20 de dezembro de 2012

A morte da alma imortal



Nestas semanas eu tenho escrito menos artigos porque estou fazendo uma revisão, correção e atualização completa em meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”, acrescentando algumas coisas e tirando outras. Por esta razão, passarei aqui apenas o conteúdo extra que foi adicionado ao livro, o que inclui um sub-tópico mais elaborado do que o antigo no que tange às provas bíblicas claras e diretas da morte da alma no Antigo e Novo Testamento. São literalmente centenas de citações, o que vocês lerão a partir de agora não passa de um pequeno resumo. Que os apologistas amadores defensores da “alma imortal” fundamentadores de interpretações patéticas baseadas em meia dúzia de passagens bíblicas isoladas e já há muito refutadas possam se divertir bastante.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.



NO ANTIGO TESTAMENTO

A Bíblia relata a morte da alma tantas inúmeras vezes que eu tive que resumir citações condensadas aqui ao invés de passar uma a uma. O arsenal bíblico da morte da alma é tão significativo ao ponto de nenhum exegeta sério poder contestar que este é um fato. Ela não sobrevive a parte do corpo, mas, pelo contrário, morre com ele, pelo que não existe “alma vivente” sem o corpo com o fôlego de vida. Quando o fôlego de vida [espírito] é retirado, nós que somos almas viventes nos tornamos almas mortas. É por isso que a Bíblia fala tão frequentemente na morte da alma também.

No Antigo Testamento, os escritores bíblicos quase cansaram de falar que a alma morre. No texto original hebraico, a alma morria, era transpassada, podia ser morta, morria para esta vida e morria para a próxima, a alma morria a toda hora. Josué conseguiu o “feito” de exterminar muitas almas... (ver Josué 10:28 no original hebraico: “Ve'eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-cherebh ve'eth-malkâh hecherim 'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho”).

A tradução literal ficaria assim: “Naquele dia tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o rei a espada e exterminou toda a alma que nela vivia, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó”. E não foi só essa vez que Josué conseguiu o feito extraordinário de matar não só o corpo, mas a alma também: em Josué 10:30, 31, 34, 36 e 38, a alma costumava morrer sempre. No original hebraico, Josué “matou a espada todas as almas (cf. Js.10:30), e exterminou toda a alma (cf. Js.10:28). Definitivamente, se existia uma imortalidade da alma, então Josué deveria ganhar uma medalha de honra ao mérito por tais feitos. 

Se alguém matava uma alma acidentalmente”, podia fugir para uma cidade de refúgio (cf. Js.20:3). Era possível aniquilar uma alma sem intenção (cf. Js.20:9). A alma morria tantas vezes, que uma referência completa a todas as passagens nos faria superar os limites de escopo deste livro. É claro que a maioria das versões bíblicas a nossa disposição simplesmente não traduzem a palavra “alma” como colocada no original hebraico [nephesh] pelo simples fato de que isso seria uma afronta à teoria imortalista de que é só o corpo que morre e a alma não. Os personagens bíblicos não acreditavam que seria apenas o corpo que morreria, pois eles categoricamente afirmam: “Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fimcomo o seu” (cf. Nm.23:10).

Veja que ele não diz: “que meu corpo morra a morte dos justos”, o que presumivelmente seria a única coisa que os defesores da imortalidade da alma afirmariam. A própria alma não escaparia da morte, e essa era a tão forte convicção de toda a Bíblia. A esperança deles não era que as suas almas fossem imortais, mas sim que elas morressem as mortes dignas dos justos, isto é, com honra. Este seria o fim deles, e não um início de uma nova existência!

Tal convicção de que a alma também não escapa da morte pode ser encontrada mais inúmeras vezes: “Dai-me um sinal seguro de que salvareis meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs e todos os que lhe pertencem e livrareis as nossas vidas da morte” (cf. Js.2:13). Caso os israelitas atacassem Jericó, as “vidas” da família de Raabe seriam mortas. Poucos sabem, contudo, que o original hebraico verte novamente a morte da alma-nephesh ao invés de “vida” como é traduzido por muitas versões. A Versão King James é uma das versões que traduzem nesta passagem corretamente a morte da alma, como sendo o próprio término da vida, a cessação da existência.

Em Deuteronômio 19:11, a tradução em português assim reza: “Mas, se alguém odiar o seu próximo, ficar à espreita dele, atacá-lo e matá-lo, e fugir para uma dessas cidades...”. Contudo, o original hebraico traz novamente a morte da alma: “Vekhiy-yihyeh 'iysh sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nepheshvâmêth venâs'el-'achath he`âriym hâ'êl”. “Matá-lo” aqui é a tradução do original hebraico que traz nephesh: matar a alma!

Em Jó 27:8, quando lemos que Deus eliminaria os ímpios, tirando a sua vida, o original traduz por “tira a alma” [nephesh]: “Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a alma [nephesh]”? O fato bíblico é que “a alma que pecar, essa morrerá (cf. Ez.18:4; Ez.18:21). Se Deus tivesse feito a alma imortal, teria dito a Ezequiel que “a alma que pecar viverá eternamente em estado desencarnado”; ou, então, diria que “a alma que pecar nunca morrerá”! Contudo, vemos que nem mesmo a alma está isenta da morte.

Os autores bíblicos usavam e abusavam da morte da alma. Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da almadeles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição (cf. Sl.49:8,9). Se a alma fosse algo à parte do corpo que se desliga deste por ocasião da morte, então ela jamais poderia em circunstância alguma sofrer decomposição. O que deveria sofrer decomposição seria o corpo, somente, e não a alma. Contudo, o verso 8 faz menção a nephesh - alma!

A verdade é que no original hebraico a alma é explicitamente morta: “Para que nelas se acolha aquele que matar alguém [nephesh]involuntariamente”(cf. Nm.35:15). Evidentemente o hebraico nephesh [alma] nunca é traduzido na maior parte das versões pelo simples fato de que isso iria suscitar o questionamento de que a alma claramente morre com a morte do corpo. Por isso, traduzem até o “matar alguém”... e daí pulam imediatamente para o: “...involuntariamente”.

Não traduzem por “matar alguma alma”, pois desta forma é muito mais fácil enganar os leitores que não tem como descobrir usando apenas a linguagem disponível no texto em português se o verso verte a morte apenas do corpo ou também da alma. O que bem podemos observar, ao longo de toda a Bíblia, é que a alma morre tanto quanto o corpo (ou até mais), mas isso é escondido dos leitores pela maioria das traduções. Tais casos semelhantes ocorrem inúmeras vezes nas Escrituras.

Alguns, na tentativa de provar que a alma é imortal, argumentam usando o texto de 1ª Reis 17:20-22, que assim diz: “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-Te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele. E o Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (cf. 1Rs.17:20-22). Mas, na realidade, tudo o que este texto nos mostra é que a alma do menino, que estava morta, voltou a ter vida – ele tornou-se novamente um ser vivente, uma alma vivente.

Colabora com isso também a variante linguística do texto, como observa o Dr. Samuelle Bacchiocchi: “Esta leitura, que se acha à margem da versão AV, apresenta uma construção linguística diferente. O que retorna às partes interiores é a respiração. A alma como tal nunca se liga a algum órgão ‘interior’ do corpo. O retorno da respiração às partes interiores resulta no reavivamento do corpo, ou, poderíamos dizer, faz com que se torne uma vez mais uma alma vivente” [“Immortality or Resurrection?”]

Aquele que matasse alguma alma deveria ficar sete dias fora do arraial: “Acampai-vos por sete dias fora do arraial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma alma[nephesh], como o que tiver tocado algum morto” (cf. Nm.31:9). Se tais “exterminadores de alma” vivessem no século presente e vissem o que o conceito de “alma” se tornou após a adoção universal do conceito platônico para este termo, iriam ficar realmente assombrados em descobrir que mataram almas imortais!

A morte do corpo está sempre ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Nós não temos uma alma presa dentro de nós que é liberta por ocasião da morte; nós somos essa “pessoa” que morre e que revive por ocasião da ressurreição (cf. Ap.20:4)! É por isso que, quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão, a Bíblia nos diz repetidas vezes que “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (cf. Js.10:28, 30, 31, 34, 36, 38). Definitivamente não haviam avisado Josué que no máximo o que ele matou foi somente um corpo!

Em Deuteronômio 11:9, lemos que “havendo alguém que aborrece o seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe a uma destas cidades...”. A frase “o fere de golpe mortal” é uma infeliz tradução do original hebraico que diz “fere a alma-nephesh mortalmente”. Jamais poderíamos imaginar que um cidadão iria com a sua espada transpassar tanto um indivíduo num combate ao ponto de matar até a alma “imortal” e imaterial que essa pessoa possui dentro dela! É nítido que a alma não era crido como sendo algo imaterial com imortalidade preso dentro de nós, o que também fica claro em Jeremias:

Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma(cf. Je.4:10). Se a alma fosse algo imaterial, não poderia ser atingida por objeto algum materiale nem ser penetrada! Uma entidade imortal e imaterial não pode ser ferida com espada ou algum outro instrumento; contudo, lemos que “vos estejam à mão cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma [nephesh] por engano (cf. Nm.35:11).

Aqui o “ferir” é propriamente a morte, porque o que a atinge é um homicida.Obviamente a morte do corpo é a morte da alma, pelo fato de que a alma não é um segmento imaterial que não pode ser atingido e nem destruído. Nenhum autor bíblico acreditava que existia uma alma imortal e imaterial presa dentro do nosso corpo, pois, se assim fosse, então a alma jamais e em circunstância alguma poderia ser morta e nem destruída em hipótese nenhuma!

Isaías fala a respeito de Jesus nessas palavras: “Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (cf. Is.53:12). Comentando essa passagem, o Dr. Samuelle Bacchiocchi afirma: “’Ele derramou’ é versão do hebraico arahque significa ‘esvazia, desnudar, ou deixar a descoberto’. Isso significa que o Servo Sofredor esvaziou-Se de toda a vitalidade e força da alma. Na morte, a alma não mais funciona como o princípio animador da vida, mas descansa na sepultura”[“Immortality or Resurrection?”].

De qualquer forma, eles não insistiriam tanto na morte da alma, com os tradutores bíblicos na grande maioria dos casos traduzindo por “pessoa” ao invés de “alma-nephesh”, como deve ser traduzido, presumivelmente por causa de crerem que a alma é imortal e não pode ser morta, contrariando a Bíblia toda (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Je.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Em Números 31:19, lemos que a morte do corpo é a morte da alma:

“Acampai-vos sete dias fora do arraial; qualquer de vós que tiver matado alguma pessoa [nephesh] e qualquer que tiver tocado em algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia, vos purificareis, tanto vós como os vossos cativos” (cf. Nm.31:19). O original novamente traz a morte da alma: “Ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh nepheshvekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem”.

Qualquer erudito familiarizado com as Escrituras também irá se deparar repetidamente com a forte convicção bíblica de que, caso as pessoas morressem, as suas almas não escapariam da morte. Isso explica o porquê que, em tantos casos, vemos os salmistas agradecendo a Deus por ter livrado a alma deles da morte, prolongando os dias de vida deles, ou, então, dizendo que a sua alma morreria a morte dos justos:

Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda” (cf. Sl.116:8).

“Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome” (cf. Sl.39:19)

“Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?” (cf. Sl.56:13)

“Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10)

“E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte (cf. Jó 33:22)

“Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do meio do seu povo” (cf. Êx.31:14)

“Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50)

E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte (cf. Jz.16:16)

“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas viúvas no meio dela” (cf. Ez.22:25)

“E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28)

“Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza” (cf. Ez.22:27)

Estes são alguns exemplos de passagens nas quais não precisamos ir até o original hebraico para revelarmos que o original traz a palavra “alma”, pois as próprias versões em português (ou a maioria delas) já traduzem por “alma” nestes versos, traduzindo nephesh por alma como realmente deve ser, em um contexto onde ela é morta, ou destruída, ou eliminada, ou devorada! Vale lembrar sempre que existe uma outra grande maioria de passagens bíblicas relatando a morte e extermínio da alma, em que nephesh não foi traduzido por “alma” como corretamente deveria ser, mas o que restou a nós já é mais do que o suficiente para imputarmos a doutrina de que a alma não morre como algo completamente antibíblico.

Os escritores bíblicos jamais disseram que a alma é um elemento imaterial e imortal, mas sim algo bem material e que morre. Por tudo isso, não existe alma imortal; o fato de a alma morrer tanto provém de que uma “alma vivente” não significa uma “alma imortal”, mas simplesmente um “ser vivo”, sujeito a morte: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4).

O Dr. Bacchiocchi ainda acrescenta em seu livro sobre a “Imortalidade ou Ressurreição”:

“As pessoas tinham grande temor por suas almas [nephesh] (Jos. 9:24) quando outros estavam buscando suas almas [nephesh] (Êxo. 4:19; 1 Sam. 23:15). Eles tiveram que fugir por suas almas [nephesh] (2 Reis 7:7) ou defender suas almas [nephesh] (Est. 8:11); se não o fizessem, suas almas [nephesh] seriam totalmente destruídas (Jos. 10:28, 30, 32, 35, 37, 39). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20). Raabe pediu aos dois espias israelitas que salvassem sua família falando em termos de “livrareis as nossas vidas [almas-VKJ] da morte” (Jos. 2:13)”

Sumariando, vemos que, biblicamente, a alma morre (cf. Ez.18:4), perece (cf. Mt.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é completamente eliminada (cf. Êx.31:14), desce à cova na morte (cf. Jó 33:22), revive na ressurreição [porque estava morta antes disso] (cf. Ap.20:4), é totalmente destruída (cf. Js.10:28), é derramada na morte (Is.53:12), é penetrada pelo fio da espada (cf. Je.4:10), é passível de sofrer decompisição [na sepultura] (cf. Sl.49:8,9), “repousa” na morte (cf. Sl.25:13), é sufocada (cf. Jó 31:39,40), é devorada (cf. Ez.22:25), pode ser assassinada (cf. Nm.35:11) e exterminada (cf. At.3:23).

Que a alma não é e nem nunca foi imortal, isso também fica evidente pelo fato de que, em mais de 1600 citações em que aparece “alma” na Bíblia, em nenhuma delas é seguida do termo “eterno” [aionios] ou “imortal” [athanatos], o que obviamente seria feito caso a alma fosse eterna ou imortal. Porém, isso nunca ocorre nas Escrituras, que preferem insistir constantemente em dizer que a alma morre, é destruída, exterminada e aniquilada (cf. Nm.31:19; 35:15,30; 23:10; Js.20:3,9; Js.20:3,28; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Je.40:14,15; Jz.16:30; 16:30; Ez.18:4,21; 22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc).

A Bíblia usa e abusa de todos os termos genéricos para a morte da alma. Junte isso ao fato que vimos acima, de que nunca algum escritor bíblico fez qualquer questão de dizer que a alma seria ‘eterna’ ou ‘imortal’ (em mais de 1600 citações), porque eles sabiam bem que a alma morre com a morte do corpo. Ou seja: temos centenas de centenas de citações mostrando explicitamente e expressamente a morte da alma, mas nenhuma que de forma direta afirme que a alma é “imortal” (athanatos) ou “eterna” (aionios)! Isso vai frontalmente contra o dualismo grego que divulgava a imortalidade da alma amplamente e nunca ousava dizer que a alma podia ser morta, o que seria uma completa afronta para os gregos dualistas, um verdadeiro escândalo para eles.

Se a alma de fato fosse imortal, o que deveríamos esperar seria uma “enchente” de citações bíblicas falando sobre a “alma eterna”, a “alma imortal”, a “imortalidade da alma”, etc. O próprio fato de a Bíblia insistir tanto na morte da alma ao invés de promover a imortalidade desta é suficientemente incontestável a fim de desqualificarmos inteiramente esta doutrina por não possuir um mínimo de respaldo teológico sério. Crer que a alma é imortal é estar com os olhos “vendados” (cf. 2Co.4:4) a luz de todas as evidências.


NO NOVO TESTAMENTO

O Novo Testamento confirma, mantém e amplia a crença bíblica de que a alma morre. Jesus nos contou sobre aquele que pode destruir o corpo e a alma (cf. Mt.10:28), Tiago nos diz que a alma está sujeita à morte (cf. Tg.5:20) e Pedro declara que ela pode ser exterminada:

“E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada dentre o povo” (cf. Atos 3:23)

Neste texto a palavra usada para o extermínio da alma é exolothreuo, que, de acordo com o léxico de Strong, significa derrubar do seu lugar, destruir completamente, extirpar” (Concordância de Strong, 1842). Não tem qualquer relação com um prosseguimento eterno e ininterrupto de vida consciente, mas diz respeito a um extermínio, uma completa cessação de existência. A palavra grega exolothreuo denota o completo extermínio da alma. Embora os escritores bíblicos tivessem a completa decisão de escolha entre respaldar a morte do “corpo” ou da “pessoa”, duas palavras disponíveis tanto no grego como no hebraico, eles insistem na morte e extermínio da alma [nephesh/hebraico – psiquê/grego].

Paulo também afirma, no auge da tempestade de Atos 27, que “nenhuma vida se perderá”(cf. At.27:22). O “perder-se” aqui referido é claramente relacionado com a cessação de vida, a morte na qual passaria aquelas pessoas em caso que o navio se afundasse. Poucas pessoas sabem, contudo, que o original grego traz “alma-psiquê” novamente: “kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou”. Em outras palavras, eles teriam as suas próprias almas mortas.

O apóstolo Paulo usou a palavra para alma-psiquê apenas treze vezes em seus escritos (de 1600 em que aparece na Bíblia). A razão mais razoável para isso é que ele não queria dar entender aos seus leitores um sentido equívoco daquilo que seria a “alma”, em direto contraste com o pensamento platônico que a divulgava amplamente. Por isso mesmo, ele jamais se utilizou do termo “alma-psichê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Pelo contrário, relata que “é semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural [psychikon], há também corpo espiritual” (cf. 1Co.15:44).

Aqui ele se utiliza de um derivado de alma-psyche a fim de denotar a natureza do corpo natural que está sujeito à morte [e consequente ressurreição], e não a algum elemento imaterial ou imortal. “Corpo natural” aqui é a tradução do grego que diz: “soma psuchikos”, que literalmente significa: “corpo psíquico” (psiquê significa alma). Alma-psiquê, portanto, está relacionada a um corpo natural que morre e que ressuscita, e não a um elemento imaterial, intangível e imortal desassociado do corpo natural e mortal.

Os manuscritos originais da Bíblia (AT/hebraico; NT/grego) sempre insistem que a alma não é uma parte divisível do corpo ou algum potencial imaterial presente na natureza humana trazendo consigo imortalidade, mas sim a própria pessoa como um ser vivo, como uma alma vivente. Paulo e Barnabé eram homens que têm arriscado a vida [psiquê] pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. At.15:26), porque a alma-psiquê também morre. Por isso, ela também é colocada em risco de acordo com os perigos em determinada localidade. Eles colocaram a própria alma em risco por amor a Cristo, porque a alma também pode ser morta. Se assim não fosse, eles estariam arriscando apenas o corpo mortal, e não a alma, pois esta supostamente seria imortal e inatingível a qualquer perigo de vida.

Em Mateus 2:20, é nos dito que já morreram os que buscavam a alma-psiquê do menino Jesus:

“Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha” (cf. Mateus 2:20)

No grego:

legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou

O termo “buscar a alma”, diante do contexto, tem clara ligação com buscar a morte daquela criança, que era o objetivo de Herodes: matar o menino Jesus. Ocorre que o evangelista Mateus, ao invés de dizer que eles matariam apenas o corpo, emprega novamente o termo “alma-psiquê”, pois a morte seria total: corpo e alma. Jesus disse em Mateus 16:25 que todo aquele que quiser salvar a sua alma [psiquê], perdê-la-á; mas todo aquele que perder a sua alma [psiquê] por minha causa, achá-la-á”.

O termo “perder a alma” aqui diz respeito ao martírio que todos os discípulos de Cristo passaram. Eles “perderam a alma”, isto é, tiveram um fim nesta vida pelas mãos de homens cruéis, visando “ganhá-la” num momento futuro, na ressurreição dos mortos. Mais uma vez, a morte não está relacionada ao corpo de modo estrito, mas também à psiquê: alma! Outra clara referência neotestamentária sobre a morte da alma está em Marcos 3:4, quando Cristo diz:

“A seguir, disse-lhes: ‘É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar ou matar uma alma? (cf. Marcos 3:4)

No grego:

kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê kakopoiêsai psuchênsôsai ê apokteinai oi de esiôpôn

De acordo com a Concordância de Strong, a palavra grega apokteino significa:

615 αποκτεινω apokteino
de 575 e kteino (matar); v
1) matar o que seja de toda e qualquer maneira.
1a) destruir, deixar perecer.

Portanto, apokteino psiquê denota a morte completa da alma, e não uma “imortalidade natural” dela. Pedro, ao dizer que morreria por Cristo, chegou a dizer:

“Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em benefício de ti! (cf. João 13:37)

No grego:

legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên psuchênmou uper sou thêsô

Pedro estava simplesmente dizendo que estava disposto a morrer por Cristo, e para isso diz que entregaria a sua psiquê por amor do Mestre, isto é, estaria disposto a entregar a sua própria alma à morte em benefício de Cristo. Ele não cria que no máximo entregaria um corpo para morrer, mas a alma. Ele não via a alma como um elemento imaterial e imortal, mas como algo tão fadado à morte quanto o próprio corpo. E o mesmo pode ser dito com relação ao Filho do homem, que daria a sua alma-psiquê como resgate em troca de muitos:

“Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos” (cf. Mateus 20:28)

No grego:

ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn

“Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua almaem benefício das ovelhas” (cf. João 10:11)

No grego:

egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn probatôn

“Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua almaa favor de seus amigos” (cf. João 15:13)

No grego:

meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou

“Dar a sua alma” nada mais é do que entregar a sua própria vida à morte, em favor da humanidade. Psiquê mais uma vez não é vista como algo imortal, mas algo sujeito à morte, como o corpo. Finalmente, em Apocalipse 20:4 é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas antes disso:

“E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4)

Neste contexto em que as almas revivem, não aparece corpo-soma na passagem, mas apenas a referência às almas-psiquê que João viu em sua visão ganharem vida novamente no ato da ressurreição. Dizer que aquilo que reviveu foi somente o corpo é entrar em gritante contradição com o texto bíblico, que em momento nenhum fala de corpos. O texto não diz: “as almas daqueles corpos que foram degolados”, mas sim “as almas daqueles que foram degolados”. Foram “as almas daqueles que foram degolados” que reviveram, e não “os corpos daqueles que foram degolados”.

Dizer que o “daqueles” está associado ao corpo (que nem sequer aparece no texto) e não ao referencial direto (“almas”) é no mínimo querer ferir a exegese e amputar as regras de interpretação textual. “Daqueles” é uma referência clara ao referencial mais direto, ou seja, “as almas”. Um exemplo prático para elucidar a questão: se eu dissesse que “a gasolina daqueles carros que pararam de funcionar foi recolocada”, o que é que foi recolocado? A gasolina ou os carros? Óbvio: a gasolina. É a gasolina daqueles carros, e não os próprios carros. Em Apocalipse 20:4 é exatamente a mesma estrutura textual que aparece. Vemos que as almas daqueles mártires reviveram. O que reviveu? A resposta também é óbvia: as almas daqueles que foram degolados!

Além disso, o original grego  traz o artigo definido, que no grego é "των"(ho), e que é traduzido na maioria das versões por “daqueles”:

kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tônpepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai ouk

De acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa:

3588 ο ho que inclui o feminino η he, e o neutro το to
em todos as suas inflexões, o artigo definido; artigo
1) este, aquela, estes, etc.
Exceto “o” ou “a”, apenas casos especiais são levados em consideração.

Este artigo inclui o feminino e também o neutro, o que mostra que está apenas reiterando que o sujeito é mesmo as almas, e não algum outro. “Corpo-soma” é masculino, e não feminino; ademais, nunca que o artigo definido ho toma o lugar de sujeito da frase, ele apenas é um artigo definido que confirma o sujeito da frase, não é utilizado para fazer uma distinção das “almas”, mas é um prosseguimento do relato delas, ainda com elas (as almas) sendo o sujeito único da frase. Portanto, em momento nenhum a referência e o sujeito da frase deixa de ser “as almas”, o que nos mostra que:

• Almas são decapitadas (morrem)
• Almas revivem na ressurreição

Por tudo isso, vemos que o Catecismo Católico que afirma que “a alma não perece com a morte do corpo” mostra uma total carência de conhecimento e discernimento bíblico. Isso explica o porquê do “problema da Bíblia” como já foi aqui exposto; e, de fato, até hoje a grande maioria das traduções continuam omitindo dos seus leitores a morte da alma com a morte do corpo. Mas, fazer o que: essa é a única maneira de “salvar” a doutrina de que a alma não morre e está viva em algum lugar, escondendo e omitindo dos seus leitores a verdade bíblica da morte da alma, o que exterminaria com um império de cegueira espiritual que tenta monopolizar a opinião escondendo a verdade dos olhos do povo, perpetuando estes enganos através das tradições humanas.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli.


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8 comentários:

  1. boa tarde. Fineza, se possível, entrar em contato através deste e-mail e me dar uma explicação que não entendi: weslleyicm@gmail.com

    Quando o homem morre, segundo seu estudo, a alma morre também? Aqueles que morreram em Cristo vão pra onde? e Quem morreu sem Cristo?

    abraços

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    1. Olá, Weslley, a paz de Cristo.

      Primeiramente, me desculpe por ter me esquecido de respondê-lo neste tempo. Resumindo a questão que você abordou, sim, quando o homem morre a alma também morre, porque a alma é o próprio homem e não uma parte em "separado" dele. Gênesis 2:7 nos diz que o homem TORNOU-SE uma alma vivente, e não que OBTEVE uma alma. Ou seja, nós SOMOS uma alma, e não POSSUÍMOS uma. Se nós SOMOS uma alma, e nós morremos, então logicamente a alma morre. A crença de que o homem possui uma alma imortal dentro do seu corpo físico é pagã e foi difundida por Platão na Grécia Antiga e daí crida por judeus helenistas e posteriormente por filósofos cristãos apaixonados pela filosofia platônica e influenciados por ela. Ou seja: não provém da Bíblia. É por isso que tal doutrina, da imortalidade da alma, era totalmente rejeitada pelos primeiros Pais da Igreja cristã primitiva:

      http://desvendandoalenda.blogspot.com.br/2012/12/os-pais-da-igreja-criam-na-imortalidade.html

      Aqueles que morreram sem Cristo, do mesmo modo daqueles que morreram em Cristo, estão literalmente mortos (i.e, sem vida, sem consciência), em suas sepulturas, esperando o despertar da ressurreição dos mortos. Neste dia, os que fizeram o bem ressuscitarão para adquirirem a vida eterna, enquanto que aqueles que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados. É sobre isso que Cristo disse em João 5:28-29:

      "Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação" (João 5:28-29)

      Então, os que morreram em Cristo receberão a vida eterna e os que morreram sem ele receberão a condenação eterna, que é a morte eterna (fim de existência), após serem castigados com muitos ou poucos açoites, correspondente aos pecados que cada um cometeu em vida:

      "Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, RECEBERÁ MUITOS AÇOITES. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, RECEBERÁ POUCOS AÇOITES" (Lucas 12:47-48)

      Este é um resumo muito resumido mesmo, por isso recomendo a você visitar meu blog sobre a imortalidade da alma, que contém vários artigos sobre o tema, e também estou lhe enviando por anexo em seu e-mail o meu livro sobre "A Lenda da Imortalidade da Alma", que possui mais de 1 milhão de caracteres e um amplo material que eu tenho certeza que poderão lhe ajudar. O blog é esse aqui:

      http://desvendandoalenda.blogspot.com.br/

      Que Deus lhe abençoe!

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    2. más e uma pessoa que foi incinerada,como ressurgirá ?

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    3. A alma é o corpo animado pelo fôlego de vida (=espírito). Portanto, na ressurreição Deus ressuscita o corpo, sopra o espírito nele novamente e consequentemente o homem volta a ser uma "alma vivente" (veja Gn.2:7), e não mais uma "alma morta".

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  2. se a alma morre, então me explique apocalipse 6:9-11. Nesses versículos João vê almas e não corpos e essas almas estavam falando. Se estavam falando, então com certeza estavam vivas.

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    Respostas
    1. Explicado:

      http://desvendandoalenda.blogspot.com.br/2012/12/as-almas-debaixo-do-altar.html

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