29 de janeiro de 2016

Só um interpreta: o papa


Na caixa de comentários do artigo "A Bíblia é filha da Igreja?", um perfil fake de nome “Sola Ecclesia” começou uma discussão primeiro comigo e depois com o Bruno Lima, terminando por concluir algo bastante curioso:

“É loucura dizer que não deve haver uma única autoridade interpretativa, ou um só interpreta, ou ninguém falará a mesma língua”

Apesar do Bruno já ter lhe dado uma excelente resposta em cima deste mesmo comentário, vou aqui explanar mais um pouco de como essa objeção romanista é mesmo infantil.

Em primeiro lugar, se é mesmo apenas um quem pode interpretar – aqui evidentemente fazendo menção ao papa romano – então a conclusão que qualquer estudioso sério e honesto chega é que a Igreja primitiva era tudo, menos católica-romana, já que nem de longe era apenas o papa que interpretava. Mesmo se levássemos em conta a lenda de que Pedro foi o primeiro papa, os problemas na Igreja primitiva não se resolviam na base do “pergunta pro Pedro”, mas na base da discussão teológica com todos os apóstolos, como fica claro no Concílio de Jerusalém, de Atos 15.

Se só Pedro é que podia interpretar, por que raios é que convocaram os apóstolos que estavam pregando em outras partes do mundo da época, como Paulo e Barnabé, que tiveram que voltar a Jerusalém apenas para participar do concílio? Se apenas a opinião de Pedro devesse ser levada em conta e os outros apóstolos fossem meros fantoches subservientes, por que não trouxeram a questão exclusivamente a Pedro, poupando os outros apóstolos que não precisariam nem participar se não podiam interpretar nada? E por que o concílio precisou ainda da posição de Paulo e Barnabé (At.15:12), para enfim terminar com a decisão de Tiago (At.15:13), sendo que bastaria apenas Pedro falar e toda a discussão já estaria resolvida em um passe de mágica?

Em segundo lugar, qualquer criatura, por mais ignorante de patrística que seja, conhece o suficiente para saber que os Pais da Igreja não trabalhavam na base do “só o bispo de Roma interpreta, e nós repetimos”. Ao contrário: os Pais que não eram bispos de Roma constantemente faziam suas próprias interpretações bíblicas em seus próprios tratados teológicos, muitas vezes ignorando completamente o que o bispo de Roma pensava sobre determinado tema. É assim que se criou no Oriente o método alegórico de interpretação da Bíblia, muito utilizado por Pais proeminentes de Alexandria como Clemente e Orígenes, em direto contraste com o método literal, utilizado pela escola de Antioquia, representada por teólogos do peso de Inácio e Teófilo.

Se só o papa pudesse interpretar, por que havia métodos diferentes de interpretação da Bíblia, já nos tempos primitivos? Não deveria. Tanto a escola de Alexandria como a de Antioquia deveriam ter um mesmo método interpretativo, que por sua vez estaria completamente condicionado à interpretação do bispo romano. Isso obviamente não existe, e é justamente pela inexistência de uma autoridade central à qual se condicionasse a interpretação bíblica que havia tantas interpretações distintas, sobre vários temas diferentes. Em meu livro "Em Defesa da Sola Scriptura", a partir da página 167, eu listo 20 divergências teológicas entre os Pais da Igreja, que são apenas um resumo de um todo bem maior. Onde estava o “único intérprete”, em meio a tantas divergências teológicas? Não existia.

Em terceiro lugar, que o papa não era o único que interpretava na Igreja primitiva, isso é tão óbvio que basta ler um Pai da Igreja como Orígenes ou Tertuliano. Ambos foram tão longe em suas interpretações que acabaram mais tarde sendo excomungados ou anatemizados nos concílios que se seguiram. Se eles não tivessem “asas” para voar, como chegavam tão longe? Se fosse conhecido na Igreja do século II que apenas o papa tinha o direito de interpretar, nem Orígenes e nem Tertuliano iriam interpretar à sua maneira; ao contrário, iriam apenas repetir o que o suposto papa dizia e não teriam nenhuma razão para se contradizerem entre si e com os demais Pais.

Em quarto lugar, todos os grandes tratados primitivos sobre interpretação da Bíblia tinham zero instrução quanto ao suposto fato da correta interpretação (ou da mera capacidade de interpretar) estar condicionada ao papa de Roma. Agostinho escreveu uma obra gigante, chamada “A Doutrina Cristã”, onde elenca diversos princípios de hermenêutica e exegese das Escrituras. Eu desafio qualquer papista e me mostrar UM ÚNICO verso nesta obra onde o bispo de Hipona diz aquilo que teoricamente seria o mais importante, e cujo fator é o mais ressaltado pelos papistas atuais: que apenas o papa é que pode interpretar a Bíblia.

A verdade é que ele não diz uma loucura dessas em absolutamente lugar nenhum. Suas instruções de exegese eram direcionadas a qualquer leitor que quisesse colocá-las em prática. Não tinha nada que buscar a interpretação do papa e repeti-la como um zumbi ou um papagaio, estando proibido de interpretar qualquer coisa. Agostinho jamais reconheceu qualquer princípio de que só o papa podia interpretar a Bíblia, nem mesmo quando escrevia livros inteiros sobre interpretação da Bíblia. Ao contrário, ele claramente dizia que o próprio leitor poderia orar e interpretar as Escrituras, examinando-a por si mesmo:

“Portanto, eu tenho nesta carta, que chegou a você, mostrado por passagens da Sagrada Escritura, que você pode examinar por si mesmo, que nossas boas obras e piedosas orações não poderiam existir em nós, a menos que tenhamos recebido tudo a partir dele”[1]

A Escritura podia ser interpretada por todos os que a lessem:

“Daí provém que a divina Escritura, a qual socorre a tão grandes males da vontade humana, tendo sido originada de uma só língua que lhe permitia propagar-se oportunamente pelo orbe da terra, foi divulgada por toda a parte, em diversidade de línguas, conforme os intérpretes. Os que a leem não desejam encontrar nela mais do que o pensamento e a vontade dos que a escreveram e desse modo chegar a conhecer a vontade de Deus, segundo a qual creem que esses homens compuseram”[2]

Ao invés de dizer que “os que leem” devem buscar a interpretação do infalível magistério romano, ele diz que os que leem devem tentar interpretar a Bíblia em conformidade com o sentido expresso pelos homens que a compuseram. Por isso, “quem escruta os divinos oráculos deve esforçar-se por chegar ao pensamento do autor, por cujo intermédio o Espírito Santo redigiu a Escritura”[3].

O princípio seguido e incentivado por Agostinho não era o de ler a Bíblia e consultar a interpretação oficial do papa, mas sim aquele mesmo princípio reformado, onde o leitor deve particularmente orar a Deus para que possa entender as Escrituras:

“Agora, quem é que se submete a divina Escritura, se não aquele que a lê ou ouve piamente, submetendo a ela como de autoridade suprema; de modo que o que ele entende ele não rejeita por causa disso, sentindo que ela seja contrária aos seus pecados, mas ama sendo repreendido por ela, e se alegra de que seus males não são poupados até que sejam curados; e por isso que, mesmo em relação ao que lhe parece obscuro ou absurdo, ele, portanto, não levanta contradições ou controversas, mas ora para que ele possa entender, entretanto lembrando que a boa vontade e reverência há de se manifestar no sentido de uma tão grande autoridade?”[4]

Como já ressaltei, Agostinho redigiu uma obra inteira destinada às regras de interpretação da Bíblia, conhecida como “A Doutrina Cristã”, dividida em vários volumes. Surpreendentemente, nela não há sequer uma única linha dizendo que a interpretação correta da Bíblia está confiada exclusivamente a um magistério romano. Ao contrário: ele mostra ao leitor como ele deve interpretar particularmente a Bíblia, seguindo as regras e instruções de exegese que ele observou em sua obra:

“Quanto aos princípios que devem ser seguidos na interpretação das Sagradas Escrituras, são demonstrados no livro que eu escrevi, e em todas as introduções aos livros divinos que eu tenho na minha edição prefixado para cada um; basta remeter ao prudente leitor”[5]

Seria realmente de um esquecimento incrível ou de uma soberba enorme se Agostinho tivesse propositalmente ou ocasionalmente deixado de mencionar aquilo que deveria ser o mais importante sobre a interpretação da Bíblia em uma obra sobre a interpretação da Bíblia: que a Bíblia só pode ser corretamente interpretada pelo magistério romano. A razão pela qual Agostinho nunca cita um magistério particular em Roma como autoridade infalível na interpretação das Escrituras, mas transmite regras gerais de exegese para que qualquer leitor pudesse ler e interpretar a Bíblia, é porque a Igreja primitiva só era Romana na ilusão de mentes presas ao erro, ao sofisma e à mentira.

Em quinto lugar, os concílios primitivos são a prova irrefutável de que a Igreja antiga não funcionava na base do “só o papa interpreta”. Como disse o Bruno na resposta dada ao fake católico:

“Como você acha que os concílios funcionavam? O bispo de Roma dizia ‘esta é a verdade’, ai todo mundo apenas concordava? Não mesmo. Nenhum dos sete primeiros concílios ecumênicos foi ou convocado ou presidido pelo bispo de Roma e eles expressavam a opinião de um colégio de bispos, que poderia ser de algumas centenas”

Este assunto já foi tratado com mais abrangência neste artigo, razão pela qual não vou me estender aqui falando as mesmas coisas. Resumidamente, basta mencionar que:

• Nenhum concílio ecumênico foi convocado por um papa; todos foram convocados por imperadores bizantinos.

• Um concílio geral podia ignorar as decisões do pontífice romano.

• As decisões tomadas pelos papas em casos que envolviam outros bispos foram muitas vezes confirmadas por concílios ecumênicos. Isso indica que a própria decisão papal em si não era considerada final.

Leia mais sobre isso clicando aqui.

Em sexto lugar, o fato de a Igreja antiga ter muitas vezes contrariado e se oposto explicitamente a um posicionamento ou interpretação do bispo romano também prova que eles não viam o bispo de Roma como “intérprete único”. Por exemplo, quando o papa Honório aderiu à heresia monotelista, o Concílio de Calcedônia não aceitou a heresia pelo simples fato do papa tê-la aceito. Em vez disso, anatemizou o papa:

“Anatemizamos o herege Sérgio, o herege Ciro e o herege Honório... O autor de todo o mal encontrou um instrumento próprio para a sua vontade em Honório, o antigo papa de Roma”[6]

Quando o papa Zózimo acatou a heresia pelagiana, os outros bispos não se sujeitaram automaticamente ao pelagianismo. Em vez disso, pressionaram o papa a tal ponto em que ele foi obrigado a mudar de opinião[7].

Quando o papa Vigílio se opôs à condenação da obra “Três Capítulos”, dos bispos Teodoro, Teodoreto e Ibas, o Concílio de Constantinopla não quis nem saber, e condenou os Três Capítulos assim mesmo. Como se não bastasse, o concílio ameaçou excomungar o papa, que logo se viu novamente na obrigação de mudar de opinião para não ser removido do cargo[8].

Quando o papa excomungou Melécio, o bispo de Antioquia da época, o Concílio de Constantinopla não quis nem saber, e chamou Melécio para não apenas participar, mas presidir o concílio[9]!

Quando Vitor, o arrogante bispo romano do segundo século, tentou excomungar os bispos do oriente por causa da divergência da Páscoa (que eu já tratei neste artigo), ele não apenas falhou em excomungá-los, como também foi duramente repreendido por todos os outros bispos, inclusive por Irineu[10].

Tudo isso mostra que o bispo de Roma nem de longe era visto como uma espécie de autoridade final e infalível, cuja palavra devesse ser sempre acatada em toda e qualquer circunstância. Em vez disso, era um bispo como todos os outros. O papista pode até dizer que “só o papa pode interpretar”, mas neste caso terá que considerar que toda a Igreja antiga não era católica-romana, e muito menos seguia este esquema. Em outras palavras, para manter de pé o pobre e infantil argumento do “só um interpreta”, eles terão que dizer que a Igreja primitiva não era uma Igreja verdadeira, pois não seguia o “método verdadeiro”, que só veio a surgir em plena Idade medieval no ocidente. Poucos estarão dispostos a admitir isso.

Em sétimo lugar, e para concluir, nem os próprios papistas seguem este método que eles propõem e dizem defender. Ou seja, são pouquíssimos deles que realmente apenas repetem a interpretação do papa, e se calam nas coisas em que a Igreja não afirma explicitamente. 99% dos apologistas católicos são tão malandros que praticam livre exame mesmo quando vociferam contra o livre exame protestante. Eles simplesmente não conseguem se limitar a apenas repetir e defender somente o que o catecismo afirma abertamente.

O Sr. Obsceno, por exemplo, tem um blog inteiro de livre exame. E ele diz ser um blog católico, defendendo uma doutrina católica, que todavia ele próprio reconhece que o magistério não ensina nada disso:

(Clique na imagem para ampliar)

Traduzindo: "Nem a Igreja sabe, nem os Pais sabem, mas EU sei !!!"

Se o magistério não tem nenhuma posição oficial sobre o Apocalipse, que raios ele faz criando um blog inteiro interpretando todo o Apocalipse capítulo por capítulo? A resposta é óbvia e autoevidente: livre exame. O mesmo livre exame que os hipócritas vociferam como animais quando praticado pelos protestantes é largamente utilizado por eles mesmos, quando lhes convém. Milhares de apologistas católicos afora fazem afirmações categóricas que de modo algum podem ser encontradas no catecismo ou em qualquer outro documento oficial da Igreja Romana, e uma simples olhada nos prints da minha série sobre os zumbis tridentinos mostra isso claramente (veja aqui e aqui).

Católicos como o “Demapro” defendem que o “tabernáculo perfeito” de Hebreus 9:11 é Maria – mesmo sem o catecismo afirmar isso em parte alguma. Católicos como Paulo Leitão defendem que Maria é “co-redentora” – mesmo sem o catecismo afirmar isso em parte alguma. Católicos como o Sr. Richard Smith defendem que Maria é co-participe da Santíssima Trindade – mesmo sem o catecismo afirmar isso em parte alguma. Católicos como Cris Macabeus defendem que toda a tribulação apocalíptica já aconteceu em 70 d.C – mesmo sem o catecismo afirmar isso em parte alguma. Católicos como o padre Jonas e o Gargamel defendem o dom de línguas ao estilo pentecostal – mesmo sem o catecismo afirmar isso em parte alguma.

Pode ser que algum dia a Igreja Romana venha a incorporar essas doutrinas? Pode. Mas, até lá, se eles fossem mesmo obedientes a seu próprio critério, deveriam calar a boca onde a Igreja se cala, e só falar onde a Igreja fala. Afinal, é até possível que a Igreja nunca se posicione sobre estes assuntos, ou até mesmo que se posicione em contrário. Não cabe ao católico praticar livre exame, o mesmo que ele tanto condena nos evangélicos. Mas eles praticam, porque nem eles mesmos levam a sério o seu próprio critério. No fundo, lá no fundo, todos eles sabem que essa história de “só o papa interpreta” é uma grande bobagem.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] Letter 214, 4.
[2] A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, 6.
[3] A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, 38.
[4] Do Sermão do Monte, Livro I, 11.
[5] Letter 75, 6.
[6] 8ª Sessão do referido concílio.
[8] Whelton, M., (1998) Two Paths: Papal Monarchy - Collegial Tradition, (Regina Orthodox Press; Salisbury, MA), pp. 68.
[9] Empie, P. C., & Murphy, T. A., (1974) Papal Primacy and the Universal Church: Lutherans and Catholics in Dialogue V (Augsburg Publishing House; Minneapolis, MN), p. 82.
[10] Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, Livro V, cap. XXIV.

25 de janeiro de 2016

Que raios é a "tradição" católica?



É praxe dos debatedores católicos, quando acuados em um debate e se vendo sem saídas ao ser deparado com a Bíblia, apelar para uma palavrinha mágica: “tradição”. Para os tridentinos, a tradição é o poder mágico que funciona como a carta curinga para se dar bem em qualquer debate. Funciona assim: sempre quando a sua distorção bíblica for desmascarada e você não tiver mais absolutamente nenhuma evidência em favor da sua argumentação, apele para a tradição. Diga bem assim: “Pode não estar na Bíblia, MAAAAAAAASSSSS está na tradição!!!!”. E não precisa fornecer prova nenhuma de que essa tradição é verdadeira, confiável ou bem fundamentada; basta citar o mantra da tradição e se mandar.

Para quem chegou agora e não conhece meus artigos sobre tradição, recomendo a leitura dos seguintes artigos:


Descrição: Este artigo prova na patrística que o que os Pais da Igreja entendiam por “tradição” não tinha absolutamente nada a ver com o que os pedantes papistas asseveram hoje em dia.


Descrição: Este artigo prova que um ensinamento transmitido apenas oralmente tem sempre o potencial de ser corrompido, passando por adições ou subtrações ao conteúdo da mensagem original.


Descrição: Este artigo prova que a Sola Scriptura é a posição-padrão, não apenas para o Cristianismo, mas também de qualquer sistema antigo.


Descrição: Este artigo prova que o que Papias afirmava ter vindo a ele oralmente são coisas que a Igreja Romana ensina o contrário hoje em dia.


Descrição: Este artigo prova que nós só conhecemos alguma coisa sobre Abraão (e demais personagens bíblicos) porque escreveram sobre ele (não temos nada que veio apenas oralmente).


Descrição: Este artigo prova que a tradição que Paulo mencionou aos tessalonicenses não tem absolutamente nada a ver com a tradição romanista.


Descrição: Este artigo compara as tradições dos ortodoxos com as tradições dos romanos, mostrando suas incongruências e concluindo que a tradição oral não pode ser confiável – pelo menos uma das duas (ou as duas) não se preservou.


Descrição: Este artigo prova que os primeiros Pais da Igreja eram abertamente pré-milenistas, e mesmo assim a Igreja Romana afirma que o amilenismo veio por tradição oral desde os apóstolos...

Presumindo que o leitor já leu todos os artigos acima, vamos a este. Neste aqui eu não irei destruir novamente a tradição romanista, porque seria bater em cachorro morto, pisar em cadáver de quem já morreu faz tempo. Eu tentarei apenas entender aquilo que os apologistas católicos inventam sob o nome de “tradição”. Uma vez que o catecismo católico é deliberadamente vago, justamente para não ser falseável, vou expor (e comentar) aquilo que os debatedores papistas geralmente entendem e defendem pelo termo “tradição”.


Falácia 1: Tradição é o que foi pregado oralmente pelos apóstolos, mas que não foi escrito

Mas se não foi escrito, como você sabe que eles disseram isso? Telepatia? Poderes mágicos? Necromancia?

Como podemos saber o que Platão disse sem ter sido passado por escrito? Simplesmente não sabemos, e o motivo pelo qual não sabemos é justamente porque não foi escrito! Se tivesse sido escrito, nós saberíamos. Uma vez que não foi escrito, qualquer coisa que Platão tenha supostamente dito oralmente não passa de mera especulação, e qualquer charlatão que disser saber o conteúdo não passa de um farsante. Da mesma forma, é óbvio que os apóstolos ensinaram oralmente, mas, uma vez que ninguém estava lá para filmar ou gravar o que eles disseram, nós só sabemos o que eles escreveram, que é o que foi preservado até os dias atuais.

Qualquer embusteiro que diga conhecer precisamente o conteúdo daquilo que foi dito (mas não escrito) tem a obrigação do ônus da prova, ou seja, é sobre ele que recai a necessidade de provar que tal coisa foi mesmo pregada oralmente por algum apóstolo. Que ele diga qual apóstolo pregou, quando pregou, para quem pregou, e quais são as evidências de que ele disse exatamente aquilo. Mas se ele não tem as provas, então que admita sua insignificância em vez de ficar colocando palavras na boca dos apóstolos, feito um charlatão desesperado.

Ademais, é preciso muita imaginação (para não dizer demência) para supor que o que os apóstolos ensinaram oralmente é diferente do espírito daquilo que eles escreviam em suas cartas. Paulo, por exemplo, nunca citou Maria (mãe de Jesus) em nenhuma de suas treze cartas, mas os apologistas malandros garantem que quando ele ensinava oralmente fazia questão de pregar que Maria era imaculada, impecável, intercessora, advogada, co-redentora, medianeira das graças, perpetuamente virgem e todas as outras sandices inventadas por Roma. É preciso ser um mestre na arte de ser enganado para dar um mínimo de crédito a essa estória de pescador.

Por fim, os católicos ortodoxos (aqueles orientais que se separaram de Roma há muito tempo) têm também suas tradições, que, no entanto, são bastante conflitantes com as tradições romanas. Para citar alguns exemplos rápidos, os ortodoxos não crêem que Maria teve concepção imaculada, não aceitam a jurisdição ou supremacia papal, não entendem que o bispo romano é infalível em circunstância alguma, não acreditam na existência de limbo e purgatório, batizam por imersão e comungam em ambas as espécies, além de permitir o casamento dos sacerdotes.

O engraçado é que eles também dizem que a tradição deles veio dos apóstolos, e eles têm listas de sucessão apostólica de todos os doze apóstolos, incluindo até mesmo do próprio Pedro, que teria sido o primeiro bispo de Antioquia (confira aqui). Estes apóstolos que fundaram igrejas no oriente foram sucedidos por outros bispos, e assim sucessivamente até chegar aos dias de hoje. Roma, no entanto, supostamente tem a sucessão de Pedro, mas de nenhum outro mais. Para ser claro: os papistas pedantes querem que nós aceitemos a tradição romanista porque ela veio de Pedro, e rejeitar a tradição ortodoxa que veio de Pedro e dos outros onze apóstolos. Sim, tem que ser lesado para ser apologista católico.


Falácia 2: A tradição é o que os Pais da Igreja escreveram

Essa falácia descarada foi a saída de escape de certo romanista que tentou rebater meu artigo "Como funciona a Sola Scriptura de forma simples e prática" na caixa de comentários do mesmo. Ele disse que essa tradição oral papista não é essa coisa fantasmagórica sem nenhum registro histórico que os apologistas católicos propõem, mas que consiste em tudo aquilo que pode ser provado pela patrística. Eu lhe respondi assim:

Quando Gregório Magno rejeitou o título de “bispo universal” e o chamou de “título de blasfêmia”, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Os próprios mandamentos de nosso Senhor Jesus Cristo são transtornados pela invenção de uma certa orgulhosa e ostensiva frase, que seja o piedosíssimo senhor a cortar o lugar da chaga, e prenda o paciente remisso nas cadeias da augusta autoridade. Pois ao atar estas coisas justamente alivias a república; e, enquanto cortas estas coisas, provês o alargamento do teu reinado (...) O meu companheiro sacerdote João, pretende ser chamado bispo universal. Estou forçado a gritar e dizer: Oh tempos, oh costumes! (...) Os sacerdotes, que deveriam chorar jazendo no chão e em cinzas, buscam para si nomes de vanglória, e se gloriam em títulos novos e profanos (...) Quem é este que, contra as ordenanças evangélicas, contra os decretos dos cânones, ousa usurpar para si um novo nome? O teria se realmente por si mesmo fosse, se pudesse ser sem nenhuma diminuição dos outros – ele que cobiça ser universal (...) Se então qualquer um nessa Igreja toma para si esse nome, pelo qual se faz a cabeça de todo o bem, segue-se que a Igreja universal cai do seu pedestal (o que não permita Deus) quando aquele que é chamado universal cai. Mas longe dos corações cristãos esteja esse nome de blasfêmia, no qual é tirada a honra de todos os sacerdotes, no momento em que é loucamente arrogado para si por um só”[1]

Quando Agostinho rejeitou a transubstanciação e disse que era uma “expressão simbólica” de algo espiritual, ele fez isso baseado na tradição oral?

“‘Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós’ (Jo 6,54). Aqui, parece ser ordenada uma ignomínia ou delito. Mas aí se encontra expressão simbólica que nos prescreve comungar da paixão do Senhor e guardar, no mais profundo de nós próprios, doce e salutar lembrança de sua carne crucificada e coberta de chagas por nós”[2]

“Entenda espiritualmente o que eu disse; não é para você comer esse corpo que você vê; nem beber aquele sangue que será derramado por aqueles que irão me crucificar. Recomendei-lhes um certo mistério; espiritualmente compreendido, vivificará. Embora seja necessário que isso seja visivelmente celebrado, contudo precisa ser espiritualmente compreendido”[3]

Quando Cipriano negou a existência de um “bispo dos bispos”, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Pois nenhum de nós coloca-se como um bispo de bispos, nem por terror tirânico alguém força seu colega à obediência obrigatória; visto que cada bispo, de acordo com a permissão de sua liberdade e poder, tem seu próprio direito de julgamento, e não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Mas esperemos todos o julgamento de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único que tem o poder de nos designar no governo de Sua Igreja, e de nos julgar em nossa conduta nela”[4]

Quando Cirilo de Jerusalém pregou o batismo por imersão, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Depois disto fostes conduzidos pela mão à santa piscina do divino batismo, como Cristo da cruz ao sepulcro que está à vossa frente. E cada qual foi perguntado se cria no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E fizestes a profissão salutar, e fostes imersos três vezes na água e em seguida emergistes, significando também com isto, simbolicamente, o sepultamento de três dias de Cristo. E assim como nosso Salvador passou três dias e três noites no coração da terra , do mesmo modo vós, com a primeira imersão, imitastes o primeiro dia de Cristo na terra, e com a imersão, a noite. Como aquele que está na noite nada enxerga e ao contrário o que está no dia tudo enxerga na luz, assim vós na imersão, como na noite, nada enxergastes; mas na emersão, de novo vos encontrastes no dia”[5]

Quando Taciano negou a imortalidade da alma, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Com efeito, do mesmo modo como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”[6]

Quando Cirilo de Jerusalém disse que todas as doutrinas tinham que ser provadas na Escritura, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Com respeito aos mistérios divinos e salvadores da fé, nenhuma doutrina, mesmo trivial, pode ser ensinada sem o apoio das Escrituras divinas... pois a nossa fé salvadora deriva a sua força, não de raciocínios caprichosos, mas daquilo que pode ser provado a partir da Bíblia”[7]

Quando Beda pregou a justificação somente pela fé, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão, porque o dom da justificação vem somente pela fé”[8]

Quando Lactâncio disse que onde há imagem não há religião, ele fez isso baseado na tradição oral?

“É indubitável que onde quer que há uma imagem não há religião. Porque se a religião consiste de coisas divinas, e não há nada divino a não ser nas coisas celestiais, segue-se que as imagens se acham fora da esfera da religião, porque não pode haver nada de celestial no que se faz da terra (...) não há religião nas imagens, mas uma simples imitação de religião”[9]

Quando Eusébio esmagou a tese de que os irmãos de Jesus eram primos, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Naquele tempo também Tiago, o chamado irmão do Senhor- porque também ele era chamado filho de José; pois bem, o pai de Cristo era José, já que estava casado com a Virgem quando, antes que convivessem des­cobriu-se que havia concebido do Espírito Santo, como ensina a Sagrada Escritura dos evangelhos -; este mesmo Tiago pois, a quem os antigos puseram o sobrenome de Justo, pelo superior mérito de sua virtude, refere-se que foi o primeiro a quem se confiou o trono episcopal da Igreja de Jerusalém”[10]

Quando Agostinho disse que a pedra era Cristo e não Pedro, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Mas eu sei que em seguida expus, muito frequentemente, as palavras de Nosso Senhor: ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja’, da forma seguinte: que a Igreja seria edificada sobre Aquele que Pedro confessou, dizendo: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo’. Assim Pedro (Petrus) que teria tomado o seu nome desta pedra (Petra), simbolizaria a Igreja que é construída sobre esta pedra e que recebeu as chaves do Reino dos Céus. Com efeito, não lhe foi dito: Tu és a pedra (Petra), mas: Tu és Pedro (Petrus), pois a Pedra (Petra) era o próprio Filho de Deus, Cristo. Simão Pedro, ao confessar Cristo como a Igreja inteira O confessa, foi chamado Petrus (Pedro)”[11]

Quando João Crisóstomo disse que Maria pecou, ele fez isso baseado na tradição oral?

"Nas bodas de Caná, Maria foi molesta e ambiciosa"[12]

Quando Jerônimo disse que os apócrifos não podiam fundamentar doutrina nenhuma, ele fez isso baseado na tradição oral?

"E assim da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite, Tobias e Macabeus (no culto público) mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros [Sabedoria e Eclesiástico] úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer as doutrinas da Igreja"[13]

Quando Papias, Irineu, Lactâncio e Tertuliano pregaram o pré-milenismo, eles fizeram isso baseados na tradição oral?

“Ele [Papias] divulgou uma segunda vinda de Nosso Senhor ou Milênio. Irineu, Apolinário e outros dizem que após a ressurreição do Senhor, ele irá reinar em carne com os santos. Também Tertuliano, em sua obra ‘Sobre a Esperança dos Fieis’, Vitorino de Petau e Lactâncio seguem este ponto de vista”[14]

Quando João Crisóstomo disse que só devemos orar a Deus, ele fez isso baseado na tradição oral?

“Não fazes oração aos homens, mas a Deus”[15]

Deixa eu dar um palpite: não, né? Acho que você se faz de cego e não considera nada disso parte da “tradição”. E deixa eu ver se eu ganho nessa nova aposta: você deve pegar textos isolados de outros Pais da Igreja dizendo coisas diferentes. Acertei? Isso é exatamente o que eu expus no artigo que você não leu: vocês selecionam arbitrariamente na patrística o que “vale” e o que “não vale”, como uma cartola de um mágico, que tira dali quantos e quais coelhos quiser. Só um retardado mental pra acreditar que essa seleção arbitrária – que ignora completamente o que os Pais disseram em contrário e se agarra nas poucas coisas que disseram em favor – é o bastante para fundamentar uma suposta “tradição oral” romanista da qual estes mesmos Pais nunca falaram.

(Para ler mais sobre isso, consulte o meu artigo: "O sequestro dos Pais da Igreja")

Adicionalmente a isso, saliento que todos os Pais da Igreja estavam plenamente conscientes de que a doutrina já havia sido dada, e a eles bastava interpretar corretamente esta doutrina extraída das Escrituras, em vez de criar doutrinas novas como se tivessem autoridade apostólica para isso. Os Pais não citavam a Escritura à toa: eles a citavam como autoridade, porque ela estava acima de qualquer coisa que eles pudessem dizer por si mesmos. Inácio, por exemplo, disse que “não vos dou ordens como Pedro e Paulo”[16], e Agostinho escreveu:

"Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem (...) Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer (...) Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar"[17]

Deixemos que sejam removidas de nosso meio as coisas que citamos uns contra os outros, não com apoio nos livros canônicos divinos, mas de outras fontes quaisquer. Talvez alguém possa perguntar: Por que desejais remover essas coisas do vosso meio? Porque não queremos a santa igreja aprovada por documentos humanos, mas sim pelos oráculos divinos”[18]

“Quem é que se submete a divina Escritura, senão aquele que a lê ou ouve piamente, submetendo a ela como a autoridade suprema?[19]

“Em primeiro lugar, esta classe de escritos [dos Pais] deve ser considerado de menor autoridade, distinguindo-se da Escritura canônica. Pois tais escritos não são lidos por nós como um testemunho do qual seria ilegal manifestar qualquer opinião diferente, pois pode ser que as opiniões deles sejam diferentes daqueles que a verdade exige a nossa concordância [as Escrituras][20]

“Mas quem pode deixar de estar ciente de que a Sagrada Escritura canônica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, está confinada dentro de seus próprios limites, e que ela está tão absolutamente em uma posição superior a todas as cartas posteriores dos bispos, e que sobre ela não podemos ter nenhum tipo de dúvida ou disputa se o que está nela contida é certo e verdadeiro, mas todas as cartas de bispos que foram escritas ou que estão sendo escritas são susceptíveis de serem refutadas, se há alguma coisa nelas contidas que se desvia da verdade[21]

Como está claro, Agostinho não via os escritos dos Pais como uma segunda fonte de autoridade ao lado das Escrituras. Ao contrário: enquanto o papel dos Pais era apenas de guardar e interpretar corretamente as Escrituras – podendo eventualmente incorrer em erros e se desviar da verdade bíblica – a Escritura era vista como sendo a autoridade suprema, a fonte de onde se extrai a doutrina em si. Portanto, querer impor os escritos dos Pais como autoridade à par das Escrituras em vez de vê-los como meros intérpretes da mesma implica em contrariar a própria visão de Agostinho, que disse também:

“Nem ouse alguém concordar com bispos católicos, se por acaso eles errarem em alguma coisa, resultando que sua opinião seja contra as Escrituras canônicas[22]

“Nos inúmeros livros que foram escritos ultimamente podemos às vezes encontrar a mesma verdade como está na Escritura, mas não é a mesma autoridade. A Escritura tem uma sacralidade peculiar a si mesma. Em outros livros, o leitor pode formar sua própria opinião, e, talvez, de não concordar com o escritor, por ter uma opinião diferente da dele, e pode pronunciar em favor do que ele escreve, ou contra o que ele não lhe agrada. Mas, em conseqüência da peculiaridade distintiva das Sagradas Escrituras, somos obrigados a receber como verdadeira qualquer coisa que tenha sido dita por um profeta, ou apóstolo, ou evangelista”[23]

“Pois os raciocínios de qualquer homens que seja, mesmo que seja católico e de alta reputação, não é para ser tratado por nós da mesma forma que a Escritura canônica é tratada. Estamos em liberdade, sem fazer qualquer ofensa ao respeito que estes homens merecem, para condenar e rejeitar qualquer coisa em seus escritos, se por acaso vemos que eles têm tido opiniões divergentes daquela que os outros ou nós mesmos temos, com a ajuda divina, descoberto ser a verdade. Eu lido assim com os escritos de outros, e eu gostaria que meus inteligentes leitores lidassem assim com os meus[24]

Nem o próprio Agostinho queria que seus próprios escritos fossem vistos como uma fonte de autoridade ao lado das Escrituras, mas os pedantes papistas transformam os livros de Agostinho e dos outros Pais em “tradição” (selecionando arbitrariamente apenas o que lhes convém, é claro) e a colocam como fonte de autoridade do mesmo nível que a Bíblia!


Falácia 3: A tradição é qualquer coisa que a Igreja Romana queira que seja

Essa é a pior de todas, e o cúmulo da apelação e do desespero: sem ter como provar a tradição oral fantasmagórica e nem como fundamentar a estratégia do mágico que tira quantos coelhos quiser da cartola patrística, alguns apologistas néscios chegaram ao ponto de afirmar que qualquer coisa que a Igreja Romana diga deve ser considerado parte da “tradição”, mesmo que não se tenha fundamento nenhum nem na patrística, nem na Bíblia e nem em parte alguma!

Por exemplo, se o papa aceitar os pedidos insistentes enviados à Santa Sé para reconhecer Maria oficialmente como co-redentora, ele não precisa provar nada na Bíblia ou na patrística. Mesmo que toda a Bíblia e todos os Pais tenham dito o contrário, aquilo que ele proclamou é “tradição” mesmo assim, pelo simples fato de ele ter proclamado. Se isso não é o ápice da falcatrua e do embuste, eu não sei mais o que pode ser!

Usando o mesmo recurso desonesto, qualquer um de qualquer religião ou igreja poderia sustentar a mesma coisa, alegando que qualquer coisa que dissesse é a verdade, pelo simples fato de que este alguém o disse. É assim que o Inri Cristo “prova” que ele é a reencarnação de Jesus: ele disse que é, então está “provado”. E pensar que este é o mesmo recurso que os zumbis tridentinos usam para validar a tradição do papa: o papa disse que é, então é e pronto, caso encerrado.

Não há como discutir racionalmente com isso, uma vez que se trata de um argumento circular e não-falseável. Só nos resta a diversão garantida que os apologistas católicos nos oferecem a cada vez que plantam cambalhota e fazem malabarismos de circo a fim de provar que “não está na Bíblia, MAAAAAAAASSSSSS está na tradição!!!”.


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] Epístola XX a Maurício César.
[2] A Doutrina Cristã, 3,24.
[3] Agostinho, contra Adimante.
[4] Sétimo Concílio de Cartago.
[5] Segunda Catequese Mistagógica, Cap.4.
[6] Discurso contra os Gregos, c. 6.
[7] Das Divinas Escrituras.
[8] Super Divi Jacobi Epistolam, Caput II, PL 93:22.
[9] Instituições Divinas, 2:19.
[10] História Eclesiástica, Livro II, 1:2.
[11] Retractações, Cap. 21.
[12] Homília sobre Mt 12:48.
[13] Prefácio dos Livros de Salomão.
[14] Jerônimo, De Viris Illustribus, 18.
[15] Homilias sobre São Mateus, 19:3.
[16] Inácio aos Romanos, 4:3.
[17] Confissões, Livro VI, 5:2-3.
[18] De unitate ecclesiae, 3.
[19] Do Sermão do Monte, Livro I, 11.
[20] Letter 93, 10.
[21] Do Batismo, Contra os Donatistas, Livro II, 3.
[22] De unitate ecclesiae, 10.
[23] Contra Fausto, Livro XI, 5.
[24] Letter 148, 4.