As invasões árabes justificam as Cruzadas?



A mentalidade de conquista territorial

O argumento mais popular oferecido pelos revisionistas modernos para as Cruzadas é o de que o movimento foi apenas uma contraofensiva às invasões muçulmanas que já ocorriam há séculos. Assim, eles pretendem dar um caráter “defensivo” às Cruzadas. O problema com este argumento é que em momento algum o papa Urbano II (que convocou a Primeira Cruzada) ou qualquer dos outros pregadores das Cruzadas fez qualquer menção às invasões árabes como motivo para “contra-atacar”. Há várias menções aos peregrinos que supostamente estariam enfrentando problemas na Palestina, mas um silêncio sepulcral quanto a este suposto argumento.

A grande questão, portanto, fica sendo: Por que nem o papa Urbano II nem qualquer pregador da cruzada jamais fez menção às invasões árabes como o motivo pelo qual estariam entrando em batalha? Qualquer argumento do tipo certamente elevaria os ânimos dos soldados e lhes daria bem mais vontade para continuar lutando. No entanto, nada sobre as invasões muçulmanas é mencionado ao longo de todos os longos discursos papais. Claramente, os revisionistas estão inventando um argumento que cairia bem para os dias de hoje, mas que jamais foi evocado para aquela época.

A primeira razão pela qual o papa não fez menção às invasões muçulmanas como pretexto para atacar Jerusalém é porque os muçulmanos, basicamente, não estavam tomando seus territórios, mas quase sempre invadiam e estavam em guerra com o Império Bizantino, oriental. Juan Brom escreve:

Muito rapidamente os árabes conquistam uma região extensa. Caem em suas mãos Mesopotâmia, Síria e outras partes do Império Bizantino. Também conquistam a Pérsia, que sempre havia resistido aos romanos. Dominam o Egito, onde fundam a importante cidade do Cairo. Chegam a sitiar Constantinopla, mas não podem vencer suas fortes muralhas.[1]

Nem a Mesopotâmia, nem a Síria, nem o Egito, nem Constantinopla fazia parte do império comandado pelo papa Urbano II. As únicas terras ocidentais momentaneamente tomadas pelos muçulmanos foram Portugal e Espanha, e o papa não pareceu ligar para isso, pois quis fazer uma cruzada à terra de Jerusalém, que nunca foi dele e que já estava em posse dos muçulmanos há mais de 400 anos. Se alguém tinha o direito de se sentir lesado pelas conquistas árabes era o Império Bizantino e o patriarca ortodoxo, mas não o papa romano, que jamais possuiu as terras conquistadas pelos árabes. Nenhum país cristão que lutou nas Cruzadas foi lesado pelas conquistas muçulmanas. Quem foi lesado foi o Império Bizantino, que nem assim quis uma Cruzada contra os muçulmanos, mas apenas um punhado de mercenários contratados.

Como, pois, entender que nem o principal lesado pelas conquistas árabes, os bizantinos, estavam a favor de uma guerra em tal escala contra os muçulmanos? Para entender isso, é necessário compreender a mentalidade de conquista territorial da época. No século XXI, qualquer país que queira tomar as posses de outro é considerado um invasor e é julgado por isso diante da opinião mundial, mas na Idade Média, bem como na Idade Antiga, a conquista territorial fazia parte da mentalidade de todo e qualquer país que tivesse um mínimo de poderio militar. Era essa a razão pela qual mesmo entre os países cristãos havia constantes lutas pelo território.

O historiador Christopher Brooke sustenta que “eram comuns as alianças entre muçulmanos e cristãos, e as lutas entre cristãos ainda mais correntes”[2]. Quando Urbano II organizou a Primeira Cruzada, “estava em aberta disputa com os reis da França e da Alemanha, e o rei da Inglaterra, que não o reconhecia, também, imediatamente, ficaria de mal com ele”[3]. Em 1076, o franco Roussel de Bailleul conseguiu estabelecer um Estado autônomo na Ásia Menor e marchou sobre Constantinopla, que teve que pedir ajuda dos turcos muçulmanos que contiveram o exército de Roussel e foram recompensados com ouro, cavalos e terras[4].

Era recorrente o Império Bizantino contratar mercenários entre os guerreiros turcos por causa da desconfiança dos francos[5][6]. Phillips acrescenta ainda que “o papa também concedeu o status de cruzada às guerras contra as tribos pagãs na região do Báltico, com a justificativa de que estas ampliariam as fronteiras da Cristandade e serviriam para vingar os assassinatos de missionários cristãos que haviam tido lugar no passado”[7]. Durante a Terceira Cruzada, os reis da França e Inglaterra estavam brigados, tendo que se separar da Cruzada a fim de continuar a guerra em seus próprios países.

Além disso, cabe-se ressaltar que todo o território cristão ocidental havia sido conquistado por meio da guerra. Voltaire perguntava com que justiça que podiam os príncipes bárbaros da Europa reivindicar províncias que tinham sido tomadas pelos turcos, não a eles, mas ao imperador do Oriente[8]. E Gibbon questiona por que regra de senso concluíam esses descendentes dos germanos, dos francos e dos normandos que o tempo tinha consagrado as suas próprias aquisições na Europa, mas não as dos muçulmanos na Ásia[9].

Foi pela espada que os povos agora cristãos conquistaram o Império Romano ocidental e consumaram seus territórios, e por isso não tinham moral alguma para requerer outros territórios que também haviam sido tomados pela espada – e que jamais haviam sido deles! Uma vez que todo o território comandado pelo papa Urbano II era povoado por tribos bárbaras que conquistaram por meio da guerra o antigo Império Romano, seria hipócrita e risível se eles mesmos usassem o argumento das invasões muçulmanas como pretexto para atacá-los. Eles próprios eram os invasores.

Veit Valentin escreve:

A ideia de que o Cristianismo devia expandir-se e dominar pelas armas ganhara terreno originariamente como uma concessão ao instinto belicoso dos germanos para os quais a doutrina da humildade era inconcebível; Cristo como Senhor do reino de Deus sobre a terra, como Imperador universal, em cuja honra os fieis vassalos os cristãos deviam matar e saquear os infieis, esta era a noção que a mentalidade primitiva facilmente aceitava.[10]

E Roper ressalta:

Os cruzados que justificavam a sua agressão contra os muçulmanos pelo ódio virtuoso ao falso profeta Maomé não cambalearam quando esse pretexto caiu. Os anglo-saxões eram cristãos; também os irlandeses; na verdade, anglo-saxões e irlandeses tinham estado entre os construtores da Europa cristã, o que não livrou os primeiros de Guilherme, o Conquistador, e os segundos de Strongbow. Os gregos de Constantinopla também eram cristãos. Isso não os livrou dos terríveis francos, esse exército de filhos de proprietários e inúteis camponeses que enxamearam tanto para o Ocidente como para o Oriente, à procura da salvação terrena e espiritual.[11]

Quando não estavam lutando entre si mesmos por conquistas territoriais, os nobres cristãos ocidentais organizavam torneios sangrentos, que “eram verdadeiras batalhas e não, como vulgarmente se supõe, simples divertimentos”[12]. Eram, como diz Phillips, “acontecimentos desordenados e anárquicos, regalados com sangue e vinganças”[13]. Nestes torneios, eles lutavam entre si, muitas vezes, até a morte. Lins nos conta que “num torneio realizado em Nuis, perto de Colônia, houve, em 1240, nada menos de sessenta mortes[14], e Flori sustenta que “os torneios não diferem consideravelmente da guerra antes do século XIII”[15].  A História de Guilherme o Mariscal descreve um de tais encontros como “uma verdadeira batalha campal”[16].

Quão distante está isso dos romances e do cinema moderno, que difundiram uma falsa imagem dos torneios medievais, como narra Flori:

Os romances do século XIX e o cinema do XX difundiram muito uma imagem dos torneios ao mesmo tempo tardia e irrealista: em um recinto cercado por tribunais nos quais estão belos senhores e gentis damas, dois cavaleiros, protegidos por armaduras brilhantes e com elmos com cimeiras ondulantes, precipitam-se um em direção ao outro, galopando em seu cavalo também protegido, segurando suas longas lanças obliquamente acima da barreira que os separa ao longo de toda a pista. A competição prossegue assim, por eliminação direta (como em um torneio de tênis) até a final quando o vencedor recebe o prêmio das mãos da mais bela dama da assembleia.[17]

Além dos assassinatos, nos torneios os cavaleiros aprisionavam “seus companheiros de armas, enriquecendo-se não só com as armas e cavalos deles, mas, ainda, com os imensos resgates que cobravam para restituí-los à liberdade”[18]. Guilherme, o Marechal, fez 103 prisioneiros em um só ano[19]. Quanto mais violento o torneio fosse, melhor. Rogelio de Hoveden, um escritor inglês de finais do século XII, escreveu: “Não está pronto para a batalha aquele que nunca viu seu próprio sangue, quem não ouviu ranger seus dentes ao ser golpeado por um adversário ou não sentiu nunca sobre si todo o peso do seu oponente”[20]. A Igreja inicialmente se colocou contra esses torneios, mas depois os aceitou. Em 1316, João XXII os autoriza expressamente[21].

O pretexto das invasões árabes, assim, cai totalmente por terra. Urbano II não o usou por ocasião da Primeira Cruzada e papa algum o usou nas demais peregrinações à Terra Santa; este pretexto não podia ser evocado porque a mentalidade de todos os povos da época era de conquista territorial e isso era tomado com toda a naturalidade do mundo; mesmo se não fosse, os povos cristãos ocidentais deveriam ser os últimos a evocar este suposto pretexto, uma vez que as suas terras também haviam sido tomadas pelo fio da espada, e depois disso continuaram lutando entre si mesmos por conquistas territoriais e prestígio.

Usar o argumento das invasões árabes neste contexto não seria apenas falso, seria hipócrita. Foi por isso que Urbano II não o usou.


As terras do Oriente

Acima de tudo, a principal razão pela qual o exército do papa Urbano II não tinha nenhuma moral para reivindicar os territórios no Oriente era simples: estes territórios jamais haviam sido dele. Você não pode “retomar” aquilo que nunca foi seu. A terra de Jerusalém era território judaico antes da possessão romana, passou a fazer parte do Império Bizantino e então foi tomada pelos muçulmanos em 637, por Omar. Desde quando ela foi território do papa romano, dos francos, dos germanos, dos ingleses, dos franceses ou de qualquer outro que fazia parte da Cruzada? Nunca.

Não é sem razão que o imperador bizantino Aleixo I exigiu dos cruzados um voto de que essas terras seriam devolvidas ao seu respectivo dono, ou seja, a ele. As terras não eram pra ficar em posse dos cruzados. Todavia, o que os cruzados mais fizeram foi romper o acordo feito com o basileu. Todos os territórios conquistados no Oriente ficaram em posse dos próprios cruzados, que traíram o imperador bizantino:

• O principado de Antioquia. A cidade cai em 1098 após um longo cerco. Boemundo, chefe dos normandos da Itália meridional, recusa devolvê-la aos bizantinos e se proclama príncipe de Antioquia[22].

• O principado de Edessa confiado, após a tomada da cidade em 1098, a Balduíno I de Bolonha, irmão de Godofredo de Bulhões. Balduíno manda assassinar o príncipe armênio e reina sozinho[23].

• O reino de Jerusalém. Conquistada em julho de 1099, após dura campanha e um cerco difícil, a cidade torna-se desde logo a capital política e religiosa dos latinos. Godofredo de Bulhões assume somente o título de “advogado do Santo Sepulcro”, mas por ocasião da sua morte, seu irmão Balduíno proclama-se rei (em 1100)[24].

• O condado de Trípoli ocupado em 1109 e dado a Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse. Em 1187, após uma crise de sucessão, esse condado se encontra reunido ao principado de Antioquia[25].  


A tolerância árabe

Alega-se por vezes que os cristãos estavam sendo oprimidos pelos árabes que conquistavam cada vez mais território nos séculos anteriores às Cruzadas. Isso também é falso. Na Idade Média, nenhum povo era mais tolerante com os povos conquistados do que os árabes. Infelizmente, as pessoas têm em mente os terroristas do século XX e XXI e assim formam a imagem de todo o povo árabe de todas as épocas, como se os muçulmanos sempre estivessem marcados por terrorismo e intolerância, o que nada mais é senão uma deturpação da história.

Este é um ponto de consenso entre os historiadores: os árabes eram extremamente tolerantes com os povos conquistados, permitindo que praticassem suas crenças em liberdade e cobrando apenas um imposto leve. Como diz Juan Brom, “os árabes em geral respeitaram as crenças dos povos submetidos, conformando-se em cobrar-lhes impostos”[26]. Embora “muitas vezes os não-muçulmanos se convertiam ao Islã para evitar o pagamento deste imposto”[27], os crentes fieis nunca foram forçados a mudar de religião. Vale ressaltar que nos países cristãos também havia cobrança de impostos aos muçulmanos, como aponta Jacques Le Goff[28].

O historiador Christopher Brooke também acentua essa espantosa tolerância do mundo árabe na era medieval:

Os califas podiam ser tirânicos, e em seu nome se cometeram multidão de atos selvagens, mas comparada com a de qualquer outro dos dirigentes do mundo medieval, sua política de respeito aos povos súditos, incluindo os de fé diferente da sua, era assombrosamente liberal.[29]

Brooke diz ainda que “no Islã, os cristãos e os judeus formavam uma minoria tolerada”[30], e que “os estados muçulmanos estavam mesclados com os cristãos”[31], citando como exemplo os casos de Antioquia, Edessa e Trípoli. Edessa, inclusive, continuava sendo governada por um príncipe cristão, mesmo estando sob o domínio muçulmano. Tal fato espantoso e curioso simplesmente não encontra paralelo na história antiga. Porém, quando os cruzados tomaram Edessa, assassinaram o príncipe ortodoxo e colocaram o chefe cruzado Balduíno em seu lugar.

Jean Duché observa que “os muçulmanos fundavam grandiosas mesquitas, hospitais, escolas públicas – as madrassas – e respeitavam os cristãos, fazendo o mesmo desde quatro séculos: os tolerando”[32]. Ivan Lins também mostra que os árabes se caracterizavam pela tolerância, não impondo eles “nenhum obstáculo à piedade dos cristãos”[33]. Mas ele vai além, e diz que eles “foram sempre muito mais tolerantes do que os cristãos”[34]. Sob o domínio do Islã, Lins escreve que “as igrejas e mosteiros multiplicavam-se por toda parte, e as antigas paróquias ornavam-se e acrescentavam-se com os primores da arte oriental”[35].

Ele diz ainda:

A tolerância árabe chegou ao ponto de Moviá, o primeiro califa omíada, fazer reparar e reconstruir igrejas cristãs. Nunca a tolerância se associou de um modo tão singular com o entusiasmo religioso – escreve Alexandre Herculano. Esta tolerância, que procedia da índole do islamismo, das suas máximas, digamos assim, canônicas e civis, não se limitou na Espanha à concessão de seguirem em silêncio a própria crença os habitantes avassalados pela espada do Islã, nem ainda à de celebrarem publicamente os seus ritos: manifestou-se também no respeito às instituições dos vencidos e à sua propriedade (...) Providos em cargos civis, admitidos ao serviço militar, nas exterioridades os hispanos-godos só se distinguiam pela diferença dos lugares onde adoravam a Deus. A voz do almuaden chamando os moléns à oração misturava-se com a do sino que anunciava aos nazarenos a hora das solenidades do culto. Dirigindo-se à basílica o bispo perpassava pelo imã que se encaminhava para a mesquita: o presbítero cruzava com o moadi; e num dos dois templos, ou contíguos ou próximos, o salmista entoava os hinos do ritual gótico, enquanto no outro o alime ou ulema invocava na chotba as bênçãos do céu sobre o califa.[36]

No século IX, a proteção muçulmana aos cristãos foi explicitamente assegurada a Carlos Magno por Harum-Al-Rachid, no chamado “protetorado franco do Oriente”. Como consequência deste acordo, mais hospitais, basílicas, bibliotecas e mercados foram construídos na Terra Santa, tornando as peregrinações cristãs ainda mais frequentes.

O único momento em que essa tolerância foi momentaneamente interrompida foi quando um califa louco e fanático chamado Hakim subiu ao poder, de 1009 a 1020, se dizendo ele próprio o Messias, e por isso perseguindo cristãos e judeus (os primeiros por acreditarem que o Messias já veio, e os segundos por acreditarem que ainda viria, sendo que o Messias seria ele mesmo...). A loucura de Hakim chegou a tal ponto que ele passou a odiar os próprios muçulmanos, uma vez que “desprezava Maomé”[37]. Michaud diz que “ele atraiu o ódio de todos os muçulmanos”[38].

Os seus sucessores, porém, restabeleceram “o regime da mais ampla tolerância, e as peregrinações recrudesceram”[39], e Daher, seu substituto, reconstruiu a igreja do Santo Sepulcro[40]. Morrisson afirma que “a perseguição – dirigida também contra os judeus – ordenada pelo califa Al-Hakim e que culminou com a destruição da basílica do Santo Sepulcro (1009) foi apenas um episódio excepcional, logo seguido por um acordo entre os fatímidas e o governo de Bizâncio, que permitiu a restauração do santuário”[41].

A tolerância árabe era o motivo pelo qual o imperador bizantino Aleixo I preferiu se dissociar da Cruzada, por não ter nenhuma garantia de que a população cristã ortodoxa que vivia nas terras então ocupadas pelos muçulmanos seria melhor tratada se estes territórios passassem aos francos:

Exceto sob o califa louco Hakim, os fatímidas haviam tratado os cristãos orientais com generosa tolerância, e Aleixo não tinha motivos para presumir que o governo franco lhes seria mais agradável. Assim, o imperador dissociara-se da marcha franca sobre Jerusalém.[42]

A tolerância muçulmana era tão grande que “em Niceia, capital desse jovem Estado muçulmano, as igrejas bizantinas continuam mais numerosas do que as mesquitas”[43]. E em Antioquia, conquistada pelos árabes há décadas, a população local permanecia sendo de maioria cristã[44]. Philippe Wolff nota que “o Islã está longe de se impor a todos; através do seu território subsistem importantes minorias cristãs, judaicas, zoroastrianas, habitualmente toleradas”[45]. Diz ainda que “os ódios religiosos ainda são ignorados. Por isso vemos monges moçárabes, que vão povoar conventos cristãos do Norte, enquanto os príncipes cristãos mandam educar os filhos entre os sarracenos”[46].

Longe do imaginário popular onde os árabes matavam todo mundo ou forçavam conversões, Henri Pirenne nos mostra o que realmente acontecia:

O que propõem não é, como se diz, a sua conversão, mas a sua sujeição. E ela chega com eles. Não pedem mais, após as conquistas, que tomar como presa a ciência e a arte dos infiéis; cultivá-las-ão em honra de Alá (...) Os vencidos são seus súditos, pagam apenas impostos, estão fora da comunidade dos crentes.[47]

O pagamento de impostos dos não-crentes pode não parecer tão tolerante nos dias de hoje, mas era extremamente incomum e inusitado em uma época onde a esmagadora maioria dos povos conquistadores ou matavam todo mundo que conquistavam (como faziam os cruzados), ou forçavam conversões. Os árabes se distinguiam por suas “cordiais relações com as elites locais, as vezes mediante pactos e matrimônios, e se procurou que a população nativa sofresse poucas moléstias”[48]. Manuel Ballesteros verifica:

Em geral os árabes deixavam subsistir a administração dos países conquistados, pois não estavam em condições de melhorar as existentes. Isso lhes evitava complicações e facilitava a cobrança de impostos. Assim, foi muito frequente que até deixavam circular a própria moeda do país.[49]

Os judeus também eram tolerados nas sociedades árabes. Pirenne diz que eles sustentavam o comércio e que “os árabes não os perseguiram nem os massacraram”[50], e Paul Johnson, em sua história sobre os judeus, salienta que, “no Cairo, os judeus, cristãos e muçulmanos conviviam e participavam em sociedades comerciais comuns”[51]. Existia até um estatuto dos protegidos, de nome dimmies, outorgado a judeus e a cristãos, que lhes permitia manter sua religião e suas terras[52]. Guga Chacra escreve ainda:

Judeus estavam muito mais seguros entre os muçulmanos do que na Cristandade europeia, onde eram perseguidos (...) Perseguidos na Europa, os judeus conseguiram abrigo e proteção no mundo islâmico – e note que os judeus viviam muito bem na Península Ibérica quando esta estava nas mãos dos muçulmanos e não dos católicos.[53]

Abelardo, um cristão católico que decidiu viver entre os muçulmanos por causa da caça às bruxas nos países católicos, testemunhou que conseguiu, “mediante algum tributo, o direito de viver tranquilamente e cristãmente no meio dos inimigos de Cristo”[54]. Um cronista de uma viagem à Palestina em 1184 ficou tão maravilhado com a boa relação entre cristãos e muçulmanos que escreveu que “o entendimento entre eles é perfeito, e a equidade é respeitada em todas as circunstâncias”[55].

Quando é que os povos muçulmanos começam a se tornar intolerantes com as minorias conquistadas? Hugh Trevor-Roper responde a esta questão dizendo que “só a partir do século XIV, esse século de contracção generalizada, o Islã, como a Cristandade, se tornou intolerante em relação às minorias”[56]. Mas isso, observe, é de depois das Cruzadas, e em represália à intolerância cristã que marcou este movimento. Não foi antes das Cruzadas para justificar os ataques.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

- Extraído do meu livro: "Cruzadas - O Terrorismo Católico".

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] BROM, Juan. Esbozo de historia universal. 21ª ed. México: Grijalbo, 2004, p. 96.
[2] BROOKE, Christopher. Europa en el centro de la Edad Media (962-1154). 1ª ed. Madrid: Aguilar, 1973, p. 381.
[3] ibid, p. 292.
[4] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 18.
[5] ibid.
[6] “Francos” era o nome dado à generalidade dos povos católicos ocidentais que lutaram nas Cruzadas.
[7] PHILLIPS, Jonathan. La cuarta cruzada y el saco de Constantinopla. 1ª Ed. Barcelona: CRÍTICA, S. L., 2005, p. 25.
[8] Apud ROPER, Hugh Trevor. A Formação da Europa Cristã. 1ª ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1975, p. 108-109.
[9] ibid.
[10] VALENTIN, Veit. História Universal – Tomo II. 6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 11.
[11] ROPER, Hugh Trevor. A Formação da Europa Cristã. 1ª ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1975, p. 125.
[12] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 255.
[13] PHILLIPS, Jonathan. La cuarta cruzada y el saco de Constantinopla. 1ª Ed. Barcelona: CRÍTICA, S. L., 2005, p. 80.
[14] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 255.
[15] FLORI, Jean. A Cavalaria: A origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005, p. 100.
[16] Apud PHILLIPS, Jonathan. La cuarta cruzada y el saco de Constantinopla. 1ª Ed. Barcelona: CRÍTICA, S. L., 2005, p. 82.
[17] FLORI, Jean. A Cavalaria: A origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005, p. 97-98.
[18] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p, 256.
[19] ibid.
[20] Apud PHILLIPS, Jonathan. La cuarta cruzada y el saco de Constantinopla. 1ª Ed. Barcelona: CRÍTICA, S. L., 2005, p. 81.
[21] FLORI, Jean. A Cavalaria: A origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005, p. 138.
[22] HEERS, Jacques. História Medieval. 1ª ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1974, p. 164.
[23] ibid.
[24] ibid.
[25] ibid.
[26] BROM, Juan. Esbozo de historia universal. 21ª ed. México: Grijalbo, 2004, p. 96.
[27] SPENCER, Robert. Guía políticamente incorrecta Del Islam (Y de las Cruzadas). Madrid: Ciudadela Libros, 2007.
[28] LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval – Volume I. 1ª ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, p. 186.
[29] BROOKE, Christopher. Europa en el centro de la Edad Media (962-1154). 1ª ed. Madrid: Aguilar, 1973, p. 39.
[30] ibid, p. 41.
[31] ibid, p. 380.
[32] DUCHÉ, Jean. Historia de la Humanidad II – El Fuego de Dios. 1ª ed. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1964, p. 344.
[33] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 298.
[34] ibid.
[35] ibid, p. 299.
[36] ibid.
[37] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 39.
[38] ibid, p. 40.
[39] LINS, Ivan. A Idade Média – A Cavalaria e as Cruzadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Pan-Americana, 1944, p. 301.
[40] MICHAUD, Joseph François. História das Cruzadas – Volume Primeiro. 1ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956, p. 44-45.
[41] MORRISSON, Cécile. Cruzadas. 1ª ed. São Paulo: L&PM Pocket, 2009.
[42] RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas, Volume II: O Reino de Jerusalém e o Oriente Franco, 1100-1187. 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002, p. 25.
[43] MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 17.
[44] ibid, p. 32.
[45] WOLFF, Philippe. O Despertar da Europa. 1ª ed. Lisboa: Editora Ulisseia, 1973, p. 101.
[46] ibid, p. 103.
[47] PIRENNE, Henri. Maomé e Carlos Magno. 1ª ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, p. 133.
[48] VARA, Julián Donado; ARSUAGA, Ana Echevarría. La Edad Media: Siglos V-XII. 1ª ed. Madrid: Editorial universitaria Ramón Areces, 2010, p. 96.
[49] BALLESTEROS, Manuel; ALBORG, Juan Luis. Historia Universal Hasta el Siglo XIII. 4ª ed. Madrid: Editorial Gredos, S. A., 1967, p. 375.
[50] PIRENNE, Henri. Maomé e Carlos Magno. 1ª ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, p. 153.
[51] JOHNSON, Paul. La historia de los judíos. Barcelona: Zeta, 2010, p. 302.
[52] VARA, Julián Donado; ARSUAGA, Ana Echevarría. La Edad Media: Siglos V-XII. 1ª ed. Madrid: Editorial universitaria Ramón Areces, 2010, p. 96.
[54] LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval – Volume I. 1ª ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, p. 185.
[55] ibid, p. 186.
[56] ROPER, Hugh Trevor. A Formação da Europa Cristã. 1ª ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1975, p. 194.

Comentários

  1. Lucas a questao da corrupçao da desonestidade do brasileiro levar vantagem sobre o proximo tem influencia do catolicismo romano em nossa cultura.

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    1. Eu não acho especificamente que isso seja por causa do catolicismo, porque alguns países europeus com tradição católica não são igual ao Brasil. Este problema é mais profundo, eu nem saberia te responder o porquê.

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    2. Acredita que está relacionado ao processo de colonização do Brasil?

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  2. Lucas Franklin Graham disse uma certa vez que o islamismo e o cristianismo são inimigos. Vc concorda do ponto de vista teológico?

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  3. O que você acha dos corpos incorruptos dos santos católicos?

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    Respostas
    1. Escrevi sobre isso aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/04/o-pior-argumento-catolico-de-todos-os.html

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  4. Lucas, como os católicos interpretam passagens como "aquele que crer e for batizado será salvo mas aquele que nao crer sera condenado", "creia em Jesus e será salvo você e sua casa" ou "aquele que crer em mim ainda que morra viverá"?
    Essas passagens (entre muitas outras) nao mostram a salvação pela fé em Jesus? Como os católicos "refutam" elas?

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    1. Eles não refutam, só sabem copiar e colar aqueles textos de Tiago onde ele fala da "fé morta", parecem papagaios repetindo sempre a mesma coisa. Só que Tiago também não estava defendendo salvação por obras, como você pode ver aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2014/01/tiago-ensinava-justificacao-pelas-obras.html

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  5. Olá irmão Lucas, já viu o mais novo milagre eucarístico a santa hóstia consagrada que sangra devidamente comprovado o fenômeno milagroso.

    Um abraço do amigo Marcos Monteiro.

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    1. Não vi, mas em se tratando de "milagres eucarísticos" há muitos embustes, um deles eu já escrevi aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/10/desmascarando-o-milagre-de-lanciano.html

      Abs!

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  6. as vezes sinto vontade de morrer n tenho amigos no Colégio, Sinto as vezes Vontade de matar todas pessoal Mas que existem a,Me sinto um verdadeiro inútil,O pior e que sou fraco e tds os dias minha vontade de pecar aumenta inacreditavelmente, e minha fé e vontade de ler Biblia que dum precipício, Me ajude pfv ore por mim, eu acho que só n sou católico pelos artigos que eu li nesse site

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    1. Vou orar por você. Deus lhe abençoe e lhe dê forças para seguir adiante.

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  7. Pode um incrédulo trabalhar em uma igreja evangélica?

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    1. Dependendo do cargo eu não vejo problema algum.

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