30 de maio de 2015

Refutando a Infalibilidade Papal


REFUTANDO A INFALIBILIDADE PAPAL
(Keith Thompson)


Implicações da Definição do Vaticano I sobre a Infalibilidade Papal

O Concílio Vaticano I definiu o dogma da infalibilidade papal em 1870. Este ensinamento diz que o papa é infalível quando ele decreta um ensinamento sobre fé ou moral que deve ser crido pela Igreja universal ou quando ele ratifica um concílio ecumênico.

Em sua “Enciclopédia do Catolicismo”, Frank K. Flinn e J. Gordon Melton notam que muitos católicos romanos na época do Concílio Vaticano I acreditavam que a infalibilidade papal era uma falsa inovação contrária à tradição da Igreja e protestaram contra a decisão do concílio que decretou a doutrina, e até mesmo se separaram da comunhão com Roma por causa disso:

“Em protesto, 55 membros do concílio deixaram Roma um dia antes da votação final. Em meio ao desacordo generalizado e protesto contra o concílio, aqueles que agora são conhecidos como veterocatólicos foram separados da comunhão com Roma”[1]

Além disso, Johann Joseph Ignaz Von Döllinger foi um dos mais renomados historiadores católicos romanos durante o tempo do Concílio Vaticano I, no século XIX. Ele ensinou história da Igreja por 47 anos. Assim, seus comentários sobre a decisão do Vaticano I são dignos de nota. Pouco antes do decreto da infalibilidade papal, ele escreveu o seguinte em sua obra “O Papa e o Concílio”, mostrando todo o seu desgosto por uma doutrina tão infundada:

“O fato de que um grande concílio, recebido universalmente e sem qualquer hesitação em toda a Igreja, e presidida por núncios papais, ter pronunciado dogmaticamente que um papa era herege, e o anatemizado pelo próprio nome de ‘herege’, é uma prova tão clara quanto o sol do meio-dia que a noção de qualquer iluminação peculiar ou infalibilidade dos papas era então totalmente desconhecida para toda a Igreja. O único recurso dos defensores da infalibilidade papal, tais como Torquemada e Belarmino, tem sido a de atacar as atas do concílio como espúrias, e afirmar que elas são uma falsificação fabricada pelos gregos”[2]

Döllinger foi compelido a escrever isto para tentar persuadir o Vaticano I a não decretar a infalibilidade papal, à luz dos fatos históricos. O incidente que citamos no livro de Döllinger, que refuta a noção de infalibilidade papal, diz respeito ao papa Honório, do sétimo século. Com este papa você tem um dos exemplos mais claros de erro papal em toda a história.


Papa Honório

A informação básica relativa à falibilidade do papa Honório é que ele se envolveu em uma heresia no início da Igreja, heresia esta conhecida como “monotelismo”, que ensinava que Jesus Cristo tinha apenas uma vontade. Isso confrontava a crença ortodoxa, que diz que ele tem duas vontades que surgem a partir de suas duas naturezas. A heresia monotelista foi, assim, uma extensão natural da heresia monofisita, que disse que Jesus só tinha uma natureza, em oposição a duas.

O Concílio de Calcedônia, também conhecido como o IV Concílio Ecumênico, realizado em 451 d.C, repudiou a heresia monofisita em seu credo e afirmou que Jesus tinha duas naturezas, dizendo: “Nós, então, seguindo os santos Padres, todos com um só consentimento, ensinamos os homens a confessar as duas naturezas”. Então, mais tarde, o sexto concílio ecumênico, também conhecido como o terceiro concílio de Constantinopla, afirmou que Jesus tinha duas vontades decorrentes dessas duas naturezas, e condenou a heresia monotelista, que afirmava que Jesus tinha apenas uma vontade.

Sérgio I, patriarca de Constantinopla a partir de 610-638 d.C, era uma herege monotelista, que acreditava que Jesus tinha de fato duas naturezas, mas apenas uma vontade. Em 634 d.C, ele escreveu ao papa Honório, que reinou como papa de 625-638 d.C, sobre este assunto teológico. O papa Honório respondeu a Sérgio I e também escreveu para os outros que promoveram a heresia monotelista em sua condição oficial de papa. E Honório declarou:

“Nós confessamos uma vontade de nosso Senhor Jesus Cristo”[3]

Preste atenção nas palavras “nós confessamos”. Essa é a forma no plural muito usada hoje para falar da Igreja como um todo.

Honório foi então condenado como herege pelo sexto concílio ecumênico de 680-681 d.C, por causa deste ensinamento por ele promulgado a toda a Igreja como bispo de Roma. Na décima sexta sessão do concílio, ele proclamou: “Anatemizamos o herege Sérgio, o herege Ciro e o herege Honório”. E no decreto da 18ª sessão de fé era dito: “O autor de todo o mal... encontrei um instrumento próprio para a sua vontade em... Honório, o antigo papa de Roma”. O concílio também disse que Satanás havia “ativamente os empregado para levantar sobre toda a Igreja os tropeços de uma vontade e uma operação nas duas naturezas de Cristo, nosso Deus verdadeiro, da Santíssima Trindade; divulgando, assim, em termos novos entre as pessoas ortodoxas, uma heresia”.

Os romanistas acreditam que o sexto concílio ecumênico que condenou Honório era infalível, uma vez que foi ratificado pelo papa Leão II (611-683 d.C). A fim de demonstrar que Honório era falível, já que ele estava ensinando em ex cathedra, temos de olhar para a definição do que ex cathedra é para Roma. O Concílio Vaticano I a definiu da seguinte maneira:

“Nós ensinamos e definimos que é um dogma divinamente revelado: que o Pontífice Romano, quando fala em ex cathedra, isto é, quando na condição de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina sobre fé ou moral a ser crida pela Igreja Católica, pela assistência divina prometida a ele em Pedro, é possuidor da infalibilidade com a qual o divino Redentor quis que a Sua Igreja fosse dotada para definir doutrinas sobre fé ou moral; e que, portanto, tais definições do Pontífice Romano são de si mesmas, e não do consentimento da Igreja, irrevogáveis”[4]

Com base na condenação do papa Honório no sexto concílio ecumênico, William Webster observa que Honório cumpriu os critérios básicos de ex cathedra. Isso prova que o erro do papa foi em ex cathedra, e, portanto, ele não era infalível:

a) O concílio o condenou especificamente como herege e o anatemizou (amaldiçoou) em sua condição oficial como papa, e não como um teólogo privado.

b) Ele foi condenado por seguir e depois por confirmar a heresia do monotelismo.

c) Ele foi condenado por divulgar e propagar doutrinas heréticas em sua condição oficial de papa, o que afetou toda a Igreja ativamente[5].

Os católicos romanos creem que o sexto concílio ecumênico, que condenou Honório, era infalível. No entanto, alguns apologistas católicos tentam suavizar a posição do papa Leão II quanto a ratificação ou aprovação deste concílio. Eles alegam que o papa Leão II só condenou o papa Honório por negligência, ou por não conseguir acabar com a heresia, mas não como sendo realmente um herege que ensinou heresia para a Igreja.

Em seu livro Pope Fiction, o apologista romano Patrick Madrid tenta argumentar que, embora o papa Leão II tenha confirmado ou ratificado o sexto concílio ecumênico, ele o redefiniu em um sentido e não condenou Honório como um herege monotelista (como fez o concílio), mas apenas sustentou que Honório, no que diz respeito ao monotelismo, “falhou em seu dever para condená-lo”[6]. Madrid cita Warren Carroll na história da cristandade como a prova para o seu argumento de que no suposto texto original grego da respectiva carta de Leão II ao imperador, ele diz que Honório apenas permitiu ou autorizou que a fé fosse subvertida, em oposição à versão latina da carta, que diz que Honório realmente tentou subverter a fé[7].
    
A versão grega da carta de Leão II diz permisit subverti (ou seja, “permissão para subverter”). A versão latina diz subvertare conatus est (i.e, “tentou subverter”). Assim, pode-se ver o conflito que isso cria. Contudo, em sua monumental obra Oxford Dictionary of Papas, o erudito patrístico e historiador J. N. D. Kelly observa a verdade da questão dizendo que “no texto original em latim falaram dele como ‘tentou subverter a fé pura por sua traição profana’, e na versão grega isto foi atenuado para ‘por sua traição, ele permitiu que o ensino puro fosse maculado”[8].

A posição do papa Leão II não era apenas de que Honório era culpado de negligência ao permitir que a fé fosse subvertida, mas que houve uma tentativa real de Honório a fim de subverter a fé com a falsa heresia monotelista. O papa Leão II anatemizou Honório nesta carta ao imperador, em sua carta aos bispos espanhóis e em sua carta ao rei espanhol. Em nenhum deles o papa Leão II faz qualquer colocação de que o sexto concílio ecumênico errou e que Honório não era um herege. Leão II nunca disse nada do tipo. Tanto este concílio quanto o papa Leão II afirmaram que Honório era um herege e anátema. E Honório ensinou heresia para a Igreja na qualidade de bispo de Roma, de acordo com este concílio que os católicos consideram ser infalível. Isso refuta a doutrina antibíblica da infalibilidade papal, usando os próprios padrões de Roma.


A Falibilidade do Concílio Vaticano II sobre o Islã

Outro exemplo de falibilidade papal tem a ver com ensinamentos heréticos do Vaticano II. O Concílio Vaticano II foi inaugurado pelo papa João XXIII em 11 de outubro de 1962. Foi celebrado pelo papa Paulo VI, em 8 de dezembro de 1965. Nos documentos do Vaticano II estavam contidos decretos formais[9] sobre fé e moral que não apenas contradizem claramente a Bíblia, mas também os próprios dogmas católicos.

Estes decretos do Vaticano II foram “infalivelmente” ratificados ou confirmados pelo papa Paulo VI, que assinou ao final de cada um deles. Os decretos sobre fé ou moral do Vaticano II são, portanto, infalíveis para os católicos, uma vez que foram ratificados pelo papa. A Enciclopédia Católica afirma em seu artigo sobre os concílios gerais, tais como o Concílio Vaticano II, que:

“A ratificação papal promulga formalmente a sentença do concílio como um artigo de fé que deve ser conhecido e aceito por todos os fieis... Os decretos do concílio aprovados pelo papa são infalíveis por causa daquela aprovação, porque o papa é infalível também em extra concilium, sem o apoio de um concílio[10]

Da mesma forma, o estudioso católico Ludwig Ott afirma:

“As resoluções dos concílios gerais são infalíveis... A fim de que um concílio seja geral, é necessário: a) que todos os bispos dominantes no mundo sejam convidados; b) que os bispos dos vários países possam ser considerados representantes de todo o episcopado; c) que o papa convoque o concílio, ou, pelo menos, invista em conjunto sua autoridade e presida pessoalmente ou pelo seu representante na reunião, e ratifique as deliberações. A partir das ratificações papais, que podem ser explícitas ou implícitas, as resoluções derivam o poder vinculativo legal geral”[11]

Além disso, o papa Paulo VI solenemente aprovou todos os documentos do Concílio Vaticano II com as seguintes palavras que provam que os decretos do Vaticano II são vinculativas e infalíveis para os católicos:

“Cada uma das coisas estabelecidas neste Decreto ganhou o consentimento dos pais. Nós, também, pela autoridade apostólica a nós conferida por Cristo, junto com a aprovação dos veneráveis padres, decretando e estabelecendo essas coisas pelo Espírito Santo, determinamos que o que tem sido promulgado no sínodo [concílio] deve ser publicado para a glória de Deus... Eu, Paulo, Bispo da Igreja Católica”[12]

Um dia antes do final do Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI também disse o seguinte: “Nós decidimos, além disso, que tudo o que foi estabelecido neste sínodo é para ser religiosamente observado por todos os fieis”[13]. Muitos proeminentes escritores católicos romanos têm afirmado que o Vaticano II é um concílio infalível de acordo com a doutrina católica. Em seu livro “O que os Católicos Realmente Acreditam”, Karl Keating identifica o Vaticano II como o vigésimo primeiro concílio ecumênico, infalível no que diz respeito aos seus decretos que envolvem fé ou moral:

“Houve vinte e um concílios ecumênicos, e a maioria deles emitiu decretos doutrinais ou morais. Esses decretos são infalíveis”[14]

Tendo dito isso, se houver heresia sobre fé e moral nos decretos do Vaticano II – supostamente infalível – é a prova de que o papa Paulo VI era falível e errava em ratificar e confirmar heresias. Isso mais uma vez prova que a doutrina da infalibilidade papal é refutada pela história. Um grande exemplo de heresia no Concílio Vaticano II é que ele disse que os muçulmanos adoram o mesmo Deus dos cristãos. No documento do Vaticano II Nostra Aetate, nós lemos:

“A Igreja também olha os muçulmanos com estima. Eles adoram ao único Deus, vivo e permanente, misericordioso e todo-poderoso, o Criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, com quem a fé islâmica de bom grado vincula-se”[15]

Note que o Vaticano II diz que os muçulmanos, como Abraão, se esforçam para se submeter aos decretos de Deus. Uma vez que Abraão se esforçou para se apresentar ao verdadeiro Deus, o Vaticano II está dizendo que os muçulmanos fazem o mesmo também. Em Lumen Gentium, o Vaticano II diz também que “os muçulmanos, professando manter a fé de Abraão, conosco adoram o Deus único e misericordioso, que no último dia julgará a humanidade[16].

Em apoio ao fato de que esses decretos do Vaticano II supostamente infalíveis ensinam a heresia de que os muçulmanos e os cristãos têm o mesmo Deus, os ensinamentos dos papas seguintes ao Vaticano II são importantes a se considerar. Primeiro, a citação do Vaticano II Lumen Gentium sobre muçulmanos e cristãos supostamente adorarem o único Deus verdadeiro é diretamente citada como uma doutrina católica no mais recente catecismo da Igreja Católica (ano 1994, parágrafo 841), promulgado e aprovado pelo papa João Paulo II. No que diz respeito a este e aos outros ensinamentos contidos nesse Catecismo, João Paulo II declarou o seguinte em sua Constituição Apostólica Fidei Depositum:

“O Catecismo da Igreja Católica, que aprovei em 25 de junho passado e cuja publicação hoje ordeno em virtude da minha autoridade apostólica, é uma declaração de fé da Igreja e da doutrina católica, testemunhadas ou iluminadas pela Sagrada Escritura, pela Sagrada Tradição e pelo Magistério da Igreja. Declaro que seja uma norma segura para o ensino da fé[17]

Este afirma, ainda, que a posição oficial da Igreja Romana moderna é que os muçulmanos e cristãos adoram ambos ao único Deus verdadeiro. Comentando ainda sobre a posição romana acerca deste assunto, o papa Paulo VI declarou o seguinte em 1972:

“Nós também gostaríamos que você soubesse que a Igreja reconhece as riquezas da fé islâmica – uma fé que nos liga ao único Deus”[18]

O papa João Paulo II, da mesma forma, declarou:

“Nós acreditamos no mesmo Deus, o Deus vivo, o Deus que criou o mundo e traz suas criaturas à sua perfeição”[19]

O papa Bento XVI igualmente declarou:

“Os muçulmanos adoram a Deus, o Criador do céu e da terra, que falou à humanidade”[20]

O problema com o catolicismo ensinar que os muçulmanos adoram o mesmo Deus dos cristãos é que a religião islâmica ensina que Jesus Cristo não é Deus. O Alcorão ensina que “são blasfemos aqueles que dizem que Deus é Cristo, o Filho de Maria” (Surata 5:17). Ele também nega a Trindade quando afirma: “Não digas: ‘Três’” (Surata 4:171). Portanto, é impossível e herético dizer que os muçulmanos se apresentam ao Deus vivo e verdadeiro, já que eles negam que Deus é um Deus uno e trino, o que inclui Cristo na Divindade.

Além disso, na Surata 19:35 do Alcorão há a negação ao fato de que Jesus é o Filho de Deus. Assim, 1ª João 2:23 da Bíblia prova que os muçulmanos não têm o verdadeiro Deus, uma vez que diz: “Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Quem confessa o Filho tem também o Pai” (1ª João 2:23). Quando 1ª João 2:23 diz que “aquele que nega o Filho não tem o Pai”, a palavra grega para “tem” é echei, que aqui significa “ter” Deus, “possuir” Deus ou ter comunhão com Deus no sentido de um relacionamento[21]. Desta forma, é claro que o catolicismo está errado ao reivindicar que os muçulmanos se submetem e adoram ao Deus verdadeiro, já que ao negar a filiação de Jesus provam que eles não têm Deus, o Pai, em coisa alguma.

A Escritura ensina que os deuses das nações pagãs (por exemplo, o árabe islâmico “Alá”) são meros ídolos, e não o verdadeiro Deus (Salmos 96:5). A Bíblia declara, ainda, que esses falsos deuses das falsas religiões e de nações pagãs são, na verdade, demônios, como vemos em 1ª Coríntios 10:20 – “Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios” (1ª Coríntios 10:20). Portanto, o deus muçulmano que se originou em uma nação diferente de Israel é um demônio e não o Deus verdadeiro.

Ademais, o demônio islâmico Alá ordenou aos muçulmanos matar e subjugar os cristãos e os judeus no Alcorão. O Deus de Abraão e os cristãos, no entanto, disse aos crentes para não matar nem subjugar outros cristãos ou judeus, mas para amar a todos e evangelizar os incrédulos com o evangelho de Cristo. A Surata 9:29 do Alcorão afirma:

Façam guerra contra aqueles tais a quem as Escrituras foram dadas [judeus e cristãos] por não acreditarem em Alá. No último dia – e não permita o que Deus e Seu Mensageiro proibiram – aqueles quem não professam a profissão verdadeira, até que paguem o preço, serão humilhados”

No entanto, na Bíblia, o Jesus cristão diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44), e também: “tratai as pessoas da mesma maneira que vocês querem ser tratados” (Mateus 7:12). E Tiago diz aos cristãos para “amar o próximo como a si mesmo” (Tiago 2:8). Claramente não estamos lidando com o mesmo Deus!

Ao ratificar o Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI afirmou que era infalível que os muçulmanos adoram o Deus verdadeiro. Contudo, este é um erro, uma vez que temos mostrado que os muçulmanos não adoram o Deus verdadeiro, mas um demônio. Assim sendo, o papa Paulo VI era falível, e, portanto, a infalibilidade papal é refutada.

Outro erro do Concílio Vaticano II é seu ensinamento de que os muçulmanos podem ser salvos se eles permanecerem no Islã, se apenas fizerem boas obras e forem ignorantes do evangelho e da Igreja. Em Lumen Gentium, lemos: “Aqueles também podem alcançar a salvação eterna, pois não por culpa deles mesmos não conhecem o evangelho de Cristo e da Sua Igreja, mas procuram sinceramente a Deus e, movidos pela graça, se esforçam em seus atos para fazer a Sua vontade como é conhecida a eles através dos ditames de sua consciência”[22].

Não apenas este ensinamento é contrário à Escritura, que ensina que a fé em Cristo e no evangelho são essenciais para a salvação (João 3:18; 14:6; Atos 4:12; 16:31; Romanos 3:25; 10:9), mas o mesmo contradiz o dogma católico previamente definido. Por exemplo, o papa Eugênio IV deu a seguinte declaração em ex cathedra no Concílio de Florença, em 1439:

“Quem quiser ser salvo, antes de tudo, é necessário que mantenha a fé católica... Da mesma forma o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. No entanto, eles não são três deuses, mas um Deus”[23]

Semelhantemente, em 1302, o papa Bonifácio VIII declarou o seguinte na bula Unam Sanctam:

“Nós declaramos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário para a salvação de toda criatura humana que esteja sujeita ao Pontífice Romano”[24]

De um lado, temos o papa Paulo VI, que ratificou o Vaticano II dizendo que os muçulmanos podem ser salvos sem que estejam na Igreja Católica e sem seguir seu ensino. Do outro lado, os papas Eugênio IV e Bonifácio VIII disseram que é necessário ser católico e afirmar os ensinamentos da Igreja para ser salvo. Esta é claramente a falibilidade papal, a forma de mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é a verdadeira Igreja de Cristo.

Autor: Keith Thompson (Reformed Apologetics)
Tradução: Lucas Banzoli (Apologia Cristã)


-Meus livros:

- Veja uma lista completa de livros meus clicando aqui.

- Acesse o meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros sites:
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a Imortalidade da Alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Estudando Escatologia (Estudos sobre o Apocalipse)



[1] Frank K. Flinn, J. Gordon Melton, Encyclopedia of Catholicism, [Infobase Publishing, 2007], p. 621.
[2] Johann Joseph Ignaz von Döllinger, The Pope and the Council, Second Edition, [Rivingtons, 1869], p. 74.
[3] Quoted in Charles Joseph Hefele, A History of the Councils of the Church, vol. 5 [Edinburgh: T. & T. Clark, 1896; AMS Reprint, 1972], p. 29.
[4] Vatican I, First Dogmatic Constitution on the Church of Christ, Concerning the Infallible Teaching of the Roman Pontiff, ed. Vincent McNabb, O.P. [Burns and Oates, 1907],  p. 47.
[5] William Webster, Holy Scripture The Ground and Pillar of our Faith, Volume II, [Christian Resources, 2001], p. 257.
[6] Patrick Madrid, Pope Fiction, [Basilica Press, 1999], p. 160.
[7] Warren Carroll, The History of Christendom, [Christendom College Press, 1987], p. 254.
[8] J. N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, Second Edition, [Oxford University Press, 2010], p. 77.
[9] e.g. Lumen Gentium, Dei Verbum, Nostra Aetate, etc.
[10] Charles George Herbermann, Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church, Vol. IV, [The Catholic Encyclopedia Inc., 1913], pp. 431, 433.
[11] Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma, [Tan Books and Publishers, Inc, 1960], p. 300.
[12] Paul VI, Rome, at St. Peter’s, December 7, 1965, Walter M. Abbott, ed., "Papal Brief Declaring the Council Completed”, trans. Joseph Gallagher, in The Documents of Vatican II: With Notes and Comments by Catholic, Protestant, and Orthodox Authorities, [Piscataway, NJ: Association Press, 1967], p. 696.
[13] Walter M. Abbott, ed., "Papal Brief Declaring the Council Completed”, trans. Joseph Gallagher, in The Documents of Vatican II: With Notes and Comments by Catholic, Protestant, and Orthodox Authorities, [Association Press, 1967], p. 738.
[14] Karl Keating, What Catholics Really Believe-Setting the Record Straight: 52 Answers to Common Misconceptions About the Catholic Faith, [Ignatius Press, 1995], p. 15.
[15] Walter M. Abbott, The Documents of Vatican II: With Notes and Comments by Catholic, Protestant, and Orthodox Authorities, Declaration on the Relationship of the Church to Non-Christian Religions, Nostra Aetate 3, trans. Joseph Gallagher, [Association Press, 1967], p. 663.
[16] Walter M. Abbott, Lumen Gentium 16, The Documents of Vatican II: With Notes and Comments by Catholic, Protestant, and Orthodox Authorities, Dogmatic Constitution on the Church, trans. Joseph Gallagher, [Association Press, 1967], p. 35.
[17] John Paul II, Apostolic Constitution Fidei Depositum 3, Catechism of the Catholic Church, Second Edition, [DoubleDay, 1994], p. 5.
[18] Pope Paul VI, Speech, Sept. 9, 1972, L’Osservatore Romano, Sept. 21, 1972, p. 2.
[19] Pope John Paul II, Addressing Young Muslims in Morocco, August 19, 1985, www.vatican.va
[20] Pope Benedict XVI Amman, Jordan, May 9, 2009, time.com/time/world/article/0,8599,1897119,00.html 
[21] Theological Dictionary of the New Testament, ed. Gerhard Kittel, trans. Geoffrey W. Bromily, Vol. 2, [Wm. B. Eerdmans, 1964-1976], pp. 822-82.
[22] Walter M. Abbott, Lumen Gentium 16, The Documents of Vatican II: With Notes and Comments by Catholic, Protestant, and Orthodox Authorities, trans. Joseph Gallagher, [Association Press, 1967], p. 663.
[23] Pope Eugene IV, Council of Florence, Session 8, November 22, 1439.
[24] Pope Boniface VIII, Unam Sanctam, November 18, 1302.

28 de maio de 2015

A Igreja primitiva não cria na imaculada conceição de Maria


Este blog já possui um artigo sobre "Os Pais da Igreja contra a imaculada conceição de Maria", mas decidi traduzir um artigo mais completo escrito pelo apologista reformado Keith Thompson (originalmente em inglês), do excelente site "Reformed Apologetics", que simplesmente destrói sem piedade todos os argumentos papistas em torno da imaculada conceição nos Pais da Igreja. Boa leitura.



Definindo a Imaculada Conceição de Maria

A doutrina da imaculada conceição de Maria afirma que desde a primeira instância da concepção de Maria ela foi preservada do pecado original, e deste modo não o contraiu. Portanto, sua concepção foi limpa ou pura. Este ensinamento foi oficialmente proclamado como dogma e definido pelo catolicismo romano em 1870, quando o papa Pio IX declarou o seguinte na bula Ineffabilis Deus:

“Nós declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que afirma que a Santíssima Virgem Maria, em primeira instância, desde a sua concepção, por singular graça e privilégio concedido pelo Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi preservada imune de toda a mancha de pecado original, é uma doutrina revelada por Deus e, portanto, deve ser acreditada firmemente e constantemente por todos os fieis”

Mais explicações sobre esta doutrina podem ser encontradas no Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo papa João Paulo II. Ele afirma:

“Para se tornar a mãe do Salvador, Maria foi enriquecida por Deus com presentes apropriados para este papel. O anjo Gabriel, no momento da anunciação, a saúda como ‘cheia de graça’ (...) Através dos séculos, a Igreja tornou-se cada vez mais consciente de que Maria, ‘cheia de graça’ através de Deus, foi redimida desde o momento da sua concepção (...) O ‘esplendor de uma santidade inteiramente original’ pelo qual Maria é ‘enriquecida desde o primeiro instante de sua concepção’ vem inteiramente de Cristo: ela é redimida, de uma forma mais exaltada, em razão dos méritos de seu Filho”[1]

Assim, na teologia romana, Maria não contraiu uma natureza pecaminosa como todos os outros seres humanos obtêm na concepção. Ela era, portanto, sem pecado, devido à sua alegada preservação do pecado original. A posição sensata a se tomar sobre este assunto é que ninguém no período da igreja primitiva acreditou na imaculada conceição de Maria.


Os Pais Apostólicos

Os pais apostólicos eram discípulos dos apóstolos. Tais homens incluem Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Clemente de Roma e Papias. Um manual de instruções cristãs conhecido como a Didaquê também é relevante, uma vez que foi composta por alunos dos apóstolos. Não só estes escritos extra-bíblicos não têm nada em apoio a alegada imaculada conceição de Maria ou qualquer outra doutrina mariana romanista, mas seus escritos nem sequer mencionam Maria em quase nada. Assim como o livro de Atos, eles não estão realmente preocupados com Maria. Nesses escritos há apenas sete referências a ela. Eles são encontrados nos fragmentos de Papias e em Inácio. Policarpo, Clemente e a Didaquê não têm nada a dizer sobre ela. E a maioria das sete referências a ela em Inácio e Papias é ou breves observações passageiras, ou então em um contexto que está centrado em Cristo.

O estudioso patrístico católico-romano Luigi Gambero concorda quando observa que “o nome de Maria raramente aparece nos escritos dos Pais apostólicos”[2]. No entanto, ele prossegue argumentando que a razão por que isso é assim é porque quase todas as religiões que os rodeavam tinham uma deusa feminina, e estes primeiros cristãos não queriam arriscar confundir aqueles a quem testemunhavam de que isso tivesse um fundo pagão. Pois ao exaltar Maria, poderiam ter provocado os pagãos para exaltá-la como uma deusa. Essa visão deixa espaço para a possibilidade de que os pais apostólicos pudessem ter ensinado a doutrina romanista mariana, embora, na visão de Gambero, eles não o fizeram abertamente.

Que evidências Gambero têm em apoio à ideia de que os pais apostólicos conscientemente evitaram mencionar Maria pela razão que ele propõe? Nada. Além disso, o argumento não se sustenta, uma vez que os pais apostólicos não apenas deixavam de mencionar doutrinas marianas romanas quando escreviam para igrejas compostas por muitos convertidos do paganismo, mas também não a mencionavam nem a exaltavam da maneira romana mesmo quando escreviam cartas a crentes firmes (por exemplo, a carta de Inácio a Policarpo).

Ademais, os discípulos dos apóstolos pregavam práticas cristãs e crenças que poderiam ser mal interpretadas pelos pagãos convertidos em função de suas ideias semelhantes errôneas. Contudo, este fato não impediu que os pais apostólicos ensinassem abertamente sobre tais assuntos. Pode-se observar que os pagãos abraçavam os seguintes ensinamentos: sacrifício propício para deuses pagãos[3], que poderia ser visto como semelhante à expiação; purificação com água nos cultos de mistério[4], que poderia ser visto como semelhante ao rito do batismo cristão; refeição pagã para celebrar o nascimento de alguém ou onde o deus ou deusa preside[5], que poderia ser visto como semelhante à eucaristia cristã, e assim por diante.

Gambero também tem outro argumento. Ele afirma que Inácio se silenciou em relação a Maria para que este misterioso silêncio fosse uma forma de exaltação ou honra em seus escritos. Portanto, de acordo com este raciocínio, os pais apostólicos podem ter realizado uma “presença materna na fé e na vida dos primeiros cristãos” através de Maria por ficarem em silêncio sobre ela em um sentido misterioso, que seria mais sublime do que algo que eles poderiam realmente escrever sobre ela.

Entretanto, há três problemas com este argumento:

1) As poucas citações fornecidas realmente não demonstram que Inácio acreditava que um misterioso silêncio fosse uma forma de exaltação ou honra no que diz respeito a santos ou a Deus. O mais próximo seria seu comentário de que um homem realiza mais pelo silêncio do que falando em vão[6]. No entanto, Inácio se refere a um bispo tranquilo e manso, e não a um método de exaltação em relação aos santos ou a Deus. Logo, Gambero está envolvido em eisegese.

2) Os poucos trechos de Inácio citados por Gambero o colocam diante de grande problema para si mesmo (por exemplo, um em que Cristo vem em silêncio, e em atos silenciosos de Cristo em relação ao Pai). Se Gambero está correto, teríamos, portanto, que esperar que Inácio não mencionasse nem o próprio Senhor Jesus Cristo, já que não mencioná-lo seria uma forma de homenagem. Entretanto, ele o menciona muito. Isso significa que Inácio não conseguiu dar honra a Cristo com o misterioso silêncio, embora suas declarações sobre o silêncio na maior parte fossem preocupações em relação a Cristo. Isso nos leva à conclusão de que Gambero está lendo ideias e formas de honra nos escritos de Inácio onde ele próprio não ensina isso, nem o pratica.

3) Tais observações sobre o silêncio de Inácio realmente não provam que os outros pais apostólicos acreditassem nos modernos ensinamentos católicos marianos. Mesmo se concedêssemos o argumento de Gambero, o máximo que poderíamos concluir a partir disso é que Inácio não mencionou Maria nem ensinou sobre ela. Mas isso não seria o mesmo que estabelecer ensinos sobre ela, o que ele não mencionou. Não haveria justificativa a afirmação de que Inácio defendia doutrinas marianas romanas específicas, ainda que o argumento de Gambero fosse concedido.

O fato é que os alunos dos apóstolos não escreveram sobre os dogmas marianos católicos que eles reivindicam que é preciso acreditar sob pena de excomunhão. Nem tampouco eles escreveram sobre as doutrinas marianas que distinguem os católicos-romanos dos demais cristãos. Isso demonstra o quão completamente divorciado do Cristianismo moderno o papismo está. A resposta de Gambero a este fato é ilusória e irresponsável.


Os Pais da Igreja após os Pais Apostólicos

Havia três principais pontos de vista sobre a condição de Maria no período patrístico após os pais apostólicos: (1) Maria pecou às vezes. Esta visão anula uma concepção imaculada; (2) Maria foi purificada do pecado em torno da época do nascimento de Cristo, o que também não é uma concepção imaculada. Uma pequena variação dessa visão é que ela foi parcialmente santificada no útero e, em seguida, completamente santificada no momento do nascimento de Cristo; (3) Maria foi totalmente santificada em algum momento enquanto estava no ventre de sua mãe, embora não na primeira instância da concepção. Isso ainda não é uma concepção imaculada. Estes pontos de vista na igreja primitiva são todos contrários à alegação romana de que Maria foi preservada de toda mancha do pecado original no primeiro momento da concepção.

A linha (1) está alinhada com a posição protestante. Tertuliano declarou o seguinte em seu “Tratado sobre a Carne de Cristo”:

“Sua mãe também não é relatada aderindo a ele, embora Marta e a outra Maria são muitas vezes mencionadas como estando em sua companhia. Nesta conjuntura, sua incredulidade finalmente veio à tona[7]

Descrença e dúvida são pecados (2ª Crônicas 30:7; Salmos 119:158; Jeremias 3:12; Mateus 8:26; Mateus 14:31; Romanos 14:23; Tiago 1:6). Tertuliano também entendeu Mateus 12:46-50 como uma irritação muito grande de Jesus com Maria por causa da incredulidade desta, enquanto os outros o ouviam atentamente:

“Ele estava justamente indignado, porque as pessoas muitos próximas a ele se levantaram contra ele, ao mesmo tempo em que os estranhos estavam atentamente ouvindo as suas palavras. E então ele disse: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ Ele acrescentou que a resposta era ‘ninguém’, senão aqueles que ouvem as suas palavras e as praticam. Ele transferiu a prioridade de relação de sangue com os outros, a quem ele julgou ser mais estreitamente relacionado a ele por causa da sua fé”[8]

No segundo século, Irineu observou que Jesus repreendeu Maria por sua pressa inoportuna:

“Pois todas estas coisas foram conhecidas de antemão pelo Pai; mas o Filho os trabalha no momento adequado em perfeita ordem e sequencia. Esta foi a razão pela qual, quando Maria estava incitando Jesus para executar o maravilhoso milagre do vinho, e estava desejosa antes da hora de tomar o copo de significado emblemático, o Senhor, verificando sua pressa inoportuna, disse: ‘Mulher, que tenho eu contigo? Minha hora ainda não chegou. Espere aquela hora que foi conhecida pelo Pai’”[9]

Basílio comentou sobre a espada de Lucas 2:35-36 afirmando:

“Mesmo você mesma [Maria], que tem sido ensinada do alto nas coisas concernentes ao Senhor, será tomada por algumas dúvidas. Esta é a espada”[10]

João Crisóstomo argumentou que Maria, de um modo ímpio, procurou a glória dos milagres de Jesus:

“Talvez excessivamente ela tinha alguns sentimentos humanos, como seus irmãos, quando disseram: ‘Mostre-se para o mundo que deseja obter crédito a partir de Seus milagres’. E a isso ele respondeu veementemente, dizendo: ‘Mulher, que tenho eu a ver contigo? Minha hora ainda não chegou’”[11]

Comentando sobre a mariologia de Crisóstomo, o erudito católico Richard P. McBrien observou:

“Em Caná, Maria disse a Jesus que não havia mais vinho só porque ‘ela queria fazer um favor para os outros, e se tornar mais ilustre através de seu filho’. Mesmo na anunciação ela estava em falta. O anjo teve que acalmá-la para que ela não se matasse em desespero com a notícia de que ela iria ter um filho”[12]

Há amplo apoio acadêmico para o fato de que muitos escritores da igreja primitiva ensinaram que Maria tivesse pecado. O mundialmente renomado historiador e estudioso da doutrina cristã primitiva, J. N. D. Kelly, observou:

“Em contraste com a crença mais tardia, em sua perfeição moral e espiritual, nenhum destes teólogos tinha o menor escrúpulo em atribuir culpas para Maria. Irineu e Tertuliano recordaram ocasiões em que, ao lerem as histórias do evangelho, ela foi repreendida pelo Filho, e Orígenes insistiu que, como todos os seres humanos, ela precisava da redenção de seus pecados; em particular, ele interpretou a profecia de Simeão (Lc.2:35), de que uma espada transpassaria a sua alma, como sendo a confirmação de que ela tinha sido tomada por dúvidas quando viu seu Filho crucificado”[13]

Em relação aos comentários de Orígenes, Kelly cita suas Homílias sobre São Lucas, 17. O estudioso romanista Ludwig Ott admitiu algo importante quando disse:

“Padres gregos individuais (Orígenes, São Basílio, São João Crisóstomo, São Cirilo de Alexandria) ensinaram que Maria sofria de faltas veniais pessoais, como ambição e vaidade, a dúvida sobre a mensagem do Anjo e a falta de fé sob a cruz”[14]

Além disso, o historiador eclesiástico Philip Schaff destacou que Irineu “não tinha nenhuma noção da impecabilidade de Maria, e expressamente declara que a resposta de Cristo em João 2:4 era uma repreensão de sua pressa prematura”[15]. Ele também comentou: “Da mesma forma, Tertuliano, Orígenes, Basílio Magno e até mesmo Crisóstomo, mesmo com toda a sua alta estima em relação à mãe de nosso Senhor, atribuem a ela em uma ou duas ocasiões (Jo.2:3; Mt.13:47) vaidade materna, além de dúvida e ansiedade, e fazem disso a espada (Lc.2:35) que, sob a cruz, passou por sua alma”[16].

O estudioso patrístico católico-romano Luigi Gambero admite que João Crisóstomo “não hesita em atribuir defeitos a imperfeições a Maria... ele interpreta certas passagens do Evangelho de tal forma que permitia atribuir defeitos à virgem Maria tais como a incredulidade e a vaidade”[17]. Estes são pecados e todos os pecados são incompatíveis com a doutrina da imaculada conceição de Maria. Gambero também admite que Basílio de Cesareia “considera-se certo em afirmar que a santidade da Virgem não era totalmente indiscutível. Ele se refere à dúvida que ela sofreu no momento da paixão de seu filho, que Simeão havia predito, usando a metáfora da espada”[18].

É pertinente ressaltar aqui a observação de Philip Schaff, que “Jerônimo ensinou a pecaminosidade universal, sem qualquer exceção, Adv. Pelag. ii, 4”[19].

Cirilo de Alexandria (376-444) também ensinou que Maria pecou de forma grave, em oposição a uma concepção imaculada:

“Pois, sem dúvida, tal linha de pensamento como esta passou por sua mente: ‘Eu lhe concebi que se deixa escarnecer na cruz. Ele disse que, de fato, ele era o verdadeiro Filho do Deus Todo-Poderoso, mas pode ser que ele tenha sido enganado; Ele pode ter cometido um erro quando disse: eu sou a vida. Como é que ele pôde ter sido crucificado e como é que ele pôde ter caído nos laços de seus assassinos? Como foi que Ele não prevaleceu sobre a conspiração dos seus perseguidores? E por que ele não desceu da cruz, embora ele tenha ordenado a Lázaro voltar à vida, e alcançou toda a Judeia com seus milagres?’ A mulher, como é provável, sem entender exatamente o mistério, vagou perdida em tal linha de pensamento[20]

A visão (2) foi defendida por figuras notáveis como Cirilo de Jerusalém (313-386). Ele afirmou: “Este é o Espírito Santo, que desceu sobre a Virgem Santa Maria; porque desde que Aquele que foi concebido era Cristo, o Unigênito, o poder do Altíssimo fez sombra sobre ela, e o Espírito Santo veio sobre ela, e a santificou, para que ela pudesse ser capaz de recebê-lo[21]. Só se Maria tinha pecado ela precisaria ser santificada antes do nascimento de Cristo pelo Espírito. E o pecado é, naturalmente, incompatível com uma preservação no momento da concepção.

Da mesma forma, Gregório Nazianzeno afirmou que, pouco antes do nascimento de Cristo, Maria tinha sido “purificada pelo Espírito na alma e no corpo”[22]. Comentando este texto, o estudioso romano Luigi Gambero confirma que Nazianzeno acreditava na “purificação de Maria antes da concepção de Cristo”[23]. Isso não é uma concepção imaculada.

A visão (3) foi defendida pelo influente Agostinho. Ele afirmou que Maria não tinha pecado, mas que ela foi santificada após a concepção, enquanto no útero, e não na primeira instância da concepção. Agostinho afirmava que só Cristo nasceu sem a mancha do pecado original. Ele citou com aprovação Ambrósio contra Pelágio, afirmando:

“Pois dentre os nascidos de mulher, Jesus é o único que é santo em todas as coisas. Ele foi o único que não experimentou os contágios de corrupção terrena pela novidade de seu nascimento imaculado, em função de Sua majestade celestial”[24]

Note que Agostinho e Ambrósio concordavam que Cristo sozinho é exclusivamente imaculado, sem ter contraído o pecado original. Este nascimento é descrito como uma “novidade”, o que não seria caso Maria tivesse sido abençoada com o mesmo tipo. É relevante notar que o erudito católico Bonifácio Ramsey admite:

“Nós ainda não encontramos as doutrinas da imaculada conceição de Maria e sua assunção em Ambrósio”[25]

O anglicano J. N. D. Kelly, especialista em patrística, observa que em relação à ausência de pecado:

“Agostinho negou a possibilidade de todos os outros homens, mas concordou que Maria era a única exceção; ela havia sido mantida sem pecado, no entanto, não pelo esforço de sua própria vontade, mas como resultado da graça dada a ela em vista da encarnação. Por outro lado, ele não defende (como por vezes tem sido alegado) que ela nasceu isenta de toda mancha de pecado original (a doutrina posterior da imaculada conceição)”[26]

Kelly nota que Agostinho acreditava que “Maria de fato tinha nascido sujeita ao pecado original assim como todos os outros seres humanos; mas tinha sido entregue a partir de seus efeitos ‘pela graça do renascimento’”[27]. Nesta mesma linha, o historiador reformado Philip Schaff observa que:

“Em uma observação incidental contra Pelágio, ele concordou com ele excetuando Maria, do real (mas não do original) pecado (...) Ele ensinou que Maria nasceu e viveu sem pecado, mas não ensinou sua imaculada conceição (...) Ela foi santificada por uma operação especial do Espírito Santo antes de seu nascimento”[28]

Luigi Gambero admite que as evidências apontam para a conclusão de Kelly e Schaff, e observa:

“Sem dúvida, ele exclui qualquer pecado pessoal de Maria. É possível supor que Agostinho também pretende excluir o pecado original? Para nós parece mais seguro adotar a posição contrária, que é defendida por muitos especialistas e parece estar mais de acordo com os numerosos textos agostinianos”[29]

Outro estudioso católico-romano que concorda com isso é Peter M. Fehlner, que admite:

“A sua [de Agostinho] resposta ao ponto específico não diz que Maria é inoxidável na concepção; ao contrário, ele deixa a porta aberta para uma santificação libertadora no útero. Ele escreveu: ‘Nós não entregamos Maria ao diabo pela condição de seu nascimento; por esta razão, sua própria condição encontra uma solução na graça do renascimento’”[30]

Afirmando o mesmo, o estudioso católico-romano Peter M. Stravinskas disse:

“Agostinho acreditava que Maria estava no domínio do pecado original”[31]

Embora existam diversas testemunhas com muitas opiniões diferentes no período patrístico, o que não vemos é uma afirmação real da suposta concepção imaculada de Maria, além do herege Pelágio que negou o pecado original por completo e usou Maria como exemplo de alguém que supostamente não herdou uma natureza pecaminosa. No entanto, Agostinho refutou o herege negando suas ideias, como mostrado anteriormente.

Como o papa Pio IX poderia, em sua bula Ineffabilis Deus, falsamente afirmar que “a imaculada conceição da Virgem Mãe de Deus foi discernida pelos Padres e registrada nas Divinas Escrituras”? Isso demonstra a sua vontade de enganar o povo romano como um todo. Nenhum Pai da Igreja ensinou esta doutrina, e muito menos a exegese dos textos bíblicos que a Roma moderna faz num sentido pró-concepção imaculada. Se eles nem sequer afirmam a doutrina, como eles poderiam interpretar à maneira romana os versos bíblicos que ensinam a doutrina? Nenhum Pai interpretou Gênesis 3:15 como significando que Maria foi preservada do pecado original no momento da concepção.

Nem eles ensinavam que Lucas 1:28 significa que Maria foi agraciada em uma concepção imaculada. Nada desta natureza existe no enorme registro da igreja primitiva, e estudiosos católicos admitem isso (nota: Pais afirmando que Maria era sem pecado ou discutindo certos textos não é o mesmo que um Pai afirmando a concepção imaculada ou discutindo-a em certos textos). Assim, o “pastor infalível” da igreja, Pio IX, mentiu em suas palavras ao povo romano no mesmo documento em que ele definiu este dogma mariano. Muitos estudiosos, incluindo os católicos, expõem esta realidade, a qual Pio IX e muitos papistas não estão dispostos a admitir. Ou seja: que nenhum Pai da igreja primitiva ensinou essa doutrina.

Por exemplo, o estudioso papista Paul Haffner concede que, enquanto alguns Pais afirmaram a impecabilidade de Maria, não abraçaram a imaculada conceição:

“Seguindo Agostinho, no ocidente, muitos Pais e Doutores acreditavam na perfeita santidade de Maria e na ausência de qualquer pecado pessoal em função de sua dignidade como a Mãe do Senhor. No entanto, eles não conseguiram entender como a afirmação de uma concepção imaculada poderia ser conciliada com a doutrina da universalidade do pecado original e da necessidade de redenção para todos os descendentes de Adão”[32]

Até mesmo o estudioso e apologista romano Robert Fastiggi admite que os primeiros apologistas do período patrístico não afirmam a imaculada conceição, e que só mais tarde é que certas pessoas começaram a afirmar a impecabilidade de Maria:

“Embora estes Padres da Igreja antiga [Irineu e Justino Mártir] não afirmem explicitamente a imaculada conceição de Maria, o paralelismo entre Eva e Maria levou mais tarde Pais da Igreja a afirmar que Maria era uma alma pura e sem pecado”[33]

Observe que Fastiggi admite que o paralelismo antigo entre Eva e Maria presente nos apologistas não levou os Pais posteriores a afirmarem uma concepção imaculada, mas apenas sua impecabilidade. Maria, como alma pura ou sem pecado, não estabelece uma concepção imaculada, pois aqueles títulos não falam sobre quando Maria foi santificada (i.e, em primeira instância, na concepção, no útero ou no momento do nascimento de Cristo). Não se pode simplesmente assumir que quando um escritor patrístico comenta sobre a pureza de Maria, como os papistas modernos afirmam, remete à primeira instância da concepção.

Autor: Keith Thompson (Reformed Apologetics)
Tradução: Lucas Banzoli (Apologia Cristã)


-Meus livros:

- Veja uma lista completa de livros meus clicando aqui.

- Acesse o meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros sites:
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a Imortalidade da Alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Estudando Escatologia (Estudos sobre o Apocalipse)




[1] The Catechism of the Catholic Church, 2nd Ed., pp. 137-138 par. 490-492.
[2] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 27
[3] D. A. Carson, The God Who Is There, The: Finding Your Place in God's Story, [Baker Books, 2010], p. 178.
[4] Everett Ferguson, Backgrounds of early Christianity, [Wm. B. Eerdmans Publishing, 2003], p. 298.
[5] Panayotis Coutsoumpos, Paul And the Lord's Supper: A Socio-historical Investigation, [Peter Lang, 2005], p. 36.
[6] Epístola à Igreja de Filadélfia, 1:1.
[7] Tertullian, On the Flesh of Christ, Ch. 7.
[8] Tertullian, Against Marcion, Book 4, Ch. 19.
[9] Irenaeus, Against Heresies, 3. 16. 7.
[10] Basil of Caesarea, Letter, 260, 9.
[11] John Chrysostom, Homilies on the Gospel of John, homily 21.
[12] Richard P. McBrien, Catholicism: Completely Revised and Updated, [HarperCollins, 1994], p. 1084.
[13] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines, [HarperOne, 1978], p. 493.
[14] Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma, [Tan Books and Publishers, 1960], p. 203.
[15] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], p. 415.
[16] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], pp. 415-416.
[17] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 172.
[18] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 148.
[19] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], p. 418 n. 2.
[20] Cyril of Alexandria, Commentary on John, Book 12.
[21] Cyril of Jerusalem, Catechetical Lectures, Lecture, 17, 6
[22] Gregory Nazianzen, Sermon 38, 13.
[23] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 163.
[24] Augustine, Against Julian, Book I, 10.
[25] Boniface Ramsey, Ambrose, [Routledge, 1997], p. 51.
[26] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrine, [HarperOne, 1978], p. 497.
[27] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines, [HarperOne, 1978], p. 497.
[28] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], pp. 418, 419.
[29] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 226.
[30] (Peter M. Fehlner, The Virgin Mother’s Predestination and Immaculate Conception, ed. Mark I. Miravalle, Mariology: A Guide for Priests, Deacons, Seminarians, and Consecrated Persons, [Mark I. Miravalle, S.T.D., 2007], p. 248.
[31] Peter M. Stravinskas, The Catholic Answer Book of Mary, [Our Sunday Visitor Publishing, 2000 ], p. 50.
[32] Paul Haffner, The Mystery of Mary, [Gracewing Publishing, 2004], p. 81.
[33] Robert Fastiggi, The Immaculate Conception: Historical and Ecumenical Perspectives, eds. Robert L. Fastiggi, Judith Marie Gentle, De Maria Numquam Satis: The Significance of the Catholic Doctrines on the Blessed Virgin Mary for All People,[ University Press of America, 2009], p. 2.