15 de abril de 2013

Santo Agostinho e o livre exame



Diante de tamanhas provas de que Agostinho de Hipona cria que era Cristo ou a confissão de Pedro em Cristo a pedra de Mateus 16:18, como você pode conferir clicando aqui, os católicos arrumaram uma surpreendente explicação, toda ela baseada na declaração de Agostinho, ao dizer que "o leitor decida qual dessas interpretações é aquela que lhe parece a mais provável" (Sermão 295). Então, eles afirmam que Agostinho não sabia ou não estava certo sobre qual é a melhor interpretação ao texto bíblico, de modo que “jogou para o público” essa decisão, e isso seria uma “refutação” aos textos protestantes sobre isso.

Um destes sites católicos dos mais desprestigiosos que sustentou tal posição alegou isso:

Note bem o que escreveu o santo: escolha o leitor – das duas interpretações – a que parecer mais provável! Ou seja: Santo Agostinho reconhece sua incapacidade em interpretar uma passagem bíblica, e propõe a seus leitores que escolham a que lhes pareça mais provável!”

Mas será realmente verdade que Agostinho era um ser incapaz de interpretar uma passagem como a de Mateus 16:18, ao ponto de dizer para o leitor, muito menos culto que o próprio Agostinho, que decidisse qual era o mais provável? Temos muitas razões para crer que não. Em primeiro lugar, porque se Agostinho se reconhecesse incapaz de interpretar o texto bíblico, como afirma o católico, ele não teria dedicado tanto tempo argumentando a favor da tese de que a pedra de Mateus 16:18 não era Pedro. Vejamos algumas dessas citações:

“Mas eu sei que em seguida expus, muito frequentemente, as palavras de Nosso Senhor: ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja’, da forma seguinte: que a Igreja seria edificada sobre Aquele que Pedro confessou, dizendo: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo’. Assim Pedro (Petrus) que teria tomado o seu nome desta pedra (Petra), simbolizaria a Igreja que é construída sobre esta pedra e que recebeu as chaves do Reino dos Céus. Com efeito, não lhe foi dito: Tu és a pedra (Petra), mas: Tu és Pedro (Petrus), pois a Pedra (Petra) era o próprio Filho de Deus, Cristo. Simão Pedro, ao confessar Cristo como a Igreja inteira O confessa, foi chamado Petrus (Pedro)”(Retractações, cap. 21)

“E eu te digo…’Tu és Pedro, Rochoso, e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. O que ligares na terra será ligado também nos céus; o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mateus 16:15-19). Em Pedro, Rochoso, nós vemos nossa atenção atraída para a pedra. Agora, o apóstolo Paulo diz sobre o povo, ‘Eles bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo' (1 Coríntios 10:4). Assim, este discípulo é chamado Rochoso à partir da pedra, como cristão à partir de Cristo. Por que eu quis fazer esta pequena introdução? Para te sugerir que em Pedro a Igreja é para ser reconhecida.Cristo, você vê, construiu sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? ‘Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo'. Lá está a pedra para você, lá está a fundação, lá está onde a Igreja tem sido construída, sobre a qual as portas do inferno não podem prevalecer (The Works of Saint Augustine Sermons, Vol. 6, Sermon 229P.1, p. 327)

“Mas quem dizeis eles que sou? Pedro respondeu, ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. Um de muitos deu a resposta, Unidade em muitos. Então disse-lhe o Senhor, ‘Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas: porque não foi carne e sangue que to revelou, mas Meu Pai, que está nos céus'. Então Ele adicionou, ‘e eu te digo'. Como se Ele tivesse dito, ‘Porque tu tens dito sobre Mim, “Tu és o Cristo o Filho do Deus vivo”; ‘Eu também te digo, “Tu és Pedro”. ‘Porque antes ele era chamado Simão. Agora este nome de Pedro foi lhe dado pelo Senhor, e em uma figura, que ele significaria a Igreja. Porque, visto que Cristo é a pedra (Petra), Pedro é o povo cristão. Porque a pedra (Petra) é o nome original. Então Pedro é assim chamado de pedra; não a pedra de Pedro, como Cristo não é chamado Cristo à partir dos cristãos, mas os Cristãos à partir de Cristo. ‘Então', ele diz, ‘Tu és Pedro, e sobre esta Pedra', que tu tens confessado, sobre esta pedra que tu tens reconhecido, dizendo, ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, ‘eu edificarei Minha Igreja'; isto é, sobre Mim mesmo, o Filho do Deus vivo, ‘eu edificarei Minha Igreja'. Eu a edificarei sobre Mim mesmo, não Eu sobre ela (St. Augustin, Sermon XXVI)

“Porque a Pedra (Petra) era Cristo; e sobre este fundamento foi o próprio Pedro edificado. Porque outro fundamento não pode ser lançado além do qual já está posto, que é Cristo Jesus (1Co.3:11)”(Volume VII, St. Augustin, Tractate 124.5)

“Porque, ‘Tu és Pedro (Petrus)' e não ‘Tu és a pedra (Petra)' foi dito a ele. Mas ‘a pedra (Petra) era Cristo', em quem confessando, como também toda a Igreja confessa, Simão foi chamado Pedro” (Saint Augustine, The Retractations Capítulo 20.1)

“Porque os homens que desejavam edificar sobre homens, diziam, ‘Eu sou de Paulo; e eu de Apolos; e eu de Cefas', que era Pedro. Mas outros que não desejavam edificar sobre Pedro, mas sobre a Pedra, diziam, ‘Mas eu sou de Cristo'. E quando o Apóstolo Paulo averiguou que ele foi escolhido, e Cristo desprezado, ele disse, ‘Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?' E, como não no nome de Paulo, assim nem também no nome de Pedro; mas no nome de Cristo: que Pedro deveria ser edificado sobre a Pedra, não a Pedra sobre Pedro(St. Augustin, Sermon XXVI.1-4, pp. 340-341)

Agora é só raciocinar:

Se o grande bispo e doutor da Igreja, Agostinho de Hipona, se reconhecesse incapaz de interpretar este texto bíblico, por que raios ele interpretou este texto bíblico por tantas vezes? Por que ele se utilizou de diversas passagens bíblicas, como 1ª Coríntios 1:12, 1ª Coríntios 10:4 e 1ª Coríntios 3:11 para sustentar a sua opinião, se ele era um incapaz de analisar o texto? Por que ele fez amplo uso da exegese para sustentar a sua posição? Por que ele usou o grego e a diferença entre petrus petra, se ele não sabia do que estava falando? Por que ele escreveu tantas vezes sobre um assunto do qual não sabia? Por que ele emitiu uma opinião formada em todos estes textos, se era incapaz de interpretá-lo?

A resposta é óbvia: a razão pela qual Agostinho disse para o leitor analisar qual posição é a mais plausível é em razão do livre exame que cada leitor possui, e não pelo próprio Agostinho ser incapaz de analisar tal passagem. Note que, antes mesmo do bispo de Hipona afirmar esta frase tão usada pelos católicos, ele estava argumentando extensivamente sobre a sua tese de que Cristo, e não Pedro, era a pedra em questão, em Mateus 16:18. Portanto, o que o santo e doutor da Igreja disse se assemelha muito mais com o que eu ou outras pessoas dizem ao terminar um texto sustentando alguma argumentação e, no final, diz para o próprio leitor decidir qual das duas partes está com a razão.

Se eu refuto o Fakenando Nascimento e no final da minha refutação digo ao leitor para analisar ambos os argumentos e decidir por conta própria quem está com a razão, isso não significa que eu sou incapaz de decidir por mim mesmo se as minhas próprias argumentações estão certas ou erradas, significa apenas que eu estou respeitando o princípio do livre arbítrio e da livre interpretação de cada leitor em poder analisar por si mesmo as duas argumentações (a minha e a dele) e decidir sabiamente qual é a mais plausível. Isso foi o mesmo que Agostinho fez: sustentou a sua própria argumentação firme do início ao fim, e depois respeitou o princípio do livre exame a fim de que o leitor tirasse as suas próprias conclusões, se as argumentações de Agostinho eram plausíveis ou não.

Curiosamente, essa passagem se volta contra eles mesmos, uma vez sendo que ela expressa o livre exame adotado por Agostinho e pela Igreja da época, que é exatamente como creem os evangélicos. O livre exame é a crença de que o leitor tem o direito de examinar e interpretar a Bíblia sem estar condicionado a crer de uma forma imposta por alguma Igreja. Os católicos negam o livre exame, pois eles estão proibidos de interpretarem a Bíblia, tendo somente que aceitar aquilo que a Igreja deles crê em seu catecismo. Se Agostinho fosse católico romano, ele não teria dito para o leitor escolher a interpretação que achar melhor; ao contrário, teria dito que a posição oficial da Igreja é a que Pedro é a pedra e ponto final.

Mas como Agostinho não era católico-romano, ele pôde se expressar favoravelmente à interpretação de que a pedra era Cristo, e mesmo assim dizer ao leitor para escolher qual é a tese mais provável, porque a Igreja da época adotava o livre exame dando liberdade aos leitores na interpretação. Ou seja, ele tinha uma opinião formada, que era a de que a pedra era Cristo e não Pedro, e mesmo assim dizia para o leitor escolher a mais provável, respeitando o princípio do livre exame das Escrituras.

Portanto, aqui os católicos dão um duplo tiro no pé, porque provam não apenas que Agostinho cria que Cristo era a pedra de Mateus 16:18, como também que ele adotava o livre exame que é rejeitado com veemência pelos católicos atuais.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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3 comentários:

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