28 de fevereiro de 2015

Padre desmascara as "aparições" de Fátima e diz: "Fátima Nunca Mais"!


No dia 18 deste mês eu escrevi um artigo onde afirmo que todos os militantes católicos são como zumbis, que não tem capacidade de pensar por si mesmos e por isso deixam que o papa pense no lugar deles, o que os torna cada vez mais facilmente manipuláveis e suscetíveis às mais diversas formas de lavagem cerebral, como de fato ocorre. Mas eu estava errado. Existe pelo menos um padre, um português chamado Mário de Oliveira, que não apenas não acredita nas “aparições” de Fátima, como também escreveu um livro inteiro refutando essa bobagem. Se ele ainda continua padre ou se já foi excomungado pela “Santa Igreja”, eu não faço a menor ideia. Mas pelo menos mostra que até Roma de vez em quando falha em suas técnicas de lavagem cerebral. Quem diria!



Vídeo do Padre Desmascarando “Fátima”:



Trecho do Primeiro Capítulo do Livro:

Quando, há tempos, aceitei participar num debate promovido pela sic e respondi abertamente "não!" à pergunta "acredita nas aparições de Fátima?", foi um escândalo (quase) nacional. Nunca tal se ouvira na televisão, para mais, da boca de um padre católico. Infelizmente, o debate abortou pouco depois de ter começado, e quase não me foi possível apontar as razões do meu não. O que terá deixado toda a gente mais ou menos frustrada. E até a pensar menos bem de mim. Mas o impacto da minha resposta foi tal, que até o próprio jornalista que conduzia o debate não conseguiu esconder o seu ar de espanto.

Apressei-me, por isso, a recordar tanto a ele como a todas as portuguesas e portugueses que, nessa hora, sintonizavam-se na sic - e deveriam ser milhões, tal o impacto do debate que, ao contrário do que pensa a maior parte das pessoas, mesmo não católicas, as aparições de Fátima não fazem parte do núcleo da fé cristã católica; o que quer dizer que se pode não acreditar em Fátima e continuar a ser cristão católico romano.

Mesmo assim, e talvez porque não costuma ser esta a mensagem-informação sobre as aparições de Fátima que passa nas pregações dos párocos e dos bispos, nem nas peregrinações que, um pouco de todo o país e de muitas partes do mundo, são reiteradamente organizadas para lá, a verdade é que, se eu já era um padre meio maldito, passei, desde então, a ser maldito de todo, aos olhos de quase todos os meus irmãos e irmãs de fé católica.

Entretanto, se ainda me aflijo com isso, não é por mim que me aflijo, mas por todos aqueles e aquelas que, preguiçosamente, preferem continuar a escandalizar-se com as minhas declarações, honestamente ditadas pela fé cristã que me anima e dá sentido à minha vida, em vez de, interpelados por elas, apressarem-se, elas e eles também, a meter mãos ao trabalho para investigarem seriamente o que se passa à volta de Fátima.

É que, com posições assim preguiçosas e acomodada objetivamente tão contrárias à fé cristã, dificilmente conseguiremos ir longe em liberdade e em responsabilidade humanas. E, em vez disso, manter-nos-emos, geração após geração, como uma espécie de Portugal dos pequeninos e uma igreja de crianças (não é verdade que na generalidade, todos os que nos confessamos católicos, fomos batizados poucos dias ou poucas semanas depois de termos nascido e que nunca mais crescemos na fé nem nas razões dela?), inevitavelmente à mercê de influentes hierarquias políticas e eclesiásticas! Uma postura social e eclesial que, indubitavelmente, também a senhora de Fátima tem ajudado, e muito, a implementar. Não só em Portugal, mas também um pouco por todo o mundo católico.

Entretanto, quando, na sic, respondi que não acreditava nas aparições de Fátima, mais não fiz do que retomar hoje a mesma atitude que a igreja católica em Portugal tomou entre 1917 e 1930. Na verdade, durante 13 anos, também ela não acreditou nas aparições de Fátima. e podia ter-se apressado a reconhecê-las, porque, até então, eram já muitos os milhares de pessoas que acorriam a Fátima, entre 13 de maio e 13 de outubro, de cada ano. E, inclusive, havia já ocorrido o chamado "milagre do sol", no dia 13 de outubro de 1917. Porém, só em 1930 é que a igreja católica reconhece Fátima.

Um reconhecimento oficial a que não terá sido alheio o fato de ter saído vitorioso o golpe militar de 28 de maio de 1926. O novo regime, obscurantista católico, saído deste golpe militar e presidido pela dupla Salazar-cardeal Cerejeira, carecia de uma coisa assim, para mais facilmente se implantar nas populações. A Senhora de Fátima, com a mensagem retrógrada, moralista e subserviente que lhe é atribuída e que, ainda hoje, vai tão ao encontro da generalidade dos nossos funcionários eclesiásticos católicos e do paganismo religioso-católico das nossas populações, vinha mesmo a matar. Nem sequer era preciso.

Esforçar-se por arregimentar as populações à volta do clero. Bastava ir ao seu encontro, todos os meses, em Fátima. Vai daí, em lugar de continuar a demarcar-se do fenômeno e até a hostilizá-lo, a hierarquia maior da igreja católica, em 1930, mudou radicalmente de estratégia e reconheceu-o e canonizou-o, como sobrenatural. Terá percebido nessa altura que, se não adiasse mais esse reconhecimento, os lucros seriam enormes, como, efetivamente, foram. Lucros financeiros, lucros políticos, lucros clericais. Lucros eclesiástico-católicos.

Algo assim como um verdadeiro "milagre", não de Deus, evidentemente, que Deus nunca faz milagres - com eles, faria de nós uns súbditos assustados, em vez de filhas e filhos livres e responsáveis-, mas um "milagre" produzido por aquela vertente demoníaca que, sobretudo em horas de maior aflição, sempre se manifesta no mais fundo dos seres humanos e os leva a prostrar-se de joelhos não só diante de imagens surdas e mudas, mas também diante dos representantes do idolatrado poder religioso e eclesiástico, na ilusória esperança de que, assim, as suas muitas aflições poderão encontrar uma qualquer mágica saída.

Por outro lado, esta nova atitude da hierarquia maior da igreja católica veio revelar-se, igualmente, como um verdadeiro trunfo contra a república de 1910 e contra a liberdade. Contra a autonomia individual. E contra todas as outras igrejas não católicas. Contra a maçonaria e contra a laicidade e a cidadania, então incipientes. Mas o pior - e parece que na igreja católica ainda ninguém, entre os mais responsáveis, deu por isso - é que essa surpreendente mudança de estratégia da hierarquia maior católica, relativamente às "aparições" de Fátima, materializava também uma histórica traição ao evangelho de Jesus Cristo. Uma traição que acabou por desfigurar completamente o Cristianismo, tal como o próprio Jesus Cristo o inspirou com a sua prática e palavra, no sentido de que ele materializasse, na história, a via de realização humana integral, saudavelmente cômoda, como o sal da terra, e libertadoramente subversiva, como a luz do mundo (Mt 5).

Só que Fátima e as suas pretensas aparições resumiam-se, nessa altura, praticamente a nada. Para cúmulo, das três crianças que, em 1917, afirmaram a pés juntos que tinham visto nossa senhora - uma delas, Francisco, nunca ouviu nada e tanto ele, como a sua irmã, Jacinta, nunca disseram uma palavra que fosse à senhora das "aparições", apenas Lúcia foi protagonista, o que prova que até nas "aparições do céu" há discriminação!

Duas delas já tinham morrido, há uns dez-onze anos, de pneumonia. E também em consequência do terror que a senhora de Fátima lhes incutiu (entenda-se, certas catequeses moralistas e terroristas de grande parte do clero de então). Na circunstância, valeu, por isso, ao regime e à sua poderosa dupla, Salazar-cardeal Cerejeira, a existência de Lúcia, a mais velha das três antigas crianças "videntes". Talvez, por ser mais vigorosa e menos impressionável, conseguiu sobreviver a todo aquele terror que a Senhora de Fátima materializava e materializa ainda hoje.

Entretanto, alguns clérigos mais fanáticos do catolicismo obscurantista e moralista de então - eles viam nas "aparições de Fátima" não a presença do demoníaco, como elas efetivamente são, mas sim a presença do divino, e até um verdadeiro milagre do céu - haviam conseguido arrastar a pequenina Lúcia, poucos anos depois de 1917, para fora da sua aldeia e encurralaram-na, primeiro, no asilo de vilar, no porto, e, depois, num convento da Galiza. Foram ao ponto de lhe arrancar o nome (é o mesmo que tirar-lhe a identidade) e passaram a chamar-lhe - imagine-se! - irmã Maria das Dores. Ao mesmo tempo, proibiram-lhe que alguma vez falasse a alguém das "aparições".

O terreno estava, pois, mais do que preparado para obter desta antiga "vidente" uns relatos bem mais completos das "aparições", os quais, duma vez por todas, impusessem Fátima à igreja e ao mundo. E, se bem o pensaram, melhor o fizeram. Deram ordens à irmã dores (atualmente, ela é, de novo, Lúcia), sempre em nome, é claro, do voto de obediência, para que ela escrevesse. E até lhe forneceram, antes de cada relato, orientações muito precisas sobre o que ela deveria escrever. Finalmente, corrigiram-lhe os textos que ela manuscreveu, para que pudessem ser publicados sem erros e com boa pontuação. Tudo muito isento, como se vê...!

***

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Colaboração: Dionatan Silva.


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25 de fevereiro de 2015

Uma análise das experiências de quase morte sob uma perspectiva científica e bíblica


Eu planejava escrever uma continuação ao meu artigo anterior, "Mais um argumento contra a existência de uma alma imortal", mas mudei de ideia ao ver que algumas pessoas ainda levam em consideração as experiências de quase morte (que ao longo deste texto serão retratadas apenas pela sigla “EQM”) como uma evidência para a sobrevivência consciente da alma na morte. Particularmente, este argumento nunca me chamou muita atenção, nem mesmo na época em que eu ainda era imortalista, razão pela qual eu não escrevo nem uma linha sobre ele ao longo de todas as mais de 800 páginas do meu livro sobre o tema. Eu me preocupava somente com as evidências bíblicas, como venho fazendo por meio de artigos também. Mas como este tema é de interesse de muita gente, decidi escrever algo a respeito sob uma perspectiva espiritual e científica.


1. Sob uma perspectiva científica

Se as EQM fossem uma prova definitiva e cabal para a existência de uma alma imortal presa em algum lugar no interior do corpo humano, então seria de se perguntar o porquê que ainda existem cientistas e médicos que não creem na existência de uma alma no sentido platônico da mesma. Não deveriam existir médicos ou cientistas ateus, por exemplo. Deveriam estar todos bem convertidos. No mínimo, as evidências nesta área não são muito convincentes ou conclusivas, razão pela qual ela é desdenhada pela esmagadora maioria da comunidade científica. Há muitos cientistas que creem na alma, mas apenas uma minoria insignificante de cientistas que creem na alma por causa das EQM. A maioria crê por razões religiosas, pura e simplesmente. E muitos não creem em nada.

No fundo, o que os imortalistas querem mesmo nos convencer é que temos que crer nas EQM porque a ciência diz isso, quando quase nenhum cientista crê nas EQM! Quem crê geralmente são leigos, estimulados por um ou outro médico em especial. É interessante notar que quase sempre os que estão lutando pela veracidade das EQM como uma “prova” da sobrevivência da alma são pessoas que são qualquer coisa, menos neurologistas. Ou seja: são como jogadores de hóquei no gelo opinando sobre jogadas de xadrez. Os neurologistas mesmo, ou seja, os que estudam a área do cérebro, quase nunca se preocupam em escrever livros ou defender as EQM – na verdade, a grande maioria deles as ignora completamente.

Um artigo escrito por um médico chamado Alex Likerman, publicado originalmente no Happiness in this World e traduzido para o português pelo site Ceticismo Aberto discorre sobre as EQM e refuta a tese de que elas sejam uma prova cabal da sobrevivência ou mesmo existência da alma. Ele escreve:

«Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, é provável não apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?

Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas apenas porque milhões de pessoas já viveram EQMs, isso não significa que a explicação mais comumente aceita para elas – que almas deixam os corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – esteja correta.

Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., “a vida após a morte é real”) do que como resultado da experiência em si. Acontece que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.

Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente será causado). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.

A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson descobriu em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele descobriu que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é localizado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luzes, sensações fora do corpo e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.

A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel, tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguíneo dos olhos.

Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada têm a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se de anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).

Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes conscientes no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.

Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando variava a corrente e a localização do estímulo, podia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!

Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou-se e mudou de posições.

Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vêm de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que adormeciam, sugerindo fortemente que a imagem que viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída em sua memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada, esta permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.

Em suma, embora longe de estar provada como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita»

Como vemos, a ciência já é capaz de explicar cientificamente as EQM sem apelar para a resposta fácil de que “é uma alma saindo do corpo”. E mesmo que ainda não tenhamos todas as respostas para tudo, isso não significa que tenhamos que apelar para a “alma” como a resposta. Isso porque a ciência é um campo que está em constante desenvolvimento; nós sabemos mais hoje do que sabíamos ontem, e conheceremos mais amanhã do que conhecemos hoje.

Todas as evidências científicas apontam causas racionais e não espirituais para as EQM, e mesmo que nós não tenhamos todas as respostas hoje não significa que não tenhamos todas as respostas amanhã, nem justifica uma resposta evasiva e supersticiosa. O fato de os homens do passado não saberem o que causava os raios não justificava que a resposta fosse “os deuses”. O fato de não termos certas respostas hoje no campo da neurologia não justifica que a resposta seja “a alma”.


2. Sob uma perspectiva espiritual/bíblica

Se algo ainda precisa ser explicado espiritualmente, não há problemas com isso, uma vez que os evangélicos e católicos em geral já aceitam com facilidade que coisas como necromancia e mediunidade, por exemplo, não são “provas” da existência de almas ou espíritos ou vida no além, mas sim de demônios. O que o diabo ganharia com isso? A resposta é simples: reforçar uma crença falsa. O objetivo de Satanás é afastar as pessoas da Bíblia através de confirmações “sobrenaturais” de algo antibíblico, que possa distanciar o homem de Deus.

Se cremos que de fato a imortalidade da alma é a primeira mentira de Satanás, presente desde o Jardim do Éden, e que o “certamente não morrerás”(Gn.3:4) é seu lema principal, então é óbvio que ele vai empregar todos os seus esforços para tentar validar esta crença, seja por meios “bíblicos” (deturpando passagens bíblicas isoladas) ou por meios “extra-bíblicos” (fazendo parecer que existe vida fora do corpo). Se o diabo está comprometido com a crença na imortalidade da alma, é ele quem se encarga de dar continuidade e validade à lenda. É por isso que existem centros espíritas com evocação de mortos, é por isso que existem várias visões marianas em tudo quanto é lugar, é por isso que existem milagres em seitas e é por isso que existem as EQM.

O problema é que a esmagadora maioria das pessoas tem extrema facilidade em aceitar o fato de que espíritos malignos estão presentes em coisas como mediunidade, porque crescemos aprendendo isso. E os evangélicos também não vêem problema em pensar o mesmo sobre as “aparições” marianas, pela mesma razão. Mas, paradoxalmente, temos uma enorme hesitação em aceitar que o mesmo princípio se aplica às EQM, isso porque fomos educados com a crença na imortalidade da alma, que com o tempo vai fazendo com a nossa cabeça o que chamamos de tradição.

A dificuldade reside no fato de que derrubar algo que já chegou ao status de tradição é extremamente difícil, ainda mais se o indivíduo em questão for alguém fechado à verdade, que vive dentro de uma bolha. Por causa desta tradição, não usamos do mesmo critério quando pensamos nas EQM, porque parece a princípio absurdo que o demônio esteja envolvido em algo que nós aprendemos que é verdadeiro, embora seja fácil demais acreditarmos que ele esteja envolvido em algo que nós aprendemos que é falso.

Se ele pode aparecer mentalmente em um médium, o que impediria ele de aparecer mentalmente em uma pessoa comum, fazendo-a pensar que viu coisas? Por que a lógica que vale para um caso não vale para outro? Se tivéssemos sido criados desde sempre contra a crença imortalista, a aceitação de que o que ocorre nessas visões mentais é relacionado ao demônio seria muito mais fácil, até porque a mesma razão pela qual o demônio atua em um caso é também a razão pela qual atua no outro: validar uma crença falsa, deixando em dúvida o que consta na Bíblia. Para isso bastaria que o demônio entrasse na mente do indivíduo da mesma forma que entra na mente de um médium e que lhe passasse um quadro mental em que a pessoa “se vê” em um Paraíso.

Mas há ainda muitos outros problemas com as EQM que, se fossem levados em consideração, destruiria o Cristianismo por completo. Em primeiro lugar, é notável que na esmagadora maioria das vezes a pessoa que experimenta uma EQM se vê no Céu, e não no inferno. Existem algumas raras exceções, é verdade, mas são poucas. Pelo menos 99% dos pacientes dizem se ver em um Paraíso. O problema é que estes dados confrontam abertamente o que a Bíblia tem a dizer a respeito. Segundo Jesus, a maioria se perderá, e apenas uma minoria se salvará. Ele disse:

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram"(Mateus 7:13-14)

“Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, serão poucos os salvos?’ Ele lhes disse: ‘Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão’” (Lucas 13:23-24)

Biblicamente, são poucos os que se salvam, e são muitos os que se perdem. Nas EQM, em contraste, ocorre que são muitosos que se salvam, e são poucos os que se perdem. Se as EQM realmente retratam uma realidade espiritual, devemos questionar seriamente o que Jesus disse nos evangelhos, e confrontar o ensino bíblico pela “realidade” das EQM. Devemos escolher entre ficar com os relatos de EQM ou com Jesus. Não há meio-termo. Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque a maioria das pessoas pensa que irá morar no Céu, e não no inferno.

Em segundo lugar, todas as experiências relatadas trazem resultados conflitantes não apenas entre si, mas, principalmente, com a Bíblia. Os relatos são tudo aquilo que deveríamos esperar caso tudo fosse fruto da mente humana: o muçulmano se vê no Paraíso islâmico das sete virgens; o espírita se vê no “mundo dos espíritos” de Alan Kardec; o católico é recepcionado por algum santo na portaria do “Céu”; o hindu se vê no seu tipo de “Paraíso”, e assim por diante. É impressionante notar que não há similaridade nenhuma nos relatos, o que aconteceria caso as EQM fossem reais (neste caso, todas as pessoas estariam descrevendo o mesmo Céu dos cristãos imortalistas ocidentais!).

O Dr. Sammuelle Bacchiocchi, em sua clássica obra “Imortalidade ou Ressurreição?”, escreveu:

“Karlis Osis e Erlendur Haraldsson avaliaram os relatos de mais de 1.000 experiências de quase-morte nos EUA e Índia. Descobriram que a visão dos pacientes hindus era tipicamente indiana, enquanto a dos americanos era ocidental e cristã. Por exemplo, uma mulher indiana de formação universitária teve a experiência de ser conduzida ao céu sobre uma vaca, enquanto um paciente americano que havia orado a São José encontrou o seu santo padroeiro na experiência. Tais relatos sobre experiências de quase morte refletem as crenças pessoais dos pacientes. O que experimentaram no processo de morrer quase certamente condiciona-se a suas crenças pessoais”

É por isso que até hoje nunca houve um médico, cientista ou neurologista que se convertesse ao Cristianismo após analisar os relatos de EQM: porque esses relatos apenas confirmam as crenças pessoas de cada um, seja a pessoa budista, hinduísta, judeu, católico, protestante, espírita, etc. Não me surpreenderia se um dia algum ateu morresse e relatasse uma EQM onde se viu com Richard Dawkins, seu ídolo máster! (Isso infelizmente não é possível porque Dawkins ainda está vivo. Mas espere só alguns anos!).

Se tomássemos como verdadeiras provas da imortalidade da alma os relatos de EQM, não seríamos apenas imortalistas: seríamos relativistas religiosos, daquele tipo que alega que todos os caminhos levam a Deus e que todas as religiões são igualmente verdadeiras. Perceba a ironia aqui presente: o mesmo argumento que o imortalista usa contra o mortalista para validar a crença na imortalidade da alma também poderia ser igualmente usado pelo relativista convencer o imortalista sobre o relativismo religioso! Os dois teriam o mesmo peso, porque partem da premissa de que as EQM são verdadeiros acontecimentos do pós-morte. Naturalmente, o imortalista cristão não faz isso – ele simplesmente faz de conta que todos os relatos de EQM no mundo todo só fazem menção ao Céu cristão e da sua religião em particular.

Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque as pessoas pensam que o Céu da sua religião é o verdadeiro, e não o Céu das outras religiões.

Em terceiro lugar, se os relatos de EQM são uma prova da sobrevivência da alma, então teríamos que mutilar a Bíblia na questão do juízo. Isso porque o autor de Hebreus é claro ao dizer que depois da morte segue-se o juízo (Hb.9:27), mas em absolutamente nenhum relato de EQM o paciente diz ter ido ao juízo! Ninguém se viu diante de um julgamento; ao contrário, todos se viam no Céu direto. Mais uma vez somos forçados a escolher entre o que as EQM dizem e o que a Bíblia diz, que é isso:

“O homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo(Hebreus 9:27)

O autor de Hebreus não diz que o homem morre uma vez e depois disso se encontra no Céu com os anjinhos e ali reencontra a vovozinha e São Pedro com as chaves do céu; ao contrário: ele explicitamente diz que o acontecimento que se segue à morte é o juízo. Quantas pessoas que relataram EQM se viram no juízo? Nenhuma que eu saiba! Isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque as pessoas em geral não estão familiarizadas com a crença bíblica de que após a morte vem o juízo. Elas pensam que vão pro Céu direto.

Em quarto lugar, como o próprio nome afirma por si mesmo, as “experiências de quase morte” não são experiências de pós morte. Para ser claro: aquelas pessoas não tinham morrido ainda. O que o imortalista fanático quer nos fazer acreditar é que a alma da criatura saiu do corpo dela antes mesmo da morte corporal! Isso é fantástico! Na Bíblia não há sequer uma única passagem que diga que a alma sai do corpo na morte, mas esses imortalistas vão além, e chegam ao cúmulo de dizer que a alma sai do corpo antes mesmo da morte!

Isso se parece muito com aquela estorinha que saiu na internet há algum tempo atrás (e para toda fofoca de internet tem sempre um idiota que acredita), que mostrava uma foto em que a tal “alma” do falecido é fotografada saindo do corpo de um paciente. (Depois provaram que a foto era uma falsificação barata. Que surpresa.) Mas como que a alma teria sido fotografada se ela é imaterial, e por esta mesma razão não pode ser vista por olhos humanos ou sair por aí em um álbum de fotos? Se a alma é imaterial, ela não pode ser fotografada. Então, se foi fotografada, não é a alma. Da mesma forma: se a alma só deixa o corpo na morte (conforme a crença imortalista tradicional), ela não sai antes da morte. Então, se algo “saiu” antes da morte, não é a alma.

Em quinto lugar, há outro problema fatal para os “teólogos da EQM”: o fato de milhões e milhões de pessoas terem passado pelo estado de “quase morte” e não terem tido nenhuma história para contar. Há até casos documentados em que pessoas morreram, voltaram à vida e a primeira coisa que vieram importunar, como não podia ser diferente, é “o que viu lá”. E a resposta foi somente: “nada”. Não havia nada para contar. Nenhuma historinha, nenhum anjinho, nenhum Satã no quinto dos infernos, nenhum porteiro no Céu, nenhuma luz no fim do túnel, simplesmente nada. Isso saiu há anos atrás em fóruns adventistas, mas eu fiz questão de não colocar isso como argumento no livro, cujo propósito é estritamente bíblico e histórico. Porém, para os que creem nas EQM, perguntaremos: aquelas pessoas que não tiveram nada a contar é porque não tinham alma? Será que o espírito delas não estava funcionando direito? Será que elas tiveram uma “amnésia celestial”?

Nada disso. A verdade é que isso seria totalmente previsível caso as EQM fossem mesmo somente o resultado da mente do indivíduo, porque há pessoas que não creem em nada depois da morte, e elas estão menos propensas a se verem em algum lugar depois de morrer.

O Dr. Bacchiocchi foi muito oportuno ao dizer, no mesmo livro recém mencionado, que:

“A Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11), mas nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. Lázaro, que foi trazido à vida após estar clinicamente morto por quatro dias, não trouxe qualquer relato de emocionantes experiências fora do corpo. A razão para isso é simples: a morte, segundo a Bíblia, é a cessação da vida da pessoa inteira, corpo e alma. Não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurreição. Os mortos repousam inconscientemente em suas sepulturas até que Cristo os chame no glorioso dia de Sua vinda”

Não é formidável observar que a Bíblia teve todas as oportunidades do mundo para relatar uma “EQM”, uma vez que teve nada a menos que sete pessoas que de fato morreram e poderiam ter contado um monte de historinhas, mas que, curiosamente, nenhuma vez relatou alguma “experiência pós-morte” destas pessoas? Não é surpreendente notar que nenhuma delas teve alguma história para contar sobre os dias em que estiveram mortas? Não é curioso saber que os imortalistas correm desesperados em busca de milhares de relatos de EQM, em que os pacientes contam com a maior empolgação suas histórias como se fosse a coisa mais importante do mundo, mas a Bíblia as ignora completamente, mesmo tendo perfeita e oportuna ocasião para fazê-lo?

O resumo deste estudo é que, seja do ponto de vista científico ou espiritual, não há base sólida suficiente para estabelecer as EQM como uma “prova”, ou mesmo como “evidência” de vida após a morte. O que todas as evidências apontam em conjunto é que essas experiências são frutos da individualidade e subjetividade de cada um, e isso explica tudo: explica porquê quase ninguém se vê no inferno, explica porquê ninguém se vê em um juízo, explica porquê todas elas se vêem no Céu da sua própria religião, explica até mesmo porquê que muita gente não passa por EQM nenhuma!

Nós temos todas as evidências necessárias de que isso é meramente fruto da atividade cerebral do indivíduo em seus últimos momentos de vida, só não sabemos perfeitamente como que isto se dá: e é para isso que existe a neurologia, que cada vez mais lança luz nesta área, colocando os teóricos da EQM com cada vez menos espaço, tendo que recuar cada vez mais. O que nós sabemos é que não precisamos da “alma” para explicar as coisas e seguir adiante. Os teóricos da EQM precisam se agarrar à explicação fantasiosa e irracional para sustentar sua crença em uma alma imortal; nós precisamos apenas deixar que a ciência tome o seu caminho, que os neurologistas sigam o seu curso e que a Bíblia nos direcione em toda a verdade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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21 de fevereiro de 2015

Mais um argumento contra a existência de uma "alma imortal"


Sam Harris é um dos ateus refutados em meu livro “Deus é um Delírio?”, mas, como eu explano no livro, ele é um dos únicos intelectualmente honestos, que tem algumas coisas boas a oferecer. Em primeiro lugar, ele é um dos únicos ateus que não é esquerdista – o que é realmente raro de se ver. Em segundo lugar, ele é um defensor de Israel na questão da Palestina, e possui um excelente podcast intitulado "Por que eu não critico Israel", que foi parcialmente reproduzido em meu livro. Em terceiro lugar, ele é um dos únicos neo-ateus que não colocam o Cristianismo no mesmo bolo do islamismo quando faz alusão aos crimes cometidos em nome da fé no passado e no presente. E agora, eu vejo que ele tem também mais um argumento contra a existência da “alma” presa dentro do corpo, que é um conceito platônico e anticristão que, infelizmente, foi mais tarde admitido pela Igreja da época. Abaixo segue o vídeo e a legenda:


“Se for verdade que a consciência está rodando como um programa no cérebro e simulado pelo ectoplasma ou outra coisa que não entendemos e que possa se separar do cérebro na morte, isso seria parte do nosso crescente conhecimento científico do mundo se pudéssemos descobrir isso, e existem muitas maneiras de descobrir se isso é verdade. O problema é que existem razões muito boas para pensar que isso não é verdade. E sabemos isso agora, com 150 anos de neurologia, que onde você lesiona certas áreas do cérebro as faculdades são perdidas. E não é que com os danos cerebrais, mesmo com suas almas perfeitamente intactas, eles simplesmente não consigam soltar as palavras? Cada parte da sua mente pode ser danificada lesionando seu cérebro. Você pode parar de reconhecer rostos, pode parar de reconhecer nomes de animais mas ainda reconhecer nomes de ferramentas, sua fragmentação no jeito como nossa mente é dividida no nível cerebral não é nada intuitiva, e já se sabe muito sobre isso. E o que está sendo pedido para que consideremos é que você lesiona uma parte do cérebro e alguma coisa sobre a mente e a subjetividade é perdida, você lesiona outra parte e mais coisa é perdida, e, ainda assim, se você danifica a coisa inteira na morte, nós podemos nos levantar fora da mente com todas as faculdades intactas, reconhecer a vovó e falar em inglês

Como todos podem ver, há uma incoerência notável aqui. De um lado, os imortalistas, cristãos ou não, que estão sempre afirmando vez após vez que a mente e o raciocínio é atribuição da alma, o que é consenso unânime entre os dualistas e tricotomistas. Eles até chegam a fazer gráficos bonitinhos para mostrar isso, vejam só que simples:


Do outro lado, temos os fatos concretos, reais e científicos, que refutam a tese de que a consciência seja atributo do espírito ou que a mente seja função da alma, porque quando um corpo sofre um acidente estas funções são afetadas, mesmo que a tal “alma” ou o “espírito” permaneçam perfeitamente intactos. Se a consciência estivesse relacionada à alma, as pessoas só teriam uma lembrança afetada caso a alma fosse afetada, e não o corpo, que supostamente desempenha outra função. E se a mentalidade estivesse relacionada à alma, isso nos levaria à abominável e absurda tese de que as crianças que nascem com deficiência mental têm defeito na alma, como se Deus lhes tivesse dado uma alma defeituosa.

É também por meio da crença de que a personalidade está relacionada à alma que surgem teses mirabolantes e incautas como a ideologia de gênero ensinada nas escolas públicas, segundo a qual alguém pode ter “corpo” de homem mas “alma” de mulher, o que justificaria a mudança no gênero de “masculino” para “feminino”. Mas se a personalidade não está relacionada à alma, então o gênero é unicamente dependente do corpo – tendo um par de cromossomos XY, portanto, seria considerado “homem” e ponto final.

O fato é que todas as evidências consensualmente indicam que nem a consciência, nem a mentalidade e nem a personalidade são atributos da alma/espírito (no conceito platônico dos mesmos). O que regula o processo de pensamentos é o cérebro, e todos os fenômenos que parecem contradizer isso já estão sendo refutados pelos neurologistas, à medida em que a neurologia vai avançando e o nosso conhecimento sobre o mesmo vai progredindo. Curiosamente, a Bíblia também declara que “na morte os pensamentos perecem (Sl.146:4) – ou seja, eles simplesmente acabam, viram nada, ao invés de dizer que ao morrer os pensamentos continuariam existindo pois seria supostamente uma função da alma que não morre, e não do corpo que morre.

Para os imortalistas, a alma é que processa os pensamentos, e na morte os pensamentos perecem (Sl.146:4), mas a alma não perece, ela continua existindo. Ainda segundo os imortalistas, a consciência é função da alma, um acidente e a pessoa já fica inconsciente, mas um acidente fatal (morte) mantém a consciência intacta e perfeita. Se isso não é completamente antilógico, antibíblico e completamente irracional, eu sinceramente não sei o que é.

Mas os imortalistas, como sempre, tem suas “explicações”, que só servem para complicar as coisas ainda mais. Certo imortalista respondeu ao argumento dizendo:

“O fato de um cérebro lesado não poder mais apresentar determinadas respostas ou não mais dirigir determinadas tarefas, não seria prova de que não possa existir uma alma. Um grande piloto de automóveis, quando o freio quebra, não deixa de ter a ‘capacidade’ (subjetividade) em dirigir, só o ‘aparelho’ (concreto) para que a sua faculdade se expresse”

O argumento seria interessante se não tivesse problemas lógicos e bíblicos. Ele não resolve nada do ponto de vista lógico, porque na analogia trabalhada é ridículo afirmar que um piloto tem problemas para dirigir quando parte do carro quebra, mas que ele não tenha problema para dirigir caso o carro quebre completamente. O fato é que ele não conseguiria dirigir com o carro parcialmente quebrado, da mesma forma que não conseguiria dirigir com o carro totalmente quebrado. A negação desta premissa nos leva a problemas teológicos muito sérios. Ela nos caminharia ao platonismo e ao gnosticismo, que afirmam que o “corpo” (material) é do mal, enquanto a “alma” (espiritual) é do bem.

O problema é que isso confronta absolutamente tudo o que conhecemos como noção bíblica e cristã. Biblicamente, o corpo não é como um carro enferrujado que impede que um piloto perfeito consiga dirigir. Em outras palavras, não existe a noção de que o “carro” (corpo) esteja ali simplesmente para dificultar ou desgraçar a vida do “piloto” (alma). Pense no quanto isso soa ridículo: uma alma que consegue sobreviver perfeitamente bem fora do corpo é como um piloto que consegue “pilotar” perfeitamente bem fora do carro!

Se o piloto consegue pilotar bem melhor sem seu carro (porque o carro supostamente só o prejudicaria pelos freios falhos que impedem que o piloto dirija perfeitamente), então por que ele usa o carro? Se a alma consegue sobreviver bem melhor sem seu corpo (porque o corpo supostamente só o prejudicaria pelas lesões que impedem que a alma tenha perfeita memória), então por que Deus criou o corpo? Por que não nos criou como alma pura (sem o mal do corpo)?

O corpo, nessa perspectiva, seria somente um fator negativo, algo que impede a alma de ser livre, algo que nos confina a uma matéria frágil e falha, uma verdadeira e literal “prisão”, que está ali somente para dificultar nossa vida, impedindo que a nossa alma seja livre e corra para a plenitude desta liberdade. Isso nos leva em cheio ao platonismo e ao gnosticismo, que afirmam precisamente isso: o corpo é a prisão da alma, e a morte é a sua libertadora. Os primeiros cristãos empregaram todos os seus esforços para refutar esta doutrina segundo a qual o corpo é uma prisão (mal), antes que o sincretismo helenista entrasse na igreja e os filósofos cristãos unissem a teologia cristã com a concepção grega.

A razão pela qual os primeiros cristãos lutaram tanto contra este conceito é porque biblicamente é absurdamente ridículo esse dualismo de “corpo-mau vs alma-boa”, de “corpo-prisão vs alma-livre”. Ao invés de a Bíblia retratar o corpo desta forma, ela mostra algo bem diferente: o corpo é o templo do Espírito Santo, e não a prisão da “alma imortal” (1Co.6:19). Essa noção era um verdadeiro escândalo inaceitável para os filósofos gregos. Como poderia o Espírito de Deus habitar em uma prisão, em algo mau, ao invés de habitar na “alma pura”? Como poderia Paulo dizer que era o corpo, e não a alma, o “santuário de Deus” (1Co.6:19)?

O corpo, ainda segundo o apóstolo Paulo, tinha que ser conservado “puro e irrepreensível até a volta de Jesus” (1Ts.5:23), juntamente com a alma e o espírito (1Ts.5:23). Essa noção também contrariava gritantemente os filósofos pagãos helenistas. Para eles, o que tinha que ser conservado irrepreensível era somente a alma, pois o corpo, como uma prisão maléfica, não tinha nada de bom a ser “preservado”. Mas Paulo não apenas fala do corpo ser santificado, mas também da possibilidade do espírito se contaminar (2Co.7:1), o que era o cúmulo do absurdo na visão dualista grega que contrastava "corpo imperfeito" e "alma perfeita", a qual não podia se contaminar.

Para piorar, a teologia cristã ainda falava de ressurreição da carne (Mt.22:31; 1Co.15:13; 1Co.15:42). Mas para que raios iria reviver algo que antes só estava ali para prender a alma? Por que iria ressuscitar o corpo, se a alma pura e liberta já estaria vivendo perfeitamente bem no Paraíso, neste meio-tempo? Esta concepção só faria sentido se nós precisássemos do corpo para sobreviver, o que também contraria a concepção platônica de que a alma vive fora do corpo, i.e, de que não precisa dele para existir.

Para acabar de uma vez, Jesus também fala sobre o corpo estar “cheio de luz”(Lc.11:34) e Paulo fala sobre pecar contra o próprio corpo (1Co.6:18) e sobre glorificar a Deus com o nosso corpo (1Co.6:20), isso sem falar da alegoria da Igreja como o corpo, e não a “alma” de Cristo (1Co.12:27), e da metáfora de comer o corpo, e não a “alma” de Cristo na ceia (Mc.14:22). Essas coisas escandalizavam os pagãos, pois eles tinham muito fixo em mente a doutrina de que a alma está presa em um corpo, exatamente a mesma que é pregada hoje em dia nos púlpitos das igrejas católicas e da maioria das igrejas protestantes.

Essa perspectiva totalmente distinta entre os cristãos e os gregos também se fazia presente na questão da morte. Para os gregos, a morte era vista sempre com bons olhos, como sendo o momento em que nos veríamos livres deste corpo corruptível para finalmente vivermos em plenitude na forma de alma incorpórea e perfeita. O renomado teólogo Oscar Cullmann chegou até a fazer um paralelo muito interessante entre a morte de Sócrates (o número um entre os gregos) e a morte de Jesus (o número um entre os cristãos), em seu livro "Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?". Enquanto o filósofo grego morria em alegria, esperando e desejando o momento da morte, o Messias cristão morria em agonia, “derramando sua alma na morte”(Is.53:12), chegando até a suar “grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão” (Lc.22:44).

Isso porque, biblicamente, a morte é o último inimigo a ser vencido, e não a libertadora da “alma imortal” (1Co.15:26). A morte não era uma “amiga”, mas uma inimiga – uma adversária que precisava ser combatida a todo custo. Este talvez seja o contraste mais gritante entre a teologia platônica e a cristã. De um lado, uma morte que ajuda a alma a se libertar do corpo; do outro, uma morte que é uma inimiga a ser vencida. Até mesmo quando Paulo “desejou” a morte em Fp.1:23 e 2Co.5:8, ele estava vislumbrando a ressurreição, o momento em que se veria com Cristo, e não a morte em si (vejam este artigo, que trata sobre isso).

Em síntese, a doutrina cristã sobre a alma e a natureza humana como um todo era tão absurda para os gregos porque contrariava todos os seus conceitos de imortalidade da alma. Enquanto eles criam no mesmo que foi proposto na analogia acima feita pelo imortalista (em vermelho), o que os levava diretamente à crença do corpo como uma prisão imperfeita e temporária para uma alma perfeita e eterna, os cristãos contrariavam tudo isso com afirmações categóricas do corpo como um templo ao invés de uma prisão, de habitação do Espírito Santo ao invés da alma, de algo que tem que ser conservado ao invés de desprezado, e de algo tão importante ao ponto de ressurgir na ressurreição e fazer da morte uma inimiga ao invés de uma amiga.

Os imortalistas se vêem em um verdadeiro dilema: de um lado, estão compelidos a negar as conclusões de Sam Harris no vídeo, o que os levaria ao outro lado do ringue, onde se veriam forçados a sustentar que as funções da alma não “funcionam” em algumas situações por culpa do corpo. Mas, por outro lado, ao afirmarem isso, caem em outro problema ainda mais sério e grave: um problema de cunho teológico, decorrente da união com os ensinos platônicos e gnósticos em seus conceitos totalmente antibíblicos em relação ao dualismo de corpo e alma. Ou eles são derrubados pela lógica, ou pelas Escrituras, ou por ambos.

É por isso que a esperança cristã em relação à realidade futura nunca se baseou na ilusão de possuir uma “alma imortal”, a qual os apóstolos já sabiam – há muito tempo antes de Harris – que não existia. Qual era, então, a esperança dos cristãos?

Aqui vai uma dica:

“Não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamentenossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. Pois nessa esperança fomos salvos” (Romanos 8:23-24)

“Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossas doze tribos esperam que se cumpra, cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa desta esperança, ó rei, que estou sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” (Atos 26:6-8)

“E tenho em Deus a mesma esperançadesses homens: de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos” (Atos 24:15)

“Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos!” (Atos 23:6)

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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18 de fevereiro de 2015

Os zumbis contra o livre exame


Ontem um amigo me perguntou: “O que é o livre exame?”.

Boa pergunta. Estamos sempre defendendo o livre-exame, mas poucas vezes definindo o que ele é. Isso é ainda mais particularmente importante uma vez que vemos inúmeros militantes católicos pipocando na internet com textos risíveis que distorcem grosseiramente o significado real do “livre exame” protestante, aquele tão defendido pelos reformadores. Para os autoproclamados apologistas católicos de plantão, o “livre exame” significa isso:

• O direito de cada protestante interpretar a Bíblia do jeito que quiser e achar que está certo.

• Algo que torna cada protestante seu próprio “papa”, ou seja, alguém que tem as “interpretações infalíveis” para cada questão.

• O princípio pelo qual todo protestante se considera “inspirado pelo Espírito Santo” para fazer milhares de interpretações diferentes de um mesmo texto bíblico.

É lógico que tudo isso são espantalhos, ou seja, caricaturas feitas pelos papistas com o único intuito de deformar e distorcer o sentido real de livre exame, tornando-o mais conveniente para as suas próprias refutações, além de mais distante de um senso comum de aceitação lógica. O livre exame evangélico, no entanto, não se assemelha a nenhum destes três aspectos amplamente divulgados pelo debatedor romanista. Como podemos, então, definir o livre exame, em seu sentido original e puro? Embora haja diferentes definições, a minha definição é a seguinte:

• Livre exame é o princípio pelo qual nós (cristãos) somos livres para examinar os textos bíblicos, comparando as mais diversas opiniões e interpretações de exegetas, teólogos e sacerdotes ao longo da história, e concluir por nós mesmos qual visão é a mais consistente, seguindo a nossa consciência individual.

Talvez essa definição tenha ficado um pouco confusa. Vamos trabalhar, então, com analogias que tornem este sentido mais claro. Pensemos na política. Eu amo política. Só não escrevo artigos sobre política atualmente porque existem milhares e milhares de escritores de todas as mais diferentes correntes políticas, cada qual defendendo seu próprio ponto de vista, razão pela qual eu dou prioridade à teologia, que carece de mais comentaristas e explanações. No entanto, imagine se alguém considerasse a política como algo “simples”, do tipo: basta concordar com Karl Marx e segui-lo em tudo o que ele escreveu.

Imagine que essas pessoas glorifiquem Marx e o coloquem como o Supra-Sumo da política, e por fim o dotem de “infalibilidade” política, dizendo que ele não pode errar em nada que seja de matéria política. O que aconteceria? Simplesmente que ninguém mais teria liberdade para pensar por si mesmo, ou para questionar Marx em algum ponto. Ele seria obrigado a concordar com Marx em tudo, até mesmo em seus mínimos detalhes. O que Marx disse está dito, e você é forçado a concordar com ele em tudo, limitando-se ao papel de papagaio de Marx. Certamente o que resultaria disso seria que, em pouco tempo, haveria milhões de pessoas dizendo que as outras devem “perecer no holocausto revolucionário”[1], como Marx dizia.

Para não dizerem que eu estou puxando o saco da direita, pensemos naquele que é hoje considerado o maior ícone da direita no Brasil: Olavo de Carvalho. Imagine se todos os direitistas deste país fossem obrigados a concordar com Olavo em tudo. Imagine se eles considerassem suas falas, vídeos, artigos e livros como “infalíveis”, e tivessem que engolir cada palavra dita pelo filósofo ao invés de comparar as mais diversas opiniões em cada aspecto e só reter para si aquilo que achar melhor. Certamente em pouco tempo haveria milhões de pessoas crendo que a Pepsi usa células de fetos abortados[2] e que não há provas contra o geocentrismo[3] – duas coisas já afirmadas por Olavo.

O ponto em questão é que o mais natural, lógico e racional obtido através do bom senso não é de que haja uma pessoa humana infalível aqui na terra e que toda a verdade esteja com ela, mas sim que cada pessoa é livre para analisar e avaliar as mais diferentes correntes políticas e os mais diversos pensadores políticos e que, ao comparar o que cada um disse, possa filtrar para si o que há de melhor. Ele vai ler diversos teóricos, filósofos e políticos até formar a sua opinião pessoal. E o detalhe é que essa opinião pessoal será nada a menos do que aquilo que a consciência individual do indivíduo lhe diz ser a verdade. Ele não se restringe a seguir a consciência de outro; ao contrário, ele segue a sua própria consciência, aquilo que lhe parece mais convincente e verdadeiro. Sua consciência não lhe é roubada.

Incontestavelmente, todos nós seguimos nossa consciência individual em nosso cotidiano – até mesmo os católicos mais fanáticos. Se fazemos parte de um júri, nós observamos atentamente os argumentos de ambos os lados – do advogado e do promotor de justiça – e seguimos nossa consciência individual para decidir qual dos dois lados foi mais convincente, cuja condenação (ou absolvição) parece ser a mais razoável. Um juiz de futebol tem que seguir sua consciência para decidir, em uma fração de segundos, se um lance foi falta ou não, de acordo com as regras do esporte.

Nós também seguimos nossa consciência para decidir o que seremos na vida. Se você é bom em matemática, é muito provável que você não preste vestibular em letras, porque sua consciência individual lhe diz que você teria mais chances de se dar bem no futuro se seguisse aquilo que sabe fazer melhor. E quando estamos fazendo o vestibular, ao invés de colar a resposta do aluno ao lado, nós seguimos o que a nossa consciência individual nos diz que é a resposta certa (e se a nossa consciência não disser nada, chutamos!).

Também apelamos à nossa consciência e a usamos nas coisas mais simples do dia a dia: se sabemos que pode chover, trazemos um guarda-chuva antes de sair à rua; se temos um compromisso importante pela manhã, colocamos um despertador ao invés de contar com a sorte; se vemos alguém vestido com camisa do Corinthians ou do Flamengo indo em direção ao nosso carro enquanto o farol está fechado, pisamos firme no acelerador. Você usa e segue o que a sua consciência lhe diz em cada segundo da sua vida. Você a usa na política, a usa em julgamentos, a usa em avaliações, a sua em situações corriqueiras. Você nunca age na contramão da sua consciência para servir a consciência de outro.

Bem, nem todos.

Existem, para além dos seres humanos normais, os zumbis. O que são zumbis? Zumbis são mortos-vivos, seres privados de vontade própria, sem personalidade. Os zumbis não seguem sua própria consciência individual, a qual lhes é arrancada e programada para apenas seguir certos comandos, os quais elas com toda probabilidade do mundo não seguiriam caso pudessem seguir sua própria consciência. Muitos dos pretensos “apologistas” católicos são mortos-vivos, sem livre-arbítrio e com consciência cativa: são como zumbis. Eles podem até permitir que você siga a sua consciência nas mais diversas situações do cotidiano, mas ai de você se fizer a mesma coisa com a interpretação bíblica! Para eles, quando chega na parte bíblica, você tem que cauterizar sua própria consciência e deixar que um outro ser – no caso, um “papa infalível” – pense em seu lugar.

O pior não é que tais zumbis admitam que tenham a consciência cauterizada e pré-programada para não pensar por si próprios nem tomar suas próprias conclusões: o pior é ver que estes mesmos zumbis ainda querem obrigar a nós, protestantes, a sermos zumbis como eles, e a nos dobrar diante da interpretação de uma única pessoa, o papa (ou seu magistério). O protestante é um ser livre para analisar todas as posições políticas e depois formar sua própria concepção política, e da mesma forma é um ser livre para analisar a opinião de todos os teólogos e vertentes religiosas (inclusive papais) e depois seguir sua própria consciência que lhe diz qual é a mais convincente. O papista, por outro lado, é alguém que até segue sua consciência em questões políticas, mas em questões religiosas cega a si próprio e segue a um papa.

Uma das características dos zumbis, na concepção popular e folclórica, é que o zumbi não se contenta somente em ser um zumbi: ele quer morder as pessoas normais e torná-las zumbis como eles. Da mesma forma, o apologista a serviço de Roma não se contenta em destruir e negar sua própria consciência – ele também quer negar o livre exame aos protestantes, coagindo-os a também se curvar à interpretação de uma pessoa só.

É lógico que cada uma destas visões tem sua consequencia. A consequencia do livre exame protestante é a mudança. Isso meramente significa que, ao percebermos que estamos errados em qualquer coisa na vida, simplesmente fazemos aquilo que é o mais óbvio que devemos fazer: mudar. Caminhar para a direção certa. Corrigir o erro anterior. Essa liberdade existe dentro do protestantismo. No início da fé eu cria em coisas antibíblicas que não creio mais hoje – como arrebatamento pré-tribulacional, imortalidade da alma, tormento eterno, maldição hereditária, teologia da prosperidade e confissão positiva – e mudei após uma análise da Bíblia e dos argumentos prós e contra em cada um dos temas. O protestantismo te dá essa liberdade: se você percebe que está errado em alguma coisa, basta consertar os erros, e você permanece evangélico. Você pode estudar posições contrárias e favoráveis, e se necessário pode também mudar, se aperfeiçoar, corrigir seus erros e seguir sua própria consciência. Ou seja: pode ser honesto consigo mesmo.

Mas se eu fosse católico e estudasse a Bíblia, conferindo as posições contrárias e favoráveis, e minha consciência mostrasse que a posição da Igreja em certa questão está errada, eu teria simplesmente que me calar, obstruir minha própria consciência e fazer de conta que todos aqueles erros são verdades, e que não há problema algum nisso. Eu seria reduzido à mera posição de papagaio de papa, de vaquinha de presépio, de um simples soldado sob as ordens de um ditador. Alguém sem liberdade, sem personalidade, sem individualidade, sem consciência individual. Ou seja: um zumbi. Não poderia ser honesto comigo mesmo, a não ser que deixasse que outra pessoa pensasse em meu lugar – e neste caso teria que contar com muita sorte para que este alguém fosse mesmo infalível, porque senão...

Em meu artigo "O livre exame católico", eu havia escrito:

“Neste e em outros aspectos, o católico tem uma consciência que lhe aponta uma interpretação como sendo a verdadeira, mas se vê forçado a negar e suprimir sua própria consciência para levá-la cativa à interpretação de outro. Se a instituição romana não diz, deve ficar calado e suprimir sua própria consciência. Deve decidir ficar preso ao invés de procurar a Verdade. E se a consciência dele lhe diz coisa diferente do catecismo, deve suprimi-la ainda mais!”

Contra isso, um católico chamado Gledson Meireles escreveu um artigo de refutação em seu blog, onde complica ainda mais as coisas, dizendo:

“Quando isso acontece, o melhor é orar, ter humildade, pedir mais fé e humildade, estudar, fazer o exame das Escrituras, questionar, estudar mais, etc., e submeter-se à verdade, que não é originada em nós, e não vem pela força do homem, mas de Deus”[4]

Você percebeu?

Enquanto nós (evangélicos) dizemos para mudar quando percebemos que estamos errados em algum ponto, o católico insiste que devamos permanecer no erro, mesmo sabendo que estamos errados (em nossa consciência individual). Então, para ele, se nos vemos nesta encruzilhada é melhor fazer de tudo – orar, ter humildade, pedir mais fé, estudar mais (como se o indivíduo em questão ainda não fizesse nada disso!) – menos abandonar a “posição oficial da Igreja”!

E para provar que o apologista católico é mesmo um zumbi, Gledson prossegue dizendo:

“Não, caro Lucas. Se a instituição não diz, talvez a contribuição daquele estudioso pode suscitar um pronunciamento, aprovando ou não aquilo que foi dito. Até então, todos estão livres para apresentar suas opiniões. Uma vez definido algo, todos devem acatar. Obviamente, não de forma mecânica e contra consciência, mas responsável e conscientemente”[5]

Eu fiz questão de sublinhar o “até então”. Para eles, nós somos “livres” para seguir nossa consciência até que surja o posicionamento oficial de uma outra pessoa (o papa) dizendo o que nós devemos crer e no que não devemos crer. Depois disso, temos apenas que nos curvar à opinião do papa, mesmo sabendo que ela está errada, assim como Gelileu teve que “aceitar” que sua teoria era falsa quando sabia que era verdadeira. No protestantismo, você é livre do início ao fim. No catolicismo, você é livre até que o papa fale alguma coisa sobre o tema. Depois disso, você vira um zumbi, cuja única alternativa que tem é a submissão ao papa, e dane-se a sua consciência individual!

É como o inquisidor Macabeus já dizia em um de seus vídeos hilários:

“Jamais o católico seguirá suas opiniões próprias sobre religião. Católico segue a igreja [romana]”

Em outras palavras, ainda que a consciência individual do católico lhe diga que ele está errado em um certo ponto, ele não pode mudar e corrigir seu erro, ao contrário: tem que continuar acreditando mesmo naquilo que sua consciência lhe diz que é errado, porque o que vale é a opinião do papa e não a dele! Você sabe que algo não está certo, mas tem que fazer de conta que está certo. Isso é o catolicismo. É daí que surgem todas as heresias: quando você consegue manipular alguém ao ponto de fazê-lo crer que a Igreja está certa mesmo quando ele pensa que a Igreja está errada. Quando você consegue violar a liberdade de consciência do outro, a lavagem cerebral está concluída e ele virou mais um zumbi em defesa da “causa”. É daí que surgem monstros morais como Macabeus, Edmilson e tantos outros “militantes”.

Tudo o que os falsos profetas querem é que você creia neles, ao invés de seguir a razão. Todo o objetivo da lavagem cerebral é um só: fazer com que você abdique ao direito de pensar e deixe que eles pensem em seu lugar. Fazer com que você pense que está certo mesmo quando acha que está errado. Fazer com que você se veja como um verme pobre, miserável e totalmente carente e desprovido de qualquer capacidade de interpretação bíblica e de análise de argumentos, ao mesmo tempo em que ele se diz o conhecedor de toda a verdade, o cara, o infalível, o intérprete universal, o bispo dos bispos e o Cabeça de toda a Igreja. Quando ele consegue te convencer disso, ele rouba a sua consciência individual e o torna presa fácil de qualquer falsa doutrina ou heresia que invente.

Isso é o que levou as pessoas a aceitarem cegamente a inquisição, as cruzadas, a venda de indulgências e de relíquias sagradas na Idade Média, porque achavam que a Igreja estivesse certa em qualquer coisa que fizesse, e que eles não eram nada para contestá-la. Você coloca na cabeça delas que elas são nada e você é tudo, e pronto: consegue tudo o que quiser delas. A transformação de pessoas em zumbis segue sempre o mesmo processo. O protestantismo não está absolutamente isento disso, mas conta com a grande e crucial diferença do livre exame, segundo o qual as pessoas podem pensar por si mesmas, analisarem os argumentos de ambos os lados e mudar de opinião quando verem que estão erradas, seguindo sua própria consciência. Isso limita e restringe a atividade dos falsos profetas, porque eles nunca terão um controle absoluto sobre você.

Pense da seguinte forma: o que seria da sua vida se você tivesse que, em todas as coisas, seguir em tudo a opinião de uma única pessoa? O que seria se você tivesse que seguir Marx ou Olavo, como já foi mencionado? O que seria da sua vida se você dependesse sempre de uma única autoridade infalível na política, na medicina, na música, na física, na biologia, na química, na matemática, na literatura, na história e em todas as outras áreas do saber humano? O que seria de você se você não tivesse a capacidade de livre exame em seu cotidiano, em sua vida, em suas escolhas?

Um evangélico pode ler Marx, ler Olavo, ler Trótski, ler Smith, ler teóricos de esquerda, de centro e de direita, e formar sua própria opinião política. Ele não está condicionado à opinião de uma única pessoa. Ele pode inclusive gostar muito de um teórico em especial, sem concordar em tudo com ele. Da mesma forma, o evangélico pode ler a Bíblia e analisar as opiniões e interpretações do pastor, do padre, do patriarca ortodoxo, do papa romano, de vários teólogos e eruditos e formar sua própria opinião sobre um tema religioso a partir daquilo que lhe pareceu mais convincente e razoável, sem ter que se tornar fantoche de ninguém e muito menos bloquear sua própria consciência para seguir a consciência de outro. Na verdade, o evangélico faz para com a religião exatamente a mesma coisa que o católico faz para com todas as outras áreas do saber, menos para com a religião.

Isso sim é o livre exame, o qual os zumbis sempre estarão atacando, porque é a única coisa que podem fazer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1] Marx People’s Paper. April 16, 1853; citado também no Journal of the History of Ideas, Vol. 12, n.1, 1981.
[5] ibid.