século I teria uma mentalidade bem diferente em ler o “esta” (taute) na língua dele, com as regras gramaticais de seu idioma, porque sabia que em sua língua essa palavra poderia significar o antecedente mais distante, “esta” no sentido de “aquela”.

Tendo isso em mente, embora a tradução por “esta pedra” não seja uma tradução errônea, isso não significa que se refira necessariamente ao antecedente mais direto, que é Pedro, podendo sim se referir a um antecedente mais remoto, aquela pedra, que no caso é “Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16), como demonstrado pelo contexto que envolve Mateus 16:13-18. O “sobre esta pedra” não define a questão à luz do original grego, pois ainda sobrariam, pelo menos, duas opções possíveis sobre quem é essa pedra, a saber:

 O próprio Pedro, o antecedente direto.

 “Cristo, o Filho do Deus vivo”, o antecedente remoto.

Portanto, o argumento católico de que Pedro tem que ser a pedra de Mateus 16:18 por causa do “sobre esta pedra” morre aqui. Mas como podemos saber qual dessas duas alternativas acima é a correta? Se analisarmos apenas Mateus 16:18, essa resposta está em aberto, mas se analisarmos o todo das Escrituras, há uma resposta óbvia a essa questão. Para tanto, é necessário fazer uso da hermenêutica bíblica, que tem por princípio básico o fato de que os textos mais claros da Bíblia explicam e lançam luz sobre os textos mais obscuros.

Ora, nenhuma doutrina bíblica importante se fundamenta sobre um único verso bíblico, muito menos em um de dupla interpretação. Se Pedro é a pedra de Mateus 16:18, sobre a qual a Igreja está edificada, esperaríamos ver a confirmação disso em vários outros locais da Escritura. Mas, para a infelicidade dos católicos, o que a Escritura diz é uma coisa totalmente diferente: que a pedra é Cristo! Do Antigo ao Novo Testamento, vemos que todos os escritores bíblicos inspirados sabiam muito bem disso:


-Perguntaremos a Moisés:
Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é” (Deuteronômio 32:4)

“Como poderia ser que um só perseguisse mil, e dois fizessem fugir dez mil, se a sua Rocha os não vendera, e o Senhor os não entregara?”(Deuteronômio 32:30)


-Perguntaremos a Samuel:
“Não há santo como o Senhor; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus (1ª Samuel 2:2)

“Disse pois: O Senhor é a minha rocha, e o meu lugar forte, e o meu libertador” (Samuel 22:2)

Deus é a minha rocha, nele confiarei; o meu escudo, e a força da minha salvação, o meu alto retiro, e o meu refúgio. O meu Salvador, da violência me salvas”(Samuel 22:3)

“Por que, quem é Deus, senão o Senhor? E quem é rocha, senão o nosso Deus? ( Samuel 22:32)

“Vive o Senhor, e bendito seja o meu rochedo; e exaltado seja Deus, a rocha da minha salvação ( Samuel 22:47)


-Perguntaremos a Davi:

O Senhor é a minha rocha, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio” (Salmos 18:2)

“Porque quem é Deus senão o Senhor? E quem é rocha senão o nosso Deus?(Salmos 18:31)

“O Senhor vive; e bendito seja a minha rocha, e exaltado seja o Deus da minha salvação” (Salmos 18:46)

“Para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça” (Salmos 92:15)


-Perguntaremos a Isaías:
“Confiai no Senhor perpetuamente; porque o Senhor Deus é uma rocha eterna(Isaías 26:4)

“Portanto assim diz o Senhor Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (Isaías 28:16)


-Perguntaremos a Paulo:

"Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor, e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo (1ª Coríntios 3:10,11)

“Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço(Romanos 9:32)

“Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido” (Romanos 9:33)

“E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo (1ª Coríntios 10:4)

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina (Efésios 2:20)


-Perguntaremos a Jesus:
“Ainda não lestes esta Escritura: a pedra, que os edificadores rejeitaram, esta foi posta por cabeça de esquina (Marcos 12:10)

“Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: a pedra, que os edificadores rejeitaram, assa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos?” (Mateus 21:42)


-Perguntaremos ao próprio Pedro:

"Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular (Atos 4:11)

"Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois está na Escritura: eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será de modo algum envergonhado. Para vós outros, portanto, que crerdes, é preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra principal, angular (1ª Pedro 2:4-7)

Portanto, a crença unânime dos escritores bíblicos inspirados do Antigo Testamento é que a pedra é Deus, que aponta para Cristo (que é Deus) no Novo Testamento. Há um cumprimento pleno dessa tipologia veterotestamentária no Novo Testamento, quando Cristo é estabelecido como sendo a pedra de alicerce, o fundamento, a rocha sobre a qual a Igreja está edificada. Afirmar que a pedra é Pedro significa negar todo o cumprimento profético do Antigo Testamento, além de tornar inócuo o fato de Cristo ser apontado o tempo todo como sendo a pedra, até mesmo com a mesma palavra petra que é usada em Mateus 16:18.

Quando os católicos se deparam com essa evidência incontestável, eles tentam contornar o fato afirmando que tanto Pedro como Jesus são pedras, mas que seria Pedro a pedra específica de Mateus 16:18. Usam como argumento o fato de Jesus ter dito em outra ocasião que ele é a luz do mundo (Jo.8:12), e depois disse que nós somos a luz do mundo (Mt.5:14). Contudo, essa analogia é falha por inúmeros motivos.

Primeiro, porque nem tudo o que Cristo é também pode ser aplicado aos seres humanos. Os cristãos podem refletir a luz de Cristo com a pregação do evangelho, mas nada indica que eles tomem o posto de luz principal que é de Cristo. Da mesma forma, Pedro disse que todos nós (e não apenas ele) somos “pedras vivas”, edificados sobre a rocha principal, que é Cristo (1Pe.2:4-7).

Note que não há qualquer indicação de que a pedra principal, sobre a qual a Igreja está edificada, seja Pedro e não Jesus. A pedra principal de fundamento continua sendo Cristo, da mesma forma que a luz principal de onde nós refletimos luz é Jesus, e não qualquer outro ser humano. Assim, vemos que a alegação católica torna ainda mais sem sentido a afirmação de que Pedro seja a pedra de fundação da Igreja, pois o fundamento é a pedra principal de um edifício, e o principal sempre tem que ser Cristo. Todos os outros humanos são luz em sentido secundário, da mesma forma que todos os cristãos são pedra em sentido secundário. A pedra de Mt.16:18 não deixa de ser Cristo por esse argumento!

Segundo, porque em todas as ocasiões onde essas “pedras secundárias”, isto é, pedras humanas que provém do fundamento principal (Cristo) são destacadas, é sempre para falar de todos os cristãos ou de todo o grupo apostólico, nunca para se referir a Pedro de forma particular. Isso fica patente nas observações dos textos bíblicos a este respeito, como o do próprio Pedro em 1ª Pedro 2:4-7 e daquilo que Paulo diz em Efésios 2:20:

"Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois está na Escritura: eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será de modo algum envergonhado. Para vós outros, portanto, que crerdes, é preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra principal, angular (1ª Pedro 2:4-7)

Aqui vemos Pedro dizendo que Cristo é a pedra principal, a “pedra que vive”, que foi rejeitada pelos homens e foi estabelecida como “pedra principal” (v.7), como diz claramente o verso 7, deixando claro que Cristo é a pedra principal de fundamento da Igreja. E sobre Cristo, como pedras secundárias, provenientes da pedra principal que é Jesus, ele não diz que está ele mesmo, mas vós mesmos, no plural, indicando que todos os cristãos são pedras secundárias edificadas sobre a pedra principal de edificação da Igreja, que é Cristo. Paulo faz o mesmo em sua epístola aos efésios:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”(Efésios 2:20)

Mais uma vez, aqui vemos que “Jesus Cristo é a pedra principal”, e que os demais fundamentos edificados sobre essa pedra principal são “os apóstolos” (novamente vemos o plural sendo empregado como referência a todos os apóstolos, e não somente a Pedro!), o que fulmina com a tese de que a Igreja está edificada somente sobre Pedro como pedra principal ou secundária. O texto é muito claro em dizer que Cristo é a pedra principal e que as pedras secundárias são todos os apóstolos e profetas. Pedro não recebe uma posição de destaque nem quanto à pedra principal e nem quanto à pedra secundária!

Portanto, o argumento católico, ao invés de refutar alguma coisa, apenas serve para fortalecer o argumento dos evangélicos. Ele demonstra que não existe outra pedra principal além de Cristo, assim como não existe outra luz principal além dEle. Isso é evidente através de textos como o de 2ª Samuel 22:32, onde a pergunta retórica que diz – “e quem é rocha, senão o nosso Deus?” – indica obviamente que não há nenhuma outra rocha senão Ele. O mesmo é repetido ao pé da letra pelo salmista, no salmo 18:31. E Paulo, escrevendo aos coríntios, deixa claro que “ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Cristo Jesus” (1Co.3:11).

Assim, vemos que é impossível existirem duas pedras principais onde a Igreja esteja edificada. Ou essa pedra principal de edificação da Igreja é Cristo ou é Pedro. Cristo não pode dividir esse papel com Pedro, porque nenhum outro fundamento pode ser posto além dEle (1Co.3:11) e não há nenhuma outra rocha principal senão Deus (2Sm.22:32; Sl.18:31). Se esse papel fosse dividido, dado tanto a Cristo quanto a Pedro, esses textos perderiam o sentido e estariam errados ao mostrarem que não podem existir duas pedras principais, ou dois fundamentos onde a Igreja estaria edificada.

A isso deve-se acrescentar que Jesus não diz que somente ele é a luz em João 8:12, mas a Bíblia diz claramente que somente ele é o fundamento principal da Igreja (1Co.3:11). Por isso, esse papel não pode ser dividido, nem com Pedro e nem com mais ninguém. Os demais podem ser, como vimos, no máximo “pedras secundárias”, isto é, pedras edificadas sobre o fundamento principal que é Cristo, mas esse fundamento continua sendo Cristo e mais ninguém além dEle! E, como vimos, até mesmo quando o assunto em questão são essas pedras secundárias, mesmo assim Pedro nunca aparece em posição de destaque ou em singularidade, mas sempre se trata de todos os cristãos ou de todos os apóstolos, indistintamente.


O fundamento da Igreja

Que Jesus é a única pedra fundamental da Igreja, isso fica evidente a partir daquilo que Paulo diz:

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1ª Coríntios 3:11)

E o mesmo apóstolo define novamente a questão ao dizer sobre quem que nós (a Igreja) estamos edificados:

“Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele, arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças” (Colossenses 2:6,7)

Portanto, nós, como Igreja, estamos edificados nele, isto é, em Jesus (C.2:6,7), que é o único fundamento da Igreja (1Co.3:11). Por que Paulo não diz que era Pedro a pedra sobre a qual a Igreja estaria fundamentada, mas diz que é Cristo? Será que ele não conhecia Mateus 16:18? A verdade é que Paulo conhecia suficientemente bem o evangelho para compreender Mateus 16:18 e saber que Cristo, o Filho do Deus vivo – que foi a confissão de Pedro – é a pedra fundamental da Igreja, e não o próprio Pedro.

Sendo que é tão claro biblicamente que a Igreja está edificada sobre “Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt.16:16), o que Pedro é, afinal de contas? Sabemos que Pedro não pode ser a pedra de fundação da Igreja sob a qual nós estamos edificados, pois essa pedra é somente Cristo, e ninguém pode pôr outro fundamento além dEle (1Co.3:11). Para resolver essa questão, é o próprio apóstolo Paulo que nos responde qual era a posição de Pedro na Igreja:

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos” (Gálatas 2:9)

Vemos, portanto, que Pedro não era a pedra de fundamento da Igreja, ele era apenas uma coluna, assim como Tiago e João. E existe uma gigantesca e colossal diferença entre ser a pedra de fundamento e ser uma coluna, pois a coluna não é o fundamento, mas está edificada sobre o fundamento, que é Cristo.

Pedro era considerado uma coluna da Igreja, e não a pedra fundamental! A única pedra de fundamento da Igreja era Cristo, pois Paulo declarou que ninguém mais pode colocar outro fundamento além dEle (1Co.3:11). Portanto, os católicos que dizem que existia mais de um fundamento na Igreja e que Pedro era a pedra fundamental mesmo com Paulo dizendo que Cristo era esse fundamento estão redondamente enganados, pois o texto bíblico de forma clara afirma que ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Cristo Jesus. Então, não temos “duas pedras” de fundamento da Igreja: temos apenas uma, que é Cristo!

Pedro, como Paulo dizia, era uma “coluna” da Igreja (Gl.2:9), que sabemos que é algo muito diferente de pedra de fundamento. A pedra fundamental era a base na qual um edifício estava construído, e não existia mais de uma. As colunas, no entanto, são várias, e não uma só. Foi por isso que Paulo disse que Cristo é o único fundamento, mas mostrou várias colunas. O quadro abaixo ilustra isso muito bem:


Portanto, Paulo não colocava Pedro como a pedra fundamental da Igreja, mas apenas como mais uma das colunas, no mesmo nível de Tiago e João, e nem mesmo Pedro é citado por primeiro (Gl.2:9)! Pedro nem mesmo era a única coluna da Igreja, mas dividia este espaço (no mínimo) com Tiago e João. Não havia, portanto, uma posição especial ou privilegiada para Pedro. Paulo, inclusive, citou Tiago em primeiro lugar na lista das colunas da Igreja, colocando Pedro em segundo (Gl.2:9). E Cristo era, por sua vez, superior a estes três, pois era o único fundamento que sustentava todos os demais.

Se Pedro fosse o fundamento, seríamos levados a crer que ele é superior a Jesus, pois não seria Pedro que estaria edificado sobre Cristo, mas Cristo sobre Pedro! Isso implicaria que Jesus é dependente de Pedro, assim como a coluna é dependente do fundamento. Se Pedro é o fundamento da Igreja e Jesus está sobre ele, então é Jesus que está dependente de Pedro, e não o contrário! O fato de Cristo ser o nosso único fundamento, como mostra as Escrituras, ilustra mais uma vez que o único que tem um primado sobre os cristãos é Jesus, e o papa é um usurpador dessa posição que é de Cristo.

Desta forma, vemos que a Igreja está bem construída da seguinte maneira: Cristo é o único fundamento no qual a Igreja está edificada (1Co.3:11), e os apóstolos eram, em igualdade, colunas que estavam edificadas sobre o único e superior fundamento (Gl.2:9). Ou seja: existe um único superior e fundamento da Igreja, que é Cristo, e vários outros que estão em posição de igualdade como colunas, sem uma se sobressair às demais ou sustentá-las como fundamento.

Sendo assim, Deus estava mostrando a superioridade e primazia única e singular de Cristo na Igreja, e mostrando igualdade entre as colunas. Isso refuta a tese do primado de Pedro, pois faria dele uma coluna única e superior a todas as demais, ou o próprio fundamento que sustenta todos os outros. Não apenas vemos que Pedro não era o fundamento da Igreja, como também constatamos que não existia primazia entre as colunas (apóstolos).

Tentando refutar o quadro acima, certo católico tentou montar um quadro onde coloca Pedro como a pedra de fundamento da Igreja, com Jesus aparecendo em cima de Pedro como outra pedra fundamental, com Pedro aparecendo de novo em cima de Jesus (desta vez como coluna) e com Cristo aparecendo outra vez em cima de Pedro como pedra angular. Essa pérola é bizarra não apenas por construir múltiplos “Pedros” e “Cristos” (quando só existe um), mas também porque quem a fez demonstra não saber nada sobre construção, pois deveria saber que cada edifício tem um único fundamento e nenhum outro além dele, e não vários fundamentos (para que Cristo dividisse esse papel com Pedro).

E para saber qual fundamento é este e que nenhum outro pode ser posto quando se trata da Igreja basta analisarmos mais uma vez o texto de 1ª Coríntios 3:11, que diz que Jesus é o único fundamento e que nenhum outro pode ser posto além dele. Pedro, em particular, não é um fundamento, é uma coluna, como vimos em Gálatas 2:9. Portanto, devemos observar que:

1. Coluna é coluna e não fundamento.

2. Fundamento existe só um e este é Cristo.

3. Existe apenas um Pedro e um Jesus, e não milhares deles para cada um ocupar uma parte diferente nessa construção da Igreja.

4. Pedro é uma das colunas, junto com Tiago e João, e não uma coluna única ou principal.

5. Em uma edificação, não se colocam dois fundamentos. Na Bíblia, Paulo diz que ninguém pode por outro que não seja Cristo (1Co.3:11).


Os Evangelhos Sinópticos

Outra informação importante que passa despercebida por muitos é o fato de que não foi apenas Mateus que escreveu tal relato, mas Marcos e Lucas também o fizeram. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são evangelhos sinópticos, que repetem boa parte daquilo que já é dito nos outros evangelhos, embora muitas vezes com um destaque maior ou menor para uma ou outra parte.

Assim sendo, se de fato Pedro é a pedra de fundamento da Igreja e essa é a mensagem principal e mais importante que aquele acontecimento tem a nos dizer, esperaríamos que isso fosse reiterado com exatidão e sem falta pelos outros evangelistas, mas o fato é que todos eles omitem o verso 18, onde supostamente a Igreja estaria edificada sobre Pedro, de acordo com a concepção católica.

Em Marcos:

“Jesus e os seus discípulos dirigiram-se para os povoados nas proximidades de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele lhes perguntou: ‘Quem o povo diz que eu sou?’ Eles responderam: ‘Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, um dos profetas’. ‘E vocês?‘, perguntou ele. ‘Quem vocês dizem que eu sou?’ Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo’. Jesus os advertiu que não falassem a ninguém a seu respeito” (Marcos 8:27-30)

Em Lucas:

“Certa vez Jesus estava orando em particular, e com ele estavam os seus discípulos; então lhes perguntou: ‘Quem as multidões dizem que eu sou?’ Eles responderam: ‘Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, que és um dos profetas do passado que ressuscitou’. ‘E vocês, o que dizem?’, perguntou. ‘Quem vocês dizem que eu sou?’ Pedro respondeu: ‘O Cristo de Deus’. Jesus os advertiu severamente que não contassem isso a ninguém” (Lucas 9:18-21)

A pergunta que não quer calar é: por que Marcos e Lucas fizeram questão de não escrever nada sobre o verso 18, se era no verso 18 que a pedra estaria sendo identificada? Ora, Marcos conviveu de perto com Pedro. Dificilmente iria ignorar o “tu és Pedro”, se não fosse por uma boa razão. Ele foi o primeiro evangelista a escrever um evangelho canônico, quando nenhum antes já havia feito. Então, por que omitir o verso 18, que seria o mais importante? Afinal, com tantos versos dizendo que a pedra é Cristo e sem nenhum outro dizendo que é Pedro, seria totalmente necessário e imprescindível que o evangelista fizesse questão de destacar este tão importante fato de que “Pedro é a pedra”.

O caso de Lucas é ainda mais interessante, pois ele escreveu depois de Marcos e Mateus, e disse que recolheu as informações contidas nos outros evangelhos para passar por escrito em seu próprio evangelho, passando aquilo que seria de mais valioso (Lc.1:1-4). Portanto, podemos ter certeza que ele tinha conhecimento do evangelho de Marcos (que não fala nada sobre o verso 18) e do de Mateus (que contém o relato completo com o verso 18). Se Lucas cresse que o mais importante estivesse no acréscimo contido em Mateus, certamente ele não iria hesitar em mencioná-lo também em seu evangelho. Mas ele também omite totalmente o verso 18!

À luz de tudo isso, a causa mais razoável para a omissão de Marcos e Lucas, que citaram todo o contexto mas omitiram bem exatamente o verso 18, é porque o mais importante estava nos versos anteriores, e não no verso 18. Porque a “pedra” em questão já havia sido descrita no verso 16 de Mateus, e, portanto, não era necessário repetir isso. Eles obviamente criam que a confissão de Pedro, de que “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt.16:18), era a pedra onde a Igreja está edificada. O verso 18 apenas reitera isso, não conta uma novidade. A pedra em questão já havia sido achada. Por isso, eles fizeram questão de mencionar a confissão de fé de Pedro, mas omitiram absolutamente o “tu és Pedro e sobre esta pedra”, porque a pedra é a confissão de Pedro e não o próprio Pedro como pessoa.

Os católicos, para sustentar a tese de que Pedro é a pedra, são obrigados a crerem que Marcos e Lucas se “esqueceram” de mencionar o mais importante da passagem. Que pelos evangelhos de Marcos e Lucas seria impossível saber quem é a pedra, já que eles não mencionam o verso 18, que eles dizem que se trata de Pedro. Que a Igreja estaria edificada sobre uma incógnita, se dependesse desses dois evangelhos. Que eles teriam deixado o texto pela metade, pois para eles os versos 13 a 16 seriam apenas uma “introdução” ao ponto mais importante daquele relato, que seria onde Cristo diz que Pedro é a pedra. Ou seja: que eles passaram uma introdução para algo maior, mas cortaram o relato pela metade e deixaram de mencionar aquilo que seria o ponto central do relato!

Os evangélicos, contudo, estão bem mais seguros em sua posição, pois tudo aquilo que Cristo disse no verso 18 de Mateus 16 já estava implícito em todo o contexto – a “pedra” já estava no verso 16. Então, o ponto alto da história está no próprio verso 16, na confissão de Pedro, pois a pedra é Cristo, o Filho do Deus vivo, que é o que foi confessado por ele. Passar o relato completo era uma opção, e não algo necessário, pois o ponto alto e mais importante do relato já havia sido dito – razão pela qual dois de três evangelistas optam por transmitir a confissão de Pedro sem a afirmação seguinte do verso 18.


A Gramática

Quando analisamos o texto em grego, vemos o evangelista Mateus fazendo um jogo de palavras entre petrus e petra. Quando disse “tu és Pedro”, a palavra utilizada no grego foi petrus, que não é a mesma palavra repetida a seguir, quando Jesus diz “sobre esta pedra”, que é petra. Há uma diferença leve, porém significativa, entre um termo e outro no original grego. O conceituado dicionário de Liddel and Scott[3] dá ao vocábulo petra o significado de: 

-Petra: 
Rocha fixa, maciça, recife, rochedo, penhasco. 

Já para o nome petros, dá o significado de: 

-Petros: 
Pedra solta. 

E elucida: 

“Não há exemplos de bons autores do emprego de petra no sentido de petros, isto é, um seixo”

O léxico da Concordância de Strong também faz essa mesma diferenciação: 

4074 πετρος Petros
Aparentemente, palavra primária; um pedaço de rocha; como um nome, Petrus, um apóstolo: Pedro.[4] 

4073 πετρα petra
Feminino da Petrov – Petrus 4074, uma massa de rocha, literalmente ou figurativamente.[5] 

Ou seja, petros (Pedro) é um pedaço de rocha, enquanto que petra (Jesus) é uma massa rochosa. John Groves, em seu dicionário do grego, apresenta a mesma diferença fundamental: 

-Petra: 
Uma rocha, grande pedra, uma massa de pedra. 

-Petros: 
Uma pedra, pedaço de pedra, fragmento da rocha. 

Até o dicionário Manual Grego-Latino-Espanhol dos Padres Escolapios[6] diz que os romanos traduziram para o latim o nome petrobolos como “machina que saxum emittitur” – “uma máquina com que se arremessam seixos”

Logo, nem mesmo os próprios católicos podem fugir da real distinção entre petrus e petra que foi estabelecida por Mateus. Como vemos, petrus não é a mesma coisa de petra, mas significa um “fragmento de pedra”, ao passo em que petra significa uma “macha de rocha”. Novamente vemos, neste jogo de palavras, a distinção entre a pedra principal (Cristo-petra) e as pedras secundárias que estão edificadas sobre a pedra principal, e são fragmentos desta (como Pedro-petrus). O contraste entre um e outro nos deixa claro, mais uma vez, que Cristo é a pedra principal (petra), enquanto Pedro é uma pedra secundária edificada sobre a rocha principal.

O demonstrativo taute (esta) antecede à petra (pedra – “esta pedra” – v.18), referindo-se à pessoa de quem se fala, isto é, à pessoa da qual Cristo e Pedro falavam, a terceira pessoa gramatical, que no caso é o próprio Cristo diante da confissão de Pedro, que disse que “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16). Digno de nota também é o fato de que tal demonstrativo (taute) encontra-se no feminino, ligando-se, portanto, gramatical e logicamente à palavra feminina (petra) à qual imediatamente antecede, que não pode se referir a petrus, que é masculino.

É impossível, gramaticalmente falando, relacionar-se um demonstrativo feminino com um vocábulo masculino, pois deve prevalecer a concordância de número e gênero. Petrus (Pedro) é um nome masculino e petra é um feminino para pedra, e, portanto, não pode ter relação com aquele. Se o feminino petra não pode ser uma referência ao masculino petrus, pela impossibilidade gramatical no grego, então a que se refere? Obviamente, ao antecedente feminino do verso 16, isto é, a confissão de Pedroacerca de Cristo. Fica claro, portanto, que a pedra que o texto se refere é a confissão de Pedro, e não o Pedro.

Considerar o masculino petrus como sendo a petra de Mateus 16:18 quando tanto o demonstrativo taute quanto petra estão no feminino seria o mesmo que dizer que “tu és um aluno e sobre esta aluna”, ou “tu és um traidore sobre esta traidora”, ou ainda “tu és um cantor e sobre esta cantora”. É óbvio que o segundo, em cada um destes e de muitos outros exemplos semelhantes que poderíamos passar, não está relacionado ao primeiro, mas a algum antecedente deste primeiro, pois o demonstrativo feminino não pode ser uma referência ao vocábulo masculino.

Notemos que Mateus, que escreveu em grego seu evangelho, tinha três opções prontas, a mão, que poderiam perfeitamente ter sido utilizadas. Ele poderia ter empregado touton, que é o singular masculino[7]; poderia ter empregado touto, que é o singular neutro[8], e também poderia ter empregado taute, que é o singular feminino[9]. De todas essas opções que ele tinha em mãos, ele fez questão de passar o pronome feminino, porque sabia que a pedra não era uma referência ao masculino, Pedro.

Essa distinção deixa nítido que a pedra em questão não é Pedro, mas algum feminino que vem antes e que pode se relacionar com o demonstrativo feminino petra, que, neste caso, vimos que se trata da confissão de fé no verso 16. Além disso, vemos que o masculino está na segunda pessoa, enquanto que o feminino está na terceira pessoa. Toda essa distinção feita pelo evangelista Mateus serve para deixar claramente óbvio que a pedra em questão não se trata de Pedro, mas de um antecedente feminino, como nos mostra a tabela abaixo:

Pedro – Petrus
Pedra – Petra
Masculino
Feminino
Segunda pessoa
Terceira pessoa
Um fragmento de pedra (pequena pedra)
Uma massa de rocha (grande rocha)

À luz de tudo isso, vemos que a petra se encontra na confissão de fé de Pedro no verso 16, que é o ponto alto da fé cristã – “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, o que levou Jesus a dizer a Pedro:

“...tu és Petrus (fragmento de pedra, vocábulo masculino, segunda pessoa), e sobre esta (ou “aquela-taute”) petra (massa de rocha, feminino, terceira pessoa) edificarei a minha Igreja..."

Portanto, parafraseando temos:

“Tu és PETRUS...” – Um fragmento de pedra, uma pedra secundária que está edificada sobre a rocha principal.

E sobre a sua confissão:

“E sobre esta PETRA” – Uma rocha firme, uma massa de rocha.

Alguns católicos tentam se opor a isso alegando que Jesus estaria diminuindo a importância de Pedro ao invés de elevá-lo, como o sentido do verso indica. Eles dizem que, por este ponto de vista, Cristo estaria desprezando Pedro, ao afirmar que ele era apenas um fragmento de pedra, mas que a rocha de fundação da Igreja não seria ele, mas uma pedra maior, confessada por ele. Isso não é verdade. Cristo não estava rebaixando Pedro ao colocá-lo como pedra secundária, ao contrário, estava ressaltando que Pedro era de fato uma pedra edificada sobre a rocha principal, que é Cristo.

Nenhum cristão – incluindo Pedro – pode tomar o lugar de Cristo como pedra principal, mas pode ter a honra de ser uma “pedra viva” edificada sobre o fundamento que é Cristo (1Pe.2:4-7). Pedro teve essa honra, recebeu de Jesus a confirmação de que ele era uma dessas pedras que estariam fundadas nEle, ou seja, estava engrandecendo a fé do apóstolo, ressaltando que ela é o ponto alto do Cristianismo e que o próprio Pedro em pessoa (Petrus) seria um fragmento (uma parte) da pedra principal, assim como todos os cristãos são um “fragmento” (uma parte) do Corpo de Cristo (1Co.12:12,27).

Isso não é de forma alguma rebaixar o papel de Pedro, mas elevá-lo da mesma forma que a todos os demais cristãos como sendo pedras vivas, partes de uma grande rocha onde está a Igreja, segmentos de um grande Corpo que é Cristo, porque “o corpo é de Cristo” (Cl.2:17) e “a pedra-petra é Cristo” (1Co.10:4).

Por isso é de consenso universal que a grande rocha que destruiu todos os outros reinos do mundo em Daniel 2:34 é Jesus Cristo, e que o homem prudente que “edificou a sua casa sobre a rocha” (Mt.7:24) para resistir à chuva e aos ventos (v.25) edificou sobre Cristo, e não sobre Pedro, porque Jesus é essa rocha indestrutível, e nós estamos nEle.

Por isso também ninguém faz parte do “Corpo de Pedro”, mas do “Corpo de Cristo” (Cl.2:17; 1Co.12:27; 1Co.12:12; Ef.5:23; Ef.3:6), porque a rocha principal onde a Igreja (Corpo) está é Jesus, e todos os demais cristãos (incluindo Pedro), estão nEle, isto é, são partes dEle, são “petrus”, fragmentos de pedra sobre a rocha principal, membros de um Corpo que é de Cristo. Isso explica perfeitamente as citações de Orígenes, que disse que todos nós somos Petrus:

“E se nós também dissermos como Pedro, ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’, não como se carne e sangue nos tivesse revelado, mas pela luz do Pai nos céus tendo resplandecido em nosso coração, nos tornamos um Pedro, e a nós nos poderia dizer o Verbo, ‘Tu és Pedro’, etc. Pois é uma pedra cada discípulo de Cristo de quem beberam aqueles que beberam da pedra espiritual que os seguia, e sobre cada pedra assim é edificada cada palavra da Igreja, e o governo de acordo com ela, pois em cada um dos perfeitos, que têm a combinação de palavras e atos e pensamentos que preenchem a bem-aventurança, é a Igreja edificada por Deus”[10]

A promessa dada a Pedro não é restrita a ele, mas aplicável a todos os discípulos como ele. Mas se supões que é somente sobre Pedro que toda a Igreja é edificada por Deus, que dirias sobre João o filho do trovão ou de cada um dos apóstolos? Atrever-nos-emos, de outro modo, a dizer que contra Pedro em particular não prevalecerão as portas do Hades, mas que prevalecerão contra os outros apóstolos e os perfeitos? Acaso o dito anterior, ‘as portas do Hades não prevalecerão contra ela’, não se sustém em relação a todos e no caso de cada um deles? E também o dito, ‘Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja?’ São as chaves do reino dos céus dada pelo Senhor só a Pedro, e a nenhum outro dos bem-aventurados as receberá?”[11]

“E também em relação aos Seus outros nomes, os aplicarás a modo de sobrenome aos santos; e a todos os tais se lhes pode dizer a declaração de Jesus: «Tu és Pedro», etc., até às palavras [não] «prevalecerão contra ela»[12]

Há uma analogia muito forte aqui. A Igreja é comparada com um Corpo (Cl.2:17; 1Co.12:27; 1Co.12:12; Ef.5:23; Ef.3:6) e com um edifício (Ef.2:20; 1Co.3:10,11). Esse Corpo é de Cristo, e esse edifício (Igreja) também (Cl.2:17; 1Co.10:32). E a Cabeça (i.e, o principal, o mais importante) do Corpo é Cristo (Ef.4:15), assim como o fundamento (base, pedra angular) do edifício que é a Igreja é Cristo (1Co.3:11). Por isso Pedro não é a Cabeça e nem o fundamento, da mesma forma que a Igreja é chamada de Igreja de Cristo e o corpo é chamado de Corpo de Cristo, e não de corpo ou Igreja de Pedro.

Como estamos falando da mesma coisa (a Igreja) nos dois casos, a analogia deve ter o mesmo significado em ambos. Se Pedro fosse o fundamento da Igreja, onde ela está edificada, então ele seria a Cabeça do Corpo, e não Cristo (Ef.4:15). Consequentemente, não faríamos parte da Igreja de Cristo nem do Corpo de Cristo, mas do de Pedro. Tudo isso nos mostra que, da mesma forma que Cristo é a única Cabeça do Corpo e todos os demais (incluindo Pedro) são membros deste corpo, Cristo é o único fundamento da Igreja (1Co.3:11) e todos nós (incluindo Pedro) somos pedras secundárias edificadas sobre a pedra viva, que é Cristo (1Pe.2:4-7).

Finalmente, uma análise no original grego nos mostra com mais precisão que Jesus não estava falando sobre Pedro até o verso 18, mas começou a falar sobre ele no verso 19, que diz:

και δωσω σοι τας κλεις της βασιλειας των ουρανων και ο εαν δησης επι της γης εσται δεδεμενον εν τοις ουρανοις και ο εαν λυσης επι της γης εσται λελυμενον εν τοις ουρανοις”

Muitas traduções vertem este texto de forma incorreta, colocando um “também” para ligar o verso 18 ao 19, ou ignorando a palavra “και”, que significa “e”, e não “também”. A palavra grega que significa “também” é “αγω”, e ela aparece no início do verso 18 para dar ligação àquilo que havia sido anteriormente dito nos versos 16 e 17. Mas no verso 19 Mateus muda a palavra e emprega “και”.

Isso significa que Jesus falava no verso 18 ainda sobre a petra (pedra de fé professa em Mateus 16:16), e somente depois do “και” ele passou a falar sobre Pedro. Todo o diálogo era entre Jesus e Pedro, mas nem tudo o que Jesus falou se referia a Pedro. Até o verso 18 se referia àquilo que Pedro disse, a partir do verso 19 passou a ser sobre aquilo que Pedro possuiria – as chaves do reino dos céus, que foram entregues a todos os discípulos (Mt.18:18). E o “και” significa que Cristo estava dizendo algo como: “quanto a ti, Pedro” ou “e tu, Pedro”, pois o “και” tira o sentido de ser tudo referência a Pedro.

Portanto, o verso 18 se aplica à Igreja construída sobre a confissão de Pedro. “Sobre esta pedra” é uma referência à confissão de fé que diz que Cristo é o Filho do Deus vivo, e sobre esta pedra a Igreja estaria edificada, e contra essa Igreja as portas do inferno não prevaleceriam – não iria prevalecer contra a Igreja, e não contra Pedro em particular. E no verso 19 Jesus aí sim passa a falar sobre aquilo que Pedro viria a ser, com as chaves do reino dos céus e o poder de ligar e desligar.


Mas e o aramaico?

Ao chegarmos neste ponto, os católicos, mesmo sem refutarem nada, jogam sobre a mesa a sua última carta na manga, e aposta as suas últimas fichas na sua última cartada: o aramaico. Querendo ignorar tudo o que foi dito sobre o grego, eles dizem:

“Mas Jesus falava em aramaico! E no aramaico não existe distinção entre Pedro (kepha) e pedra (kepha)”![13]

E é verdade, no aramaico tanto Pedro como pedra são kepha. Estaria então provado que todo o nosso aprofundado estudo exegético com base no grego de Mateus 16:18 não vale nada, e que devemos ficar apenas com aquilo que Jesus supostamente teria dito (pois não sabemos as palavras exatas que ele teria usado, apenas aquilo que ele provavelmente disse) em aramaico?

É lógico que não. Na verdade, o foco da questão não é a língua que Jesus disse, mas a razão pela qual o evangelista Mateus teria feito tamanha distinção notável que vimos anteriormente, entre petrus e petra, entre um masculino e um feminino. Pois o que Cristo disse no aramaico também é de dupla interpretação. O aramaico assemelha-se fortemente ao hebraico, cujo idioma a palavra tradicionalmente vertida por “esta” é ‘el-leh, que o léxico de Strong traduz como significando “este” (these) ou “aquele” (those):

'el-leh
ale'-leh
prolonged from 411; these or those: --an- (the) other; one sort, so, some, such, them, these (same), they, this, those, thus, which, who(-m). See HEBREW h411.[14]

Sendo assim, o grego não fica muito atrás do hebraico e aramaico neste sentido: as línguas semíticas possuíam palavra para “este” que também podia significar “aquele”, ou seja, que podia significar tanto o referencial mais próximo como o referencial mais distante. Por isso, mesmo considerando que Jesus falou em aramaico e usou kepha e kepha, o “este” não define a questão, pois da mesma forma ele poderia estar se referindo ao antecedente mais remoto (a confissão de Pedro) e não ao antecedente mais próximo (o próprio Pedro).

Mas, se é assim, por que Jesus teria usado kepha duas vezes, tanto para Pedro como para pedra? Não seria isso uma prova de que Jesus fez uso proposital de uma mesma palavra para passar uma mesma ideia?

Na verdade, não. Jesus provavelmente fez uso duas vezes da palavra kepha em Mateus 16:18, não porque ele quis dizer que Pedro é a própria pedra em questão, mas por causa da pobreza do aramaico, que não possuía outra palavra para pedra e nem alguma que diferenciasse um do outro. O aramaico era de todas as línguas semíticas a mais pobre, por isso ela não possuía palavra para diferenciar Pedro de pedra. Mesmo assim, como disse o ex-padre Aníbal Pereira dos Reis, “a identidade morfológica do aramaico entre os vocábulos Pedro e Pedra na homonímia de Kephas não impede a distinção semasiológica, isto é, a diferença de significado entre dois termos usus loquendi da língua grega”[15].

E é exatamente aí que entra o texto grego de Mateus e a sua decisiva importância.

Porque Mateus escrevia em grego, idioma mais avançado que o aramaico em muitos sentidos e que já possuía distinção entre Pedro (petrus) e pedra (petra). Em outras palavras, se o nosso argumento que diz que Jesus usou kepha para Pedro e para a pedra por causa da pobreza do aramaico está correto, deveríamos esperar que Mateus, que já escrevia em um idioma mais avançado, fizesse a devida diferenciação que era impossível de ser feita no aramaico. Mas se o argumento católico que diz que Cristo fez uso de kepha duas vezes de forma totalmente proposital para indicar que a pedra é Pedro estiver correto, então deveríamos esperar o inverso: que Mateus preservasse essa igualdade entre Pedro e pedra, usando as mesmas palavras para ambos, igualzinho faz o aramaico.

E o que Mateus decidiu?

Ele preferiu, como já observamos, verter o texto por duas palavras distintas, petrus e petra, ao invés de manter a mesma palavra e dizer que “tu és uma pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, ou então: “tu és Pedro e sobre este Pedro edificarei a minha Igreja”. Se Mateus cresse que Jesus disse kepha duas vezes com a intenção proposital de se referir exatamente à mesma coisa, e não por causa da pobreza do idioma aramaico, não teria feito distinção alguma e teria preservado no grego a igualdade de palavras usadas no hebraico, com duas vezes “Pedro” (Petrus) ou duas vezes “pedra” (petra).

Mas ele fez exatamente o contrário!

O fato de Mateus ter feito uma clara distinção entre um termo e outro mostra que, realmente, Jesus usou kepha duas vezes não porque queria dizer que uma coisa é exatamente igual a outra, mas porque no aramaico não tinha outra palavra para ser usada. Mas no grego, que já tinha palavra para ser usada e distinguir ambos, o evangelista faz questão de lançar mão de tal diferenciação, com todos os pontos que vimos anteriormente, que distinguem petrus de petra tanto em palavra, como em gênero, grau e significado.

Alguns católicos, tentando contornar esse fato e oferecer alguma explicação para a distinção de Mateus, afirmam que ele distinguiu petrus de petra porque foi forçado a isso, para não colocar em Pedro um nome feminino (petra). Essa explicação piora ainda mais a situação deles, pois mostra que o evangelista zelou por preservar a concordância de número e gênero, pois petrus é um nome masculino e petra feminino, e, portanto, não pode ter relação com aquele!

Em outras palavras, se o argumento católico que diz que Mateus teria feito essa distinção por causa da diferença de gênero entre um e outro está correto, ele serve para dar um golpe de morte na própria tese romanista, pois, da mesma forma que Mateus não iria colocar em Pedro um nome feminino por causa da concordância de gênero, ele também não iria relacionar um nome masculino a um demonstrativo feminino, pela mesma razão!

Como, então, Mateus poderia ter dito que a pedra era Pedro, sem colocar em Pedro um gênero feminino (petra)? Ele certamente não teria feito como fez, ligando gramaticalmente um vocábulo masculino a um demonstrativo feminino (taute petra), o que é um assassinato da gramática, que seria ainda pior que colocar em Pedro um nome feminino. Se ele quisesse resolver a questão e passar a ideia de que a pedra é Pedro, ele não teria assassinado a gramática relacionando um masculino a um feminino, teria simplesmente escrito:

“Tu és Pedro, e sobre ti edificarei a minha Igreja...”

Esse “sobre ti” é a tradução do grego “epi se”, que é usado muitas vezes no Novo Testamento. Quando Jesus entrou em Jerusalém e proferiu sua palavra de condenação à cidade, ele disse:

“Porque dias virão sobre ti [epi se], em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lado” (Lucas 19:43)

No original grego:

“oti êxousin êmerai epi se kai a=parembalousin tsb=peribalousin oi echthroi sou charaka soi kai perikuklôsousin se kai sunexousin se pantothen”

Este “epi se” é o equivalente ao português “sobre ti”. Seguindo essa mesma lógica, Mateus poderia perfeitamente ter evitado chamar Pedro com um nome feminino ou assassinar a gramática relacionando um demonstrativo feminino a um vocábulo masculino escrevendo que “su ei petrus kai epi se oikodomêsô mou tên ekklêsian”(tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja).[16]

Mas ele não fez.

Ao invés disso, preferiu traduzir por “tu és Pedro [masculino] e sobre esta [feminino] pedra [feminino] edificarei a minha Igreja”, o que obviamente deve se relacionar não ao próprio masculino Pedro, mas sim a algum antecedente feminino no texto, que no caso é a própria confissão de fé de Pedro, no verso 16.

Portanto, vemos que a pergunta que é o cerne da questão não é se o aramaico diz isso ou aquilo, mas sim por que razão Mateus teria transliterado para o grego com essa distinção. A verdade é que Mateus entendeu que kepha foi usada duas vezes por causa da pobreza do aramaico, e por isso verteu para o grego (um idioma mais avançado, que já tinha distinção entre tais palavras) com duas palavras distintas, de gêneros distintos e de significados distintos, o que só pode ser explicado satisfatoriamente pelo fato de que ele, realmente, entendeu que a “pedra” em questão não era o próprio Pedro (epi se), mas um antecedente feminino mais remoto (taute petra).

Contra isso, só sobraria aos católicos afirmar que Mateus não escreveu em grego, mas no hebraico ou aramaico (como já vi alguns dizerem). Em resposta a isso, o ex-padre Aníbal Pereira dos Reis expôs oito importantes observações que refutam a tese de que o evangelho de Mateus tenha sido originalmente escrito em outro idioma que não seja o grego:[17]

A Comissão Bíblica não define se foi escrito em hebraico ou em aramaico. Reconhece, aliás, que não o faz a Tradição (a outra Fonte de Revelação, além da Bíblia, como ensina a teologia romana). A Tradição não determina se Mateus escreveu em hebraico ou se em aramaico, a língua popular nos tempos de Cristo.

Os fragmentos existentes desse suposto original aramaico de Mateus, cognominado “Evangelho segundo os Hebreus”, divergem extraordinariamente do texto grego de Mateus.

Naquela época não havia necessidade de Mateus escrever em aramaico, pois o idioma grego, por ser conhecidíssimo também dos judeus, se prestava perfeitamente para Mateus escrever o Evangelho, embora endereçado aos judeus. Por que haveria de ser Mateus a exceção? Aliás, em virtude do conhecimento geral do grego, também entre os judeus, os outros documentos neotestamentários a eles destinados foram escritos em grego, como a Epístola de Tiago às Doze Tribos de Israel, as duas Epístolas de Pedro (conforme admitem também os exegetas católicos) e a Epístola aos Hebreus. Por que Mateus teria que ser a exceção?

Torna-se impossível uma versão em aramaico diante da identidade de textos comuns aos três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas).

Entre essas muitas coincidências ocorrem divergências inexplicáveis se o tradutor do suposto texto aramaico para o grego conhecia os dois outros sinóticos. E se a estes ignorava, como se explicam as expressões frequentemente idênticas entre os três?

Quando os autores dos Evangelhos citam o VT valem-se do texto hebraico. Mas Jesus Cristo, em suas mensagens, quase sempre cita a Septuaginta, a versão grega do VT. Isto, note-se, também ocorre no Evangelho segundo Mateus, o que nos leva a rejeitar o original aramaico de Mateus e, consequentemente, a admitir o original grego. Se essas citações são extraídas da Septuaginta, logicamente, em grego escreveu Mateus o seu original.

Mais ainda: se o atual texto grego fosse realmente a tradução do aramaico, por que haveria o tradutor de se valer do texto grego da Septuaginta para as citações feitas por Jesus? Valer-se-ia do texto hebraico, evidentemente.

O texto mateano, aceito como canônico, inclusive pelas exegese e teologia romanas, é o grego. Insustentável, portanto, essa assertiva do original aramaico, a cuja existência se erguem intransponíveis óbices.

Portanto, não há escapatórias para os apologistas católicos. Por mais elaborada que sejam as suas tentativas de refutação ao texto bíblico, elas falham miseravelmente quando postas de frente a uma exegese aprofundada do verso em questão, dentro de seu devido contexto, respeitando as normas da hermenêutica bíblica, analisando o todo das Escrituras e a gramática grega. E restam-se apenas lamentações da parte daqueles que tem em Mateus 16:18 o seu último suspiro e esperança em sustentar o insustentável.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

-Extraído de meu livro: "A História não contada de Pedro".


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[1] Taylor W. C. Op cit, pág. 293.
[2]NAS New Testament Lexicon grego, disponível online em: <http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/nas/taute.html>.
[3] An Intermediate Greek-English Lexicon-American Book Company, seventh edition.
[4]Esse significado pode ser conferido no léxico online de Strong neste link: <http://www.bibliaonline.net/bol/sg.cgi?acao=4074&lang=pt-BR>.
[5]Este significado por ser conferido no léxico online de Strong neste link: <http://www.bibliaonline.net/bol/sg.cgi?acao=4073&lang=pt-BR>.
[6] Buenos Aires, Editorial Albatros, 1943.
[7] De acordo com a Concordância de Strong, 5126.
[8] De acordo com a Concordância de Strong, 5124.
[9] De acordo com a Concordância de Strong, 5026.
[10] Comentário sobre Mateus, 10 (ANF 10:456).
[11] Comentário sobre Mateus XII, 11 (ANF 10:456).
[12]ibid.
[13]Em termos gerais, eles repetem este argumento mil vezes, para passar a impressão de que é um bom argumento.
[14]Este significado pode ser conferido no léxico online de Strong neste link: <http://www.bibliaonline.net/bol/sh.cgi?acao=428&lang=pt-BR>
[15]Aníbal Pereira dos Reis, “Pedro nunca foi Papa”, Edições Cristãs, 2ª edição, 2003, São Paulo, págs. 81 a 88.
[16]Antes que algum católico diga que se Mateus colocasse o “sobre ti” (epi se) ele estaria traduzindo mal o que Cristo disse, ou corrompendo o que foi dito originalmente, leia o texto de Mateus 10:28 e compare com o mesmo texto que Lucas verte em Lucas 12:4,5. Alguém também poderia alegar que, da mesma forma que Mateus poderia ter dito “sobre ti”, também poderia ter dito “sobre essa confissão”. Mas isso simplesmente não era necessário, já que a distinção de gêneros entre petrus e petra já deixa claro que a pedra em questão se trata de um antecedente feminino mais remoto, e não do masculino petrus. Ou seja: Mateus 16:18 da forma que já está no grego já é suficiente para provar que a pedra é a confissão de Pedro, e não o próprio Pedro.
[17]Aníbal Pereira dos Reis, “Pedro nunca foi Papa”, Edições Cristãs, 2ª edição, 2003, São Paulo, págs. 81 a 88.