28 de agosto de 2013

O batismo e a circuncisão



Recentemente vi um debate entre um defensor do batismo infantil e outro que defende o lado contrário, do batismo consciente, a partir de quando a pessoa tem a capacidade de discernir entre o bem e o mal e que possa se arrepender de seus pecados. Meus argumentos contra o batismo infantil já foram sumariados neste artigo, de modo que não vale a pena repetir novamente os mesmos argumentos que já foram apresentados. Neste artigo, apenas me limitarei a comentar sobre toda a (única) base argumentacional do debatedor favorável ao batismo infantil, que admitiu que ele não se encontra explicitamente na Bíblia, mas crê que ele é dedutível a partir da tipologia entre circuncisão e batismo.

Dito em termos simples, na visão dele, como a circuncisão tipifica o batismo e as crianças eram circuncidadas ao oitavo dia segue-se necessariamente que os bebês devem ser batizados também. Essa lógica aparenta fazer algum sentido, e até certo ponto pode complicar a contra-argumentação de alguém que seja menos instruído, mas não resiste a um exame crítico do argumento. Mesmo trabalhando em cima da premissa dele de que a circuncisão era uma tipologia do futuro batismo, devemos destacar que:

• Apenas as crianças do sexo masculino eram batizadas, as mulheres nunca passavam por qualquer tipo de circuncisão. Se a tipologia entre circuncisão e batismo for levada aos extremos que o debatedor se utiliza, então obviamente apenas os bebês do sexo masculino deveriam ser batizados, negando assim o batismo às mulheres, o que seria um absurdo.

• A circuncisão não podia ser praticada em “qualquer dia”, mas repetidamente era reiterado que tinha que ser sempre no oitavo dia de vida da criança (Lv.12:3). A coisa era tão séria e rigorosa sobre isso que até mesmo quando o dia da circuncisão caía em um Sábado ela tinha que ser efetuada neste dia, mesmo sendo considerado um “trabalho” que teoricamente não poderia se fazer no Sábado (Jo.7:22,23). Assim, deveríamos esperar o mesmo rigor em fazer com que o batismo fosse efetuado sempre ao oitavo dia da criança, mas essa regra não existe nas igrejas que batizam recém-nascidos.

• A circuncisão não era praticada por todas as nações, mas pelos israelitas, já o batismo é efetuado em judeus e em não-judeus indistintamente.

Portanto, a questão não é tão simples como alegar que: (1) a circuncisão tipifica o batismo; (2) crianças eram circuncidas; então: (3) crianças devem ser batizadas. Por essa mesma lógica, as mulheres não poderiam ser batizadas, nem os não-judeus, e todos os que fossem batizados deveriam ser especificamente no oitavo dia, nem antes nem depois. A verdade é que o batismo cristão possui um elemento importante que não pode ser ignorado e que o distingue essencialmente da circuncisão, que é a necessidade do arrependimento.

Ninguém precisava se arrepender para ser circuncidado, bastava que fosse hebreu e do sexo masculino. O batismo, porém, apresenta esse pré-requisito básico, razão pela qual o batismo é chamado repetidas vezes de “batismo de arrependimento” (Lc.3:3; At.13:24; Mc.1:4), mas a circuncisão nunca é chamada de “circuncisão de arrependimento”. Isso implica que o arrependimento é necessário para o batismo na Nova Aliança, ainda que não fosse necessário para a circuncisão no Antigo Pacto. Na Nova Aliança, é preciso primeiro crer, e somente depois ser batizado (At.8:36-38; At.18:8; Mc.16:16), já na circuncisão não havia qualquer necessidade de crer para depois ser circuncidado. Esse elemento novo, chamado arrependimento, não apenas distingue o batismo da circuncisão, mas também lhe confere pré-requisitos distintos dela.

Enquanto os pré-requisitos da circuncisão era de ser judeu do sexo masculino e de se circuncidar ao oitavo dia, os pré-requisitos do batismo é crer em Cristo e arrepender-se dos seus pecados. É por isso que o batismo só seria conferido ao etíope se ele cresse (i.e, condicional a crer – At.8:36-38), é por isso que somente aqueles que criam eram batizados (At.8:36-38; At.18:8; Mc.16:16), é por isso que antes de se batizar confessavam-se os pecados (Mt.3:6), é por isso que apenas “homens e mulheres foram batizados” (At.8:12) e não crianças, é por isso que o batismo é chamado de “batismo de arrependimento” (Lc.3:3; At.13:24; Mc.1:4), e por isso que o próprio Jesus somente se batizou quando adulto, e não quando recém-nascido (Mt.3:13). Indiscutivelmente, o batismo cristão possui pré-requisitos básicos diferentes da circuncisão.

Alguém poderia alegar que isso seria “injustiça” com os bebês, mas o mesmo poderia ser dito sobre os pré-requisitos da circuncisão: alguém poderia fazer o mesmo e alegar que isso é “injusto” para com as mulheres. E isso muda alguma coisa? É claro que não. Da mesma forma que Deus aceitava as mulheres no AT mesmo sem serem circuncidadas, Ele aceita as crianças no NT, mesmo sem serem batizadas. É tudo questão de lógica e bom senso. Foi por isso que Jesus aceitou as criancinhas que vieram a ele (Mt.19:14), mas jamais mandou batizar alguma criança. Aliás, em lugar nenhum das Escrituras aparece alguma criança sendo batizada, razão pela qual eles se veem forçados a lançarem mão do ambicioso porém pouco útil “argumento da circuncisão”, sustentando em cima de premissas fracas e superficiais aquilo que constitui toda a base argumentativa deles.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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22 de agosto de 2013

Liberdade de Expressão

“Quando, porém, Sambalate, Tobias, os árabes, os amonitas e os homens de Asdode souberam que os reparos nos muros de Jerusalém tinham avançado e que as brechas estavam sendo fechadas, ficaram furiosos. Todos juntos planejaram atacar Jerusalém e causar confusão. Mas nós oramos ao nosso Deus e colocamos guardas de dia e de noite para proteger-nos deles” (Neemias 4:7-9)


Uma mensagem aos fanáticos que pensam que ainda estamos vivendo na Inquisição Medieval e que querem calar a liberdade de expressão religiosa:

É importante esclarecer que este blog, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX , do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (inciso IV) e “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”(inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”. Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da “argumentação”, ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para ideias e doutrinas.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apoogiacrista.com)


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21 de agosto de 2013

Refutando os neo-gnósticos que negam a ressurreição da carne

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No capítulo da ressurreição, em 1ª Coríntios 15, Paulo também teria perdido uma ótima oportunidade de dizer que a ressurreição física não existe, mas apenas uma ressurreição espiritual, confirmando a incredulidade dos próprios coríntios; mas, ao contrário, reiterou a crença ortodoxa cristã na ressurreição física dos mortos. Isso porque alguns dentre os coríntios estavam pensando que não existia ressurreição física:

“Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?” (cf. 1ª Coríntios 15:12)

Como vemos, alguns falsos mestres na Igreja de Corinto estavam pervertendo a fé dos outros, ensinando que a ressurreição física não existe, assim como criam os gregos de sua época e posteriormente vieram as crer os gnósticos. Paulo passa, então, todo o capítulo refutando tal visão deturpada que tais hereges tinham. Brian Schwertley fala sobre isso nas seguintes palavras:

“Os versículos 35-58 indicam que os falsos mestres em Corinto aparentemente estavam opondo-se ao aspecto corporal da ressurreição. Apesar de não sabermos o que especificamente causou a rejeição de uma ressurreição corporal, é provável que seja por causa da influência da filosofia grega, talvez juntamente com o seu conceito pervertido da espiritualidade. À luz de 1ª Coríntios 6.13 é provável que eles consideravam a salvação do corpo como desnecessária; que o corpo físico acabaria por ser destruído. Porque eles viam o corpo físico como inferior e desnecessário, assim redefiniram a futura ressurreição de uma maneira puramente espiritual. É por esta razão que 1ª Coríntios 15 é um texto bem adequado para refutar o preterismo completo”[1]

Os neo-gnósticos são obrigados aqui a interpretarem a ressurreição de que Paulo fala como sendo uma ressurreição meramente espiritual, como um “nascer de novo”, o que mutila todo o contexto. Se a ressurreição aqui se tratasse meramente de uma espiritual, mas não física, Paulo não teria usado o caso da ressurreição física de Jesus dentre os mortos para basear a crença da ressurreição de que ele fala em todo o capítulo:

“E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (cf. 1ª Coríntios 15:13-14)

Fica nítido que a ressurreição que o capítulo trata é a ressurreição física, e não uma ressurreição meramente espiritual, ou senão a própria ressurreição de Jesus seria meramente espiritual e não-física! Jesus nunca teria ressuscitado dos mortos! Quanto a isso, Schwertley diz:

“Paulo mais uma vez vê o que os outros, aparentemente, não conseguiram ver: a ressurreição, em geral, não pode ser negada sem finalmente avançar para uma negação também da ressurreição de Cristo. Ambos permanecem e caem juntos (...) O argumento do apóstolo seria inválido se a ressurreição dos santos fosse definida de uma maneira completamente diferente da ressurreição do Redentor. Paulo está dizendo que se não há plural A, então não pode haver singular A. Se definirmos a ressurreição dos santos como meramente uma experiência espiritual ou uma metáfora para um avivamento do Israel étnico, então Paulo está comparando maçãs com laranjas. Ele estaria dizendo que se não há plural B, então não pode haver singular A[2]

E Paulo segue o mesmo raciocínio nos versos 22 e 23:

“Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” (cf. 1ª Coríntios 15:22,23)

Aqui ele claramente refuta a crença de que a ressurreição se refira a um acontecimento espiritual e particular na vida de cada crente, porque situa a ressurreição de todos os que estão em Cristo para a Sua segunda vinda. Mais uma vez Schwertley faz ótimas observações a este respeito:

“Não é, então, uma liberdade muito ousada com a Palavra de Deus ao dizer que apenas uma parte fracionária de ‘os que são de Cristo’ são aqui falados? Que haverá aos milhões de ‘os que são de Cristo’, que não serão ‘ressuscitados na sua vinda’, mas permanecem em seu estado mortal e sem glória sobre a terra por pelo menos mil anos depois? Aqui, pelo contrário, encontramos a geração toda do segundo Adão sendo vivificados juntos na sua vinda”[3]

Corrobora com isso também o fato de que Paulo usou o termo grego tagmati, traduzido por “ordem” no verso 23, que é uma metáfora militar, referindo-se a todo o corpo de uma tropa. O que o apóstolo quis dizer com isso é que quando Jesus voltar “todos os corpos dos crentes de toda a história humana ressuscitarão como tropas que saem juntos para assumir uma posição adequada de ordem em torno de seu líder. A expressão ‘os que são de Cristo’ (hoi tou Kristou) é abrangente. Refere-se a todo o corpo dos eleitos”[4]. Não é, portanto, um cenário de infindáveis ressurreições espirituais sucessivas para cada indivíduo em vários momentos na história da humanidade que Paulo tinha em mente, mas sim de um momento específico, a parousia (volta de Jesus), quando todos os mortos em Cristo ressuscitarão num mesmo instante.

Ademais, Paulo prossegue o capítulo falando sobre com que tipo de corpos que os mortos ressuscitarão (cf. 1Co.15:35). Isso seria incoerente se fosse apenas uma ressurreição não-física, não-corporal, mas meramente espiritual. Nós somos ressuscitados espiritualmente em vida, como disse o próprio Paulo (cf. Cl.3:1), então dizer com que corpos que os mortos ressuscitarão no futuro é algo simplesmente sem qualquer sentido na visão gnóstica. Paulo, em seguida, passa a refutar as objeções daqueles falsos mestres em Corinto que duvidavam da ressurreição, chamando-os de “insensatos”:

Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato!o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como de trigo, ou de outra qualquer semente. Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo” (cf. 1ª Coríntios 15:35-38)

A palavra aqui traduzida por “insensato” vem do grego aphrosune, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: “tolice, estupidez, insensatez”[5]. Paulo chamou tais falsos mestres de tolos, estúpidos ou insensatos não sem razão, mas porque eles estavam colocando incredulidade acerca da realidade da ressurreição naquela igreja. E, na sua descrença de que a ressurreição física pudesse acontecer, desafiavam com perguntas difíceis, tais como a que Paulo teve que responder, sobre como ressuscitarão os mortos e com que tipo de corpo virão. Como Paulo cria na ressurreição da carne, ele não apenas respondeu a estes falsos mestres, como também criticou severamente a insensatez deles.  

Isso lembra muito a discussão que o próprio Senhor Jesus teve sobre esse mesmo tema, a ressurreição física dos mortos, quando os saduceus, que não creem na ressurreição, tentaram lhe provar com uma pergunta difícil, dizendo-lhe:

“No mesmo dia chegaram junto dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e o interrogaram, dizendo: Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; por fim, depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram? Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu” (cf. Mateus 22:23-30)

Aqui obviamente o assunto era a ressurreição física, a qual não era crida pelos saduceus, mas era crida por Jesus. Este, ao invés de responder simplesmente que também não cria em uma ressurreição da carne, lhes refuta, porque não compartilhava da descrença deles. Não há espaço aqui para a crença de que a ressurreição se resume a uma ressurreição espiritual em vida, pois o assunto é a vida após a morte que se consuma na ressurreição, o que fica nítido no versos 28 e 30. Os saduceus não criam nessa ressurreição física para uma outra vida, mas Jesus sim. A resposta de Jesus contradizendo os fariseus foi tão forte ao ponto que “a multidão ficou maravilhada com o seu ensino” (cf. Mt.22:33).

Paulo, da mesma forma que Jesus, foi desafiado por falsos mestres que não criam na ressurreição da carne. Mas, dessa vez, o desafio foi outro: sobre com que tipo de corpo virão. Ele, então, passa a fazer uma analogia apropriada com as sementes (vs. 36-39), que não faria sentido caso não houvesse a ressurreição de um corpo físico, pois, como diz Geisler, “asemente que vai para a terra produz mais sementes da mesma espécie, não sementes imateriais. É nesse sentido que Paulo pôde dizer: não semeias [não fazes morrer] o corpo que há de ser, já que ele é imortal e não pode morrer. O corpo ressuscitado é diferente por ser imortal (1 Co 15:53), não por ser um corpo imaterial[6].

Nem mesmo o verso 44, em que Paulo diz que ressuscitaria um “corpo espiritual”, serve de apoio para as teses gnósticas, visto que por “corpo espiritual” ele não quis dizer “corpo imaterial”, mas sim um corpo sobrenatural. A mesma expressão grega aqui traduzida por “espiritual” (pneumotikos) também é várias vezes usada por Paulo em suas epístolas para se referir a coisas físicas, tais como a “rocha espiritual” (cf. 1Co.10:4) que seguia os israelitas no deserto, que nada mais era senão uma rocha física, produzida de forma sobrenatural – por isso “espiritual”. A Lei de Moisés foi chamada por Paulo de “lei espiritual” (cf. Rm.7:14), embora fosse física, escrita em tábuas, e não imaterial. Paulo também falou sobre o “homem espiritual” (cf. 1Co.2:15), que obviamente não é um homem não-físico, mas alguém dirigido pelo Espírito Santo. Norman Geisler e Thomas Howe acrescentam:

“Um corpo espiritual é um corpo imortal, não um corpo imaterial. Um corpo espiritual é aquele que é dominado pelo espírito, não um corpo desprovido de matéria. A palavra grega pneumatikos (nessa passagem traduzida como espiritual) significa um corpo dirigido pelo espírito, em oposição ao que está sob o domínio da carne. Ele não é governado pela carne que perece, mas pelo espírito que permanece (1 Co 15:50-58). Assim, corpo espiritual não significa corpo imaterial e invisível, mas imortal e imperecível (...) Todo o contexto indica queespiritual (pneumatikos) poderia ser traduzido por sobrenatural em contraste com natural. Isto fica claro pelos paralelos de corruptível e incorruptível‘imortal e imortal. Com efeito, esta mesma palavra grega (pneumatikos) é traduzida como sobrenatural em 1 Coríntios 10:4, que fala de uma rocha sobrenatural que os seguia’ no deserto”[7]

Finalmente, Paulo fulmina o gnosticismo nos versos 51 ao 53, dizendo:

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (cf. 1ª Coríntios 15:51-53)

Como Paulo poderia não crer em uma ressurreição física, se ele cria que os mortos serão transformados em imortais e incorruptíveis num momento, em um abrir e fechar de olhos, e somente na última trombeta, no mesmo momento em que os salvos serão transladados vivos? Se a ressurreição fosse meramente espiritual para cada crente e não existisse uma ressurreição física geral dos mortos no último dia, tal coisa não ocorreria somente ao soar da última trombeta, mas em diferentes épocas ao longo de toda a história da humanidade para cada crente em particular, e não seria um evento único que ligaria os vivos e os mortos por ocasião da parousia.

Além disso, não haveria o contraste entre os mortos e os vivos, pois todos os que espiritualmente ressuscitariam teriam sua ressurreição consumada em vida. E nunca a nossa natureza corruptível seria transformada em uma natureza incorruptível, nem a mortalidade se revestiria de imortalidade, pois sendo essa ressurreição espiritual e ocorrendo em vida quando o pecador se converte ele não se transforma em incorrupto e imortal por causa disso e naquele mesmo momento. Tudo aquilo que Paulo dizia não passaria de uma farsa, um engano, a maior mentira de todos os tempos.

A não ser que Paulo e os demais cressem que, de fato, Cristo ressuscitou fisicamente e que isso garante a nossa própria ressurreição física, pois o que eles tanto pregavam era a ressurreição da carne, e não uma fantasia inventada pelos gnósticos completamente diferente daquilo que Cristo e os apóstolos ensinaram, e que “não é melhor do que a doutrina dos modernistas, ateus ou filósofos gregos, negando a ressurreição por redefinição”[8].

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1] SCHWERTLEY, Brian, apud RAYMUNDO, César Francisco. Refutando o preterismo completo. Santa Catarina: 2012, p. 95. Disponível em: <http://www.revistacrista.org/Literaturas/Refutando%20o%20Preterismo%20Completo.pdf>. Acesso em: 21/08/2013.
[2] ibid., pp. 96-97.
[3] ibid., p. 99.
[4] ibid., p. 98.
[5] Léxico da Concordância de Strong, 877.
[6] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
[7] ibid.
[8] [8] SCHWERTLEY, Brian, apud RAYMUNDO, César Francisco. Refutando o preterismo completo. Santa Catarina: 2012, p. 97. Disponível em: <http://www.revistacrista.org/Literaturas/Refutando%20o%20Preterismo%20Completo.pdf>. Acesso em: 21/08/2013.

13 de agosto de 2013

Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?


Uma das maiores declarações bíblicas que contrariam a ilusão da imortalidade da alma é o que o apóstolo Paulo escreve em 1ª Coríntios, no capítulo 15. Como veremos a seguir, o capítulo inteiro é uma refutação à doutrina de que a alma imortal se religa ao corpo por ocasião da ressurreição. Ele mostra que a ressurreição, longe de ser apenas uma religação entre corpo e alma, é o único meio pelo qual podemos viver em alguma existência futura, numa vida póstuma.

Para os imortalistas, se nenhuma ressurreição existisse nós já estaríamos assegurados no Céu de qualquer jeito com as nossas almas imortais, e a existência da ressurreição apenas implicaria em almas voltando do Paraíso e se religando ao nosso corpo morto, para depois retornarem novamente ao Céu "completos". Tal conceito é totalmente estranho à Bíblia e inconsistente com a teologia paulina. Na visão dualista, se a ressurreição não existisse nós ficaríamos como espíritos desencarnados durante toda a eternidade.

Já para a Bíblia, que não atesta para a existência de um “estado intermediário das almas”, se a ressurreição do último dia não existisse então estaríamos todos perdidos, mortos no pó da terra sem mais nenhuma esperança. A pergunta que fica é: qual seria a posição do apóstolo Paulo sobre o assunto? Seria ele favorável a uma religação do corpo com a alma, sendo a ressurreição um mero detalhe desnecessário, ou seria ele favorável ao fato de que não existe vida entre a morte e a ressurreição? Paulo nos responde a esta questão em um longo capítulo de sua primeira epístola aos Coríntios. E é exatamente isso o que analisaremos a partir de agora.

1 Coríntios 15
12 Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?
13 E, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou.
14 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;
15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam.
16 Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
18 E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram.
19 Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.
20 Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.
21 Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.
22 Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.
23 Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.
24 Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força.
25 Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.
26 Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.
27 Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas.
28  E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.
29 Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?
30 Por que estamos nós também a toda a hora em perigo?
31 Eu protesto que cada dia morro, gloriando-me em vós, irmãos, por Cristo Jesus nosso Senhor.
32 Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
        
Fiz questão de passar todo o contexto para analisarmos as várias implicações para o que é dito acima pelo apóstolo Paulo. Vemos que alguns cristãos da igreja de Corinto estavam dizendo que a ressurreição não iria acontecer. Paulo, então, primeiramente mostra as consequências disso, depois mostra o que aconteceria caso a ressurreição não existisse, em seguida confirma que, de fato, a ressurreição irá acontecer como algo futuro, mostra os tempos em que ela se cumprirá e termina o capítulo mostrando o que ele faria caso não ocorresse a ressurreição dos mortos.

O capítulo inteiro, que vai até o verso 58, é uma verdadeira aula sobre a ressurreição dos mortos. Se houve um ótimo momento para Paulo afirmar a sua doutrina da imortalidade da alma, com a menção das nossas almas imortais no Céu ou de religação de corpo e alma por ocasião dessa ressurreição, aí estava uma ótima oportunidade! Contudo, vemos que as implicações do que é acima exposto é muito, mas muito diferente daquilo que imaginam os imortalistas.
        
Em primeiro lugar, se existisse uma imortalidade da alma, os que “dormem” estariam como almas incorpóreas no Céu. Contudo, Paulo diz que, se não há a ressurreição, então os mortos já teriam perecido (eles não ficariam “desincorporados pela eternidade”, pelo contrário, estariam todos mortos!). O original grego traz a palavra apôlonto neste verso 18, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "perecer, estar perdido, arruinado, destruído" (622). Todos esses significados dão a mesma dimensão de implicação: para Paulo, os mortos estariam agora perdidos, ou totalmente destruídos, arruinados, se não fosse pela ressurreição dos mortos.

O problema para os imortalistas reside precisamente no fato de que, na teologia deles, os que morreram em Cristo estariam neste momento no Céu, e continuariam lá da mesma forma se não ocorresse a ressurreição, com o único detalhe de que viveriam para sempre em forma incorpórea. Então, como é que eles poderiam estar perdios, arruinados ou destruídos se não fosse pela ressurreição? Simplesmente não faz sentido.

Estar no Céu, ainda que em estado incorpóreo pré-ressurreto, deveria ser motivo de regozijo, alegria e exultação, e não de estar "perdido" ou de já ter "perecido". Esses versos, de fato, só tem sentido se Paulo cresse que não existe vida entre a morte e a ressurreição, e que é a ressurreição que traz uma pessoa de volta à existência. Desta forma, dizer que se não fosse por essa ressurreição os que morreram em Cristo já pereceram ou estão perdidos faz todo o sentido, uma vez sendo que não haveria ressurreição para herdarem uma vida eterna póstuma.

Esta é uma das consequências fatais em caso de a alegação infundamentada dos Coríntios de que a ressurreição não existe fosse verdadeira. Aqueles que aguardam a ressurreição dentre os mortos a fim de ganhar vida nesta ocasião não ganhariam vida nenhuma – estariam destruídos – sem vida, para sempre, sem esperança (v.18,19,30,32). Não estariam desfrutando as bênçãos paradisíacas no Céu por toda a eternidade desprovidos de corpos. O que Paulo estava dizendo era que, se a ressurreição não existe, então os mortos já pereceram. Em outras palavras, se não fosse pelo “fator ressurreição”, coitados – já teriam perecido! De jeito nenhum que estariam com as suas “almas imortais” desencarnados para todo o sempre!

Além disso, no verso 19 o apóstolo continua batendo firme nessa mesma linha, afirmando que se não há a ressurreição [de um simples corpo morto(?)], então a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, razão dele escrever no verso seguinte, seguindo a mesma lógica: Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (cf. 1Co.15:19). Ora, mas as nossas almas já não estariam lá no Céu, incorpóreas porém conscientes, na outravida?

A ressurreição de um simples corpo morto não seria um mero detalhe? Por que a nossa esperança se limitaria apenas para esta presente vida se nós ficaríamos a eternidade inteira lá no Céu do mesmo jeito, só que sem corpo? É evidente que, para o apóstolo Paulo, a vida é somente a partir da ressurreição, e, portanto, já teriam perecido os que dormiram em Cristo caso ela não fosse uma realidade, e não existiria uma vida póstuma nem como “almas” nem como “espíritos”. A nossa esperança limitar-se-ia apenas e tão-somente a esta presente vida.

Uma “saída” encontrada por alguma parte dos defensores do estado intermediário é que Paulo referia-se somente ao versículo anterior: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (v.17). Contudo, se contextualizarmos a passagem, veremos que o apóstolo está relatando uma série de conseqüências em caso que a ressurreição não existisse, das quais uma delas é a de que nem o próprio Cristo teria se levantado do túmulo, outra delas é que a nossa fé seria vã, outra delas é que os apóstolos seriam tidos como falsas testemunhas de Cristo, outra delas seria que os que dormiram em Cristo já teriam perecido, outra delas é que a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, e assim por diante, como podemos constatar por todo o contexto:

a) Alguns corintos estavam dizendo que a ressurreição não existia.

b) Paulo diz que, se a ressurreição não existe, então Jesus também não ressuscitou, e nós continuamos mortos em nossos pecados.

c) “E ainda mais” (ou seja, ele estava enumerando um outro ponto), se a ressurreição não existe, estão os que dormiram em Cristo já pereceram.

d) Se a ressurreição não existe, então conforme o verso 19 a nossa esperança seria apenas para esta vida (em outras palavras, não existiria uma “vida póstuma”!)

e) Mas, de fato, Cristo ressuscitou como primícia daqueles que dormem, e por isso vivificará todos os mortos na sua segunda vinda (v.23)

f) O último inimigo a ser vencido é a morte.

g) Se não há ressurreição, então Paulo lutou com feras em Éfeso à toa.

h) Se não há ressurreição, então seria melhor “comer, beber, e depois morrer”.

Como vemos, alguns de Corinto estavam duvidando da existência da ressurreição, e Paulo lhes apresenta uma série de conclusões que naturalmente se extrairiam desta falsa alegação. Se os mortos não ressuscitam, logo (1) nem sequer Cristo ressuscitou (v.13); (2) é vazia a nossa pregação (v.14); (3) é vã a nossa fé (v.14); (4) somos falsas testemunhas de que Cristo foi ressuscitado (v.15); (5) ainda estamos nos nossos pecados (v.17); (6) ainda estamos na condenação do pecado (v.17); (7) também os que dormiram em Cristo já pereceram (v.18); (8) a nossa esperança seria somente para esta vida (v.19); (9) somos os mais dignos de compaixão (v.19); (10) sofremos adversidades à toa (v.30); (11) o melhor a fazer seria viver a vida hedonisticamente (v.32).

Principalmente as conclusões de Paulo de número 7 a 11 nos mostram claramente que, sem a ressurreição, nem existiria mais nenhuma vida póstuma. Perceba ainda que em nenhum dos argumentos Paulo fala de que “os que morreram não estariam com Cristo agora mesmo”; ou que eles “não estariam na glória”; tampouco fala ele sobre “religação de corpo com alma”. Se Paulo fosse imortalista, não diria que sem ressurreição os que morreram em Cristo já teriam perecido e que a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, teria dito que neste caso os que morreram em Cristo não estão no Céu e que continuariam como espíritos incorpóreos para sempre.

Isso nos mostra que, na visão paulina, não existia nenhuma forma de vida racional entre a morte e a ressurreição. Por isso, se não existisse ressurreição, seria o fim de tudo (cf. 1Co.15:18,19; 15:30,32). Vale a pena lembrar também que, se existisse uma alma imortal em nós, então o fato de Cristo ter ou não ressuscitado nos garantiria de qualquer jeito uma vida póstuma por meio dela, ainda mais quando de acordo com a teologia imortalista os que morreram antes de Cristo já estariam com vida em algum lugar e, portanto, não poderiam ter “perecido” como mostra o verso 18, e já obteriam uma vida póstuma contrariando o que indica o verso 19.

Para os imortalistas, os justos que morreram antes da ressurreição de Cristo já tinham suas almas conduzidas ao Céu ou ao Seio de Abraão, a um lugar de paz e descanso, e, portanto, o fato de Cristo ter ressuscitado ou não seria elementar, pois vida póstuma antes da ressurreição aconteceria de qualquer jeito. Neste caso, Paulo também não teria dito que os mortos sem a ressurreição de Cristo já teriam perecido ou estariam perdidos, mas teria dito que ficariam para sempre no Céu ou no Sheol (o que não deixaria de ser um prêmio, ao invés de uma perdição, como ele diz claramente no verso 18).

Ainda, seria errôneo afirmar que nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida (v.19), já que, com ou sem a existência da nossa ressurreição ou da ressurreição de Cristo, os mortos teriam sim uma vida póstuma, quando a suposta alma imortal se desligaria do corpo após a morte, o que, segundo eles, já estava acontecendo desde o início da humanidade, antes mesmo da ressurreição de Jesus ou da ressurreição geral dos demais mortos. Portanto, não existem escapatórias à luz da clareza da linguagem de Paulo neste capítulo sobre a ressurreição, que todo ele é uma negativa enfática à possibilidade de vida consciente antes da ressurreição dos mortos.

Ele nega inteiramente que qualquer crente em qualquer era já pudesse estar com vida antes da ressurreição. Os versos mostrados deixam bem claro que, na visão de Paulo, a vida era somente a partir da ressurreição, e não antes da ressurreição em um estado intermediário, como dizem os imortalistas. Evidentemente as únicas exceções a isso são os que não passaram pela morte, como é o caso de Elias e Enoque e, portanto, não necessitam de uma ressurreição, pois foram transladados vivos.

Mais algumas observações podem ser feitas à luz de todo o capítulo de 1ªCoríntios 15. O último inimigo a ser vencido é a morte, que diante do contexto será vencida em função da ressurreição, e não de uma alma imortal que vence a morte sendo liberta do corpo por ocasião do falecimento. A morte não é tratada na Bíblia como sendo uma amiga, mas como uma inimiga, como o último inimigo a ser vencido, que será destruído somente pela ressurreição. Como bem destacou Oscar Cullman:

"Somente aquele que discerne com os primitivos cristãos o horror da morte, que leva a morte a sério como ela é, pode compreender a exultação da celebração da comunidade cristã primitiva e entender que o pensamento de todo o Novo Testamento é governado pela crença na ressurreição. A crença na imortalidade da alma não é a crença num evento revolucionário. Imortalidade é, na verdade, só uma afirmação negativa: a alma não morre, mas simplesmente continua viva. Ressurreição é uma afirmação positiva: todo homem, que morreu de fato, é chamado de volta à vida por um novo ato criativo de Deus. Algo aconteceu - um milagre de criação! Pois algo também tinha ocorrido anteriormente, algo temível: a vida criada por Deus havia sido destruída"[1]

Se após a morte física nossa alma sobrevivesse e fosse direto à presença divina, a morte teria sido vencida pela imortalidade da alma, e não somente pela ressurreição, no final de todas as coisas, como nos diz João, no Apocalipse (cf. Ap.20:14). E, por fim, Paulo diz que, se não há ressurreição, então ele lutou com feras em Éfeso à toa (v.32). Mas como seria “à toa” caso ele fosse para o Paraíso do mesmo jeito só que desincorporado? Por que ele diz que não se aproveitaria nada disso, “se os mortos não ressuscitam”? Não valeria a pena caso estivéssemos com nossa alma durante toda a eternidade no Paraíso do mesmo jeito?

Como vemos, para Paulo o Cristianismo só valeria a pena de ser vivido caso existisse a ressurreição, pois sem ela a nossa luta diária seria inútil, seria em vão. É óbvio que Paulo não imaginava que se pudesse estar no Céu como espírito incorpóreo antes da ressurreição. E isso fica ainda mais nítido com o verso seguinte, onde ele diz:

“Se os mortos não ressuscitam, então comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (v.32)

Segundo o apóstolo, a melhor opção seria aproveitar hedonisticamente esta vida, “comendo e bebendo e depois morrendo”. Qual a razão para Paulo falar deste jeito? Simplesmente porque se a ressurreição não existe então também não existiria nenhuma vida póstuma. Seria o “morrer e acabou”. Para sempre. A melhor opção, então, seria “comer e beber, e depois morrer”! Clarissimamente o que se segue à morte não é um “estado intermediário das almas”, mas sim a ressurreição na volta de Cristo (v.22,23).

Sem a realidade da ressurreição, não há nenhuma esperança de vida eterna. Também é importante analisarmos o verso 30: “E por que também nós nos expomos a perigos a toda hora? Dia após dia morro!” (v.30). Para Paulo, não fosse a ressurreição dos mortos, nem valia a pena viver, porque a morte seria o fim de tudo. Por isso, o melhor a fazer seria viver hedonisticamente esta vida (v.32), pois não existiria uma vida póstuma (v.19), e ele estaria exposto a perigos sem razão lógica nenhuma (v.30)! Citando de exemplo uma prática existente entre os pagãos, Paulo diz:

“Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por eles?” (1ª Coríntios 15:29)

Paulo usa o exemplo “deles” (os pagãos), que tinham o costume de batizar em favor dos mortos, por causa da esperança deles na ressurreição. Mas, se os mortos não ressuscitam, então este batismo que era feito em favor deles seria simplesmente inútil, uma perda de tempo. Difícil imaginar isso no caso de que as almas já estivessem em algum lugar após a morte, pois, neste caso, tal batismo pelos mortos teria efeito com ou sem a ressurreição acontecer!

Mas, na teologia bíblica, este verso faz total sentido. Afinal, se não há ressurreição, não há vida póstuma, já que a vida póstuma se inicia na ressurreição. E, se não há vida póstuma, não há razão de se batizar pelos mortos. Aqueles que batizavam pelos mortos não faziam isso por crer na imortalidade da alma, mas por crer na ressurreição. Eles tinham a esperança de que aqueles que já morreram iriam um dia retornar à vida por meio de uma ressurreição dentre os mortos, e, com essa esperança, batizavam em favor deles. Mas, se não há ressurreição, não há retorno à vida, não há retorno à existência – por isso a inutilidade de tal batismo! Portanto, até mesmo quando Paulo faz uso do exemplo do convívio dos pagãos, mesmo assim há a clara menção de que é só por meio da ressurreição, e não antes dela, que alcançamos a vida.

Claramente Paulo não imaginava de jeito nenhum que sem a ressurreição os que já morreram viveriam eternamente do mesmo jeito por meio de uma alma imortal. O contexto todo faz com que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso abandone completamente na mesma hora a heresia de que “morremos e vamos com as nossas almas imortais para o Céu, e a ressurreição é de um simples corpo morto que se religa às nossas almas no Paraíso por ocasião da ressurreição que acontece na segunda vinda de Cristo”

A coisa mais absurda que algum imortalista diria é que sem a ressurreição o melhor que temos a fazer é viver hedonisticamente sem mais nenhuma esperança, porque para eles a vida seria eterna do mesmo jeito por meio de uma alma imortal em nós implantada. A ressurreição, sendo ou não sendo uma realidade, não impediria a vida após a morte. Seria um mero detalhe sem muita importância, pois nós viveríamos eternamente, seríamos julgados e todas as demais coisas seriam feitas sem corpo. Isso é claramente negado pelas palavras do apóstolo Paulo.

A verdade é que a própria esperança de vida eterna ou imortalidade teria perecido em caso que a ressurreição na volta de Cristo não existisse (cf. 1Co.15:18,19,30,32), o que nos mostra claramente que a esperança cristã não é a de eternidade por meio de uma alma imortal implantada em nós por ocasião do nascimento, mas sim de uma imortalidade mediante a ressurreição dos mortos, o foco de todo o capítulo (cf. 1Cor.15); aliás, de todo o Novo Testamento. É apenas pela ressurreição, por meio da ressurreição e na ressurreição que obteremos a imortalidade. Paulo nega em absoluto a existência de vida póstuma senão por ocasião da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança.

Do início ao fim, o apóstolo segue a linha de pensamento holista. Sendo que não existe uma “alma imortal”, então não existe uma vida “com almas” antes da ressurreição. Por isso, se essa ressurreição não existe, então os que dormem em Cristo já teriam perecido. Por isso, a nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida. Por isso, Paulo teria lutado com feras em Éfeso totalmente à toa, pois não existiria uma vida póstuma. Então, o melhor a fazer caso os mortos não ressuscitassem seria “comer, beber e depois morrer”. Seria o fim. Não fosse pelo fator ressurreição, a morte que cada indivíduo passa seria o fim de sua existência.

É óbvio que Paulo não tinha a mínima noção de que a ressurreição se limitava a um simples corpo mortal que se religaria ao nosso “verdadeiro eu”, as nossas almas imortais que já estariam no Paraíso em uma existência contínua. Qual nada, se não fosse pela ressurreição, já teriam perecido. Mas, de fato, Paulo traz uma esperança. Essa é a mesma esperança que os apóstolos alimentavam tanto: a esperança da ressurreição dentre os mortos, no último dia.

Paulo dá um motivo de esperança e de alegria aos coríntios, que não se baseava na ilusão pagã de que as nossas almas imortais já estariam no Céu, mas sim no dia em que todos os que estão literalmente mortos seriam vivificados.E essa esperança é apresentada nos versos 22 e 23 de maneira mais clara: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.

Em Adão todos morremos, literalmente, pois Adão desobedeceu as ordens de Deus, tornando-se mortal, sendo enganado pela mentira de Satanás de que certamente não morreria (cf. Gn.3:4). Porém, a esperança é de que, em Cristo Jesus, todos serão vivificados. De acordo com o dicionário, “vivificar” significa exatamente “Dar vida a; fazer existir”. Os mortos voltarão à vida na ressurreição do último dia, na gloriosa volta do Nosso Senhor Jesus Cristo.

Curioso é notar que, enquanto por todo o capítulo o apóstolo lista uma série de fatos trágicos que seriam realidade na hipótese de não existir ressurreição, ele por fim cita as boas-novas, falando sobre o meio pelo qual podemos ganhar vida novamente no futuro, onde em momento nenhum é mencionado que seja através de uma alma imortal imediatamente após a morte, mas sim por meio da ressurreição dos mortos, quando seremos vivificados na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).

Não é a toa que Paulo passou algumas epístolas falando capítulos inteiros sobre a ressurreição, como em 1ª Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia completamente elaborado à ressurreição dos mortos, mas não há referência nenhuma à religação dos corpos ressurretos a almas deixando o Céu, o inferno ou o purgatório. Como Paulo poderia ter se esquecido do ponto mais fundamentalda doutrina da ressurreição, no ponto de vista dualista?

Certamente os teólogos imortalistas do século XXI com as suas doutrinas dualistas iriam dar uma “aula teológica” para o apóstolo Paulo aprender a falar de algo tão importante na doutrina da ressurreição! Não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso inteiramente em sua discussão acerca daquilo que acontece na ressurreição? Afinal, tal conceito é de fundamental importância a fim de compreendermos o que se dá por ocasião da ressurreição. Se Paulo fosse imortalista, certamente não deixaria de mencionar um “fato” tão importância dentre os acontecimentos que sobrevêm na ressurreição!

E olha que Paulo não poupou palavras sobre o tema. Disse sobre as consequências da ressurreição (v.19,20), disse sobre as testemunhas da ressurreição (v.4,5), disse sobre o seu próprio testemunho (v.8),  disse sobre a ressurreição de Cristo (v.13), disse sobre quando seremos vivificados (v.22,23), disse sobre o inimigo da ressurreição (v.26), disse com que tipo de corpos virão (v.36-39), disse sobre os corpos celestes e os corpos terrestres (v.40), disse sobre o corpo semeado e o corpo ressurreto (v.v.42-44), disse sobre a imagem do homem terreno e celestial (v.47,48), disse sobre quando seremos imortais (v.53), disse sobre quando seremos incorruptíveis (v.51-54), disse sobre quando a morte é tragada (v.54,55). .. mas sobre a religação de corpos ressurretos com almas incorpóreas, um dos principais pontos e focos da doutrina da imortalidade da alma no contexto da ressurreição... nada!

Mais do que isso, ele acentua o momento em que realmente atingiremos a imortalidade:

“Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi destruída pela vitória”(cf. 1Co.15:51-54)

Como vemos, a imortalidade não é algo que nós já possuímos (supostamente na forma de uma alma imortal dentro de nosso ser), mas sim algo pelo qual nos revestiremos, no futuro. E quando? Na ressurreição dos mortos.

Poderíamos resumir os argumentos levantados em torno de 1ª Coríntios 15 com um quadro que resume o contraste entre a teologia paulina com a teologia imortalista:

O QUE ACONTECERIA CASO A RESSURREIÇÃO NÃO EXISTISSE
PARA OS IMORTALISTAS
PARA O APÓSTOLO PAULO
Os mortos ficariam desencarnados para sempre
Os que dormiram em Cristo já pereceram – cf. 1Co.15:18
Existiria uma vida póstuma em forma de “espírito incorpóreo”
A nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida – cf. 1Co.15:19
Deveríamos dar o máximo pela nossa salvação pois as nossas almas ficariam para sempre no Céu do mesmo jeito
O melhor a fazer seria viver a vida hedonisticamente, “comamos e bebamos, para que amanhã morramos” – cf. 1Co.15:32
Valeria a pena ficar em perigo pois as nossas almas ficariam para sempre no Céu do mesmo jeito, embora sem um corpo físico
Estaríamos correndo perigo totalmente à toa – cf. 1Co.15:30
Na ressurreição a alma imortal se religa ao corpo morto
Pessoas são mortas, pessoas são vivificadas na volta de Cristo – cf. 1Co.15:22,23
A morte é vencida quando a alma imortal vence a morte sendo liberta da prisão do corpo
A morte só é vencida por ocasião da ressurreição dos mortos – cf. 1Co.15:55
Nós já detemos a imortalidade na forma de uma alma imortal implantada em nosso ser
A imortalidade é uma possessão futura, a qual só alcançaremos com a ressurreição dos mortos – cf. 1Co.15:51-54

Com tudo isso, podemos constatar que, na visão de Paulo, a imortalidade está ligada unicamente à ressurreição dos mortos, como podemos ver em todo o capítulo de 1ª Coríntios 15. E Paulo termina o capítulo da seguinte maneira: Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho no Senhor não é em vão (cf. 1Co.15:58). No capítulo inteiro toda a esperança da recompensa pelo trabalho dos cristãos não é relativa a uma alma imortal que lhes garante a imortalidade, mas unicamente ligada à ressurreição na volta de Cristo.

Se todos os crentes tivessem uma alma imortal implantada dentro deles, Paulo certamente lhes lembraria disso como garantia certa de imortalidade e de recompensa pelo trabalho no Senhor. Contudo, vemos em todo o capítulo que a ressurreição é o único fundamento e penhor da esperança do crente a fim de atingir uma vida eterna e imortalidade na volta de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: "A Lenda da Imortalidade da Alma"


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[1] CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.