3 de agosto de 2015

Os Pais da Igreja contra a confissão auricular



Introdução

Decidi traduzir um trecho de um excelente livro antigo chamado “A las fuentes del Cristianismo” (originalmente em espanhol), escrito por Samuel Vila, que converteu muitos católicos no século passado ao Cristianismo genuíno, levando-os a reconhecer Jesus Cristo como salvador único e suficiente de suas vidas. A parte que eu decidi traduzir é sobre a confissão auricular. Além do que está aqui traduzido, ele escreveu mais coisas sobre o mesmo tema, que eu decidi deixar de fora para que o artigo não ficasse demasiadamente extenso. Se você quiser ler o conteúdo integral, basta clicar aqui e ler. Ano passado eu escrevi um artigo sobre o tema, que você pode ler clicando aqui. Este artigo é importante para servir de base para o que será dito em seguida.


Pedro e Simão Mago

Uma prova inegável de que assim entenderam os próprios apóstolos é o caso de Pedro com Simão Mago. Quando este se mostrou arrependido diante da repreensão do grande apóstolo, este lhe disse:

“Arrependa-se dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele lhe perdoe tal pensamento do seu coração” (Atos 8:22)

Essa sem dúvida é uma clara negação de que o apóstolo se considerava autorizado a exercer o poder das chaves, como a Igreja Católica atribui a ele. Pedro, melhor do que ninguém, podia entender o verdadeiro significado das palavras de Cristo: “A quem reter os pecados, serão retidos” (Jo.20:23), mas sua atitude demonstra que ele não as compreendia senão do modo que acabamos de explicar, ou seja, em nossa forma cristã evangélica.

Mas então – dizem os católicos – por que encontramos nos escritos patrísticos tantas declarações atribuindo aos ministros religiosos a autoridade de perdoar pecados? Mas nós perguntamos: a que classe de perdão se referiam? Vejamos.


O Perdão Eclesiástico

No Novo Testamento temos um interessante exemplo de perdão eclesiástico (que não tem nada a ver com o perdão divino para a salvação da alma), mas nem mesmo este perdão legal é concedido por uma pessoa, e sim por uma comunidade de crentes. Um membro da igreja de Corinto havia caído em pecado, e os cristãos da referida igreja, reunidos em uma sessão especial, o declaram indigno de participar da comunhão e o separam da Igreja. O pecador reconhece sua falta, e o apóstolo recomenda benignidade para com o arrependido, dizendo:

“Àquele que vocês perdoaram, eu também perdôo” (2ª Coríntios 2:10)

Estas palavras “àquele que vocês perdoaram” nos indicam, clara a evidentemente, que a autoridade de conceder o perdão não era um atributo de nenhum indivíduo em particular, mas sim de uma assembleia de crentes. Nem o apóstolo, nem nenhum outro membro da igreja de Corinto, atribuiu a si próprio neste caso uma autoridade pessoal de perdoar, mas foi a Igreja em conjunto que pronunciou a sentença e declarou outra vez que o irmão arrependido era digno da comunhão.

É inegável que, à medida que se consolidou a hierarquia eclesiástica nas igrejas primitivas, se deu mais importância ao perdão eclesiástico, o qual era dado publicamente pelo bispo, em nome da Igreja, aos excomungados por qualquer motivo; e aos «lapsi» que haviam negado a fé durante as perseguições. As palavras de Cristo: “Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu” (Mt.18:18) eram citadas frequentemente com referência ao perdão público concedido aos bispos.

Jerônimo (347-420) descreveu o modo como era dada a absolvição em seu tempo. E por esta declaração, que copiamos precisamente do opúsculo Ego te absolvo, publicado por nossos opositores, o leitor poderá ter perfeitamente em conta de que se trata de algo muito diferente da confissão auricular dos nossos tempos. Ele disse:

“O sacerdote impõe a mão no sujeito, invoca a volta do Espírito Santo (a volta do Espírito Santo à alma é sinal de justificação), e assim, havendo-se ordenando fazer uma oração ao povo (se fazia rogar ao povo cristão pelos penitentes), reconcilia com o altar, para que o espírito seja salvo àquele que havia sido entregue a Satanás para a morte da carne”

Estudamos cuidadosamente as declarações citadas por nossos oponentes, de Gregório Magno (540-604), Leão Magno (400-461), Cirilo de Alexandria (375-444), Agostinho (354-430) e Crisóstomo (347-407), mas todas elas, como a de Jerônimo que acabamos de conferir, se referem à confissão pública dos membros disciplinados, alguns deles penitentes voluntários por graves pecados, os quais se submetiam de bom grado às cerimônias de disciplina eclesiástica e conseguinte reconciliação diante de toda a assembleia de fieis, pensando ganhar deste modo o perdão e favor divino.

Nenhuma destas declarações mencionadas tem nada a ver com a confissão auricular moderna feita ao sacerdote. Lamentavelmente não temos espaço para copiar todas com a extensão conveniente, pois elas seriam a melhor evidência para qualquer leitor criterioso de que não existia confissão auricular nas igrejas primitivas, senão um sistema de disciplina eclesiástica muito rigoroso, que levava com frequencia os fieis à confissão pública diante de toda a Igreja; nunca a um sacerdote em particular.


Sem Confissão Auricular

Bom conhecedor da história eclesiástica, o polêmico evangélico Teófilo Gay exclama:

“Todos os Pais da Igreja dos primeiros quatro séculos viveram sem se confessar segundo o sistema católico-romano e sem haver tampouco se confessado a ninguém. Na vida dos santos posteriores a Inocêncio III (1161-1216) frequentemente encontramos menções de que eles se confessavam, mas nas dos santos anteriores àquela época não existe nem a mais mínima menção da confissão”[1]

Com efeito, temos a vida de Paulo de Tebas, do terceiro século. Ainda que se dêem os detalhes mais minuciosos de suas ações, não há uma só palavra que nos fale do costume de ir ao confessório. E toda evidência aponta que ele viveu e morreu sem confissão auricular.

Caso semelhante é o de Maria do Egito. Vemos a triste história de suas desordens e escândalos em sua juventude; temos o relato edificante da sua conversão, de suas orações fervorosas, de seus longos jejuns no deserto, de sua enfermidade e sua morte... mas de confissões a um homem, nem uma só palavra.

O diácono Pôncio escreveu a vida de Cipriano, que viveu no terceiro século. E se alguma coisa era evidente nesta vida, era que jamais o santo bispo se confessou a ninguém. Uma coisa também é evidente na referida biografia, que é o fato de que ele foi excomungado pelo até então bispo de Roma, Estêvão, que o excomungou publicamente, e Cipriano morreu sem ter tido jamais a absolvição. Mas isso não o impediu de ir ao céu, pois os outros papas posteriores o declararam santo.

Gregório de Niceia nos deixou a interessante vida de Gregório de Cesareia, do século III, e de Basílio, o bispo do século IV. E se há alguma coisa provada em ambas, é que esses santos bispos não se confessaram nunca, nem usaram de confissão auricular, nem tampouco se confessaram a homem nenhum.

Teodoreto nos deixou a história da vida, sofrimentos e morte de João Crisóstomo, e nela não há absolutamente nada sobre confissão auricular, que se existisse em seu tempo deveria ter levado a cabo muitíssimas vezes com algum ou alguns de seus presbíteros, ou com outro bispo.

Quem escreveu com mais detalhes e eloquência sobre temas práticos da fé e moral, dos costumes privados e públicos de seu tempo, do que   Jerônimo no século V? Estas cartas, que temos em vista, não mencionam de modo nenhum a confissão auricular. Grande número de suas cartas eram dirigidas aos presbíteros que lhe haviam pedido regras práticas de conduta para desempenhar seu ministério. Como é possível existir tal costume ou regra na Igreja, e se omitissem de falar de seus deveres como confessores?

Ademais, em sua carta ao presbítero Nepociano, ele diz:

“Não esteja nunca sozinho com mulher, sem testemunha ocular. Se você tem alguma coisa particular para falar, que fale a alguma outra pessoa da casa: donzela, viúva ou casada, e não seja tão ignorante das regras de conveniência, para ousar comunicar coisas que aos outros não comunicaria”[2]

O mesmo podemos dizer de Ambrósio, quanto à sua biografia escrita por Paulino. A vida de Martín de Tours, do século IV, escrita por Severo Sulpício, do século V, também é um monumento irrefutável deixado pela antiguidade para nos mostrar que o dogma da confissão auricular é uma invenção moderna, sendo evidente que Martín de Tours viveu sem ter pensado nunca em se confessar a outro que não a Deus.


Os Pais da Igreja ensinaram?

Por isso que, referindo-se à confissão com Deus, essencial para todos os cristãos, e tratando de reprimir a euforia espetacular daqueles que pensavam que seriam melhor perdoados se confessassem seus pecados publicamente diante de toda a Igreja para receber solenemente a absolvição dos lábios do pastor ou bispo, Basílio declara:

“Eu não me ponho em espetáculo diante do mundo para fazer uma confissão com meus lábios, eu fecho meus olhos e faço a confissão no secreto do meu coração. É só diante de Ti, ó meu Deus, onde eu deixo escapar meus suspiros. Só o Senhor é testemunha dos meus pecados. Meu gemido é no secreto da minha alma. Não fazem falta muitas palavras para confessar: os gemidos e os suspiros do coração são a confissão mais aceitável. Sim, Deus meu, as lamentações que partem do fundo da minha alma e que vão até teu trono são a melhor confissão”[3]

Santo Agostinho nos deixou um livro famoso intitulado Confissões, no qual ele nos conta sua vida com todos os detalhes, nos fala de seus antigos pecados e de sua conversão. O seguimos passo a passo em seus atos e ainda em seus mais secretos pensamentos, mas em nenhuma parte ele diz que foi confessar as suas culpas a um sacerdote ou bispo do seu tempo. A razão disso é porque Agostinho nunca apostatou da fé depois da conversão, razão pela qual não teve que ser submetido a nenhuma disciplina ou penitência que requeresse a absolvição sacerdotal. E, em segundo lugar, porque mesmo enquanto pecador perdoado continuou expondo suas debilidades e fraquezas praticando sua confissão a sós com Deus, segundo nos manifesta no livro 10, cap. 2, de suas Confissões, onde diz:

“Assim, pois, minha confissão em Tua presença, Deus meu, é calma e não silenciosa; calma quanto ao ruído (das palavras), clamorosa quanto à fé”[4]

E no capítulo 3:

“Que tenho, pois, eu a ver com os homens, para que ouçam minhas confissões, como se eles fossem sarar todas as minhas enfermidades?”[5]

E em outra de suas obras declara:

“Eu confessarei meus pecados a meu Deus; e ele me perdoará todas as iniquidades do meu coração; não é com a boca, senão unicamente com o coração, como esta confissão há de ser feita. Ainda não abri minha boca para confessar os pecados e já estão perdoados, porque Deus ouviu verdadeiramente a voz do meu coração”[6]

E em outro lugar, ele diz:

“Por que iria eu expor aos homens as chagas da minha alma? É o Espírito Santo que perdoa os pecados; o homem não pode fazer isso porque tem necessidade de médico da mesma maneira que aquele que nele busca remédio. E se me dizes: ‘Como se realiza a promessa que Cristo fez aos apóstolos, que tudo o que desligares na terra será desligado nos céus?’, contesto que o Senhor prometeu enviar seu Espírito, por meio do qual deveriam ser perdoados os pecados. É o Seu Espírito que Ele envia, e nós somos seus servos. Como o Espírito Santo é Deus, então é Deus quem perdoa os pecados, e não vós”[7]

João Crisóstomo, o grande pregador do século IV, chamado com razão de “boca de ouro”, escreveu em um de seus sermões:

“Não é necessário que haja testemunho algum de vossa confissão. Reconhecei vossas iniquidades, e que Deus somente, sem que ninguém o saiba, ouça vossa confissão”[8]

Em outra de suas obras, ele diz:

“Assim, eu vos suplico e os conjuro a confessar seus pecados a Deus constantemente. Eu não os demando, de nenhuma maneira, que confessem seus pecados aos homens: é a Deus a quem vocês devem mostrar as chagas de vossa alma, e somente a Ele vocês devem esperar a cura. Ide a Ele, e Ele não os rechaçará. Ele conhece tudo”[9]

E em outro lugar, declara:

“Confessai vossos pecados todos os dias em vossa oração... o que pode nos fazer duvidar de obras assim? Eu não os mando a ir confessar a um homem pecador como vocês, que poderia desprezá-los se lhes contassem vossas faltas; mas conte elas a Deus, que pode perdoá-las”[10]

E em outro lugar:

“Dize-me: Por que vocês têm vergonha de confessar seus pecados? Por acaso alguém os obriga a revelá-los a um homem, que poderia desprezá-lo? Alguém pede que vocês se confessem a um de vossos semelhantes, que poderia publicá-los e desonrá-los? A única coisa que demandamos é que mostrem vossas chagas a vosso Mestre e Senhor, que é vosso amigo, vosso guardião e vosso médico”[11]


Conclusão

Este processo longo e solene de reconciliação dos pecadores com a igreja local a que pertenciam, no qual o nome de um penitente era citado publicamente para que toda a igreja orasse por ele, é algo muito diferente da moderna confissão auricular, que se realiza em secreto, em alguns minutos e sem nenhuma solenidade especial. Depois isso (e bem ao contrário do que ocorria com aquelas excomunhões severas e reconciliações dos tempos de ouro da Igreja) veio a se tornar o dogma moderno da confissão auricular, uma espécie de passaporte para a prática reiterada dos mesmos pecados.

Por: Samuel Vila.
Tradução: Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Diccionario de Controversia, pág. 143.
[2] Epíst. a Nepociano, vol. 2, pág. 203.
[3] Comentário do Salmo 37.
[4] Confissões, Livro X, c. 2.
[5] Confissões, Livro X, c. 3.
[6] Homília sobre o Salmo 31.
[7] Sermão 99, De Verb. Evang. Lucas 7.
[8] Homília sobre o arrependimento, tomo IV, coluna 901.
[9] Homília V, Sobre a natureza incompreensível de Deus. Vol. I, pág. 490.
[10] Homília sobre o Salmo 1.
[11] Homília sobre Lázaro, tomo I, pág. 757.

4 comentários:

  1. Bom artigo Lucas,

    Quem desejar uma análise histórica detalhada desta doutrina, pode consultar este ótimo artigo do William Webster que estou traduzindo para o português:
    http://www.christiantruth.com/articles/penancehistory.html

    O sacramento da confissão auricular ensinado pela Igreja Romana não existia na Igreja dos primeiros séculos. É possível verificar no início do terceiro século a prática de uma disciplina eclesiástica com as seguintes características:

    - Era apenas para pecados considerados graves;
    - O penitente teria apenas UMA oportunidade na VIDA, não era algo que pudesse ser repetido como hoje se faz;
    - Não havia absolvição sacerdotal, o bispo se limitava a declarar que o penitente cumpriu sua pena e poderia ser restabelecido à comunhão;
    - O processo era público e não privado como na confissão auricular;
    - O perdão eclesiástico só era dado após cumprida a penitência.

    Não há rastro da doutrina das indulgências nos Pais da Igreja. Somente séculos mais tarde, podemos verificar a semente desta doutrina. As penitências eram duríssimas, alguém que tenha cometido um pecado grave poderia ficar até 20 anos fazendo penitência.

    Portanto, se esta era uma tradição apostólica genuína, a Igreja Romana a perverteu. Tanto é que teólogos da idade média discutiram sobre a possibilidade de repetição deste processo e muitos defenderam que apenas poderia ser feito uma vez.

    Felizmente, o Novo Testamento é claro neste tema. O arrependimento e perdão são mencionados em várias passagens, mas em absolutamente nenhuma é dito que devemos nos confessar a um sacerdote para sermos perdoados, por mais graves que nossos pecados seja. O exemplo de Simão é cabal. Ele havia cometido um pecado mortal pela ótima da teologia católica, portanto, só poderia ser perdoado mediante a absolvição sacerdotal. Porém, ele diz que Simão deveria ser confessar a Deus.

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    1. Perfeito! Me notifique quando terminar a tradução, esses artigos do William Webster são muito bons. Abraço!

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    2. Você já deve ter visto, mas como sou um homem de palavra, lhe notifico kkkkkkkkk:

      http://respostascristas.blogspot.com.br/search/label/Confissão%20e%20Penitência?m=0

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