9 de janeiro de 2014

Agostinho: «Eu não creria no Evangelho se não fosse a autoridade da Igreja»


A AUTORIDADE DA BÍBLIA PROVÉM DE DEUS, NÃO DA IGREJA
(João Calvino)


Entre a maioria tem prevalecido o erro perniciosíssimo de que o valor que assiste à Escritura é apenas até onde os alvitres da Igreja concedem. Como se de fato a eterna e inviolável verdade de Deus se apoiasse no arbítrio dos homens! Pois, com grande escárnio do Espírito Santo, assim indagam: “Quem porventura nos pode fazer crer que essas coisas provieram de Deus?”; “Quem, por acaso, nos pode atestar que elas chegaram até nossos dias inteiras e intatas?”; “Quem, afinal, nos pode persuadir de que este livro deve ser recebido reverentemente, excluindo um outro de seu número, a não ser que a Igreja prescrevesse a norma infalível de todas essas coisas”?

Depende, portanto, da determinação da Igreja, dizem, não só que se deve reverência à Escritura, como também que livros devam ser arrolados em seu cânon. E assim, homens sacrílegos, enquanto, sob o pretexto da Igreja, visam a implantar desenfreada tirania, não fazem caso dos absurdos em que se enredam a si próprios e aos demais com tal poder de fazer crer às pessoas simples que a Igreja tudo pode. Ora, se assim é, que acontecerá às pobres consciências que buscam sólida certeza da vida eterna, se todas e quaisquer promessas que existem a seu respeito subsistam embasadas unicamente no julgamento dos homens? Porventura, recebida uma resposta como essa, deixarão elas de vacilar e tremer? Em contrapartida, que ocasião damos aos infiéis de fazer troça e escárnio de nossa fé, e quantos a têm por suspeita caso se cresse que tem sua autoridade como prestada pelo favor dos homens!


A IGREJA ESTÁ FUNDAMENTADA NA BÍBLIA

Mas, palradores desse gênero se refutam sobejamente com apenas uma palavra do Apóstolo. Categoriza ele [Ef 2.20] que a Igreja se sustém no fundamento dos profetas e dos apóstolos. Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir. Nem procede o que sofisticamente arrazoam, a saber, ainda que daqui derive a Igreja sua origem e começo, a não ser que se interponha o arbítrio da própria Igreja, permanece em dúvida quais coisas se devam atribuir aos profetas e aos apóstolos.

Ora, se de início a Igreja Cristã foi fundada nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, onde quer que esta doutrina se encontre, sua aceitação, sem a qual a própria Igreja jamais teria existido, indubitavelmente precedeu à Igreja. Portanto, mui fútil é a ficção de que o poder de julgar a Escritura está na alçada da Igreja, de sorte que se deva entender que do arbítrio desta, a Igreja, depende a certeza daquela, a Escritura.

Conseqüentemente, enquanto a recebe e com sua aprovação a sela, a Igreja não a converte de duvidosa em autêntica, ou de outro modo seria controvertida; ao contrário, visto que a reconhece como sendo a verdade de seu Deus, por injunção da piedade, a venera sem qualquer restrição. Quanto, porém, ao que perguntam: Como seremos persuadidos de que as Escrituras provieram de Deus, a não ser que nos refugiemos no decreto da Igreja? É exatamente como se alguém perguntasse: de onde aprenderemos a distinguir a luz das trevas, o branco do preto, o doce do amargo? Pois a Escritura manifesta plenamente evidência não menos diáfana de sua veracidade, que de sua cor as coisas brancas e pretas, de seu sabor, as doces e amargas.


AGOSTINHO NÃO CONTRARIA ESSA TESE

Sei suficientemente bem ser comumente citada a declaração de Agostinho[1] na qual ele só creria no evangelho se a autoridade da Igreja o movesse isso. Entretanto, é fácil de depreender, pelo próprio contexto, quão errônea e cavilosamente é ele citado neste sentido. O fato é que ele estava envolvido com os maniqueus, os quais desejavam ser cridos sem controvérsia, quando protestavam, sem que o comprovasse, que tinham a verdade. De fato, visto que, para fomentarem confiança em seu Mani, apelavam para o evangelho, pergunta Agostinho: que haveriam eles de fazer se porventura se defrontassem com um homem que realmente não cresse no evangelho? Com que gênero de argumentação haveriam de conduzi-lo a seu ponto de vista?

Acrescenta, a seguir: “Eu, na verdade, não creria no evangelho” etc., querendo com isso dizer que, enquanto era estranho à fé, não poderia ser levado de outra maneira a abraçar o evangelho como a verdade infalível de Deus se não fosse compelido pela autoridade da Igreja. E porventura surpreende se alguém, quando ainda não conhece a Cristo, se deixa levar pelo respeito humano? Portanto, Agostinho não está aqui ensinando que a fé dos piedosos está fundada na autoridade da Igreja, nem entende que daí dependa a certeza do evangelho. Mas está simplesmente ensinando que para os infiéis não haveria nenhuma certeza do evangelho, para que sejam daí ganhos para Cristo, a não ser que o consenso da Igreja os force.

E isto ele confirma um pouco antes não de forma obscura, falando assim:

“Quando eu tiver louvado o que creio e tiver escarnecido o que crês, o que pensas que devamos julgar, ou que devamos fazer, senão desertarmos àqueles que nos convidam a conhecer coisas seguras, e depois ordenam que creiamos coisas incertas e sigamos aqueles que antes nos convidam a crer o que ainda não somos capacitados a ver, de sorte que, feitos mais ousados pela própria fé, façamos jus a entender o que cremos, estando a firmar e iluminar-nos interiormente não mais o espírito dos homens, mas o próprio Deus?”

São estas, textualmente, as palavras de Agostinho, das quais qualquer um pode concluir prontamente que o santo varão não tivera esta intenção: que fizesse pendente da autoridade ou do arbítrio da Igreja a fé que temos nas Escrituras; ao contrário, que apenas indicasse, o que também confessamos ser verdadeiro, que aqueles que ainda não foram iluminados pelo Espírito de Deus são induzidos à docilidade pela reverência à Igreja, para que porfiem em aprender do evangelho a fé em Cristo. E assim é que, desse modo, a autoridade da Igreja é, a seu ver, a preparação pela qual somos predispostos para a fé do evangelho. Portanto, como estamos vendo, ele quer que a certeza dos piedosos se assente em fundamento bem diverso.

Por outro lado, não estou negando que, não raro, no empenho de afirmar a autoridade da Escritura, a qual esses tais repudiavam, pressiona aos maniqueus com o consenso da Igreja inteira. Donde aquela sua exprobração contra Fausto, visto que ele não se submetia à verdade do evangelho, que era tão firme, tão sólida, celebrada com glória tão imensa e recomendada por sólidas sucessões desde o tempo dos apóstolos. Mas, em lugar algum ele pretendia ensinar que a autoridade que deferimos às Escrituras deva depender da definição ou do decreto de homens.

Apenas traz à baila o parecer universal da Igreja, em que levava manifesta vantagem sobre os adversários, porque no caso muito lhe valia. Se alguém deseja uma comprovação mais plena disto, leia seu livreto A Utilidade do Crer, onde verificarás que ele não recomenda nenhuma outra disposição de crer, senão unicamente aquela que nos faculte acesso e seja oportuno começo da investigação, como ele próprio o diz, contudo, que não se deve aquiescer à mera opinião, mas arrimar-se na segura e sólida verdade.

Por: João Calvino (Institutas, Livro I, 7:1-3)


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[1] Contra a Epístola Fundamental, capítulo V.

8 comentários:

  1. lucas... vc não recebeu a resposta do meu e-mail ?
    .
    matheus...

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  2. 1 Timóteo 3:15 na bíblia do protestante:

    "Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a BÍBLIA do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade".

    ApologetaCatólico

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    1. 1 Timóteo 3:15 na bíblia do católico:

      "Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a IGREJA CATÓLICA ROMANA do Deus vivo, a criadora e manipuladora da verdade".

      ApologetaCristão

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  3. Prezado Lucas, socorra-me de novo!

    O membro do grupo do Facebook não desiste. Olha só esta: "Sobre Santo Agostinho, seus escritos provam muito mais o contrário do que você disse...Veja palavras dele:.....................................................................................

    "Já que vemos neles um grande auxílio de Deus e muito proveito e utilidade, duvidaremos de nos acolher no seio desta Igreja que, segundo a confissão do gênero humano, tem na Sé Apostólica [=Roma] e guardou, pela sucessão de seus bispos, a autoridade suprema, a despeito dos clamores dos hereges que a assediam e foram condenados, seja pelo juízo do povo, seja pelas solenes decisões dos concílios, ou pela majestade dos milagres? Não querer conferir-lhe o primeiro lugar é seguramente fruto de uma soberana impiedade ou de uma arrogância desesperada. E se toda ciência, ainda que a mais humilde e simples, exige, para ser adquirida, a ajuda de um doutor ou de um mestre, pode-se imaginar um orgulho mais temerário, tratando-se dos livros dos divinos mistérios, negar-se a recebê-los da boca de seus intérpretes e, sem os conhecer, querer condená-los?" (De utilit. credenci 17,35)..................................................................................................
    "Não é possível crer que guardais a fé católica se não ensinais que se deve guardar a fé romana" (Serm.120,13)..................................................................................................."Mesmo prescindindo da sincera e genuína sabedoria (...), que em vossa opinião não se encontra na Igreja Católica, muitas outras razões me mantêm em seu seio: o consentimento dos povos e das gentes; a autoridade, erigida com milagres, nutrida com a esperança, aumentada com a caridade, confirmada pela antigüidade; a sucessão dos bispos, a partir da própria sé do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor confiou, após a ressurreição, o apascentamento de suas ovelhas, até o episcopado atual; e, por fim, o próprio apelativo de 'católica', que não sem razão somente a Igreja alcançou (...) Estes vínculos do nome 'cristão' - tantos, tão grandes e dulcíssímos - mantêm o fiel no seio da Igreja Católica, apesar de que a verdade, por causa da torpeza de nossa mente e indignidade da nossa vida, ainda não se apresenta" (C. Ep. Man. 4,5)...PORTANTO, EIS NO QUE ACREDITAVA SANTO AGOSTINHO!" .......... Os católicos não desistem mesmo! Um abraço!

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    1. Olá novamente. É importante ter uma atitude cética toda vez que você vê uma citação católica, pois eles diversas vezes adulteram documentos, fazem interpolações e acréscimos que não estão no original, além de traduções tendenciosas. Por isso é muito importante você conferir na fonte antes de olhar para o texto em si. A segunda referência, por exemplo, diz ser do capítulo 13 do Sermão 120 de Agostinho, mas você pode ver neste link (em inglês) o Sermão 120 de Agostinho, ir para o capítulo 13 e você não achará nada dessa tal citação da "fé romana":

      http://books.google.com.br/books?id=jg7ZOUWnHeMC&pg=PA129&hl=pt-BR&source=gbs_toc_r&cad=4#v=onepage&q&f=false

      Ou eles erraram na referência, ou eles falsificaram citações mais uma vez. Sobre o primeiro texto, é muito interessante que a referência não está nem em português nem no inglês, mas no latim! Isso significa que o autor não buscou essa citação direto na fonte original (porque eu duvido que ele estivesse lendo no latim!), mas simplesmente pescou essa frase de algum site "apologético" católico, daqueles bem desconfiáveis. Pesquisando na internet, percebi que a única parte que era citada deste suposto livro de Agostinho é essa que você mostrou. Não há sequer um único lugar em toda a internet que mostre o livro todo, muito possivelmente porque ele sequer existe. Você pode ver no índice das obras de Agostinho no Church Fathers e não achará nada parecido:

      http://www.newadvent.org/fathers/

      Já a terceira referência é ambígua. Agostinho escreveu diversas obras sobre os maniqueístas, e ela não especifica qual é. Mesmo que a citação fosse real, ela não muda em nada as coisas, já que o termo "Igreja Católica" era apenas uma terminologia para "Igreja Universal" (católica=universal), ou seja, de toda a Igreja. Nada tinha a ver com a Igreja Católica Romana que existe hoje. Agostinho cria que Pedro tinha um primado de honra, razão pela qual ele destacou esse apóstolo diversas vezes, mas não há nada que indique que ele cria que Pedro exercia um primado jurisdicional, para que o bispo de Roma por sua vez também o exercesse.

      Há uma infinidade de provas patrísticas de que o bispo romano não era o primaz nos primeiros séculos, as citações estão em meu livro "A História não contada de Pedro", que você pode conferir aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2013/10/meu-novo-livro-historia-nao-contada-de.html

      Em resumo, toda vez que um católico copiar e colar textos pescados de algum lugar da internet, peça para ele mostrar a obra inteira. Se ele simplesmente pescou da internet, ele não será capaz de fazer isso, não poderá provar que tal citação é verdadeira, especialmente se foi tirada de sites católicos não-confiáveis. Se a citação for verdadeira, é preciso analisar com cuidado alguns termos que naquela época tinham um sentido completamente distinto do sentido atual, como "católica", "tradição", etc. Existem palavras que ganharam significados distintos com o passar do tempo, e os católicos, logicamente, se aproveitam delas como se os Pais tivessem o mesmo conceito que eles tem hoje. Sobre isso eu escrevi nestes dois artigos:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/search/label/Tradi%C3%A7%C3%A3o%20Apost%C3%B3lica

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2012/08/o-significado-de-igreja-catolica-nos.html

      Abraços!

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  4. "Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no evangelho que você crê, mas, sim, em si mesmo". Salve Maria
    Santo Agostinho

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    1. Concordo totalmente, inclusive é justamente por isso que eu não sou católico romano (e nem Agostinho). Só não sei o que o "Salve Maria" tem a ver com isso. Que perigo estaria correndo Maria para precisar ser salva, e o que eu posso fazer para ajudar?

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