25 de janeiro de 2015

Pede à mãe que o filho atende?


Imagine que você tenha um amigo que precise ouvir uma mensagem importante que você tem a lhe dizer. O que você faz? Telefona diretamente para ele? Não. Você liga para a mãe dele, e pede para que ela lhe dê o recado. É claro que é assim que você age em seu cotidiano. Pelo menos se você for católico, deveria agir assim. Quem não age assim e prefere ter a petulância de ligar direto para o amigo para quem você quer transmitir a mensagem são aqueles “protestantes”, os “filhos da serpente”, que seguem o “rebelado Lutero”. As pessoas inteligentes, logicamente, ligam para a mãe, para que ela dê o recado ao filho. Não ligam para o filho. Nem ouse fazer algo assim!

Mas imagine que o seu telefone não esteja funcionando, e que você more a apenas algumas ruas deste seu amigo, e decida ir a pé até a casa dele para lhe dar esta importante notícia. Você chega ao portão da casa dele, bate palmas, e um homem atende: é o seu amigo. Você então lhe diz: “Chame a sua mãe para mim”. “Para que?”, questiona ele. “Para que ela dê uma mensagem a você”, você responde. Este seu amigo fica perplexo, sem entender nada. No início ele pensa que você está apenas brincando, fazendo uma piada, mas depois começa a perceber que você está falando sério, e entende que você está tendo sérios problemas psiquiátricos.

Enquanto ele liga para um psiquiatra, a mãe dele chega e te atende.

Você – Dê esse recado ao seu filho, por favor.

Ela – Ele está aqui. Por que você não fala com ele?

Você – Eu não quero falar direto com ele. Eu quero falar com você, para que você passe essa mensagem a ele.

Ela – Mas por quê? Você brigou com ele? Ele te fez algum mal?

Você – Não, senhora [sem trocadinhos]. Eu gosto muito dele, na verdade eu até o adoro, mas não gosto de falar direto com ele, não. Eu acho mais eficiente falar com você, para que então você transmita esta mensagem a ele. Pode ser assim?

Ela – Tem certeza que você está passando bem?

Você – Espere um momento. Se eu me prostrar diante de você, rezar dez vezes o terço e vinte e sete vezes o rosário, pagar minhas promessas, subir de joelhos as escadarias do senhor do Bonfim, levar uma imagem sua em procissão e te servir para sempre, será que assim você pode transmitir essa mensagem a ele?

Ela – É, você não está bem. Quer que eu chame um médico?

Neste exato momento chega um homem com uma camisa de força, o seu amigo volta e lhe diz:

Ele– Meu amigo, você tem livre acesso a mim. Entendeu? Livre acesso (Ef.3:12)! Você pode se sentir seguro e confiante em falar diretamente comigo (Hb.4:16). Não precisa de intermediários (Jo.14:6). Não existe outro mediador (1Tm.2:5)! Eu sofri exatamente para lhe dar essa oportunidade, de ser um comigo (Jo.17:21). Você é meu amigo (Jo.15:15)! Entende o que é isso? Um amigo! Eu sou o único caminho (Jo.14:6)! Entendeu? O único! Se você está cansado ou sobrecarregado, venha a mim, e eu lhe darei descanso (Mt.11:28)! Aquele que tem sede, venha a mim e beba da água da vida (Ap.22:17)! Aquele que me buscar, me encontrará (Jr.29:13)! Todo aquele que me pede, de mim recebe; todo aquele que bate a minha porta, eu abro (Mt.7:8)! Você pode chegar a mim com confiança, que alcançará misericórdia e graça (Hb.4:16)! Tudo o que você pedir em meu nome, eu lhe darei (Jo.14:13)!

Você – Não, não, obrigado. Chame a sua mãe.

***

Toda a doutrina católica sumariada no jargão tosco de “pede à mãe que o filho atende” é baseada em duas premissas fundamentais. A primeira delas é a sugestão implícita de que, se pedir ao filho, o filho não atende. Tem que pedir à mãe para que o filho atenda. Algo ilógico, irracional, estúpido e completamente antibíblico, que só pode ser aceito por uma fé cega em homens. A segunda premissa implícita é a de Jesus visto como um filho indefeso e subordinado à Maria. Os católicos, mesmo que algumas vezes subconscientemente, tem uma mentalidade na qual Jesus é visto como um eterno e indefeso bebê segurado pelos braços de Maria.

No catolicismo, a submissão é de Jesus à Maria, e não o contrário. Jesus é o filho submisso de Maria, que é quem realmente “manda” na casa. É por isso que eles insistem que devemos pedir à mãe, porque eles vêem Jesus no Céu como um bebezinho preso em uma manjedoura, totalmente carente e dependente da mãe. Eles não vêem Jesus como ele realmente é, com todo o poder e glória que ele tem. Eles têm a imagem da terra, e não a imagem do Céu. Paulo, contudo, já se antecipava em dizer:

“De modo que, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista humano. Ainda que antes tenhamos considerado a Cristo dessa forma, agora já não o consideramos assim(2ª Coríntios 5:16)

O Jesus do catolicismo não cresceu. Nunca saiu da manjedoura. Ainda precisa de Maria para tudo, ainda é uma criança indefesa, ainda é dependente dos seus pais, ainda é submisso à Maria, ainda precisa que as outras pessoas falem com ela primeiro, para depois o comunicado chegar aos seus ouvidos. No catolicismo romano, Maria ainda cuida do menino Jesus. Ele já ressuscitou em glória há dois mil anos, mas os católicos ainda têm a imagem do homem terreno, não do celestial. O Jesus do catolicismo ainda não morreu, e muito menos ressuscitou. Ele simplesmente não saiu da manjedoura.

***

Há outras duas falhas cruciais no pensamento católico. A primeira delas é ignorar que nós temos livre acesso a Jesus, e que, portanto, não temos e nem precisamos de outros mediadores entre nós e Cristo:

Efésios 3:11-12 “De acordo com o seu eterno plano que ele realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor, por intermédio de quem temos livre acesso a Deus em confiança, pela fé nele

João 14:6 – “Respondeu Jesus: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim’”

Hebreus 4:14-16 – “Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade”

1ª Timóteo 2:5 – “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus”

João 14:13 – “E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei”

Mateus 11:28 – “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”

O segundo grande problema do pensamento católico é desconsiderar o que a Bíblia nos diz sobre o estado atual dos mortos. Imagine que você liga para a mãe do seu amigo querendo falar com o seu amigo, mas ela não atende. Então você decide ter a brilhante ideia de ligar direto para o seu amigo para falar com ele diretamente. Ele atende, e diz que a sua mãe não estava em casa no momento, só ele. O que você faria? Esperaria até ela chegar ou pediria diretamente a ele?

É exatamente isso o que a Bíblia nos diz sobre o estado atual dos mortos. Eles não ressuscitaram ainda para que possam estar na presença de Deus. Os mortos não são “mortos-vivos”, vagando em algum lugar do Universo em forma incorpórea ao maior estilo fantasminha camarada. Ao contrário: os mortos estão somente... mortos. Sem vida. Sem existência. Sem consciência. Voltando à analogia, eles ainda não estão na casa. Jesus disse que “na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes um lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver(Jo.14:2-3). É somente na volta de Jesus, concomitantemente ao momento da ressurreição, que ocuparemos estas moradas. Não antes. O que a Bíblia nos diz sobre o estado atual dos mortos é tão claro e evidente que dispensa maiores comentários:

Eclesiastes 9:5-6 – “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento. Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol”

Eclesiastes 9:10 – “Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria

Salmos 146:4 – “Sai-lhe o espírito, volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos

Salmos 115:17 – “Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silêncio”

Salmos 6:5 – “Pois na morte não há lembrança de ti; no Sheol quem te louvará?”

Isaías 38:19 – “Os vivos, e somente os vivos, te louvam, como hoje estou fazendo”

Atos 2:34 – “Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita’”

Lucas 14:13-14 – “Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos

1ª Coríntios 15:29-32 – “Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por eles? Também nós, por que estamos nos expondo a perigos o tempo todo?Todos os dias enfrento a morte, irmãos; isso digo pelo orgulho que tenho de vocês em Cristo Jesus, nosso Senhor. Se foi por meras razões humanas que lutei com feras em Éfeso, que ganhei com isso? Se os mortos não ressuscitam, 'comamos e bebamos, porque amanhã morreremos'"

(Junte isso às mais de 59 passagens bíblicas que falam explicitamente da morte da alma, às 206 provas bíblicas contra a imortalidade da alma, aos 152 versículos bíblicos em favor do aniquilacionismo e a todo o arsenal presente nas mais de 800 páginas do meu livro "A Lenda da Imortalidade da Alma" e seu complemento "A Verdade sobre o Inferno")

Se já é sandice o simples fato de falar com a mãe de alguém para enviar uma mensagem que poderia ser perfeitamente bem entregue diretamente a este alguém ao invés de ter de passar pela mãe, imagine se a mãe não está em casa, mas somente o filho. Acho que você teria uma outra boa razão para entregar esta mensagem ao filho. Diretamente. Com confiança. Sem medo, porque “o amor expulsa o medo” (1Jo.4:18), e “Deus é amor” (1Jo.4:16). Isso pode parecer chocante para algum romanista mariólatra, mas saiba que Deus te ama mais do que Maria ou qualquer outra pessoa da face da terra possa te amar.

Maria é uma santa que jamais aceitaria toda a adoração e glorificação que hoje é feita a ela. Quando o anjo a exaltou, a própria Maria se humilhou: “meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na baixeza de sua serva” (Lc.1:47-48). Maria reconheceu que necessitava de um Salvador assim como todos os demais seres humanos pecadores, e se humilhou diante dEle. Hoje, os católicos fazem o inverso: a engrandecem e a glorificam a tal ponto que Jesus é dispensado e posto de lado para que Maria seja colocada como prioridade no recebimento das orações.

Jesus não é mais um bebê em uma manjedoura. Jesus é o Senhor e Salvador da própria Maria. Jesus é aquele a quem a própria Maria, assim como todos os demais santos e servos do Deus vivo, deve submissão, honra e adoração. Não é Maria quem está batendo hoje às portas de cada coração procurando alguém que a receba. É Jesus quem diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”(Ap.3:20). Maria descansa o sono da morte com todos os demais santos, esperando aquele glorioso dia da ressurreição, onde junto conosco entrará naquela casa, naquelas moradas que nos esperam. Enquanto isso, peça ao filho, que o filho atende.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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9 comentários:

  1. Lucaaaas! Seus artigos são como um: STRIKE! (boliche) nos pinos do catolicismo hauah

    Carambaa! Quão doentio pareceu a “mariolatria” com aquela dialogo que você escreveu ali em cima! Eu não sabia se eu ria :') ou se eu chorava! :'(

    E no caso a “mãe” não está em casa... rs E Deus/Jesus nos ama mais do que qualquer um, com toda a certeza!

    Outro dia eu li sobre “Nosso Senhor dos Passos” fiquei chocada, eles idolatram e personificam a “procissão”? (criam uma imagem p/ cada)
    Engraçado é ver um Padre (Paulo R.) dizendo que a idolatria protestante leva ao ateísmo, tudo bem :D Mas, E a idolatria católica? Leva à que? Paganismo?
    Você adora todos, menos quem deveria.

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    1. Pois é, Lilian. E pensar que o apóstolo Paulo escreveu precisamente sobre isso:

      "O zelo que tenho por vocês é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura. O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo" (2 Coríntios 11:2-3)

      Infelizmente, o "receio" de Paulo se consumou de forma assustadora nos ambientes romanos...

      Falando em levar pessoas ao ateísmo, o Pe. Paulo Ricardo, se disse isso, só pode estar sendo mesmo desonesto ou brincalhão. Não houve nada que levasse tanta gente ao ateísmo e ao mundo secular do que o catolicismo romano. Pergunte a um ateu por que ele não é religioso, e ele vai responder prontamente que é por causa de coisas como a Inquisição, a Cruzada, a pedofilia dos padres, todas coisas católicas. Há erros nas igrejas evangélicas também, especialmente na ala neopentecostal, mas não chega nem perto de todos os crimes que a Igreja Romana já cometeu. Isso eu falo por experiência, por debater com ateus e escrever sobre o ateísmo também. Os ateus teriam muito menos razões para serem ateus se não fosse pela existência do catolicismo, que envergonha e macula a religião cristã. E para isso não é nem necessário ir tão longe: basta ver como que os católicos vivem no país mais católico do mundo. Outro dia li uma estatística que dizia que 80% dos católicos não eram praticantes. A religião católica está de mãos dadas com o secularismo. 80% dos católicos sequer pensam como católicos. Outro dia estava conversando com um amigo meu que se diz "católico" mas não sabia se cria em Deus.

      Este é o perfil do "católico" moderno: um católico secularizado, de mãos dadas com o mundo, não-praticante da fé que professa, porque o catolicismo é uma fé tão morta e fria espiritualmente que liga o ser humano quase que irremediavelmente ao secularismo, levando milhões e milhões a militar do lado de lá. Os poucos que sobram são velhinhas de 80 anos que aparecem aos montões nas missas transmitidas na TV, e mais um punhado de militantes extremistas estilo Macabeus que voltaria com a Inquisição para matar protestantes neste país se ainda tivessem este poder. É uma religião sem mais nenhuma força política (se não fosse pela Frente Parlamentar Evangélica o conservadorismo já estaria aniquilado há muito tempo neste país), que chega mancando ao século XXI e que precisa se transfigurar em formas diferentes (ex: renovação carismática) para continuar sobrevivendo.

      Que o padre Paulo não volte mais a ligar protestantismo com ateísmo. Se voltar, tenho muito mais coisas a dizer.

      Abraços.

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    2. O que dizere ntão de pessoas que se tornaram descrentes em Deus por causa da dita cuja eucarístia católica...

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    3. Hoje eu li 2 Coríntios 11:2-3!
      Tudo o que você falou é verdade, concordo plenamente. O catolicismo é como se fosse “a denominação verdadeira do cristianismo” para as pessoas. Eu já cansei de ver pessoas, ateus ou praticantes de outras religiões (místicas) dizendo que o cristianismo não pode ser a religião de Deus porque matou milhões ou dizendo que Jesus é um plágio do Deus sol, [o que no caso acontece na igreja católica, mas o cristianismo não começou com ela. Graças a Deus!
      Que Deus o Senhor te abençoe e continue lhe dando sabedoria em nome de Jesus!
      Abraços.

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  2. Lucas poderia escrever um artigo sobre Lucas 2:21-24 e Levítico 12?

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    1. Olá. Eu escrevi brevemente sobre este texto aqui:

      http://ocristianismoemfoco.blogspot.com.br/2014/07/comentarios-de-lucas-2.html

      Ainda pretendo escrever um artigo tratando exclusivamente da imaculada conceição de Maria, onde abordarei este texto em conjunto com outros textos.

      Abraços!

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  3. Eu sei que isso não tem nada a ver com esse assunto. Mas tem algum pai da igreja que aponto o Aniquilacionismo? Se poder, pode citar o trecho que aponta isso.

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    1. Olá, Keoma, me desculpe pela demora em respondê-lo.

      Você pode ver Agostinho dizendo em sua obra "Enchiridion" que MUITÍSSIMOS cristãos da sua época não criam no tormento eterno:

      "Existem MUITÍSSIMOS que apesar de não negarem as Santas Escrituras não acreditam em tormentos eternos”

      Você pode ver a referência aqui:

      http://www.newadvent.org/fathers/1302.htm

      A palavra “muitíssimos”, no original, é imo quam plurimi, que também pode ser traduzida como “maioria”. Portanto, Agostinho reconhece que em seus dias a maioria dos cristãos, ou pelo menos uma grande parte, não cria em um tormento eterno. Agostinho escreveu isso no início do século V, o que significa que por pelo menos quatro séculos inteiros a Igreja majoritariamente creu no aniquilacionismo (ainda que o próprio Agostinho em si fosse defensor da tese do tormento eterno, o que muito contribuiu para que esta acabasse sendo a "posição oficial" da Igreja dos séculos seguintes). Você pode ver que no século IV a situação era a mesma, pois Básilio Magno disse que "GRANDE PARTE dos homens afirma que haverá um fim à punição daqueles que foram punidos" (De Asceticis). "Grande parte", "muitíssimos"... veja que naquela época até mesmo os imortalistas reconheciam que a posição aniquilacionista era majoritária.

      Um dos cristãos que foi mais enfático na defesa do aniquilacionismo foi Hermas, que escreveu a obra "O Pastor", que ficou muito famosa na Igreja no final do século I. Lá ele diz:

      "Então ele me perguntou: 'Vês esse pastor?' Eu respondi: 'Vejo, senhor'. Ele continuou: 'É o anjo da volúpia e do erro. Ele ANIQUILA as almas dos servos de Deus que são vazios, desviando-os da verdade e enganando-os com maus desejos, nos quais eles morrem'" (62:1)

      "Entretanto, naquele mundo, os pagãos e os pecadores, as árvores secas que viste, serão encontrados secos e MORTOS, e serão queimados, COMO MADEIRA MORTA, patenteando-se assim que durante a vida deles sua conduta foi má" (53:4)

      "Para eles não há mais penitência para a vida, porque, além de tudo, blasfemaram contra o nome do Senhor. Para eles, portanto, RESTA APENAS A MORTE" (62:3)

      "Todos os que dentre eles fizeram penitência, têm sua morada na torre. Aqueles, porém, que se arrependerem demasiadamente tarde, habitarão nos muros; aqueles que não fizerem penitência, persistindo em suas ações, CERTAMENTE MORRERÃO" (73:3)

      "Se aquele que deve praticar o bem, pratica o mal, não te parece que comete erro maior do que aquele que não conhece a Deus? Por isso, aqueles que não conhecem a Deus e praticam o mal, são CONDENADOS A MORTE. Mas os que conhecem a Deus, que viram sua grandeza, e ainda praticam o mal, serão duplamente castigados, e MORRERÃO PARA SEMPRE. É desse modo que a Igreja de Deus será purificada" (95:2)

      "Todo aquele que se comportar conforme esses mandamentos, VIVERÁ, e será feliz em sua vida. Por outro lado, quem os deixar à margem, NÃO VIVERÁ, e será infeliz em sua vida" (114:1)

      (...)

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    2. É digno de nota que em toda a obra não há sequer uma única menção ao suposto “tormento eterno” dos não-salvos. Ao contrário, o que vemos é que o castigo é por TEMPO PROPORCIONAL às más obras de cada um:

      “Eu lhe disse: ‘Senhor, explica-me ainda esse ponto.” Ele perguntou: “O que procuras ainda?’ Eu continuei: ‘Senhor, os voluptuosos e transviados são atormentados por tanto tempo quanto aquele em que foram voluptuosos e transviados?’ Ele respondeu: ‘São atormentados durante tempo igual’. Observei: ‘Senhor, são atormentados por pouquíssimo tempo. Com efeito, seria preciso que as pessoas que vivem assim na volúpia e se esquecem de Deus, fossem torturadas por tempo sete vezes maior’. Ele me disse: ‘Insensato! Não conheces a força do tormento’. Eu respondi: ‘Senhor, se eu conhecesse, não pediria explicação’. Ele continuou: ‘Escuta qual é a força de uma e outra coisa. O tempo da volúpia e do engano é de uma hora; mas uma hora de tormento tem a força de trinta dias. Passando um dia na volúpia e no engano, e um dia nos tormentos, esse dia de tormento vale por um ano inteiro. A pessoa é atormentada por tantos anos quantos dias passou na volúpia. Vês, portanto, que o tempo da volúpia e do engano é mínimo, mas o do castigo e do tormento é longo’” (64:1-4)

      Depois desta passagem só alguém que seja mesmo muito desonesto poderá concluir que Hermas cria no “tormento eterno”. Ele claramente cria em tempos proporcionais e finitos de tormento, uns de uma hora, outros alguns dias, outros um ano, e assim por diante, dependendo do pecado de cada um. E o fim de todos os ímpios era a morte, a destruição eterna, como ele sempre ressaltava.

      Há vários outros Pais que não criam na imortalidade da alma e que, portanto, com toda a probabilidade do mundo também não criam no tormento eterno, já que o tormento eterno é uma conseqüência e um pressuposto que parte da crença numa alma imortal. Entre os Pais que descriam na imortalidade da alma posso citar Inácio, Policarpo, Justino, Clemente de Roma, Teófilo, Taciano e Arnóbio. Você pode ver todas as citações neste artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2012/12/os-pais-da-igreja-criam-na-imortalidade.html

      Grande abraço.

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