5 de julho de 2013

Irineu de Lyon e a tradição apostólica


Na série de artigos sobre "O que era a verdadeira tradição apostólica?" eu provei documentalmente que aquilo que os católicos chamam de "tradição" não tem absolutamente qualquer ligação com aquilo que realmente era chamado de tradição pelos Pais da Igreja. Sempre quando um evangélico passa listas gigantescas de citações dos Pais que mostram claramente a crença deles na Sola Scriptura, os católicos rebatem com outras listas gigantescas onde a palavrinha "tradição" ou "tradição apostólica" entre em cena, o que para eles significa que os Pais não criam na Sola Scriptura, mas na Escritura e na tradição, que seria uma fonte de revelação paralela às Escrituras.

Mas será realmente esse o verdadeiro conceito de "tradição", designado hoje pelos católicos?

Na verdade, esse novo conceito não passa de uma real distorção daquilo que realmente significa tradição nos escritos dos Pais. Assim como outras seitas fazem, eles distorcem o significado das palavras ao seu bel prazer para fundamentar as suas crenças. Os espíritas, por exemplo, sempre que lêem a palavra "espírito" na Bíblia logo não perdem tempo em identificá-lo como sendo exatamente a mesma coisa ensinada por Allan Kardec, aquele ser incorpóreo interior que deixa o corpo após a morte com consciência e personalidade para posteriormente reencarnar em outro corpo de outra criatura. Nem adianta mostrá-los o que realmente significa espírito na Bíblia, que de forma alguma justificaria as teses kardecistas. O mesmo os católicos fazem, mas com outra palavrinha mágica, a chamada "tradição".

Começando por Irineu, estudaremos o que ele considerava "tradição":

 Para Irineu, a tradição apostólica era uma fonte de revelação paralela às Escrituras (ou seja, uma regra de fé que revela doutrinas que as Escrituras não mostram, como dizem os católicos), ou seria simplesmente o ensino do conteúdo das próprias Escrituras?

Para isso, vamos ao próprio Irineu, que responde:

"Não pequena discussão havia ocorrido entre os irmãos de Corinto, e a Igreja de Roma enviou uma poderosa carta aos coríntios, exortando-os à paz, renovando a sua fé e declarando a tradição que tinha recentemente recebido dos apóstolos, proclamando um Deus onipotente, Criador do céu e da terra, o Criador do homem, que trouxe o dilúvio e chamou Abraão, que falou com Moisés, que estabeleceu a lei, que enviou os profetas, e que preparou o fogo para o diabo e seus anjos. A partir deste documento, todo aquele que lê-lo pode saber que Ele, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, foi pregado pelas Igrejas, e também pode compreender a tradição da Igreja" (Contra as Heresias, Livro III, 3:3)

Irineu diz que a Igreja de Roma enviou através de seu principal bispo, Clemente, uma carta à Igreja de Corinto, mostrando a tradição que tinha recentemente recebido dos apóstolos. Qualquer católico neste momento poderia se levantar da cadeira e saltar de alegria. Nada melhor do que um bispo romano escrevendo às outras igrejas sobre a tradição da própria Igreja de Roma! Se a tradição daquela época era a mesma tradição que os católicos reclamam para si mesmos hoje, esperaríamos obviamente a revelação daquilo que os romanos chamam hoje por tradição, ou seja:

 Assunção de Maria.
 Purgatório.
 Imaculada conceição e outros dogmas marianos.
 Primazia universal jurisdicional do bispo romano.
 Infalibilidade papal.
 Culto às imagens.
 Celibato obrigatório do clero.
 Maria como "Rainha dos Céus".
 Limbo.
 Outras doutrinas não-Escriturísticas advindas da "tradição".

Mas, ao contrário, o que ele chama de tradição é exatamente aquilo que está claramente nas Escrituras, ou seja:

 A existência de um Deus onipotente e criador do céu e da terra.
 A existência do dilúvio.
 O chamado de Abraão e de Moisés.
 A Lei.
 Os Profetas.
 O fogo do juízo para o diabo e seus anjos.

Como vemos, nada daquilo que Irineu chamava de tradição da Igreja tinha qualquer ligação com um conteúdo que esteja fora das Escrituras, mas, ao contrário, diz respeito àquilo que está explicitamente presente nela. Isso podemos observar também ao longo de todos os lugares da obra de Irineu:

"A Igreja, embora dispersa através de todo o mundo, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e de seus discípulos essa fé: num Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, e do mar, e de todas as coisas que neles há, e em Cristo Jesus, o Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação, e no Espírito Santo, que proclamou através dos profetas as dispensações de Deus, os adventos, o nascimento através de uma virgem, a paixão, a ressurreição dos mortos, a ascensão para o Céu em carne do nosso amado Cristo Jesus, nosso Senhor, e a Sua futura manifestação do Céu na glória do Pai, para reunir todas as coisas em uma e levantar de novo toda a carne de toda a raça humana, a fim de que a Jesus Cristo, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, de acordo com a vontade do Pai invisível, se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que por Ele deve ser executado o juízo para todos, e que os anjos que transgrediram e se tornaram apóstatas, juntamente com os ímpios e profanos entre os homens, sejam condenados ao fogo eterno, mas no exercício da Sua graça conferir imortalidade ao justo e santo, e àqueles que mantiveram Seus mandamentos e perseveraram em Seu amor, alguns desde o início e outros desde o seu arrependimento, e conduzi-los à eterna glória. Como já observado, a Igreja, tendo recebido essa pregação de fé, embora espalhada por todo o mundo, cuidadosamente a preserva" (Contra as Heresias, Livro I, 10:1-2)

Aqui novamente vemos que tudo aquilo que a Igreja recebeu dos apóstolos como ponto de fé e que é chamado de "tradição" pelos Pais diz respeito exclusivamente a doutrinas pregadas claramente nas Escrituras, tais como:

 A existência do Deus Todo-Poderoso criador dos céus e da terra.
 A encarnação de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
 A existência do Espírito Santo.
 Os adventos de Cristo.
 O nascimento através de uma virgem.
 A paixão de Cristo.
 A Sua ressurreição dos mortos.
 A Sua ascensão aos céus em carne.
 A futura volta de Jesus.
 A ressurreição geral dos mortos no fim dos tempos.
 A divindade e reinado de Cristo Jesus, nosso Senhor.
 O juízo vindouro.
 A condenação ao diabo e aos ímpios.
 A vida eterna concedida aos justos e santos.

Novamente, a tradição apostólica em nada tinha a ver com doutrinas extra-bíblicas que não são ensinadas nas Escrituras, mas sim àquilo que está claramente na Bíblia, e que por sinal são cridas por todo e qualquer evangélico que rejeita a falsa "tradição" católica, que em nada tem a ver com a verdadeira e legítima tradição pregada pelos Pais. E Irineu continua:

"Muitos povos bárbaros que creem em Cristo, se atêm a esta maneira de proceder; sem papel nem tinta. Levam a salvação escrita em seus corações pelo Espírito e preservam cuidadosamente a antiga tradição, acreditando em um único Deus, o Criador do céu e da terra, e todas as coisas nele, por meio de Cristo Jesus, o Filho de Deus, que por causa de Seu amor pela sua criação condescendeu em ser nascido da virgem, unindo o homem através de Si mesmo a Deus, e, depois de ter sofrido sob Pôncio Pilatos, subiu novamente aos céus, sendo recebido em esplendor, e virá em sua glória como o Salvador daqueles que são salvos, e como juiz daqueles que serão julgados, enviando para o fogo eterno aqueles que transformaram a verdade e desprezaram o Seu Pai e seu advento. Aqueles que na ausência de documentos escritos acreditam nessa fé, sendo bárbaros até no que diz respeito à nossa língua, mas no que dizem respeito à doutrina, moral e teor de vida são, por causa da fé, muito sábios, pelo favor de Deus, conversando em toda a justiça, castidade e sabedoria. Se alguém fosse pregar a esses homens as invenções dos hereges, falando com eles em sua própria língua, eles iriam tampar de uma só vez os ouvidos e fugiriam ao mais longe possível, não suportando até mesmo escutar tais blasfêmias.Assim, por meio da antiga tradição dos apóstolos eles não têm sua mente aberta para conceber qualquer doutrina sugerida por esses mestres(Contra as Heresias, Livro III, 3:3)

Irineu diz que existiam povos bárbaros a tal ponto que não tinham nem papel nem tinta, mas que mesmo assim seriam salvos por meio daquilo que é ensinado pela tradição, daquilo que é pregado através da antiga tradição dos apóstolos. Esse seria o momento mais perfeito e ideal para que Irineu mostrasse que as Escrituras não são suficientes e que existem doutrinas fora da Bíblia que são igualmente necessárias para a salvação do homem, como prega a Igreja Romana. Contudo, tudo aquilo que ele ensina como sendo a tradição apostólica diz respeito àquilo que já está na Bíblia, tais como:

 A existência de um Deus criador dos céus e da terra.
 A existência de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
 A encarnação de Cristo através de uma virgem.
 A mediação de Cristo.
 A ascensão de Cristo.
 A glorificação de Cristo.
 A volta de Jesus em glória.
 O juízo vindouro.
 A condenação dos ímpios.
 A salvação dos justos.

Mais uma vez, todos os pontos que são considerados como "tradição apostólica", os quais Irineu diz que os povos bárbaros criam neles mesmo sem papel nem tinta (ou seja, apenas por meio do ensino ou tradição oral), diz respeito ao conteúdo das Escrituras, e não a algo que esteja fora ou escondido delas. É por isso que essa tradição tinha que ser confirmada por provas bíblicas, como o mesmo diz claramente:

"Uma vez que a tradição dos apóstolos existe na Igreja e é permanente entre nós, vamos voltar para as provas bíblicas por aqueles apóstolos que também escreveram o Evangelho e que registraram a respeito de Deus, apontando que nosso Senhor Jesus Cristo é a verdade, e que nenhum mentira há nele" (Contra as Heresias, Livro III, 5:1)

Sendo assim, é evidente que a tradição apostólica que era crida pelos Pais da Igreja em nada tinha a ver com doutrinas não-bíblicas que as Escrituras não ensinam em lugar nenhum, mas sim a doutrinas que tem que ser provadas pela própria Bíblia, o que destrói com o conceito católico-romano acerca daquilo que eles consideram "tradição". Esse mesmo Irineu diz que essa fé, que ele acabara de se referir como sendo a tradição apostólica da Igreja, tem a sua prova evidente nas Escrituras, e não fora dela:

"É, portanto, sólida, não forçada, única verdadeira, a nossa fé que tem sua prova evidente nas Escrituras, traduzidas da forma que dissemos, e é isenta de toda interpolação a pregação da Igreja" (Contra as Heresias, Livro III, 21:3)

Irineu também declara que Deus preparou e fundou a nossa fé em Cristo pelas Escrituras, e não por alguma outra fonte paralela à ela:

"As Escrituras, pelas quais Deus preparou e fundou a nossa fé em Seu Filho, foram, pois, traduzidas com tanta fidelidade, pela graça de Deus, e conservadas em toda a sua pureza" (Contra as Heresias, Livro III, 21:3)

A verdadeira doutrina dos apóstolos, na visão de Irineu, estava guardada e preservada nas Escrituras, que eram um sistema muito completo de doutrina:

"O verdadeiro conhecimento é a doutrina dos apóstolos, e a antiga constituição da Igreja em todo o mundo, e a manifestação distinta do Corpo de Cristo conforme as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram aquela Igreja que existe em todos os lugares, e chegou até nós, sendo guardada e preservada sem nenhuma falsificação nas Escrituras, por um sistema muito completo de doutrina, e sem receber adição nem subtração; e a leitura [da Palavra] sem falsificação, e uma exposição lícita e diligente em harmonia com as Escrituras, sem perigo nem blasfêmia, e o preeminente carisma do amor, o qual é mais precioso do que o conhecimento, mais glorioso do que a profecia, e que excede todos os outros dons" (Contra as Heresias, Livro IV, 33:8)

Se as Escrituras são um sistema completo de doutrinas, então obviamente não existem doutrinas cridas pela Igreja que estão fora das Escrituras, ou senão elas seriam incompletas, e não completas em tudo aquilo que abrange a doutrina. Isso simplesmente fulmina com as teses romanistas de que as Escrituras são doutrinariamente insuficientes, e de que existem doutrinas verdadeiras que não estão na Bíblia. A tradição, como ensinada pelos católicos, no sentido de uma fonte de revelação oral extra-bíblica, era completamente rejeitada por Irineu, como ele próprio fez questão de dizer claramente:

"Quando, porém, eles são refutados a partir das Escrituras, voltam atrás e acusam essas mesmas Escrituras, como se elas não fossem corretas e nem tivessem autoridade, e afirmam que elas são ambíguas, e que a verdade não pode ser extraída a partir delas... alegam que a verdade não foi entregue por meio de documentos escritos, mas a viva voz" (Contra as Heresias, Livro III, 2:1)

Irineu rejeitava a tradição dos gnósticos exatamente porque o conceito deles de tradição eram de doutrinas não entregues por meio de documentos escritos, mas a viva voz. Ele diz que os gnósticos utilizavam a Escritura, mas somente até certo ponto, pois quando eram refutados pela Escritura diziam que a verdade não estava somente na Bíblia, mas fora dela, numa tradição oral extra-bíblica. Exatamente aquilo que os católicos ensinam hoje como sendo a tradição!

Católicos usam as Escrituras, mas quando são refutados por elas dizem que a Bíblia não é a única regra de fé e que existem doutrinas que não estão na Bíblia e que são cridas por meio da tradição oral. Católicos e gnósticos tem exatamente o mesmo conceito de tradição oral, que obviamente foi rejeitado por Irineu, que cria na tradição não como uma fonte de revelação paralela às Escrituras com doutrinas cridas fora dela, mas sim como a confirmação do conteúdo presente nas próprias Escrituras!

É por isso que, para Irineu, somente as Escrituras são o pilar e fundamento da nossa fé:

"De nada mais temos aprendido o plano de nossa salvação, senão daqueles através de quem o evangelho nos chegou, o qual eles pregaram inicialmente em público, e, em tempos mais recentes, pela vontade de Deus, nos foi legado por eles nas Escrituras, para que sejam o fundamento e pilar de nossa fé" (Contra as Heresias, Livro III, 1:1)

As Escrituras não eram apenas um dos pilares e fundamentos da nossa fé, mas era o pular e fundamento. Se Irineu tivesse dito que a Bíblia era apenas um dos pilares e fundamentos da nossa fé, ele teria indicado que crê como os católicos, de que a Bíblia não é a única regra de fé e prática, mas apenas mais uma das regras de fé, apenas mais um dos pilares e fundamentos, junto à tradição e magistério. Contudo, ele é claro e categórico em ressaltar a singularidade das Escrituras como a regra de fé dos cristãos.

A Bíblia, e somente a Bíblia, é o fundamento, o pilar, onde a nossa fé está edificada. Não sobre uma tradição extra-bíblica, não sobre uma outra fonte de revelação não-escrita, mas sobre as próprias Escrituras, de onde temos tudo aquilo que é chamado de tradição apostólica - a legítima, e não a romana.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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21 comentários:

  1. Lucas, excelente matéria.

    Paulo foi categórico ao dizer assim, e Lucas escrever;

    Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar, e ensinar publicamente e pelas casas,
    Atos 20:20

    Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.
    Atos 20:27

    Irineu expos o que os Apóstolos transmitiam, principalmente Paulo.

    Abraços Lucas.

    Neilom Soares

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  2. O Catolicismo Romano parece que não quer enxergar o que está bem debaixo de seus narizes.
    Continuam (principalmente os mais fanáticos na internet) a pregar que Jesus fundou sua religião, e pregam o ódio ao povo evangélico a todo custo.

    Não sei se assistiu a um vídeo em que desnecessariamente, um "PADRECO" da rede vida chamou os evangélicos de otários em alto e bom som!!
    Bem se sabe que os historiadores dizem que Pedro nunca foi Papa, que seu papel foi bem mais modesto do que pregam os Romanistas, e que também não há provas que ele esteve realmente em Roma..

    Eu destacaria também as 7 igrejas da Ásia, que apesar de estarem relativamente próximas uma das outras, as cartas que receberam, continham mensagens diferentes, onde cada qual recebeu uma orientação,demonstrando claramente que cada qual tinha uma liderança destinta, não sei Lucas, se você já postou aqui algum estudo sobre essas igrejas, quero ver algum papista, nos provar que estas igrejas eram CATÓLICAS ROMANAS e que tinham uma mesma liderança. Fica ai a dica caso ainda não tenha postado, abraços.

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    1. Olá, André, a paz.

      Eu assisti a este vídeo do Pe. Paulo Ricardo já há muito tempo, ainda na época em que ele havia acabado de dizer isso, e naquela época escrevi um artigo refutando todas as baboseiras que ele disse, você pode conferir aqui:

      http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/index.php?pagina=1083350383

      De fato, cada comunidade cristã primitiva era independente e não estava sob o primado de algum bispo superior aos demais, o que é completamente omitido ao longo de todo o Apocalipse. Em momento nenhum o bispo de Roma sequer é citado, e nem de longe há qualquer indício de uma primazia universal de algum bispo. Agradeço o seu comentário e a dica.

      Um abraço.

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  3. São Cipriano, bispo de Cártago, anos 249-58, alertava: "Não recebo opinião diferente das Escrituras Sagradas, seja de quem for!
    "São Jerônimo anos 340-420 dizia o mesmo: "Se estiver escrito recebemo-lo, se não estiver escrito não receberemos, o que eles apresentam como Tradição a palavra de Deus o vesgasta!"

    Mais alguns denominados católicos que são contra a tradição católica. Pode chamar isso de FÉ UNIVERSAL?

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    1. Obrigado pelo seu comentário, Emmanuel, fazia tempo que não te via por aqui, um forte abraço!

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  4. "E cada um deles diz que esta sabedoria é a que ele descobriu, ou melhor, inventou, e assim se torna normal que a verdade se encontre ora em Valentim, ora em Marcião, ora em Cerinto e depois em Basílides ou nalgum outro contendente," (Contra as Heresias, Livro III, 2,1)

    Assim são os protestantes, ora a verdade se encontra em Lutero, ora em Calvino, ora em John Wesley, ora em Malafaia, ora em Edir Macedo, ora em RR Soares...

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    1. Pelo contrário. Assim são os católicos: ora a verdade se encontra na RCC do padre Marcelo e do padre Fábio de Melo, ora a verdade se encontra com os "tradicionais" como o prof. Orlando Fedeli (da Montfort) que nem no Concílio Vaticano II acreditava, ora a verdade se encontra com os Sedevacantistas que não creem nem que o papa atual é eleito por Deus, ora a verdade se encontra com o papa Francisco que não sabe nem o que é...

      É por isso que nós ficamos somente com a Bíblia, e não com Lutero, Calvino, Wesley, Malafaia ou quem quer que seja. Os homens só devem ser ouvidos na medida em que seus ensinamentos encontram consonância nas Escrituras Sagradas - e não incondicionalmente e intrinsecamente a si próprios, como ocorre no catolicismo romano através da figura humana do papa.

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    2. Negativo. Os pastores brigam entre si continuamente, saem brigados de suas denominações e abrem outras novas, todos os dias....

      A Igreja Católica tem o Catecismo, que começou com a Didaquê dos Apóstolos, e isso você deve saber melhor do eu.

      O Catecismo é único. O mesmo que é ensinado aqui no Brasil, é ensinado também no Japão, no Uruguai e em qualquer parte do planeta. É um livro Didático de interpretação bíblica única, onde todos concordam com o mesmo ensinamento.

      Já os evangélicos são assim: você entra em uma denominação e o pastor afirma que Deus fala X. Aí você atravessa a rua e na denominação da esquina, Deus já fala exatamente o contrário do que disse na denominação anterior. Ali Deus muda de opinião em cada esquina. É bipolar, Tripolar, Multipolar...

      Respeitosamente,

      Cláudia

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  5. "Os bem-aventurados apóstolos que fundaram e edificaram a Igreja transmitiram o governo episcopal a Lino, o Lino que Paulo lembra na carta a Timóteo (2Tm 4,21). Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episcopado a Clemente, que vira os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição." ( Contra as Heresias, Livro III, 3,3)

    Lino, Anacleto e Clemente são os sucessores de Pedro, o Bispo de Roma. Essa sucessão continua até os dias de hoje.

    Repare o texto: "ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles". A Igreja Católica jamais desmereceu as Escrituras. Mas ela também não desmerece a pregação transmitida de forma oral.

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    1. É sério, Cláudia? Sério mesmo que você, ao ler este texto aí de Irineu, concluiu que os bispos de Roma são sucessores de PEDRO em especial? Será que você não percebeu ainda que Irineu disse "depois DOS APÓSTOLOS", no plural, sem mencionar Pedro em exclusividade em LUGAR NENHUM? Eu já vi católicos fazerem exegese mais honesta....

      De fato, na época de Clemente de Roma, ainda no final do PRIMEIRO século, a tradição ainda estava bem guardada. Mas da onde foi que você concluiu, a partir deste fato, que a tradição continuou incorruptível através de mais VINTE SÉCULOS? Eu não sei se você sabe, mas foi o próprio Irineu que teve que intervir quando um BISPO DE ROMA chamado Vítor decidiu arrogantemente colocar a SUA PRÓPRIA TRADIÇÃO acima da tradição dos demais bispos do oriente, quando ameaçou excomungar Polícrates, bispo de Éfeso.

      Veja o que aconteceu nas palavras de Eusébio de Cesareia:

      “Ante isto, Victor, que presidia a igreja de Roma, tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou uma condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem exceção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou a todos os bispos, que por sua parte exortavam-no a ter em conta a paz e a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se inclusive as palavras destes, QUE REPREENDEM VICTOR COM BASTANTE ENERGIA" (HE, Livro V, 24:9)

      E também:

      "Também restam as expressões que empregaram para pressionar com grande severidade a Vitor. ENTRE ELES ESTAVA IRINEU" (HE, Livro V cap. XXIV)

      Veja que existiam duas tradições: a do bispo de Roma e a do bispo de Éfeso. Eram tradições DIVERGENTES. Irineu foi chamado e, ao invés de ficar ao lado do bispo de Roma, ficou ao lado do de Éfeso e ainda REPREENDEU SEVERAMENTE o bispo romano.

      Sério mesmo que a tradição dos romanos é infalível e incorruptível?

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    2. Se Lino não foi o sucessor de Pedro, então, quem foi? Qualquer organização, qualquer uma que seja, até mesmo síndico de prédio, tem um sucessor. Tem um ditado que diz: "Rei morto, rei posto." Um apóstolo da maior evidência como Pedro, não teria um sucessor? Sendo que até as igrejas evangélicas de fundo de quintal têm seus sucessores?

      Respeitosamente,

      Cláudia

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    3. Irineu não diz que Pedro foi BISPO de Roma. O que ele diz é que os APÓSTOLOS, no plural, referindo-se a Paulo e Pedro (e não somente a Pedro!) transmitiram o episcopado a Lino, ou seja, que eles elegeram Lino como o primeiro bispo de Roma. Depois de Lino, é claro que foi havendo uma sucessão, assim como também nas igrejas do oriente, na Igreja Ortodoxa, a qual tem doutrinas divergentes com a doutrina romana, incluindo tradições contraditórias. A tese de que Pedro foi o primeiro bispo de Roma é tardia: trata-se de finais do século IV e início do século V. Antes disso, o consenso era de que Lino foi o primeiro bispo de Roma, depois do martírio de Pedro e Paulo naquela cidade. Repito mais uma vez: se esta passagem de Irineu significa que Pedro foi bispo em Roma, então PAULO TAMBÉM FOI BISPO DE ROMA, já que Irineu fala DOS DOIS e não só de Pedro. O problema é que a Igreja Romana nunca reconheceu que Paulo também foi bispo de Roma (papa), dividindo o "trono" com Pedro. Se fosse assim, Lino teria sido o terceiro, e não o segundo, como consta nas listas de sucessão papal!

      Sugiro-lhe a leitura deste artigo que trata especificamente sobre isso:

      http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/index.php?pagina=1079325913

      Abraços.

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  6. Td bem, sera que a tradiçao é incorruptivel? Realmente quem somos nós para afirmar que sim ou que não, podemos fazer especulações estando de qualquer lado, católicos, protestantes e etc. Sempre vai haver algum fato onde nós católicos podemos nos defender e também apontar erros na sua doutrina protestante, e da mesma forma você como protestante também está na mesma condição.

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  7. Admiro o nível de argumentação do irmão e certamente demonstra que o nível das conversas aqui não se resumem à troca de farpas e argumentações vazias baseadas nas posturas das pessoas, mas na análise de estudos bíblicos. Contudo, sou católico convicto, ex-protestante e afimo que Irineu de Lião estava em completo alinhamento com a Igreja de Roma, tanto que Inácio de Antioquia cita a Igreja de Roma como a que "preside a caridade" e no próprio livro Contra as Heresias (III ,3 2-3) nos cita contextualmente que Pedro e Paulo confirmaram a linha do episcopado a Lino e assim vai a lista de tantos papas. Respondendo a outro comentário, nunca a Igreja Católica disse que a Bíblia era insuficiente em si, pois é a tradição VERBAL da Palavra de Deus. Mas a Verdade é suportada pela Igreja, que possui também a tradição oral, como fonte de entendimento. É importante também diferenciar nesse contexto a suficiência material e formal da doutrina, mas seria discorrer muito e seria cabível em outra oportunidade, mas em todos os momentos vemos essa harmonia entre Bíblia e tradição. Até mesmo Lutero, em seu sermão, cita Maria várias vezes e inquestionável assunção ao céu. Mas creio que no momento é objeto de análise a "pedagogia" de leitura bíblica: apenas as Escrituras ou não. Nesse contexto, analisando as citações de Irineu, é importante também destacar não apenas a questão bíblica tão somente (e suposta defesa da sola scriptura), mas a exposição CLARA E HARMONICA da Palavra( no mesmo trecho que você destacou). Assim como no mesmo livro cita que essa tradição apostólica permite que em vários lugares, como "Espanha, Alemanhas, etc" possam viver "na mesma casa", a casa de Deus, é evidente que Ele privilegiou as tradições apostólicas genuínas. Isso é Unidade! Cita ele: "uma só boca". É bem verdade que Irineu criticou as tradições orais, mas não as apostólicas, que ele mesmo reputa como essenciais, recebidas dos apóstolos( isso não impede que eles estejam em unidade com Roma, em nenhum momento anula isso), mas contra as tradições gnósticas existentes. De fato, não há como aceitar tais doutrinas, aliás, contra as heresias é concebido nesse pacote contra os gnósticos. Espero não ter sido muito cansativo na leitura, espero ter colocado com clareza as idéias.

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    1. Inácio de Antioquia nunca citou Roma como exercendo uma jurisdição universal, nem ele e nem qualquer Pai da Igreja. "Presidir na caridade" não tem absolutamente nada a ver com primado do bispo romano, mas era simplesmente uma forma de dizer que os cristãos que viviam em Roma na época eram bastante caridosos, presumivelmente mais do que os de outras regiões. O fato é que Inácio elogiou a Igreja de Éfeso mais do que ele fez à Igreja de Roma, e ele NUNCA citou em parte nenhuma a figura de um "bispo de bispos" ou Sumo Pontífice universal a quem devemos submissão. Ao contrário, para Inácio as autoridades na Igreja SEMPRE se resumiam APENAS aos bispos, presbíteros e diáconos:

      -Inácio aos Magnésios (Versão Curta):

      “Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou”

      “Assim como o Senhor nada fez, nem por si mesmo nem por meio de seus apóstolos, sem o Pai, com o qual ele é um, também vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros”

      “Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus”

      -Inácio aos Tralianos:

      “Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da morte. É necessário, portanto, como já o fazeis, nada realizar sem o bispo, mas também submeter-vos ao presbítero, como aos apóstolos de Jesus Cristo, nossa esperança, no qual nos encontraremos em toda a nossa conduta. É preciso, também, que os diáconos, ministros dos mistérios de Jesus Cristo, agradem a todos e de todos os modos. Com efeito, não é de comida e bebida que eles são ministros, e sim servidores da Igreja de Deus. É preciso, portanto, que eles evitem qualquer tipo de repreensão, como se evita o fogo”

      “Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é a imagem do Pai, e os presbíteros como à assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja. Tenho certeza que pensais do mesmo modo a respeito disso. Com efeito, recebi e tenho comigo um exemplar de vosso amor ao vosso bispo: a postura dele é grande ensinamento e sua mansidão é uma força. Penso que até os ateus o respeitam”

      “Cuidado, portanto, com essas pessoas. Fazei-o sem vos encher de orgulho, permanecendo inseparáveis de Jesus Cristo Deus, do bispo e dos preceitos dos apóstolos. Aquele que está dentro do santuário é puro, mas aquele que está fora do santuário não é puro; ou seja, aquele que age sem o bispo, sem o presbítero e os diáconos, esse não tem consciência pura”

      “O amor dos esmirniotas e dos efésios vos saúda. Em vossas orações, lembrai-vos da Igreja da Síria, da qual não sou digno de ser parte, pois sou o último dentre eles. Passai bem em Jesus Cristo, submissos ao bispo como ao mandamento, e igualmente ao presbitério. Todos, individualmente, amai-vos uns aos outros, de coração não dividido”

      -Inácio a Policarpo:

      “Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus”

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    2. -Inácio aos Efésios:

      “Possa eu encontrar sempre a minha alegria em vós, caso eu seja digno disso. É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo, que vos glorificou, a fim de que, reunidos na mesma obediência, submetidos ao bispo e ao presbítero, sejais santificados em todas as coisas"

      “Vós, amados, sede atentamente sujeitos ao bispo, e aos presbíteros e aos diáconos. Porque aquele que lhes é sujeito, é obediente a Cristo que os ordenou; mas aquele que lhes é desobediente, é desobediente a Cristo Jesus”

      “Não cedais, irmãos, na fé em Jesus Cristo, e em Seu amor, em Seu sofrimento, e em Sua ressurreição. Sigamos todos juntos em comunhão, e individualmente, pela graça, em uma só fé em Deus o Pai, e em Jesus Cristo Seu unigênito Filho, e ‘o primogênito de toda a criação’, mas da semente de Davi conforme a carne, mantendo-nos sob a orientação do Consolador, em obediência ao bispo e ao presbitério com mente não dividida, partindo um e o mesmo pão”

      -Inácio aos Filadelfienses:

      “Ele [Jesus] é minha alegria eterna e duradoura, sobretudo se os seus fiéis permanecerem unidos com obispo, com os presbíteros e os diáconos que estão com ele, estabelecidos conforme o pensamento de Jesus Cristo, o qual, segundo sua própria vontade, os fortificou e confirmou com o seu Espírito Santo”

      “Alguns quiseram me enganar segundo a carne, mas não se engana o espírito que vem de Deus. De fato, ele sabe de onde vem e para onde vai, e revela os segredos. Estando no meio de vós, gritei, disse em alta voz, uma voz de Deus: Permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos!”

      -Inácio aos Erminiotas:

      “Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbitério como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus”

      Sobre a sucessão apostólica, sim, é claro que Irineu citou uma linha de sucessão em Roma, mas você se esquece ou ignora o fato de que TODAS as igrejas (comunidades cristãs da época) também tinham sucessão. Irineu preferiu citar a sucessão apenas de Roma para poupar tempo, por ser a “maior” igreja da época (em função de estar na capital do império). Basta uma leitura em Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica) para perceber que as demais igrejas da época também tinham sucessão apostólica, e que a sucessão de Antioquia, curiosamente, tem Pedro como seu primeiro bispo. No site abaixo você pode ver a sucessão de bispos de Antioquia, que vai desde Pedro até o patriarca ortodoxo atual:

      http://sor.cua.edu/patriarchate/patriarchschronlist.html

      Mesmo assim, vocês não consideram mais a Igreja Ortodoxa a “igreja de Cristo”, nem creem que o bispo de Antioquia seja um “papa infalível” com “autoridade suprema”. Então a sucessão apostólica, por si só, não prova nada. Eu teria muito mais a dizer sobre este mesmo assunto, mas para poupar tempo comentarei mais sobre isso nos próximos dias, em um novo artigo.

      Por mais que você diga que a Igreja Romana não é contra a suficiência material das Escrituras, a internet está CHEIA de apologistas católicos dizendo isso por aí, e por isso há a necessidade de se combater este engano também. Você argumenta sobre a tradição oral, mas novamente não consegue provar que esta tradição oral diz as coisas que você afirma que ela alega. Este artigo (bem como outros que tratam do tema da tradição) prova que a tradição no conceito dos Pais NÃO ERA um depósito de doutrinas fora da Bíblia (ex: infalibilidade papal, assunção de Maria, imaculada conceição, purgatório, etc), mas apenas o conteúdo doutrinário daquilo que estava DENTRO da Bíblia, ou então de meros costumes que não envolvem qualquer tipo de doutrina. Há mais de 400 citações patrísticas sobre isso em meu livro “Em Defesa da Sola Scriptura”:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2014/06/novo-livro-em-defesa-da-sola-scriptura.html

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    3. Não adianta apelar para a tradição sem antes definir o que é a tradição. Qual tradição é a verdadeira? É a tradição romana ocidental, que diz que o batismo deve ser feito por aspersão, ou é a tradição ortodoxa oriental, que diz que é por imersão? É a tradição romana, que prega o purgatório, ou a ortodoxa, que nega o purgatório? É a tradição romana, que ensina a imaculada conceição, ou a ortodoxa, que a nega? É a tradição romana, que prega a comunhão em apenas um elemento (hóstia), ou a ortodoxa, que ensina a comunhão em ambas as espécies? É a tradição romana, com suas milhares de imagens de escultura, ou é a ortodoxa, que só permite ícones? É a tradição romana, que diz que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, ou a ortodoxa, segundo a qual só procede do Pai? É a romana, que prescreve a existência de dois juízos (individual e geral), ou a ortodoxa, que prega a existência de um único juízo? Engraçado que ambas possuem a “sucessão apostólica” e dizem “guardar a tradição apostólica” igualmente.

      Eu não quero achismos, eu quero provas. Eu quero documentos históricos que provem que a tradição romana é a única tradição certa, que todas as outras tradições que remetem às outras igrejas do início da era cristã e que divergem da igreja de Roma são todas falsas, que a sua e apenas a sua tradição é incorruptível e que jamais passou por acréscimo, alteração, subtração ou modificação nenhuma, e que devemos rejeitar todos os argumentos ortodoxos para a tradição deles e ficar somente com a tradição de vocês. Apelar somente à palavrinha ‘tradição’ nos escritos dos Pais não é suficiente, pois a Igreja Ortodoxa faz exatamente a mesma coisa para provar a tradição deles. Isso não resolve nada, apenas é usado como carta na manga dos papistas para tentar resolver em um passe de mágica o problema de todas as doutrinas que não se encontram na Bíblia e que precisam de alguma justificativa. Não convence gente séria.

      Para terminar, é verdade que Irineu estava condenando a tradição gnóstica (o que foi afirmado no próprio artigo) e não uma tradição romana que nem existia ainda, mas o meu ponto não era esse, mas sim a singularidade e a natureza da tradição que era aceita e daquela que era condenada. Irineu rejeitava as tradições gnósticas porque elas eram tradições orais extra-bíblicas, e afirmava a tradição apostólica cristã porque estava fortemente fundamentada nas Escrituras. Qual igreja hoje em dia prega a existência de tradições orais extra-bíblicas que servem para fundamentar doutrinas que não se encontram em parte nenhuma das Escrituras? A Romana. E qual igreja que hoje em dia guarda tradições, mas que tem uma base e um alicerce bíblico de apoio? A protestante.

      Portanto, se Irineu vivesse nos dias de hoje, eu não tenho a menor sombra de dúvida que ele rechaçaria a tradição romana que em tudo se assemelha à tradição gnóstica, no sentido de ambas recorrerem a uma suposta tradição oral fantasmagórica que não foi escrita em lugar nenhum, mas que serve para fundamentar doutrinas quando as mesmas não se encontram na Bíblia. Infelizmente, alguns protestantes (geralmente nascidos católicos) voltam ao catolicismo por um estudo totalmente superficial na história e na patrística, quando um exame mais detido serviria apenas para reforçar a fé evangélica. É como Louis Pasteur dizia:

      “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”

      Eu tomo a liberdade para afirmar:

      “Um pouco de história nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”

      Deus lhe abençoe.

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    4. Enfim, uma pergunta, porque a doutrina da sola scriptura não é confirmada pela Bíblia? Ou seja, porque a Bíblia nega a sola scriptura?
      Outra pergunta, o que significa tradição?

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    5. Em que parte a Bíblia "nega" a Sola Scriptura? Cite-me capítulo e versículo por favor.

      O princípio da Sola Scriptura se encontra ao longo de toda a Bíblia:

      http://apologiacrista.com/sola-scriptura

      E mesmo que não se encontrasse, ainda assim para refutá-la seria preciso provar que existem doutrinas extraídas puramente de fora da Bíblia, através de uma tradição oral. Para isso, é lógico, seria necessário provar que os Pais da Igreja reconheciam a existência de uma tradição oral doutrinária que servia para fundamentar doutrinas que não se encontram em parte nenhuma da Bíblia. E, por fim, seria necessário provar também que essas tais tradições orais infalíveis foram guardadas EXCLUSIVAMENTE na Igreja Romana, ou seja, que em nenhuma outra igreja da época as tradições foram conservadas. Você pode provar isso?

      Sobre a tradição, confira aqui:

      http://apologiacrista.com/tradicao-apostolica

      E aqui:

      http://agrandecidade.com/2015/08/14/paulo-e-as-tradicoes-do-catolicismo/

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