31 de outubro de 2013

Predestinação e Livre Arbítrio


Meu amigo Alon criou um site que eu creio que seja extremamente relevante na apologética cristã, que trata sobre predestinação e livre-arbítrio, refutando a visão distorcida que o calvinismo tem sobre esse tema. Eu particularmente respeito os calvinistas e creio serem irmãos em Cristo, mas já estava na hora de alguém criar um site expondo a verdade bíblica sobre o assunto e refutando as más interpretações sobre o tema. O site dele ainda está em processo de construção, mas o conteúdo daquilo que já foi escrito pode ser visto neste link:


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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28 de outubro de 2013

O purgatório existe? - Parte 2


Há algumas semanas um católico me enviou na caixa de comentários deste blog um artigo do professor Felipe Aquino, da Canção Nova (RCC), onde ele tenta “provar” a existência do purgatório pelas Escrituras com a mesma competência que os kardecistas querem provar a reencarnação na Bíblia. O objetivo é simples: provar um Deus sádico, que não purifica todos os pecados pelo sangue de Jesus, mas deixa alguns para serem purgados no purgatório, um local de fogo e tormento, para depois entrar no Céu. Uma crença herética onde a pessoa expia seus próprios pecados e torna-se salvadora de si mesma, ao invés de ela própria ser plenamente expiada pelo sangue de Cristo.

Segue-se abaixo a refutação aos argumentos dele (que estão em vermelho).

1 - São Gregório Magno (†604), Papa e doutor da Igreja, explicava o Purgatório a partir de uma palavra de Jesus: “No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem no presente século nem no século futuro (Mt 12,31). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro” (Dial. 41,3).

Primeiro, é digno de nota que a única fonte patrística que ele possui é uma do sétimo século depois de Cristo, enquanto todos os demais Pais da Igreja que viveram nos séculos I, II, III, IV, V e VI diziam explicitamente o contrário. Ou seja, ele quer ignorar o testemunho de centenas de Pais da Igreja que viveram nos primeirosséculos, para adotar aquilo que diz um só Pai da Igreja que morreu no sétimoséculo. Pode isso, Arnaldo?

Mas o prof. Felipe Aquino não desiste, e passa a citar a Bíblia:

O pecado contra o Espírito Santo, ou seja a pessoa que recusa de todas as maneiras os caminhos da salvação, não será perdoado nem neste mundo, nem no mundo futuro. Mostra o Senhor Jesus, então, neste trecho, implicitamente, que há pecados que serão perdoados no mundo futuro, após a morte.

Não, o texto não mostra que haverão pecados que serão perdoados após a morte. Se existissem pecados a serem perdoados após a morte, seria totalmente inútil Paulo ter dito:

“Como cooperadores de Deus, insistimos com vocês para não receberem em vão a graça de Deus. Pois ele diz: No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri; eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação!”(2ª Coríntios 6:1,2)

Se o “tempo aceitável” para alguém ser salvo e o “dia da salvação” pudesse ser obtido em algum lugar após a morte, tais versos não fariam qualquer sentido, precisamente porque expressam que é aqui (na terra, e não depois da morte) o tempo aceitávelpor Deus para que os homens sejam salvos. Ou seja: Deus não aceitará nem concederá salvação a ninguém depois de morto. A mesma linguagem é aplicada pelo autor de Hebreus:

“Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hebreus 3:13)

O tempo para sermos convencidos dos nossos erros, encorajados na prática da justiça e de não sermos endurecidos pelo engano do pecado é hoje, é nesta vida, e não em uma vida póstuma, como ensinam os espíritas (reencarnação) e os católicos (purgatório). Então não há salvação nem pagamento pelos pecados depois da morte para ninguém. Queira ou não, goste ou não. Mas e Mateus 12:32? Estaria contradizendo o claro ensinamento bíblico sobre a impossibilidade de pecados serem perdoados após a morte? É claro que não. O texto, em sua forma grega, é simplesmente um trocadilho para dizer que alguém não será perdoado nunca.

O original grego traz neste texto a palavra grega aion, cujo sentido primário, de acordo com a Concordância de Strong, é de “para sempre, uma idade ininterrupta, tempo perpétuo, eternidade”[1]. Mas é completamente sem sentido dizer que alguém não será perdoado nem no presente aion e nem no futuro aion. Seria como dizer: “você não será perdoado nem na eternidade presente, nem na eternidade futura”. Por isso, o sentido lógico do texto, diante do emprego do aion, é o de que Cristo estava apenas realçando o fato de que a pessoa não será perdoada nunca, isto é, para sempre (aion). É a mesma coisa de quando a Bíblia emprega várias vezes o termo “de eternidade em eternidade”, onde se repete duas vezes o aion, não porque exista mais do que uma eternidade, mas apenas para realçar o fato de que é eterno. Em português, seria como eu dizer: “eu não vou te perdoar para sempre, nem agora e nem nunca”.

Outra possibilidade para o texto – como sei que alguns católicos levantarão tal objeção – é de que o aion aqui esteja em seu sentido secundário. E qual é o sentido secundário de aion? A Concordância de Strong diz que são “os mundos, universo”[2]. Em outras palavras, o texto não estaria falando do aion em termos de eternidade, mas em termos de mundos. Estaria dizendo: “não será perdoado, nem neste mundo, nem no mundo que há de vir”. De fato, é desta forma que este verso é traduzido por algumas versões católicas, como a CNBB[3]e a Bíblia de Jerusalém em português e em espanhol[4].

Os católicos, então, podem estar a dizer: “Viu só, aí está a prova do purgatório”! Não tão cedo. Isso porque temos fortes razões para crer que esse “mundo por vir” não tem absolutamente nada a ver com o purgatório, primeiramente porque na única vez que a Bíblia fala de um mundo (ou Reino) vindo literalmente é em Apocalipse 21:2, que claramente fala da Jerusalém celestial, e não do purgatório:

“Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus” (Apocalipse 21:2-3)

Portanto, esse “mundo que há de vir” trata-se de um Reino que hoje se encontra em “outro mundo” (no Céu) e que virá se estabelecer sobre a nova terra por ocasião do fim do milênio e do início do estado eterno. É óbvio que não se trata do purgatório, mas do Paraíso celestial. Sobre isso eu escrevo largamente em este meu artigo cuja leitura é imprescindível para a compreensão deste entendimento, sobre o Reino que há de vir:


Em segundo, esse mundo que há de vir não pode ser uma referência ao purgatório simplesmente porque o purgatório não é algo que “há de vir”, pois ele já é. Para os católicos, o purgatório é algo que já está em atividade, portanto não é algo que virá, num futuro distante. Se a interpretação correta do aion em Mateus 12:32 for de “mundo”, ele estaria falando deste mundo presente (terra atual) e da nova terra prometida (Nova Jerusalém que descerá do Céu), e não deste mundo e do purgatório.

Mas o prof. Felipe Aquino não desiste, e passa agora a citar os livros apócrifos:      


2 - O ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus do Antigo Testamento; cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. “Então encontraram debaixo da túnica de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisas proibidas pela Lei dos judeus. Ficou assim evidente a todos que haviam tombado por aquele motivos… puseram-me em oração, implorando que o pecado cometido encontrasse completo perdão… Depois [Judas] ajuntou, numa coleta individual, cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício propiciatório. Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado” (2Mc 12,39-45).   

Com certeza os judeus se desviaram da Verdade no período intertestamentário, quando ocorreu a Diáspora Judaica e eles foram espalhados pelo mundo grego (helenista) da época, sofrendo fortes influências platônicas que resultaram, entre outras coisas, na crença em uma “alma imortal” (adoção da heresia da imortalidade da alma) e em outros sofismas sobre a vida após a morte. A própria Enciclopédia Judaica atesta isso claramente, ao dizer: 

"A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.), seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados"[5]

A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão:

"Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento"[6]

Claro que Deus só deixou que tal fato se concretizasse depois do Antigo Testamento ter sido concluído, pois Ele cuida de não haver doutrinas falsas em Sua Palavra. Quando o último livro do Antigo Testamento foi escrito (que foi o livro de Malaquias, em 397 a.C), ainda não havia ocorrido esse sincretismo com o paganismo grego, que se deu a partir de 323 a.C, na diáspora. Sendo assim, podemos chegar à conclusão de que Deus guardou a Sua Palavra do paganismo, salvaguardando o Antigo Testamento de conter alguma filosofia imortalista de séculos posteriores, quando já estavam influenciados pela filosofia grega.

E isso explica o porquê que os livros apócrifos, que não foram inspirados por Deus, contêm tais ensinos estranhos sobre a vida após a morte: porque foram escritos neste período em que os judeus já haviam sido influenciados pelo paganismo de sua época. Em Sabedoria, que é outro livro aceito como canônico entre os católicos, há a clara ideia de reencarnação, ou pelo menos da pré-existência das almas:

“Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente, ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto (Sabedoria 8:19,20)

Por que os católicos não creem nisso, se eles consideram o livro de Sabedoria de Salomão como canônico e inspirado por Deus? Porque eles mesmos sabem como isso é herético e ridículo. Fruto do paganismo grego.

Mas, voltando a Macabeus, mesmo sabendo-se que se trata de uma obra apócrifa, sem valor canônico e sem ser inspirada por Deus, será que ela serve de “prova” do purgatório? É claro que não. Primeiramente, porque em lugar nenhum aquele texto de 2ª Macabeus fala de um purgatório. Ele simplesmente não fala nada sobre um suposto local de purificação entre a morte e a ressurreição. O que o texto diz é que aqueles judeus oraram pelos mortos. Mas por quê? Por que eles criam em um purgatório, num local de purificação com fogo após a morte e antes da ressurreição? Lógico que não. O próprio texto deixa bem claro que não se trata de um fantasioso estágio entre a morte e a ressurreição, mas por causa da própria ressurreição:

“Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas” (2ª Macabeus 12:43-46)

Judas Macabeu não orou pelos mortos por causa da crença em um suposto “purgatório”, mas por causa da crença na ressurreição. Os judeus nunca creram no purgatório! Ademais, na própria continuação do verso há o relato de que, se ele achasse que os mortos nunca ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo orar por eles. Em outras palavras, a oração pelos mortos – na visão daqueles Macabeus – só tinha sentido se existisse a ressurreição, pois sem ela aquilo seria inútil, vão, supérfluo. Isso é diametralmente opostoà crença no purgatório, onde a herança celestial (a vida eterna) independe da existência ou não de uma ressurreição, pois as “almas” ou “espíritos” já estariam no Céu, no inferno ou no purgatório em forma incorpórea. Assim, mesmo se não houvesse ressurreição, não seria vão orar por eles, pois eles já estariam em vivos em algum lugar em forma incorpórea.

Sendo assim, esses versículos de Macabeus são um golpe de morte na própria tese do purgatório católico. Ele prova que, para aqueles Macabeus, só existiria vida novamente na ressurreição, e por isso a oração pelos mortos só faria sentido caso aqueles mortos um dia ressuscitassem para poderem desfrutar dos benefícios e resultados que essas orações teriam, caso contrário (i.e, se não ressuscitassem) seria vão, supérfluo e inútil orar por eles. A passagem também deixa explícito que a recompensa só ocorre na ressurreição, pois diz que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, e não que eles já estão recompensados, o que igualmente contradiz a crença católica de que a recompensa ocorre imediatamente após a morte e antes da ressurreição, como diz o Concílio de Trento:

“Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que ‘aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo’ (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: ‘Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos.’ Neste juízo geral todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5)”[7]

Portanto, se os católicos quiserem fazer uso de uma obra apócrifa, não-canônica e não-inspirada para pautar sua reza aos mortos em função de uma não-existência de vida entre a morte e a ressurreição e unicamente pela esperança de os mortos ressuscitarem (o que nenhum católico crê ou ensina, pois acha que os que morreram já estão vivos em algum lugar) eu até poderia considerar tal argumento, mas ao usarem essa passagem para basear uma crença em um purgatório, e pior ainda: dizer que os judeus criam no purgatório (o que é ainda mais absurdo para qualquer um que estude um mínimo de história judaica) estão se passando por ridículos.

Mas o prof. Felipe Aquino não desiste:

3 - Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E S. Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.

Este argumento, fundamentado totalmente no silêncio, busca trazer fundamento à ideia de que este “sofrer prejuízo” significa “ser queimado em um purgatório entre a morte e a ressurreição”. Só mesmo a imaginação fértil de apologistas católicos como ele é capaz de propor tal aberração teológica. A passagem simplesmente está falando de dois grupos de salvos, porém um que receberá maior galardão e outro que receberá menor galardão:

“Sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo” (1ª Coríntios 3:13-15)

Ou seja: uns serão salvos e receberão grande recompensa (galardões), enquanto outros sofrerão prejuízo, isto é, não receberão galardão, mas serão salvos “como alguém que escapa através do fogo”, isto é, “por pouco”, “por um triz”. Sofrer prejuízo, portanto, não é sofrer no purgatório, mas é a perda da recompensa (v.14). E Paulo não fala que tal pessoa será salva passando pelo fogo (o que aí sim seria uma evidência do purgatório), mas comoalguém que escapa através do fogo. Como a própria nota textual da NVI explica, “trata-se de uma expressão proverbial grega com o sentido de ‘escapando por um triz’, sendo o trabalho da pessoa queimado pelo fogo da justiça e do juízo puro de Deus”[8].

O que fulmina de uma vez por todas com esses malabarismos eisegéticos católicos oriundos da tática do pombo enxadrista é o que Paulo fala sobre quando isso iria ocorrer, e diz que seria “no Dia” que trará tudo à luz, ou seja, no Dia do Juízo. Todas as vezes que o Novo Testamento se refere à “naquele dia” está se referindo ao Dia do juízo final, o que é ainda mais claro no contexto de 1ª Coríntios 3:13-15, pois fala do Dia em que tudo o que está encoberto será trazido à luz.

Mas quando é que ocorrerá esse Dia? Para os católicos, já deveria estar ocorrendo, pois eles pregam que o purgatório já está em atividade. Mas a Bíblia deixa claro que esse Dia do Juízo nãoé algo que já esteja em atividade, mas é algo que acontecerá, no futuro, por ocasião da segunda vinda de Cristo, e não antes. O julgamento só acontecerá “quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória”(Mt.25:31). Está claramente relacionado a um evento futuro, e não a algo que já esteja em andamento. Em Atos 17:31 vemos ainda mais claramente que esse Dia não chegou ainda:

“Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17:31)

E Paulo termina com todas as dúvidas ao dizer:

“Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos pela sua vinda e por seu Reino” (2ª Timóteo 4:1)

Clareza maior do que essa é impossível: “há de julgar... pela sua vinda”! "Há de julgar" denota que o juízo não aconteceu ainda, mas é um evento futuro, ao passo que "na sua vinda" mostra quando é que esse juízo acontecerá. Portanto, não há espaços para mais dúvidas: o Dia (do Juízo) é um evento futuro na segunda vinda de Cristo. Então, obviamente Paulo não estava falando de um purgatório em 1ª Coríntios 3:13-15, mas de um evento pós-ressurreição, após a volta de Jesus.

Mas o prof. Felipe Aquino não desiste:     


4 - Na passagem de Mc 3,29, também há uma imagem nítida do Purgatório: ”Mas, se o tal administrador imaginar consigo: ‘Meu senhor tardará a vir’. E começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar (…) e o mandará ao destino dos infiéis. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes.” (Lc 12,45-48). É uma referência clara ao que a Igreja chama de Purgatório. Após a morte, portanto, há um “estado” onde os “pouco fiéis” haverão de ser purificados. 

É impressionante a desonestidadedo prof. Felipe Aquino nessa passagem, o indivíduo corta metade do contexto da passagem, colocando três pontinhos (...) exatamente onde o texto diz que isso ocorreria na segunda vinda de Cristo! O sujeito é tão desonesto que corta a passagem bíblica em duas partes para que o povão ignorante que não lê a Bíblia (mas lê os artigos dele) pense que isso ocorre em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, pois a leitura natural dos versos nos mostra que isso só ocorrerá depois que Jesus voltar, e não antes. Então eu farei um favor aos discípulos do prof. Felipe Aquino e passarei o texto completo, sem cortes:

“O Senhor respondeu: Quem é, pois, o administrador fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos seus servos, para lhes dar sua porção de alimento no tempo devido? Feliz o servo a quem o seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo diga a si mesmo: ‘Meu senhor se demora a voltar’, e então comece a bater nos servos e nas servas, a comer, a beber e a embriagar-se. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe, e o punirá severamente e lhe dará um lugar com os infiéis. Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido" (Lucas 12:42-48)

O que o desonesto prof. Felipe Aquino se esquece de mencionar é que os “muitos” e “poucos” açoites não acontecem logo após a morte em algum estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas depois da segunda vinda de Cristo, isto é, quando ele voltar! Então, é óbvio que a passagem não está falando nada de um purgatório, que na visão católica é um lugar de purificação após a morte e antes da volta de Cristo (ressurreição), mas de um lugar onde os ímpios serão lançados DEPOIS da volta de Jesus.

Outro detalhe interessante é que essa passagem retrata um servo infiel, que bate nos seus servos e servas, que se embriaga, que não faz o que Deus desejava nem o realiza, ou seja, está falando de pessoas ímpias, e não de salvos. Mas o purgatório, na visão católica, é para salvos. Portanto uma coisa não tem nada a ver com a outra. A passagem em pauta nada fala sobre um purgatório, onde pessoas salvas são lançadas depois da morte e antes da volta de Cristo. Ela fala sobre um lugar onde os ímpios serão lançados apósa volta de Jesus, que é o geena.

Destruindo a tese do inferno eterno (pregada nos círculos imortalistas), Cristo está dizendo que a punição no inferno não é para sempre, mas que uns levarão “poucos” e outros “muitos” castigos, e é óbvio que por “poucos” nunca pode ser considerado “eterno”, ou seja, que ninguém será castigado para sempre, como ensina a Igreja Católica. Os ímpios serão castigados no infenro-geena pelo tempo correspondente aos seus pecados e em seguida aniquilados, como eu mostrei em mais de 150 passagens bíblicas neste artigo:


Mas o prof. Felipe Aquino não desiste:     


5 - Outra passagem bíblica que dá margem a pensar no Purgatório é a de (Lc 12,58-59): “Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele não te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.” O Senhor Jesus ensina que devemos sempre entrar “em acordo” com o próximo, pois caso contrário, ao fim da vida seremos entregues ao juiz (Deus), nos colocará na “prisão” (Purgatório); dali não sairemos até termos pago à justiça divina toda nossa dívida, “até o último centavo”. Mas um dia haveremos de sair. A condenação neste caso não é eterna. A mesma parábola está´ em Mt 5, 22-26: “Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo”. A chave deste ensinamento se encontra na conclusão deste discurso de Jesus: “serás lançado na prisão”, e dali não se sai “enquanto não pagar o último centavo”. 

Essa passagem realmente fala de um local de condenação temporário e não eterno, mas não é uma referência ao purgatório, e sim ao geena. Se “o sangue de Jesus nos purifica de todoo pecado” (cf. 1Jo.1:7), e não apenas de alguns pecados, então não há qualquer necessidade de sobrar algum pecado para ser purgado no purgatório, a não ser que o sangue de Cristo não tenha sido suficiente para purificar tal pecador, mas o que o sangue de Jesus não pode fazer o purgatório pode!

Temos que ressaltar que, na visão católica, o purgatório é um local reservado para pessoas já salvas, mas não totalmente purificadas. Mas se a pessoa já é salva, já se presume que ela esteja purificada, pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado, e o salvo é lavado e coberto nesse sangue de Cristo! Além disso, a afirmação católica de que o purgatório é para as pessoas que, “tendo sido formalmente culpadas de pecados menores, não deram plena satisfação deles a justiça divina”[9], entra em conflito com a teologia paulina, em que aqueles que praticam esses pecados menores, como “as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias, e coisas semelhantes a estas, os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus (Gl.5:20-21).

Ele não afirma que tais pessoas que cometem esses e outros “pecados menores” entrarão no Reino de Deus após passarem pelo purgatório, mas que não herdarão o Reino de Deus, o que é totalmente diferente. Portanto, tais pessoas que não se arrependeram de seus pecados menores não passarão pelo purgatório para entrarem depois no Céu, elas simplesmente não serão salvas, conforme diz Paulo. Não são pessoas que herdarão o Reino de Deus depois de passarem pelo purgatório, são pessoas que não herdarão o Reino de Deus!

Sendo assim, fica claro que esse texto de Lucas 12:59 não se refere ao purgatório, mas há algum outro lugar. Mas, se não é o purgatório, o que mais seria? Evidentemente não pode ser uma referência ao Céu, pois o texto fala de perdidos, e não de salvos. O texto só pode estar falando do inferno-geena. As pessoas não irão ficar lá para sempre, mas “até pagar o último centavo” (v.59). Isso está em concordância com o texto que vimos anteriormente, em Lucas 12:42-48, que fala de um local de condenação temporária que somente ocorre depois da volta de Jesus, e não antes.

Mas o prof. Felipe Aquino não desiste:     


6 - A Passagem de São Pedro 1Pe 3,18-19; 4,6, indica-nos também a realidade do Purgatório:”Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados (…) padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos na prisão, aqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes (…).” Nesta “prisão” ou “limbo” dos antepassados, onde os espíritos dos antigos estavam presos, e onde Jesus Cristo foi pregar durante o Sábado Santo, a Igreja viu uma figura do Purgatório. O texto indica que Cristo foi pregar “àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes”. Temos, portanto, um “estado” onde as almas dos antepassados aguardavam a salvação. Não é um lugar de tormento eterno, mas também não é um lugar de alegria eterna na presença de Deus, não é o céu. È um “lugar” onde os espíritos aguardavam a salvação e purificação comunicada pelo próprio Cristo. 

A pergunta que não quer calar é: onde o prof. Felipe Aquino viu o “purgatório” ali? Se essa prisão é um local físico, ela poderia ser qualquer coisa. Poderia ser o Sheol, o Hades, o Seio de Abraão, o Tártarus, o Abismo, o Geena, ou qualquer outro lugar, alguns que existem de verdade e outros que existem na teologia imortalista. Como é que o prof. Felipe Aquino conseguirá provar que essa prisão não se trata de nenhum deles, mas exatamente do purgatório? Nunca, pois ele não fez exegese (onde se extrai o significado de um texto mediante legítimos métodos de interpretação), mas eisegese (onde se injeta ao texto alguma coisa que o intérprete quer que esteja ali, mas que na verdade não faz parte do texto). Por isso ele busca textos isolados na Escritura, manipulando interpretações tendenciosas, tentando fazer com que a passagem diga o que, na verdade, não está lá. Está apenas na cabeça de quem precisa crer que a Bíblia dá margens para tal aberração teológica.

A exegese correta do texto bíblico o leitor poderá conferir em meu outro blog:



CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como vimos aqui e na parte 1 deste estudo, o purgatório é um lugar que existe, mas não em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, senão na imaginação fértil de pessoas que precisam crer na existência dele para aumentarem a arrecadação, arrebatarem o rebanho e enganarem as massas. Foi deste jeito que a Igreja Católica obteve uma ótima fonte de lucro ao vender a salvação para as “almas do purgatório”, o que levou Lutero a contestar e dizer em suas 95 teses:

“Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências. E deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus”

“Por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão insignificante? Por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus; porém, por que não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito? Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?”

Mas, não obstante a toda a falta de qualquer evidência bíblica ou histórica nos primeiros séculos que baseie tal crença, os católicos continuarão buscando isolar versos, praticar eisegese, deturpar a Bíblia, achar testemunhos históricos de sete séculos depois de Cristo e continuar crendo na lenda de um purgatório.

Porque, afinal, eles não desistem.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1]Concordância de Strong, 165.
[2]ibid.
[5] Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.
[6]Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, "Morte", p. 812.
[7] Concílio de Trento, Decreto sobre o Purgatório, Denzinger # 983.
[8]Nova textual da Nova Versão Internacional em 1ª Coríntios 3:15, p. 1957.
[9] Papa Pio IV, A Base da Doutrina Católica contida na Profissão de Fé.

25 de outubro de 2013

Partir e estar com Cristo. Quando?


Ausente do corpo e presente com Cristo. Quando? – Começaremos o nosso estudo sobre o pensamento de Paulo em relação à vida após a morte analisando de forma aprofundada as passagens que mais são constantemente utilizadas pelos imortalistas na tentativa de ensinar que Paulo era adepto da doutrina imortalista. Eles citam principalmente duas passagens nas quais o apóstolo expressa o mesmo pensamento, de que queria "partir e estar com Cristo", ou que desejava estar "ausente do corpo e presente com Cristo". Examinaremos tais passagens dentro de seu devido contexto, analisando-as exegeticamente, a fim de vermos se os argumentos imortalistas são ou não coerentes:

“Porquanto, para mim, o viver é cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (cf. Filipenses 1:21-23)

Para entendermos o que Paulo fala em Filipenses 1:21-23 é de extrema importância analisarmos o que ele diz em 2ª Coríntios 5:1-8, pois ele reafirma exatamente o que ele disse aos filipenses (sobre partir e estar com Cristo), mas de forma mais extensa e aprofundada, explicando dentro do contexto o que ele entendia como sendo esse partir e estar com Cristo:

"Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (cf. 2ª Coríntios 5:1-8)

Os imortalistas tem o costume de jogarem o verso 8 de 2ª Coríntios 5 de forma isolada, retirando-o de seu devido contexto, como já é de costume, sempre isolando um verso de seu contexto. A razão pela qual eles nunca falam do contexto que envolve esses textos é porque sabem que a análise meticulosa deles refuta as suas próprias teses de imortalidade da alma. Paulo inicia o verso 1 de 2ª Coríntios 5 dizendo:

"Se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (v.1)

Quando Paulo fala que a nossa casa terrestre vai se desfazer, ele não está se referindo à nossa casa literal onde moramos, construída a base de tijolos, mas sim do nosso corpo mortal, fazendo a mesma analogia que fez o escritor de Hebreus a este respeito, quando disse:

"... mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos" (cf. Hebreus 3:6)

Quando “a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer” não é uma referência à uma casa literal feita à base de madeira ou tijolos onde Paulo morava, ele não estava preocupado com o destino de uma moradia terrena porque ele disse claramente que “até agora não temos tido residência certa” (cf. 1Co.4:11). Se ele nem moradia fixa tinha e frequentemente escrevia em prisões, é evidente que a referência é ao seu próprio corpo terreno.  

Portanto, dentro da analogia que faz o apóstolo Paulo, ao dizer que essa casa terrestre deste tabernáculo se desfará ele estava se referindo à sua própria morte corporal, ou seja, a este presente corpo mortal que passará pela morte física. Mas Paulo continua nessa mesma analogia, dizendo que, quando essa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer (i.e, quando este corpo mortal perecer) temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. A que ele se refere aqui? Logicamente, se a casa deste tabernáculo se refere ao nosso presente corpo mortal e corruptível, o edifício eterno a que Paulo se refere diz respeito ao nosso corpo imortal e incorruptível da ressurreição.

Da mesma forma que o apóstolo não estava falando de casas literais de tijolos na primeira parte do verso, mas de um corpo mortal e corruptível que temos hoje, igualmente na continuação do verso ele complementa essa mesma analogia, não se referindo a uma casa literal nos céus (como uma "mansão celestial", como pensam alguns), mas sim a um corpo imortal e incorruptível, em contraste a este presente corpo mortal e corruptível que possuímos hoje. Somente desta forma a analogia de Paulo faria sentido. Ele afirma que iria morrer fisicamente (casa terrestre deste tabernáculo se desfazendo), para obter um edifício superior e eterno (corpo imortal da ressurreição). Mais claro ainda é a afirmação subsequente, onde ele diz:

“...temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas” (v.1)

Essa “casa não feita por mãos humanas”, como já vimos na analogia traçada pelo apóstolo, não se refere a uma morada celestial, mas ao corpo ressurreto, pois não está em contraste a uma morada terrena, mas ao corpo físico atual. A linguagem expressa por Paulo, acerca de ser “uma casa não feita por mãos”, fortalece ainda mais este fato, pois essa foi também exatamente a mesma linguagem utilizada por Jesus quando se referiu ao seu corpo ressurreto:

“Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outronão feito por mãos de homens (cf. Marcos 14:58)

Este edifício “não feito por mãos de homens” que Cristo disse que edificaria em três dias não é o próprio templo de Jerusalém em si, que até hoje está em ruínas, nem uma morada celestial, mas sim o seu próprio corpo ressurreto, pois de fato ele ressuscitou três dias depois, em um corpo glorificado. Por isso, João ressalta que “ele falava do templo do seu próprio corpo” (cf. Jo.2:21). Assim, vemos que esse edifício que Paulo se refere, que estava em contraste a um corpo físico terreno e que não foi feito por mãos humanas, não é uma morada celestial, mas um corpo ressurreto.

Só pela análise desse verso 1 já podemos compreender perfeitamente que a visão de Paulo não era de se desfazer deste corpo mortal para habitar no Céu sem um corpo antes da ressurreição, mas era de se desfazer deste corpo mortal para obter um corpo imortal que teremos na ressurreição dos mortos. Se o apóstolo traça um paralelo entre a casa e o edifício, e essa casa não é uma casa literal mas sim o corpo terreno, então é evidente que o edifício que Paulo se referia também não é um edifício literal que está no Céu, mas sim um corpo ressurreto celestial.

Com efeito, Paulo nada falava sobre estar com Cristo em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, onde estaremos despidos (sem um corpo), mas sim sobre a própria ressurreição, quando estaremos revestidos de nosso "edifício" eterno nos céus (i.e, de um corpo imortal da ressurreição). Essa ideia fica ainda mais clara quando prosseguimos na leitura com o verso 2, onde o apóstolo diz:

"E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu"(v.2)

Paulo complementa no verso 2 a ideia do verso 1, de que morreria com o desejo de ser revestido. Mas revestido do que? Da espada do Zorro? Não, mas revestido de um corpo imortal e incorruptível. No original grego, a palavra utilizada por Paulo aqui é ependuomai, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "colocar sobre, vestir-se"[1]. Ela vem da palavra enduo, que tem o mesmo significado:

1746 ενδυοω enduo
de 1722 e 1416 (no sentido de entrar em uma veste) TDNT - 2:319,192; v
1) entrar numa (roupa), vestir, vestir-se.

Essa é exatamente a mesma palavra que Paulo usa quando se refere ao revestimento que os crentes irão passar na ressurreição:

"E, quando isto que é corruptível se revestir [enduo] da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir [enduo] da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória" (cf. 1ª Coríntios 15:54)

Portanto, Paulo estava dizendo que iria morrer para ser revestido de um corpo glorioso ressurreto. Ele não estava neste verso dizendo que iria para o Céu, mas que seria revestido de algo que é do Céu. Ele não disse: "desejando ir para a nossa habitação no Céu"; mas sim: "desejando ser revestido da nossa habitação, que é do Céu". Com efeito, a ideia que é passada aqui não é de morrer e ir para o Céu sem um corpo, mas sim, como vimos pelo contexto, de ser revestido de um corpo ressurreto, que é "do Céu", isso é, celestial, glorioso, em contraste a este presente corpo mortal, corruptível.

A nota de rodapé da NVI (Nova Versão Internacional) parece concordar com tal interpretação lógica do texto bíblico, com "habitação terrestre" sendo uma referência ao corpo terreno e que "gememos" esperando o revestimento de um corpo glorioso ressurreto:

"Temporária habitação terrena em que vivemos. Nosso corpo (v. 2Pe 1.13). Como uma tenda, temporária e pouco durável, nosso corpo é frágil, vulnerável e se desgasta (4.10-12,16)"[2]

"Gememos. Porque ansiamos pela perfeição que será nossa ao nos vestirmos do glorioso corpo espiritual (cf. 1Co 15.42-49)"[3]

Portanto, podemos ver que o desejo de Paulo, pelo qual ele "gemia" (v.2), não era de habitar no Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição dos mortos em algum estado intermediário, mas sim de alcançar a ressurreição dos mortos. A tradução da CNBB verte o verso 2 de forma ainda mais direta: "por isso, suspiramos neste estado, desejosos de revestir o nosso corpo celeste". E isso fica ainda mais nítido quando vemos o verso seguinte, que diz:

"Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus" (v.3)

É de consenso até mesmo entre os imortalistas que o "nus" no verso 3 se refira a um estado não-corporal, isto é, destituído de corpo, ao passo que o "vestidos" se refira ao revestimento do corpo ressurreto ao qual Paulo se refere em todo o contexto. A nota de rodapé da NVI também concorda com isso e afirma:

"Nus. Sem a roupagem de um corpo, estado daqueles cuja habitação terrena, temporária, foi desmantelada pela morte"[4]

Portanto, "vestido" seria o revestimento de um corpo ressurreto e "despido" (ou "nu") seria ficar sem um corpo, ou seja, ficar morto. Para os imortalistas, esse "nu" seria o estado consciente dos espíritos incorpóreos que aguardam a ressurreição dos mortos no Céu, distinguindo da visão mortalista que interpreta o "nus" como sendo o estado sem vida entre a morte e a ressurreição, em que os mortos não estão no Paraíso, mas em suas sepulturas. A visão imortalista deste verso fica bem clara na análise que o Pr. Airton Evangelista da Costa faz deste texto:

"2 Co 5.4: '...não queremos ser despidos, mas vestidos de novo, para que o mortal seja recolhido pela vida'. O estado do crente de ser despido não se refere ao corpo no sepulcro, mas ao espírito que aguarda o 'corpo da glória' na ressurreição"[5]

Porém, o próprio Paulo refuta tal tese de que seja possível viver no Paraíso sem um corpo, na forma de um espírito incorpóreo no Céu antes da ressurreição, pois deixa claro que no Céu não seria achado despido, mas vestido. Outras traduções deixam isso ainda mais claro, ao verterem o verso 3 da seguinte maneira:

"Contanto que sejamos achados vestidos e não despidos" (versão Ave Maria)

"E isso será possível se formos encontrados vestidos, e não nus" (versão da CNBB)

"O que será possível se formos encontrados vestidos, e não nus"
 (Bíblia de Jerusalém)

O professor Azenilto Brito também destacou isso ao dizer:

"Se vestido significa estar num corpo, estar nu é ficar sem um corpo. Observe que Paulo deixa muito claro que a vida futura é uma condição de vestido e não de nu! Ele dá não dá absolutamente qualquer apoio ao ensino de vida sem um corpo"[6]

Com efeito, Paulo refuta a tese de que o "despido" se refira a uma condição consciente no Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição, pois afirma que tal coisa só seria possível se fosse encontrado vestido (com corpo), e não nu (sem corpo). Prova disso é o verso seguinte, onde ele reitera essa pensamento com ainda mais força:

"Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida" (v.4)

Paulo diz claramente que não queria ser despido, mas revestido. Ora, se a condição de "despido", conforme os imortalistas dizem, se refere a uma condição consciente no Céu onde já estamos com Cristo em forma de espírito incorpóreo, Paulo iria desejar isso mais do que tudo, pois o maior desejo do cristão é estar com Cristo, independentemente se isso vai acontecer com ou sem um corpo. Seria muito estranho que o “despido” se relacionasse a um espírito com consciência e personalidade que vai para o Paraíso esperando a ressurreição, pois se fosse assim Paulo não acentuaria tanto que não desejava estar neste estado (vs. 3-4).

O fato de Paulo ter declarado tão enfaticamente que não queria ser despido põe por terra a teoria imortalista de que esse "despido" se refira a uma condição consciente no Céu em um estado intermediário. Seria o mesmo que Paulo estar dizendo: "Eu não quero estar no Céu com Cristo como espírito em um estado intermediário, mas sim ser revestido". Isso faz sentido? É claro que não. Para Paulo, não existia uma condição consciente no Céu sem o revestimento de um corpo.

Quando ele fala sobre estar "despido" ou se encontrar "nu", não se refere a um estado consciente em um estado intermediário, como sonham os imortalistas, mas sim à verdadeira condição em que os mortos passam entre a morte e a ressurreição, onde estão inconscientes e literalmente mortos (i.e, sem vida), destituídos de corpo (porque esperam a ressurreição). É este o estado entre a morte e a ressurreição que Paulo tinha em mente, e por isso ele afirmou que não queria ser despido, mas revestido; ou seja, que para ele não interessava nem era de nenhum valor esse estado entre a morte e a ressurreição em que não estamos com vida, mas o que ele queria mesmo era ser revestido (ressuscitar). Joe Crews também observa isso nas seguintes palavras:

"Ele não está ansioso para o sono da morte (sendo 'despidos') quando ele não estaria com o Senhor, mas ele está esperando pela redenção do corpo quando ele ia ser revestido com a 'casa eterna nos céus'. Nesta vida ele estaria vestido com um corpo mortal, e depois a mortalidade seria 'absorvida pela vida', e ele teria um celestial corpo imortal. Mas tanto no tabernáculo terreno quanto no celestial ele continua a ter um corpo. Paulo não faz referência à uma alma separada do corpo. Ou ele possui um corpo neste planeta e está ausente do Senhor, ou ele possui um corpo redimido no céu, e está presente com o Senhor"[7]

Isso mostra, mais uma vez, que Paulo não tinha em mente a visão que os imortalistas tem sobre a vida após a morte, em que estamos com Cristo enquanto despidos (sem corpo, e supostamente como espíritos incorpóreos ou almas desencarnadas) esperando a ressurreição em um estado intermediário, mas sim de que não existe vida na condição de despido, e por isso o desejo dele era de ser logo "revestido", que, como já vimos, significa ressuscitar, ser revestido de um corpo glorioso, ressurreto.

Paulo não iria rejeitar entrar no Céu como um espírito incorpóreo. O que ele estava dizendo é que seu desejo, pelo qual ele "gemia" (v.3), não era o de morrer para entrar no estado sem vida entre a morte e a ressurreição, em que estaremos despidos, inconscientes, sem vida, mas sim para alcançar a ressurreição dos mortos, isto é, para ser revestido novamente (v.4), de um corpo glorioso.

O desejo de Paulo, pelo qual ele gemia carregado, era na esperança de ser revestido para que o mortal fosse absorvido pela vida (v.4). A pergunta final que nos fica é: quando é que se dá este momento tão desejado por Paulo, quando o mortal será absorvido pela vida? Para os coríntios, isso não era uma dúvida, nem uma incógnita, pois o próprio Paulo já lhes havia escrito sobre isso poucos anos antes, em sua primeira epístola a eles:

Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que isso que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isso que é mortal se revista da imortalidade. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória (cf. 1ª Coríntios 15:51-54)

A resposta é clara: a morte só será absorvida pela vida ao soar da última trombeta, por ocasião da ressurreição dos mortos. É somente na ressurreição que o mortal se reveste da vida, que a morte é tragada pela vitória. Seria impossível que o mortal fosse absorvido pela vida logo após a morte em algum estado intermediário em forma de espírito incorpóreo, pois, na teologia imortalista, nosso corpo morre e nossa alma já é imortal. Assim, nada que hoje é mortal ("para que o mortal") seria "absorvido pela vida" após a morte. Obviamente Paulo estava se referindo não a um estado intermediário antes da ressurreição, mas precisamente à ressurreição, quando nossa natureza mortal será transformada em uma natureza imortal (cf. 1Co.15:51-54), com a morte sendo tragada (cf. 1Co.15:54), com o mortal sendo absorvido pela vida.  

Portanto, quando Paulo diz que não queria ser despido, mas revestido, para que o mortal fosse absorvido pela vida, ele não estava dizendo que queria morrer para estar com Cristo em um estado intermediário como um espírito incorpóreo, mas sim que não queria passar pelo estado entre a morte e a ressurreição no qual estaria "despido" (i.e, sem um corpo, porque estaria morto, sem vida), desejando logo chegar a ressurreição, quando seria "revestido" e quando o mortal seria absorvido pela vida. Impossível conciliar isso com a teologia imortalista, segundo a qual Paulo desejava estar com Cristo logo em um estado intermediário e antes da ressurreição. Como bem observou Joe Crews:

"O que se entende pelo termo 'despido'? Repare que Paulo especificamente declara que ele não tinha vontade de estar nu ou despido. Podemos estar certos, então, que o estado despido não envolvia estar com o Senhor, uma vez que Paulo não deseja estar despido [e ele desejava estar com o Senhor]. De fato, o apóstolo fez referência a estar vestido em apenas duas casas, a terrena e a celeste. No estado despido, ele não estava nem vestido com o corpo terreno e nem com o celeste. Isso deixa apenas uma explicação possível. Estar 'despido' ou 'nú' é a condição de morte que é o intervalo entre a dissolução da casa terrena e a entrada na celestial"[8]

Os imortalistas não tem saída, pois se veem obrigados a acreditarem que Paulo estava desejando estar com Cristo e ao mesmo tempo estava desejando não estar com Cristo, pois para eles este encontro de Paulo com Cristo se dá em um estado intermediário como espírito incorpóreo, mas o próprio Paulo diz claramente que não queria estar despido (2Co.5:4). Se esse encontro de Paulo com Cristo se dá enquanto o apóstolo está “despido”, então por que ele diz que não queria estar despido? Seria o mesmo que afirmar que não queria estar com Cristo!

Além disso, a profunda semelhança entre o que Paulo diz aqui em 2ª Coríntios 5:1-5 e o que ele declara em Romanos 8:22,23 (“mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”) faz um paralelo tão impressionante que demonstra que ele tinha a mesma ideia em mente nas duas ocasiões:

AOS CORÍNTIOS (2Co.5:1-5)
AOS ROMANOS (Rm.8:22-23)
"Neste tabernáculo nós gememos" (v.4)
"Também gememos em nós mesmos"(v.23)
"O qual nos deu como penhor o Espírito" (v.5)
"Temos as primícias do Espírito" (v.23)
"Desejando ser revestido da nossa habitação, que é do Céu" (v.2)
"Aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (v.23)

A analogia e a comparação dos versos nos deixa muito claro que o momento em que seremos"revestidos da nossa habitação que é do Céu" (cf. 2Co.5:2) é quando teremos a "redenção do nosso corpo" (cf. Rm.8:23), isto é, na ressurreição dos mortos. Joe Crews também discorre sobre isso acentuando tal fato:

"A comparação revela que este revestimento para o Céu tem lugar na 'redenção do corpo'... em outras palavras, mesmo que a morte deva dissolver esse corpo mortal, Paulo torna muito claro que não seremos revestidos da nossa habitação que é do Céu (imortalidade) até a vinda de Jesus e a redenção do corpo. Isto também é estabelecido por repetidas referências ao estado 'nu' ou 'despido'"[9]

E Paulo segue com sua analogia no verso 6, dizendo:

"Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor. Porque andamos por fé, não por vista" (vs. 6-7)

A Bíblia de Jerusalém traduz estes mesmos versos da seguinte maneira:

"Por conseguinte, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão"(vs. 6-7)

Diante de todo o contexto, como já observamos, Paulo realmente queria estar ausente do corpo, mas não para habitar com o Senhor em estado incorpóreo (despido), mas revestido (ressurreto). Como diz Azenilto, "Paulo não está antecipando uma condição de um corpo desvestido, e sim um corpo revestido (...) Paulo não está descrevendo uma condição de algo imaterial ou o 'despido'. Ele se refere ao momento em que vai receber o corpo imortal. O corpo do qual, então, estará ausente é o seu atual corpo terreno, mas ele não ficará desmaterializado (nu), nesse momento"[10].

Enquanto habitamos neste corpo (habitação terrena) estamos longe do Senhor e da nossa "mansão" (corpo ressurreto), e por isso desejamos estar ausentes deste corpo mortal para estarmos perto do Senhor, como o apóstolo afirma no verso seguinte:

"Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (v.8)

E aqui chegamos, finalmente, ao verso 8, aquele tão usado pelos imortalistas, com a diferença de que nós mostramos o contexto e fazemos amplo uso da exegese e da hermenêutica bíblica, e eles simplesmente fingem que esse verso 8 caiu do Céu sem contexto e nem nada, e de forma isolada deturpam vergonhosamente esse verso bíblico como se indicasse que Paulo estava dizendo que queria estar com Cristo num estado intermediário como espírito incorpóreo, quando diante de todo o contexto o que vemos é exatamente o contrário disso, e que Paulo só estaria com Cristo quando ressurreto, dotado de um corpo glorioso da ressurreição, não despido, mas revestido, não incorpóreo, mas corpóreo, e não antes do mortal ser absorvido pela vida, da morte ser tragada pela vitória.

Paulo desejava realmente estar ausente deste corpo terreno e estar presente com Cristo, mas não despido, senão revestido do corpo glorioso da ressurreição. Como bem disse Azenilto, ele estava "contemplando o além-túmulo, para além da ressurreição, àquele glorioso momento em que iria saudar a Jesus face a face e viver com Ele para sempre"[11]. Ou seja: o desejo de Paulo em estar com Cristo não se concretiza em um estado intermediário despido de corpo, mas na própria ressurreição dos mortos.

Satanás é astuto e sabe tirar um texto de seu contexto para fundamentar uma heresia, e este texto de 2ª Coríntios 5:8 é o maior exemplo disso, a mais vergonhosa adulteração bíblica que já existiu, pois quando posta diante de seu contexto é na verdade um golpe de morte na própria lenda da imortalidade da alma, e revela que Paulo tinha exatamente a mesma mentalidade de um cristão holista.


Partir e estar com Cristo – O texto de Filipenses 1:21-23 expressa exatamente a mesma coisa do texto de 2ª Coríntios 5:8, e, portanto, deve ser interpretado da mesma forma. Paulo queria "partir e estar com Cristo", da mesma forma que alguém pode querer partir para Washington e estar com Barack Obama. Sim, ambos vão deixar algo, um a vida e outro o Brasil. E ambos vão encontrar alguém, um Cristo e o outro Obama. Mas tais frases de maneira nenhuma indicam que isso se dará imediatamente no Chronos seguinte. Para os hebreus, o tempo para de contar para quem morre. Quem morresse estaria inconscientemente morto (cf. Sl.13:3; 30:9; 94:17; 146:4; 6:5; 115:17; Ec.9:5,6,10; Jó 14:11,12; Is.38:18; 28:19), de forma que o intervalo entre a morte e a ressurreição não passaria de um piscar de olhos para o ressuscitado, mesmo que se passassem alguns milênios entre a morte e a ressurreição.

Por isso, a passagem de Paulo em Filipenses aborda a vida após a morte neste aspecto atemporal da existência depois da morte. Algo semelhante ocorre quando o autor de Hebreus escreve que após a morte vem em seguida o juízo (cf. Hb.9:27), mas sabemos que o juízo só ocorre na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Novamente vemos o autor ressaltando o aspecto atemporal entre a morte e a ressurreição. Embora depois da morte venha em seguida o juízo, este juízo só acontece na volta de Jesus, ainda que se passem milênios entre a morte de alguém e a volta de Cristo.

Pela não existência de um estado intermediário, quem morre e volta ao pó não está mais condicionado a tempo e a espaço. A ressurreição vem como em um piscar de olhos, de modo que partimos e estamos com Cristo imediatamente depois, ainda que isso em um aspecto temporal leve anos ou milênios para se concretizar. O pastor Hermes Fernandes, bispo consagrado pela International Christian Communion (comunhão que reúne os bispos de tradição anglicana/episcopal dos cinco continentes) mantém o mesmo ponto de vista e, depois de passar por uma longa reflexão sobre o tema à luz da Bíblia, afirmou:

"A morte é sucedida imediatamente pelo juízo (Hb.9.27). Não há hiato entre os dois eventos. Ao deixarmos essa vida, somos transportados ao Tribunal de Cristo, e à Sua presença imediata. Deixamos o tempo, e entramos em uma esfera atemporal, chamada também de eternidade. Não há estado intermediário entre a morte e a ressurreição, ou entre a morte e o juízo. Foi a doutrina do estado intermediário que proveu um terreno fértil para o surgimento de doutrinas como a do purgatório e da intercessão dos santos, que não possuem qualquer respaldo bíblico consistente. Não devemos esperar que ao morrermos sejamos levados ao Seio de Abraão, para ali esperarmos o momento da ressurreição"[12]

Pouco depois, faz uso exatamente do mesmo contexto incontestável de 2ª Coríntios 5:1-8 para fundamentar essa posição:

"Alguns creem que, ao deixarmos nossos corpos, experimentamos um estágio intermediário, em que seremos tão-somente espíritos desencarnados. Isso é um absurdo. Nosso espírito não deseja viver, senão em um corpo através do qual possa glorificar a Deus. Daí a importância da ressurreição corporal. Paulo chega a afirmar que nós 'gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do Céu, porque estando vestidos, não seremos achados nus. Pois também nós, os que estamos neste tabernáculo (o corpo físico atual), gememos angustiados, não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida' (2 Co.5:2-4). O crente em Jesus jamais deve desejar ser despido, isto é, viver sem um corpo, através do qual possa servir e louvar ao Seu Deus"[13]

Por fim, ele declara:

"Para quem está vivo no mundo hoje, pode parecer que esse dia esteja num futuro remoto. Mas para quem deixa o mundo hoje, é como se esse dia chegasse imediatamente. Não há intervalo. É como se entrássemos numa máquina do tempo, e fôssemos arremessados em um futuro distante. Lá chegando, não apenas nos encontraremos com o Senhor nos ares, vindo em direção a Terra para julgar os vivos e os mortos, como também encontraremos todos os eleitos de Deus, de todas as eras. Dentre os que morreram em Cristo, ninguém vai chegar primeiro... Por isso Jesus disse que os amigos que granjearmos aqui na terra, serão os mesmos que nos receberão 'nos tabernáculos eternos' (Lc.16.). Na verdade, nos recepcionaremos uns aos outros, pois chegaremos todos juntos. Há ordem de partida, mas não há ordem de chegada. Por vivermos confinados ao tempo e ao espaço, assistimos à partida de cada pessoa que deixa essa vida. Mas na eternidade não haverá ordem de chegada. Todos compareceremos diante do Trono de Deus concomitantemente"[14]

Essa visão bíblica da morte é compartilhada também pelo apologista cristão batista Joe Haynes, que afirmou:

"A Bíblia ensina claramente que quando um crente morre, não há razão para acreditar em qualquer estado intermediário, mas podemos supor que a sua próxima experiência vai ser o momento da ressurreição, quando ele é unido com Cristo sobre a Terra"[15]

O próprio Lutero compartilhou essa visão sobre o estado entre a morte e a ressurreição ao dizer:

"Repentinamente ressuscitaremos no último dia, sem conseguir compreender como morremos e como passamos pela morte"[16]

Como disse Wolfhart, "a continuidade de nossa vida presente com a vida futura da ressurreição dos mortos não deve ser buscada na seqüência linear do tempo; ela reside no caráter oculto do Deus eterno, cujo futuro já está presente em nossas vidas"
[17]. Aqueles que pensam que aquilo que Paulo expressou em Filipenses 1:21-23 sobre "partir e estar com Cristo" por ser algo "incomparavelmente melhor" é algo que vai contra os princípios do mortalismo bíblico defendido pelo próprio Paulo o fazem por pura ignorância, confundindo a crença da mortalidade da alma com a psicopaniquia, popularmente conhecida como "sono da alma", segundo a qual as almas não morreriam, mas estariam dormindo literalmente em um estado intermediário, aguardando a ressurreição dos mortos.

Embora essa outra visão ensine que os mortos só entram no Céu por ocasião da segunda vinda de Cristo, ela falha exatamente em crer que existe um elemento imortal no homem e que sobrevive à parte do corpo, ainda que inconscientemente. Tal não é a visão bíblica sobre a morte. Quando falamos que os mortos dormem, não estamos a dizer que eles estão literalmente dormindo, mas fazendo uso de uma figura de linguagem para um estado sem consciência entre a morte e a ressurreição. É lógico que faz sentido o que Paulo disse em Filipenses 1:21-23, e qualquer mortalista diria o mesmo, porque não existe "vida" ou "tempo" entre a morte e a ressurreição.

Portanto, é realmente um "partir e estar com Cristo", ainda que isso somente se concretize na ressurreição dos mortos. Para Paulo, seria infinitamente melhor a morte, pois desta forma ele seria imediatamente conduzido a Cristo, pela não existência de passagem de tempo entre a morte e a ressurreição, e não por possuir alguma "alma imortal" que sobreviva à morte física e siga a um estado intermediário em condição incorpórea, o que o próprio apóstolo fez questão de negar quando escreveu a mesma coisa aos coríntios (cf. 2Co.5:8), dizendo que queria morrer não para ser despido (sem corpo), mas revestido (com corpo ressurreto), que não estaria no Céu em condição incorpórea, mas "vestido" (cf. 2Co.5:2-3), e que tal coisa se daria quando o mortal fosse absorvido pela vida (cf. 2Co.5:4), na ressurreição.

Desta forma, os textos de 2ª Coríntios 5:8 e de Filipenses 1:21-23 realmente ensinam a iminência em estar com Cristo logo após a morte, mas isso não se dá em função de uma "alma imortal" em nós presente, mas sim pela inexistência de tempo entre a morte e a ressurreição. É deste mesmo modo que o pastor presbiteriano José Luiz Martins Carvalho se posicionou, dizendo:

"A Escritura nos adverte: 'E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo' (Hb 9.27). O juízo segue-se à morte, pois passa-se do chrónos aokairós, muda-se o parâmetro temporal. Do tempo linear para a eternidade. Logo, para o cristianismo bíblico não há imortalidade nem sono da alma [psicopaniquia], mas apenas a mudança de estado do tempo para a eternidade. Na Parousia, tempo e eternidade se encontrarão. É isto que, hoje, ansiosamente aguardamos!"[18]

Francis D. Nichol ainda faz importantes observações que nos mostram pela Bíblia que é comum dois acontecimentos estarem ligados ainda que divididos por um longo período de tempo entre eles em um aspecto temporal:

“Não é incomum um escritor bíblico reunir eventos que estão separados por um longo espaço de tempo. Geralmente, a Bíblia não entra em detalhes, mas apresenta os pontos realmente importantes do trato de Deus com a humanidade no transcorrer dos séculos. Por exemplo, Isaías 61:1 e 2 contém uma profecia da obra que Cristo faria em Seu primeiro advento. Em Lucas 4:17-19 está o relato de Cristo lendo essa profecia para o povo e informando: ‘Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.’ (v.21). Mas um exame cuidadoso revelará que Cristo não leu toda a profecia de Isaías, embora evidentemente ela seja uma declaração conectada. Ele terminou com a frase: ‘Apregoar o ano aceitável do Senhor’. Mas a frase seguinte da sentença é: ‘E o dia da vingança do nosso Deus’. Ele não leu essa parte porque ela não devia se cumprir logo. A passagem de Isaías nem mesmo sugere que um período de tempo se interpõe entre esta frase e as precedentes. Mas outras passagens bíblicas indicam claramente tal fato, e é pelo exame de todas as outras passagens que entendemos uma profecia breve e condensada como essa de Isaías”[19]

E ele continua destacando agora o período de mil anos que se interpõe entre a vinda de Cristo e a destruição desta terra, que é ligado por Pedro como se não houvesse período de tempo significativo entre eles:

“Ou considere a profecia do segundo advento conforme apresentada em II Pedro 3:3-13. Se nenhuma outra passagem bíblica fosse comparada com essa, poderíamos facilmente chegar à conclusão de que o segundo advento de Cristo resulta imediatamente na destruição do mundo pelo fogo. Todavia, quando comparamos II Pedro 3 com Apocalipse 20, aprendemos que um período de mil anos se interpõe entre o segundo advento e a destruição do mundo pelo fogo. Pedro estava apenas dando um breve sumário dos extraordinários eventos iminentes. Ele passou imediatamente do grande fato do segundo advento para o próximo grande ato no drama do trato de Deus com este planeta: sua destruição pelo fogo. No caso da profecia de Pedro, assim como no da profecia de Isaías, não há necessidade de confusão se seguirmos o plano de comparar passagem com passagem para preencher os detalhes”[20]

Vemos, portanto, que em absolutamente nada o "partir e estar com Cristo" implica em uma alma incorpórea vivendo conscientemente em algum estado intermediário antes da ressurreição, o que não é dito em parte nenhuma da teologia paulina e é negado pelo próprio apóstolo quando trata dessa mesma questão com mais amplitude, como vimos na exegese de 2ª Coríntios 5:1-8. Os imortalistas que formulam argumentos como esse demonstram não conhecerem a doutrina mortalista, confundindo-a com a psicopaniquia, crendo que achamos que existe passagem de tempo entre a morte e a ressurreição e anulando a iminência da mensagem de Paulo sobre estar com Cristo. Se pelo menos entendessem aquilo que tanto criticam, poderiam talvez formular argumentos mais sólidos.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: "A Lenda da Imortalidade da Alma"


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[1] Léxico da Concordância de Strong, 1902.
[2] Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:1, p. 1991.
[3] Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:2, p. 1992.
[4] Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:3, p. 1992.
[5] COSTA, Airton Evangelista. Reflexões sobre a imortalidade da alma. Disponível em: <http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm>. Acesso em: 16/08/2013.
[6] BRITO, Azenilto. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c-224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
[7] CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em: <http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>. Acesso em: 19/08/2013
[8] ibid.
[9] ibid.
[10] BRITO, Azenilto. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c-224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
[11] ibid.
[12] FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 1. Disponível em: <http://www.hermesfernandes.com/2009/12/afinal-pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-1.html>. Acesso em: 16/08/2013.
[13] ibid.
[14] FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 2. Disponível em: <http://www.hermesfernandes.com/2009/12/pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-2.html>. Acesso em: 16/08/2013.
[15] HAYNES, Joe. Por que não creio em um "estado intermediário" entre a morte e a ressurreição? Disponível em: <www.revistacrista.org>. Acesso em: 16/08/2013.
[16] WOLF, Manfred. p. 92.
[17] PANNENBERG, Wolfhart. Systematische Theologie –Vol. 3, p. 574.
[18] CARVALHO, José Luiz Martins. Imortalidade da Alma ou Ressurreição da Vida? Disponível em: <http://teologiahoje.blog.com/2010/07/01/imortalidade-da-alma-ou-ressurreicao-da-vida/>. Acesso em: 16/08/2013.
[19] NICHOL, Francis David. Respostas a Objeções. Tatuí: Casa, 2004.
[20] ibid.