18 de abril de 2014

O livre exame católico


Uma das maiores críticas dos romanistas contra os cristãos é que estes praticam o livre exame e interpretação da Bíblia. Para eles, coisa nenhuma pode ser interpretada na Bíblia fora da expressa declaração oficial da Igreja de Roma, seja no catecismo católico ou em alguma declaração “infalível” do papa em ex cathedra. Qualquer coisa que seja interpretada na Bíblia, mas que não seja o parecer oficial da Igreja Romana, deve ser rejeitada porque constitui-se em um “livre exame”, o que, para eles, é condenável. Não entrarei mais uma vez no mérito da questão se a Bíblia pode ou não pode ser interpretada livremente pelo leitor, pois este assunto já foi tratado nestes artigos:




Este artigo, diferentemente dos demais, não busca provar que o livre exame é bíblico, mas demonstrar a inconsistência dos católicos que negam o livre exame. A questão é simples: se o livre exame/interpretação da Bíblia é proibido, então por que os “apologistas” católicos interpretam livremente a Bíblia? Por exemplo: um certo sujeito com ares de psicopata e com sobrenome de livro apócrifo mantém um site católico na internet que, basicamente, existe para defender a interpretação preterista do Apocalipse. Ele possui vários artigos que corrompem grotescamente o livro do Apocalipse com interpretações livres da parte dele que jamais foram ditas oficialmente em nenhum documento católico.

Por incrível que pareça, a Igreja Romana não tem uma interpretação oficial do Apocalipse. Na parte referente à escatologia no catecismo, não há nada que fale expressamente em uma crença pré-milenista, amilenista ou pós-milenista. Eles não dizem que a grande tribulação é referente a um acontecimento passado, na batalha entre Jerusalém e Roma em 70 d.C, como este insano defende. Em outras palavras: a Igreja Romana não possui uma interpretação oficial clara sobre posições escatológicas. Mesmo assim, este indivíduo insiste em criar artigos defendendo com unhas e dentes que a tribulação já aconteceu, deturpando a Bíblia e os escritos de Flávio Josefo.

O que é isso que ele faz? Simples: livre interpretação da Bíblia.

É por isso que entre os católicos é comum encontrar preteristas e futuristas, e até mesmo pessoas que não tem posicionamento nenhum ou que alegorizam todo o livro. A instituição religiosa deles não fala nada sobre isso, mas eles falam. Ela não tem uma posição escatológica que defenda, mas eles têm. Se isso não é livre interpretação exatamente igual ocorre entre os cristãos (evangélicos), eu não sei mais o que é. Na verdade, se eu quiser trazer ainda mais fogo ao debate, poderia citar esta parte do catecismo que indica o oposto ao que ele defende, e que diz:

“Antes do advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalar a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra desvendará o "mistério de iniquidade" sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente a seus problemas, à custa da apostasia da verdade” (§675 do Catecismo Católico)

Ela situa a tribulação como um acontecimento futuro, e diz que, neste momento futuro, o mistério da iniquidade será (no futuro, e não como um acontecimento passado) desvendado. Isso é claramente futurista, e o oposto do que ensina este sujeito católico, que é ferrenhamente contra a livre interpretação, mas interpreta a Bíblia livremente. Não é a toa que não vemos sequer um único documento oficial da Igreja Romana presente no site deste indivíduo que mostre a posição oficial da Igreja dele a este respeito. Ele sabe que não existe. Ele sabe que o que ele faz é fruto puro do livre exame. E eu suponho que ele deveria agradecer os evangélicos por lhe darem a oportunidade de interpretar a Bíblia livremente.

Incrivelmente, este mesmo cidadão interpreta livremente também o livro de Cantares. Como se fosse uma piada de 1º de Abril, ele chegou até mesmo a afirmar que Maria é a mulher de Cantares(!), dizendo que o trecho de Cantares 6:9-10 se refere a Maria. E eu pergunto: de onde ele descobriu isso? De um documento oficial da Igreja dele ou de uma livre interpretação particular da parte dele? Qualquer um pode ir consultar o catecismo católico na parte referente a Maria, clicando aqui, e não irá encontrar nada, absolutamente nada, que diga que Maria é a mulher de Cantares ou que aquele texto seja uma referência à Maria. Ele chegou a essa conclusão através de uma interpretação livre da parte dele, o mesmo que ele condena nos evangélicos.

O mesmo ocorre aos milhares em diversos outros textos. Um católico chamado Antônio que se auto-intitula “Demapro” nas redes sociais (um fake criado por ele, que não tem coragem de debater com sua conta pessoal), descobriu maravilhosamente que o texto de Hebreus 9:11, que diz que “quando Cristo veio como sumo sacerdote dos benefícios agora presentes, ele adentrou o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito pelo homem, isto é, não pertencente a esta criação” (Hb.9:11), se refere à Maria, que seria um tabernáculo não feito pelo homem e não pertencente a esta criação[1].

Perfeito. Maravilhoso. Extraordinário. É de se aplaudir de pé. Só tem um problema: a Igreja Romana não afirma oficialmente isso em lugar nenhum. Então, ele chegou a esta conclusão através da livre interpretação pessoal da parte dele. Ele não é capaz de mostrar isso no catecismo católico ou em alguma declaração em ex cathedra de um papa. Portanto, paradoxalmente, ele valida um dogma evangélico (livre interpretação) para tentar invalidar uma outra crença evangélica. Ele defende a livre interpretação e não sabe. Se ele fosse mesmo um católico romano, deveria ficar simplesmente calado naquilo que a Igreja dele se cala. Aliás, calado ele realmente seria mais útil, de qualquer forma.

Poderíamos adentrar às centenas de textos bíblicos examinados livremente pelos católicos, mas cabe aqui apenas resumir mais um ponto que o catecismo não esclarece. Uma das maiores discussões ao longo dos séculos diz respeito a quem é o “iníquo” de 2ª Tessalonicenses 2:8. Alguns católicos afirmam que é Nero, mas a Igreja de Roma nunca afirmou isso oficialmente. Qualquer católico que se arrisque a citar alguém ou alguma coisa está incorrendo em livre interpretação e, consequentemente, condenando a si mesmo.

Neste e em outros aspectos, o católico tem uma consciência que lhe aponta uma interpretação como sendo a verdadeira, mas se vê forçado a negar e suprimir sua própria consciência para levá-la cativa à interpretação de outro. O católico tem certa opinião sobre um certo texto, mas ele não pode crer nesta sua opinião, tem que crer no que a instituição romana diz. Se a instituição romana não diz, deve ficar calado e suprimir sua própria consciência. Deve decidir ficar preso ao invés de procurar a Verdade. E se a consciência dele lhe diz coisa diferente do catecismo, deve suprimi-la ainda mais!

Assim, os evangélicos são livres para pensarem, sem suprimir ou reprimir sua própria consciência, buscando encontrar a verdade sem nenhum conceito a priori que o obrigue a crer em outra coisa. O católico, ao contrário, é obrigado a priori a crer em uma interpretação que não é a dele, independentemente se ele concordaria ou não com essa interpretação se não lhe fosse vedado o direito de pensar. É por isso que os evangélicos são livres para conhecerem a verdade e serem libertos por ela, enquanto os católicos estão presos no erro e não podem sair dele. É como afirmou certo beneditino católico, dizendo:

“Temos que nos submeter às determinações da Santa Igreja. Embora nossa razão rejeite algum dogma, nossa submissão deve ser incondicional. Se isto é branco e a Santa Igreja diz que é preto, devo-lhe acatar a decisão e renunciar à lógica”

Um católico, sim, pode discordar deste texto. Apenas tome cuidado para não discordar pela sua própria interpretação diferente do que foi dito. Se você fizer isso, cuidado: estará sendo um “protestante”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1]Na verdade, o contexto mostra claramente que o texto em questão não é uma referência à Maria, mas ao Santo dos Santos, pois o versículo seguinte esclarece dizendo: “Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, e obteve eterna redenção” (v.12). Portanto, o “Demapro”, além de interpretar a Bíblia livremente, ainda interpreta errado.