25 de dezembro de 2015

“Roma locuta est; causa finita est” (“Roma falou, a causa acabou”). Ou não...


São várias as citações patrísticas adulteradas ou tiradas do contexto pelos papistas, mas nenhuma se compara a Roma locuta est; causa finita est, repetida à exaustão por todos os que nunca leram o sermão em questão de Agostinho e muito menos estudaram o contexto da tal citação (que sequer chega a ser uma citação, mas uma paráfrase em cima da citação!). Vergonhosamente arrancada de seu contexto original, Roma locuta est; causa finita est é usada há tempos para fundamentar o que Agostinho jamais defendeu: a infalibilidade do bispo romano, ou a pretensa “autoridade final” do mesmo.

Antes de ler este artigo, recomendo ao caro leitor a leitura de um artigo do "Conhecereis a Verdade" sobre o mesmo tema, escrito em 2012, disponível clicando aqui. Ele explica melhor e de forma mais detida o contexto tanto da citação em si como também do contexto histórico em que ela se inseria. Confiram também a caixa de comentários do mesmo artigo, onde ele refuta o palhaço católico conhecido como astronauta, que fez um texto ridículo e miserável sobre o tema onde se enrola todo para no final admitir que se trata mesmo de paráfrase e adulterar descaradamente o que dois historiadores protestantes disseram sobre a questão, sem refutar nada do artigo do Hugo.

Para não ficar apenas repetindo aqui o que já foi dito pelo Hugo no artigo dele, recomendo a leitura do artigo dele antes de continuar a leitura do meu. Tendo feito isso, vejamos novamente o que Agostinho realmente disse:

"Já sobre esta causa dois concílios foram enviados à Sé Apostólica, donde também rescritos chegaram. A causa está terminada. Que o erro possa igualmente terminar”

Onde está o Roma locuta est; causa finita est? Em lugar nenhum, apenas se parafrasearmos o texto, como os apologistas católicos fazem. Mas da mesma forma que alguém pode fazer uma paráfrase com “Roma falou, a causa acabou”, também poderia parafrasear dizendo que “dois concílios falaram, e a causa acabou”. É por isso que paráfrase, especialmente quando feita por sujeitos desonestos e sem caráter, é quase sempre uma interpretação tendenciosa e manipuladora daquilo que foi dito por outro. O contexto some, e o “apologista” se sente livre e à vontade para arrancar as palavras que quiser dentre o todo para fazer a lambança necessária.

Isso me lembra muito o texto vergonhosamente adulterado pelo Fakenando Nascimento, onde Cipriano supostamente dizia que “Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica”. A referência indicada é da “Epístola 48” de Cipriano, que não diz isso em lugar nenhum (veja aqui). Mesmo o malandro dizendo que arrancou essa citação do “Hartel” e não do “New Advent”, ela ainda permanece inexistente, visto que não aparece em nenhuma das cartas de Cipriano, independentemente da numeração (veja aqui). A citação mais perto disso e que é geralmente fornecida por outros apologistas católicos vem da Epístola 44 de Cipriano, que diz isso aqui:

"Porque nós, que fornecemos todas as pessoas que navegam daqui com um plano para que possam navegar sem qualquer ofensa, sabemos que os exortamos a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica”

Como vemos, o texto só tem dois probleminhas:

Não fala de "Roma" em lugar nenhum.

Não fala de "trono" em lugar nenhum.

Ou seja: os apologistas católicos inventam uma paráfrase onde Roma é o trono da Igreja Católica, quando na citação original não tem nem Roma e nem trono...

Voltando ao texto de Agostinho em questão, e o analisando perante o devido contexto, o que ele basicamente estava dizendo era que:

• Dois concílios (africanos) haviam sido realizados para tratar a questão (do pelagianismo).

• Esses dois concílios decidiram contra o pelagianismo.

• Os bispos daqueles concílios também enviaram mensagem ao bispo de Roma, inquirindo-o a respeito do pelagianismo.

• O bispo de Roma também ficou contra o pelagianismo.

• Então, a questão foi encerrada.

Note que a questão não foi encerrada simplesmente porque o bispo de Roma disse, mas porque dois concílios e também o bispo de Roma se opuseram ao pelagianismo. Portanto, usar este texto como prova da infalibilidade do bispo romano é tão de má-fé quanto usá-lo como prova da infalibilidade dos concílios africanos locais. Além disso, se a palavra do bispo romano fosse considerada autoridade final e normativa em si mesma, por que raios os bispos africanos teriam todo o trabalho de se reunir em dois concílios para tratar exaustivamente a questão? Bastaria apenas enviar uma carta ao bispo de Roma e pronto – todas as discussões teológicas acabavam em um passe de mágica. Contudo, qualquer um que não seja um completo abestalhado e total ignorante de história patrística sabe que as coisas não funcionavam assim.

Mas, afinal de contas, por que os concílios africanos enviaram a mensagem a Roma? Segundo os pobres apologistas católicos, é porque o bispo romano era um tipo de ser supremo cuja palavra não poderia ser contradita nem a pau, uma espécie de entidade mágica com todas as respostas infalíveis em sua cartola. Todavia, basta um exame simples no contexto histórico para vermos que não há nada mais longe da verdade. O historiador Abbe Guettee, no trecho citado no artigo do Hugo, mostra-nos o porquê que os bispos africanos enviaram carta a Roma, e como isso não tinha absolutamente nada a ver com uma “autoridade final” ou “infalibilidade papal”:

“Os bispos africanos condenaram os erros de Pelágio em dois concílios, sem pensar em Roma ou na sua doutrina. Os pelagianos então expuseram, para opor-se a eles, a alegada fé de Roma, a qual diziam harmonizava-se com a sua. Em seguida, os bispos africanos escreveram a Inocêncio, a perguntar-lhe se a afirmação dos pelagianos era verdadeira. Eles foram levados a isso porque os pelagianos tinham grande influência em Roma. Eles não escreveram ao papa para lhe pedir uma sentença que devesse guiá-los, mas para que pudessem silenciar aqueles que afirmavam que a heresia era mantida em Roma. Inocêncio condenou-a e, portanto, Agostinho diz: ‘Tu fingiste que Roma estava contigo; Roma te condena, tu também foste condenado por todas as outras igrejas, por isso o caso está terminado’. Em vez de pedir uma decisão de Roma, os bispos africanos apontaram ao papa o percurso que ele devia seguir nesta questão”[1]

Em outras palavras, a razão pela qual os bispos africanos mandaram mensagem ao papa Inocêncio não era por pensar que ele fosse investido de uma autoridade máxima intocável e que por isso pedir a opinião dele era imprescindível, mas porque os pelagianos estavam falsamente dizendo que o bispo de Roma era partidário deles, e então os bispos africanos quiseram saber se essa alegação procedia ou não. Essa é a razão pela qual o bispo romano foi notificado, o qual então confirmou que não tinha nenhuma ligação com o pelagianismo e que, portanto, não havia mais nada a se discutir, já que ninguém estava a favor dessa heresia. É incrível e impressionante a capacidade que os apologistas católicos têm de arrancar grosseiramente um texto patrístico de seu contexto, igual eles fazem com a Bíblia. Ou é muita desonestidade, ou é muita burrice.

Para piorar ainda mais a situação dos apologistas católicos, depois de tudo isso ter acontecido e de Agostinho ter dado a questão por encerrada após as decisões dos concílios africanos que condenavam o pelagianismo e a confirmação do bispo romano de que não tinha nada a ver com a heresia, surgiu um novo bispo romano, chamado Zósimo, o qual por sua vez apoiou o pelagianismo(!), contrariando seu antecessor Inocêncio (ao qual os concílios africanos haviam escrito) e exigindo dos bispos africanos a revogação do que eles haviam decidido em seus concílios. Sobre isso, Hugo escreve:

            «O novo bispo de Roma Zósimo desdiz o seu predecessor, põe-se do lado dos pelagianos e incentiva os africanos, com a autoridade da sé apostólica, a retirarem a condenação aos pelagianos. Que fizeram os bispos africanos, com Agostinho incluído? Proclamaram Roma locuta est; causa finita est? Não. Convocaram um concílio em finais de 417 e decidiram manter a sua posição de condenação dos pelagianos, fizeram saber a Zósimo que meteu a pata na poça, e rejeitaram a sua autoridade e as suas conclusões. Como a questão não acabou aqui, em 418 voltou-se a reunir outro concílio em Cartago. O cálculo dos assistentes foi de 212 prelados, não só da África mas de todo o Ocidente. Resolveram apelar ao imperador e informá-lo do mau exemplo que dava o bispo romano apoiando os hereges Celéstio e Pelágio. O imperador Honório decreta a expulsão de Roma mediante desterro dos que eram a cabeça dos pelagianos.
            E neste momento o que acontece? Zósimo, temendo o imperador, mudou o seu parecer e se retratou. De modo que, quando é que Zósimo foi infalível. Antes, ou depois? Condenou Pelágio e Celéstio mediante um documento chamado Tractoria que teve a desfaçatez de enviar a todos os bispos para que o assinassem. Só que 19 bispos italianos se opuseram e apelaram a um concílio ecumênico. Pelo visto, até na Itália, todo o episcopado ignorava que o papa fosse um pastor e mestre supremo, cuja autoridade era final e inapelável. Assim que, quem afirma que Agostinho sustentava o axioma “Roma (César) locuta, causa finita” no sentido do direito romano, a verdadeira origem desta expressão, aplicado ao bispo romano é um ignorante ou simplesmente tem uma fé muito cega»[2]

O papa Zózimo falou (em favor dos pelagianos), e a causa não foi encerrada de jeito nenhum. Ao contrário: os bispos africanos e o próprio imperador ficaram contra o papa “infalível”, que ficou tão pressionado que teve que mudar de opinião, e mesmo assim não convenceu nem a totalidade dos bispos da própria Itália! Só isso já deveria ser o bastante para calar qualquer pretensão de papista desonesto que tenta perverter ridiculamente o suposto Roma locuta est; causa finita est, de Agostinho.

Mas para acabar de uma vez por todas com qualquer nova tentativa de perversão das palavras do bispo de Hipona, irei demonstrar na segunda parte deste artigo alguns rápidos exemplos de que quando Roma falava, a causa não se encerrava. Comecemos com o papa herege, Honório I (625-638), que adotou a heresia monotelista e por isso foi condenado e anatemizado pelo Terceiro Concílio de Constantinopla (680), que se manifestou dizendo:

“Anatemizamos o herege Sérgio, o herege Ciro e o herege Honório... O autor de todo o mal encontrou um instrumento próprio para a sua vontade em Honório, o antigo papa de Roma”[3]

Para ler mais sobre este papa herege, clique aqui.

Outro caso interessante envolve o arianismo, que foi condenado por um sínodo de bispos convocados pelo bispo romano Silvestre I (314-335). Apesar de Roma haver condenado o arianismo neste concílio, mesmo assim não foi o bastante, e por isso cinco anos mais tarde o imperador Constantino convocaria o famoso concílio ecumênico de Niceia (325) para tratar a questão e condenar os arianos por heresia. Como está óbvio, Roma falou, mas a causa não foi encerrada. Ao contrário: a decisão do papa não foi considerada final e nem deu fim à questão, tendo que outros concílios locais se reunirem por si (como o sínodo de Alexandria, em 321) e um concílio universal ser convocado por um imperador.

O segundo concílio ecumênico (381) é outro caso interessante, visto que ele foi presidido por Melécio, bispo de Antioquia, o qual havia sido excomungado pelo bispo de Roma[4][5]. Mais uma vez, Roma falou, mas não adiantou nada. Melécio presidiu assim mesmo.

O Concílio de Éfeso (431), que condenou Nestório, não considerou a palavra do papa como autoridade final, visto que Nestório já havia sido condenado pelo papa Celestino I (422-432) antes disso[6]. Roma falou, e a causa não foi encerrada, porque mesmo assim ainda tiveram que se reunir em um concílio ecumênico para decidir finalmente a questão, se Nestório era ou não era um herege. A autoridade do papa, mais uma vez, não foi tida como autoridade final e muito menos infalível[7].

Para piorar ainda mais a situação, o Concílio de Calcedônia (451) foi convocado contra a vontade do papa Leão (440-461), e se reuniu assim mesmo[8]. Mais uma vez, Roma falou... e não adiantou nada.

O Segundo Concílio de Constantinopla (553), por sua vez, condenou os “Três Capítulos” escritos pelos bispos Teodoro, Teodoreto e Ibas. Ocorre que, antes disso, o papa Vigílio (537-555) já havia se oposto à condenação dos Três Capítulos. Ou seja: Roma falou, e ninguém quis saber. Mesmo contra a vontade do papa, o concílio ecumênico condenou os Três Capítulos, e ainda ameaçou excomungar e remover o papa do cargo, o qual se viu obrigado a mudar de ideia e rever suas opiniões[9]. Que grande “infalibilidade” e “autoridade final” possuía o bispo de Roma!

O Concílio de Frankfurt (794), que contava com dois legados papais (Teofilato e Estêvão) repudiou os termos do Segundo Concílio de Niceia (787), embora este concílio tivesse sido aceite pelo papa. Novamente, Roma falou, e ficou falando sozinha. Ninguém quis saber.

Para não me alongar muito com outras centenas de exemplos que mostram que o bispo romano não era visto como autoridade final, cito apenas mais um: o Sétimo Concílio de Cartago (255), presidido por Cipriano. Apesar da forte oposição do papa Estêvão I (254-257), o qual era contra o rebatismo, o concílio em questão determinou o rebatismo dos hereges, por considerar o batismo dos mesmos inválido. Além de se opor à decisão do bispo de Roma, o concílio em questão ainda proclamou:

“Pois nenhum de nós coloca-se como um bispo de bispos, nem por terror tirânico alguém força seu colega à obediência obrigatória; visto que cada bispo, de acordo com a permissão de sua liberdade e poder, tem seu próprio direito de julgamento, e não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Mas esperemos todos o julgamento de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único que tem o poder de nos designar no governo de Sua Igreja, e de nos julgar em nossa conduta nela”[10]

Claro que era uma indireta ao tirânico bispo de Roma, que se opunha às decisões do concílio e foi rechaçado categoricamente. Roma falou, e a causa não acabou. Os bispos africanos se reuniram à parte e não quiseram nem saber da posição teológica do papa.

Há muitos outros exemplos na história antiga que podem ser dados, mas, francamente, chega. O que já foi exposto já serve a qualquer sujeito que não seja demasiado rasteiro e desonesto ao ponto de querer continuar pervertendo criminosamente as palavras de Agostinho, a fim de dar ares de “autoridade final” a um bispo que jamais a possuiu. Fiquemos com a verdade: na esmagadora maioria das vezes, Roma locuta est; causa non finita est.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] Abbe Guettee, The Papacy (Blanco: New Sarov, 1866) pp. 180-181.
[3] 18ª Sessão do referido concílio.
[4] Empie, P. C., & Murphy, T. A., (1974) Papal Primacy and the Universal Church: Lutherans and Catholics in Dialogue V (Augsburg Publishing House; Minneapolis, MN), p. 82.
[5] Davis, L. D. (1990). The First Seven Ecumenical Councils (325-787) Their History and Theology. Minnesota: Liturgical Press. pp. 128–129.
[6] Whelton, M., (1998) Two Paths: Papal Monarchy - Collegial Tradition, (Regina Orthodox Press; Salisbury, MA), p. 59.
[7] Davis, L. D. (1990). The First Seven Ecumenical Councils (325-787) Their History and Theology. Minnesota: Liturgical Press. pp. 153.
[8] Whelton, M., (1998) Two Paths: Papal Monarchy - Collegial Tradition, (Regina Orthodox Press; Salisbury, MA), p. 50.
[9] Whelton, M., (1998) Two Paths: Papal Monarchy - Collegial Tradition, (Regina Orthodox Press; Salisbury, MA), pp. 68.
[10] Sétimo Concílio de Cartago, presidido por Cipriano em 255 d.C.

22 de dezembro de 2015

O que diz o livro que os católicos citam sem ler


Há poucos dias publiquei aqui o artigo intitulado "A terrível, monstruosa e abominável Inquisição Protestante", onde investigo o principal livro utilizado pelos apologistas católicos para sustentar – mediante um único parágrafo pincelado, distorcido e recortado – a existência de uma suposta “inquisição protestante”, da qual o autor do livro realmente nunca falou. Como eu mostrei no artigo em questão, o autor citado pelos apologistas católicos para embasar uma suposta “inquisição protestante”:

Nunca descreveu a guerra dos camponeses como sendo uma “inquisição”, muito menos protestante.

Nunca disse qualquer coisa sobre aquilo ser fruto de intolerância religiosa (os camponeses eram, inclusive, simpatizantes de Lutero, que tentava convencê-los na base do diálogo a deixar a bandidagem).

Nunca retratou esses camponeses como “inocentes”. Ao contrário: disse que eram bandidos, saqueadores, que depredavam as igrejas, quebravam as imagens, destruíam as bibliotecas e tentavam criar uma «nova sociedade comunista-terrorista»!

Nunca disse que Lutero foi o “responsável” pela morte dos camponeses no campo de batalha. Ao contrário, disse que a opinião de Lutero era irrelevante, porque de qualquer forma os príncipes iriam defender seus territórios assim mesmo.

Nunca disse que Lutero cometeu um erro ao ficar do lado do poder civil e contra os camponeses revolucionários. Ao contrário, ressaltou que Lutero era um exemplo de caráter, genuíno, espiritual e digno de estima.

Mas para expor de uma vez por todas ainda mais a safadeza e canalhice de Fernando Nascimento, Montfort, Paulo Leitão, Cris Macabeus, Oswaldo Garcia e o caramba a quatro que copiam a mesma citação em todos os sites católicos do Brasil (sem jamais terem lido o livro que citam em seus artigos), vou transcrever aqui para os católicos o que este livro que eles citam diz, para que eles pensem duas vezes antes de continuar usando este historiador como autoridade.


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a jurisdição do bispo de Roma no início da Igreja:

“Uma contingência memorável e única tinha feito papa do bispo de Roma – desse bispo que no começo era só um bispo como os outros e que dentro em pouco gozou dum imenso prestígio como senhor da comunidade da velha capital do mundo, como dirigente da ação dos estados dos príncipes apostólicos”[1]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre as falsificações da Igreja Romana:

“Por esse tempo deu-se em Roma também uma das mais célebres falsificações da história, a chamada Doação de Constantino, pela qual Constantino, o Grande, conferia ao papa ascendência sobre todos os patriarcas, concedia-lhe inúmeras honrarias e presenteava-o com a posse de toda a Itália e territórios ocidentais. Essa falsificação mostra a que extremos as ambições de poder do papa poderiam chegar[2]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a criação da Igreja Romana atual:

“Havia muito que fazer: a muito recomendada ruptura com a Igreja grega [em 1054 d.C] foi agora definitivamente ultimada, o que tornou possível a criação da nova Igreja Romana, sem nenhuma ligação com a outra[3]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o progresso nos países católicos-romanos medievais:

“Bizâncio e reinos islamitas apresentavam, comparados com a modéstia agrária e atraso dos Estados germânicos, especialmente os do norte dos Alpes, economicamente uma enorme superioridade”[4]

“Esse mundo oriental, a cujas portas estava Constantinopla ávida de lucros, parecia ao primitivo e rude mundo ocidental como um empório inesgotável dos tesouros da terra!”[5]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a sede de poder dos papas:

“O papado, assim se expressou ele [Inocêncio III], está colocado entre Deus e a humanidade como o governo de Cristo; exerce por isto o verdadeiro principado sobre toda a terra, tem o direito de admoestar todos os cristãos e por isto o direito de arbitragem e o de exercê-lo em todas as disputas profanas e perante todos os governos terrenos. O papa é ao mesmo tempo o bispo máximo e o imperador sobre a terra. Era a velha doutrina do imperador e Sumo Pontífice”[6]

“Herdeiro do antigo poder absoluto romano, profeta espiritual e temporal, exercendo uma soberania ao mesmo tempo ocidental e ecumênica. O papa [Gregório VII], foi ele o primeiro que o quis e conseguiu, seria o rei dos reis e imperador dos imperadores; assim como todo o sacerdote deve ter primazia sobre o rei e o duque e o papa sobre todos os poderes terrestres. Se São Pedro é o senhor do mundo terreno e os apóstolos dispõem do céu e da eternidade com tanto mais certeza disporão das coisas deste mundo, dos seus bens e de tudo o que diz respeito à vida secular”[7]

“O papa, como senhor absoluto, impunha sua autoridade sobre todas as coisas, a vida e a salvação eterna e podia exercer uma influência decisiva sobre os destinos humanos, o prestígio, a felicidade conjugal, o sucesso e até obre as consciências, os bispos, abades, padres até ao último capelão dentro dos limites de suas circunscrições não só exigiam o respeito natural, como a obediência incondicional”[8]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o saque de Constantinopla:

“Constantinopla foi ultrajada e saqueada. Cristãos romanos se atiraram com incrível ferocidade contra os cristãos gregos, para eterna vergonha de sua confissão e de seus créditos de cavaleiros. Nesta rapina ignominiosa perderam-se tesouros insubstituíveis, herança da antiguidade. Mais ainda, a Roma Ocidental vingava-se tardiamente da Roma Oriental, destruía na sua cegueira o último baluarte do Império contra o islamismo e erigia em lugar do enfraquecido Império grego algo muito mais fraco: aquele Império latino, uma instituição artificial, improvisada com elementos heterogêneos, balda de ideias e tradições, uma criação inerte”[9]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o dízimo cobrado pela Igreja Católica:

“A Igreja manteve por toda a parte com grande êxito a luta pelos dízimos. Donativos, dispensas, as espórtulas e os emolumentos dos serviços espirituais aumentavam notavelmente as rendas do clero”[10]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a falsificação de relíquias medievais:

“A feição mais triste do mundo religioso da época era a falta de escrúpulos com que se falsificavam relíquias e documentos muitas vezes dum modo lamentavelmente grosseiro, outras com perfeição, mas que a escassa crítica dos tempos deixava passar como provas suficientes para justificar uma veneração ou assegurar o direito a uma posse. A própria Cúria romana dava disso o mais eloquente exemplo”[11]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a perseguição da Igreja Católica aos valdenses:

“Diante da crescente secularização e corrupção tinha que acentuar-se a necessidade dum espírito e dum modo de proceder mais verdadeiramente cristãos. Um mercador lionês, Pedro Valdo, distribuiu todos os seus bens em 1173 e entregou-se a uma vida de pobreza apostólica, mendigando e pregando a penitência. Muitos aderiram a ele e, embora perseguidos, conseguiram manter-se nos vales alpinos ocidentais mais obedientes ao seu Deus do que aos homens”[12]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a perseguição da Igreja Católica aos albigenses:

“Recorreu à abominável matança de inocentes sob a liderança de clérigos, complicando-se a luta com a mistura de interesses inteiramente seculares e ambições de mando e predomínio e deixando cair devastado nas mãos dos monarcas franceses o belo e infeliz Meio-dia. Tudo isso se fez em nome e sob sinal da cruz! Talvez tenha sido ainda mais vergonhoso o extermínio dos infelizes camponeses ‘stadinghs’ pela cruzada contra eles. Não quiseram pagar o dízimo ao arcebispo de Bremen e foram por isso eliminados como hereges”[13]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a Inquisição:

“O frade espanhol Domingos fez da luta contra os hereges a tarefa primordial de sua vida. Um homem douto, combativo, pregador emérito, organizador incomparável – a Ordem Dominicana era obra instituída de conformidade com princípios de direito romano pela Cúria, para combater a heresia. Conrado de Marburgo, o fanático e bárbaro carcereiro de Sta. Izabel, inebriou-se com as sangrentas fantasias da cruzada como primeiro inquisidor alemão. O Santo Ofício quase não permitia a defesa do infeliz acusado; recorria à prova do fogo e da água, à tortura também e servia-se dum abominável sistema de espionagem contra o qual nenhum velho costume tradicional e nenhum resto de antigas crenças estava seguro, mandava os culpados para a fogueira do poder civil e enriquecia-se com uma parte de seus bens. As consequencias desse terror tinham que ser a destruição do sentimento de justiça, o ódio e o pavor”[14]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a cristandade romana:

“A cristandade romana era unidade e caos, ambicionava o domínio universal e estava manchada pelo fraticídio, afirmava a sagrada justiça com a autoridade da espada, mas suspirava realmente entre a contradição dos dois direitos, o canônico e o temporal”[15]

“A alegre tranquilidade e a segurança tornaram-se uma irrealidade, a vida conforme a harmonia terrena e divina só pôde ser realizada por alguns indivíduos ou grupos. Para a coletividade deixara de existir, para ela só ficara a velha senda do vácuo. A realidade tornou-se dura, bárbara, em parte desenfreada e malfazeja. A Igreja Romana não pôde absolutamente, com o seu estilo de Cristianismo, criar uma forma tolerável, absolutamente superior para a vida da humanidade em comum. E por isso nesta transição de época reinam o desespero, a perturbação, a renúncia ao antigo. Contra a Igreja pontífica surge a reforma confessional, contra o império a instituição dos principados, contra a universidade da cristandade latina a evolução nacional das culturas particulares dos povos, contra o feudalismo agrário o espírito mercantil burguês das cidades, contra o escolasticismo dos teólogos a livre investigação científica”[16]

“O respeito nas famílias estava muito fora de moda. Os filhos riam dos pais. A rebelião do filho contra o pai era comum na Idade Média, isto agora porém era novidade. O matrimônio era desdenhado como uma servidão desprezível; a Igreja Romana, mesmo com a santificação do matrimônio como um sacramento, nunca conseguiu alcançar a realização prática da monogamia”[17]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a perseguição a Wycliffe e seus seguidores:

“Os tribunais de heresias perseguiam desapiedadamente o espírito de Oxford. Muitos de seus membros foram abalados por terríveis ameaças, outros foram queimados; a despeito dessas perseguições os adeptos de Wycliffe, os Lollards, mantiveram-se fieis à doutrina de seu grande pregador; até ao fim do século quinze o lollardismo continuou como uma corrente subterrânea, e o espírito do grande reformador preparou o caminho para a Reforma”[18]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre a venda de indulgências:

“O comércio das indulgências era, havia muitos anos, uma fonte de lucros para a Igreja Romana. Que o jovem príncipe Hohenzollern Alberto, arcebispo eleitor de Maiença, tivesse de pagar a Cúria devido à acumulação de cargos uma contribuição extra de 10.000 ducados e que para pagar a metade dessa soma se tivesse comprometido a vender as indulgências concedidas pela Bula o Jubileu da Igreja de S. Pedro não tinha em si nada de extraordinário; mas os abusos, a má aplicação do produto desse comércio, exploração da ingênua credulidade por intermédio de grosseiros propagandistas da Ordem Dominicana podiam proporcionar os elementos para uma eficiente e justificada campanha”[19]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre Lutero e o luteranismo:

“Sua influência crescia, todos lhe pressentiam a superioridade não só no saber, e na consciência, como no caráter. O caráter alemão personificado em ação, genuíno, desprendido, espiritual, sobretudo moralmente seguro de si, impregnado do sentimento nacional, estava concentrado nele humana e espontaneamente e por isso mesmo mais arrebatador”[20]

“Surgiu assim a nova doutrina do verdadeiro Cristianismo. O que ele aspirava sempre, o que continuava pedindo, foi e ficou sendo espiritual, a pureza religiosa devia ser recuperada, independente da hierarquia. Das forças temporais não esperava senão a proteção para essa liberdade cristã”[21]

“Lutero, este verdadeiro alemão, é, num sentido elevado, digno de estima. Nele cascateava caudalosa a torrente de Deus; nisto foi único, não tendo tido sucessores”[22]

“O luteranismo conservou sempre algo de quietista; era, se não um isolamento monástico do mundo, um isolamento do grande no pequeno mundo, um renunciar às lutas políticas históricas para entregar-se ao tranquilo convívio de todos os dias com os seus pequenos e agradáveis prazeres”[23]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o trabalho na perspectiva protestante:

“Se o supremo ideal católico era o ascetismo, a fuga do mundo, o protestantismo adquire no novo conceito de profissão uma consagração do trabalho cotidiano, dignifica-o, elevando-o como algo altamente moralizador, como algo que deve ser feito espontaneamente. Lutero na sua tradução da Bíblia dera à palavra ‘profissão’ esta nova e eloquente significação. Não é o moderno capitalismo como tal que tem um pronunciado caráter protestante e sim esse sentido ético do ofício, da profissão, que, alheio aos gozos da vida, é a afirmação do trabalho metódico racional como tal”[24]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o caráter e o modus operandi de Inácio de Loyola:

“Realiza-se assim com desígnio político, uma racionalização de toda a ética, perigosa não só pelos processos como pela degeneração que podem facilmente produzir-se. O próprio Loyola declarava explicitamente que para combater o demônio podia-se recorrer a todos os meios de que este se servia para perder as almas”[25]


O que Veit Valentin tem a dizer sobre o massacre dos protestantes na Noite de São Bartolomeu:

“Foi esse negregado acontecimento histórico, manchado pela mais bestial sede de sangue e cegueira, pela vil cobiça pessoal e vergonhoso regozijo pelo mal alheio, um triunfo político para a causa do catolicismo”[26]

É nisso que dá quando um bando de jumentos copia uns dos outros um trecho recortado e distorcido de um livro que eles nunca leram, citando como autoridade um autor que desce o cacete no catolicismo no livro todo, e que jamais compactuaria com o revisionismo hipócrita desses “apologistas” de meia tigela.

Toda vez que você ver analfabetos obscenos como o Macabeus, velhacos moribundos como o Fakenando, palhaços de circo como o Leitão e astronautas como o saco de pancadas oficial do protestantismo citando o mesmo trecho recortado do mesmo livro, pode apostar duas coisas: que nenhum deles leu o livro e que estão citando como autoridade um autor que desconhecem completamente, cruzando os dedos e rezando o terço para que ninguém leia o livro citado e desmascare a fraude.

A não ser que os palhaços da apologética católica estejam dispostos a admitir cada palavra que Veit Valentin citou no livro que eles não leram – inclusive que a Igreja Católica falsificava documentos, assassinava inocentes, promovia chacinas, recorria à tortura, lucrava com venda de indulgências e fomentava o terror –, que deixem de citar como autoridade um autor que teria nojo de uma apologética tão nefasta, mentirosa, falsa e descarada como a moderna apologética católica no Brasil, representada por sujeitos da mais baixa índole e moral.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo I. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 262.
[2] ibid, p. 264-265.
[3] ibid, p. 302.
[4] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo II. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 20.
[5] ibid, p. 21-22.
[6] ibid, p. 42-43.
[7] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo I. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 306-307.
[8] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo II. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 60.
[9] ibid, p. 45-46.
[10] ibid, p. 59.
[11] ibid, p. 60-61.
[12] ibid, p. 61.
[13] ibid, p. 61.
[14] ibid, p. 62.
[15] ibid, p. 77.
[16] ibid, p. 86.
[17] ibid, p. 96.
[18] ibid, p. 129-130.
[19] ibid, p. 251.
[20] ibid, p. 252.
[21] ibid, p. 257-258.
[22] ibid, p. 274.
[23] ibid, p. 278.
[24] ibid, p. 273.
[25] ibid, p. 288.
[26] ibid, p. 321-322.