29 de janeiro de 2014

Tiago ensinava a justificação pelas obras?



“Sabemos, contudo, que ninguém será justificado pela prática da lei, mas somente pela fé [εαν μη δια πιστις] em Jesus Cristo. Também nós cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justificação da fé em Cristo, e não pela prática da lei. Pois, pela prática da lei, nenhum homem será justificado” (Gálatas 2:16) 

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Antes da leitura deste artigo, recomendo a leitura destee desteartigo que trata sobre o mesmo tema.
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PAULO E TIAGO NÃO SE CONTRADIZEM SOBRE FÉ E OBRAS
(João Calvino)

Nossos adversários dizem que ainda nos resta enfrentar Tiago, o qual, segundo eles, nos contradiz em termos irrefutáveis. Pois ele ensina que não só “foi Abraão justificado pelas obras” [Tg 2.21], como também “nós todos somos justificados pelas obras, não pela fé somente” [Tg 2.24]. E então? Porventura arrastarão Paulo a um conflito com Tiago? Se a Tiago têm por ministro de Cristo, é preciso interpretar suas palavras de forma que não estejam em conflito com o que Cristo disse pelos lábios de Paulo. O Espírito declara pela boca de Paulo que pela fé, não pelas obras, Abraão alcançou a justiça [Rm 4.3; Gl 3.6]; por isso, nós também ensinamos que todos são justificados pela fé, sem o concurso das obras da lei. O mesmo Espírito ensina através de Tiago que não só a justiça de Abraão, mas também a nossa, se embasam nas obras, não somente na fé. Que certamente o Espírito não se põe em conflito consigo mesmo. Portanto, como conciliar os dois apóstolos?

Diferença na concepção de “fé”

Como naquele tempo havia muitos – mal que costuma ser perpétuo na Igreja – que punham abertamente à mostra sua infidelidade, negligenciando e deixando de lado todas as obras que são próprias dos fiéis, contudo, não cessavam de gloriar-se do falso nome de fé, Tiago aqui ridiculariza a estulta confiança de tais indivíduos. Portanto, ele não tem o propósito de, em qualquer aspecto, enfraquecer a força da verdadeira fé; ao contrário, seu propósito era mostrar quão insensatamente esses paroleiros se vangloriavam da mera aparência de fé; e, contentes com esta, se entregavam despreocupadamente a todo desbragamento de vícios.

Uma vez percebida esta condição, é fácil notar onde tropeçam nossos adversários. Ora, eles incidem em duplo paralogismo: um, na palavra fé; outro, no termo justificar. Que o apóstolo chame fé a uma opinião fútil, que nada tem a ver com a verdadeira fé, ele o faz à guisa de concessão, em nada denegrindo sua causa, o que demonstra desde o início com estas palavras: “Que proveito há, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, porém não tiver obras?”[Tg 2.14]. Ele não diz: “Se alguém tiver fé sem obras”; mas: “se alguém se vangloria de tê-la.” Pouco depois, ainda mais claramente, onde ironicamente a faz pior que o conhecimento diabólico [Tg 2.19], e finalmente onde a denomina de “morta” [Tg 2.20].

Mas da própria definição que apresenta haverás de depreender suficientemente o que ele queria dizer. “Tu crês”, diz ele, “que Deus existe” [Tg 2.19]. Obviamente, se nessa fé nada se contêm senão que se creia existir um Deus, não surpreende que a fé não justifique. E não é preciso pensar que isso tira algo à fé cristã, cuja natureza é bem distinta. Pois, de que modo a verdadeira fé justifica, senão quando nos une a Cristo, de sorte que, feitos um com ele, usufruímos da participação de sua justiça? Logo, ela não justifica por concebermos certo conhecimento da essência divina, mas por descansarmos na certeza da sua misericórdia.

Tiago e Paulo usam o termo justificação em acepções diversas: aquele reportando-se ao aspecto do testemunho da fé (penhor de justificação); este, ao aspecto da imputação (meio de justificação)

Ainda não teremos atingido a meta, a menos que discutamos também o outro paralogismo: se de fato Tiago põe uma parte da justificação nas obras. Caso queiras que Tiago concorde não apenas com as demais Escrituras, mas também consigo próprio, é necessário que tomes o termo justificar em outra acepção além da acepção de Paulo. Porquanto Paulo diz que somos justificados quando, obliterada a lembrança de nossa justiça pessoal, somos reputados por justos. Se Tiago tivesse olhado nessa direção, ele teria citado diversamente esta afirmação da parte de Moisés: “Abraão creu em Deus” etc. [Tg 2.23; Gn 15.6]; pois assim arrazoa: Abraão alcançou a justiça pelas obras, porque, ante a ordem de Deus, não hesitou em imolar o filho [Tg 2.21], e assim se cumpriu a Escritura que diz: “e Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça” [Tg 2.23].

Se é absurdo que o efeito seja anterior à sua causa, ou Moisés, nessa passagem, testifica falsamente que a fé foi imputada a Abraão para justiça, ou dessa obediência que exibiu em oferecendo a Isaque ele não mereceu a justiça. Antes que Ismael fosse concebido, que já era adolescente quando Isaque nasceu, Abraão fora justificado por sua fé. Como, pois, diremos que ele granjeara para si a justiça em virtude de uma obediência, quando esta veio depois? Daí, ou Tiago inverteu incorretamente a ordem, o que não é justo pensar, ou não quis dizer que ele foi justificado, como se merecesse ser considerado justo.

E então? Por certo, é evidente que ele está falando de declaração de justiça, contudo, não de sua imputação, como se quisesse dizer: Aqueles que são justos mercê de verdadeira fé, esses provam sua justiça através da obediência e das boas obras, não mediante um espectro desnudo e imaginário de fé. Em suma, Tiago não está discutindo de que maneira são justificados, mas está exigindo dos fiéis uma justiça que produza obras. E como Paulo declara que somos justificados sem o concurso das obras, assim aqui Tiago não admite que sejam tidos por justos os que não produzem boas obras.

A análise deste escopo nos desvencilhará de toda dificuldade, porque nossos adversários se enganam, sobretudo, ao crerem que Tiago determina o modo como os homens são justificados, quando outra coisa não busca senão demolir a fútil segurança daqueles que, para escusar a negligência das boas obras, se gloriam falsamente no título de . Portanto, de todos modos que torçam as palavras de Tiago, nada expressarão senão duas proposições: que um inútil simulacro de fé não justifica, e que o fiel, não contente com tal mistificação, declara sua justiça com boas obras. 

Por: João Calvino (Institutas, 3.17.11-12)


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2 comentários:

  1. Bom dia, Lucas!

    Me ajude a entender estas críticas:

    http://www.eismeaqui.com.br/estudos-biblicos/13057-o-falso-evangelho-de-paul-washer

    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nunca vi tanta picaretagem com o evangelho e tanta distorção grotesca do significado reformado e bíblico de "Sola Fide" quanto neste artigo calunioso contra o grande Paul Washer. Eu não consegui ler até o final, é de embrulhar o estômago ler gente defendendo descaradamente que pode viver no pecado à vontade que será salvo do mesmo jeito apenas se tiver uma crença intelectual em Jesus. Dá vontade de vomitar. Uma criatura dessas nunca leu a Bíblia, nunca leu confissões de fé das igrejas reformadas, nunca leu Lutero ou Calvino, nunca leu porcaria nenhuma e sai por aí distorcendo criminosamente o que é a justificação pela fé. É por culpa de picaretas como esse que os católicos acusam os evangélicos de ensinar que pode pecar a vontade que a pessoa vai ser salva sem obras.

      A doutrina da justificação pela fé NUNCA teve a ver com aceitar que uma pessoa será salva vivendo no pecado. Uma pessoa que realmente tem fé genuína e salvífica em Cristo irá NECESSARIAMENTE produzir boas obras, ou seja, ela irá abandonar a prática do pecado e dar frutos, se não der frutos é porque nunca se arrependeu de verdade e portanto nunca foi salvo, apenas teve uma fé morta, fingida, falsa. Foi a cretinos como esse autor do artigo que Tiago teve que escrever:

      "De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: "Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se", sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. Mas alguém dirá: "Você tem fé; eu tenho obras". Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem — e tremem!" (Tiago 2:14-19)

      Há mais um caminhão de passagens que dizem que se uma pessoa não se arrepender e se não parar de viver no pecado não poderá ser salva. Sinceramente, se eu fosse pegar aqui cada texto que diz isso eu ficaria a semana inteira transcrevendo aqui, então vai só esse por enquanto:

      "Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão" (Romanos 8:13)

      Abs!

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