2 de junho de 2015

Os católicos romanos deram a Bíblia aos protestantes?


OS CATÓLICOS ROMANOS DERAM A BÍBLIA AOS PROTESTANTES?
(Keith Thompson)

Um dos argumentos mais comuns contra a Sola Scriptura levantado pelos católicos é: se a Escritura é a única autoridade que deve ser seguida, como você sabe quais livros são inspirados, visto que a própria Escritura não lhe diz? Ou então: se você crê na Sola Scriptura, por que mantém um cânon do Novo Testamento que foi reconhecido pela autoridade da Igreja Católica Romana? Isso não viola a Sola Scriptura? Como o apologista católico Patrick Madrid argumenta, “não há uma lista de conteúdos inspirados na Escritura que nos diga quais livros pertencem ao cânon e quais não”[1]. Este é um argumento comum utilizado pelos apologistas católicos e tem sido usado por eles para tentar refutar muitos protestantes sobre a questão da Sola Scriptura.

No entanto, existem sérios problemas com este argumento.

(1) Ele só se aplica ao Solo Scriptura, que é a crença de que a Bíblia é a única autoridade, e não à Sola Scriptura, que diz que a Escritura é a autoridade máxima. Na Sola Scriptura não há nada de errado em seguir autoridades externas como a igreja, desde que o que ela declare não contradiga a Bíblia e seja consistente com a Escritura pelo menos implicitamente[2]. Deste modo, não há nenhum problema para a Sola Scriptura ao se afirmar o cânon através da Igreja, uma vez que os critérios utilizados pela Igreja para conhecer o cânon no século IV podem ser validados biblicamente pelo menos implicitamente.

Por exemplo, a Igreja usou os critérios de apostolicidade para decidir se um livro do Novo Testamento era Escritura (ou seja, se um livro foi escrito por um apóstolo ou companheiro de um apóstolo). Qualquer boa introdução conservadora ao Novo Testamento dará argumentos internos para o fato de um livro ter sido escrito por um apóstolo ou por alguém próximo de um apóstolo (por exemplo, Donald Guthrie’s, D. A. Carson e Douglas J. Moo’s, dentre outros). No que diz respeito aos critérios de antiguidade utilizados pela Igreja, podemos olhar para o conteúdo interno do livro para descobrir se ele foi escrito no primeiro século ou se é uma obra do segundo século.

Estudiosos do Novo Testamento fazem isso regularmente. Qualquer boa introdução teológica irá fornecer argumentos internos de que um livro foi escrito no primeiro século. No que diz respeito aos critérios da ortodoxia utilizados pela Igreja, podemos ver quais livros são internamente consistentemente e quais não são. Então não há nada inconsistente em se afirmar a Sola Scriptura ao mesmo tempo em que se reconhece a autoridade da Igreja em reconhecer o cânon, uma vez que quando observamos os livros reconhecidos vemos que seu reconhecimento é consistente com a Escritura, pelo menos implicitamente.

(2) Ao usar este argumento, o apologista católico assume que aqueles concílios no quarto século que reconheceram o cânon eram concílios católicos romanos ou faziam parte de uma Igreja Católica Romana. Entretanto, ninguém nesses concílios acreditava nas coisas que a Roma moderna afirma que somos obrigados a acreditar para sermos considerados católicos romanos – ensinamentos e reivindicações romanistas nem sempre foram cridas pela Igreja (por exemplo, a confissão auricular privada, o poder a um padre para perdoar pecados veniais e mortais, a infalibilidade papal, a assunção e imaculada conceição de Maria, a missa como o mesmo sacrifício propiciatório de Cristo re-apresentado, a ideia de que só o papa tem autoridade para interpretar a Bíblia, etc). Por isso, é errônea a reivindicação dois católicos modernos de que aqueles concílios que trataram da questão do cânon faziam parte de seu sistema religioso moderno. Era a Igreja cristã, não o sistema papal, que discerniu o cânon no século IV.

(3) Os protestantes são muito parecidos com os cristãos da igreja primitiva antes do Concílio de Hipona e de Cartago. Eles declararam certos livros como inspirados sem a autoridade final de algum concílio sobre a questão. Irineu, Justino e Atanásio, entre outros, declararam certos livros canônicos como inspirados muito antes de Cartago e Hipona. Eles não tinham um papa ou um concílio para lhes ditar quais livros deveriam ser aceitos e quais deveriam ser rejeitados. Se os romanistas modernos querem condenar os protestantes por fazerem isso, então eles deveriam condenar também estes primeiros Pais da Igreja que fizeram o mesmo, se eles querem mesmo ser consistentes.

Roma também falsamente afirma que a sua tradição é a base para o estabelecimento do cânon bíblico pela Igreja no século IV, quando o Concílio de Cartago e o de Hipona falaram sobre a lista de livros inspirados[3]. Os pontos de vista da Igreja Romana sobre a tradição são: (1) a ideia de que os apóstolos entregaram um corpo de ensino oral contendo doutrinas que não são encontradas na Escritura; e (2) a ideia de que a tradição da Igreja esclarece o verdadeiro significado das Escrituras.

Entretanto, os concílios de Hipona e de Cartago, que no século IV lidaram com a questão do cânon, nunca afirmaram que eles sabiam qual era o cânon correto porque eles tinham ensinamentos e tradições da boca dos apóstolos afirmando quais livros eram canônicos. Nem podemos dizer que eles tinham uma interpretação histórica do conteúdo da Escritura e, portanto, declararam o cânon através deste significado. Isso não faz sentido. Assim, as definições de tradição por Roma não podem ser objeto de recurso como base para as determinações destes concílios relativos ao cânon. Os concílios não utilizaram qualquer chamada “tradição apostólica” para isso.

Em vez disso, eles usaram vários critérios para discernir o cânon. Eles não afirmam que eles tinham um ensino oral dos apóstolos afirmando quais livros eram verdadeiros. Seus critérios de canonicidade utilizados incluíam: apostolicidade (se o conteúdo do livro era teologicamente ortodoxo), a antiguidade (se o livro era suficientemente antigo) e uso (se o livro foi amplamente usado na Igreja antes do concílio)[4]. À luz dos fatos mencionados, é completamente errada a reivindicação católica de que a Igreja Romana deu a Bíblia aos protestantes, e que sem o catolicismo ou sua suposta tradição apostólica os protestantes sola scripturistas não poderiam discernir o cânon bíblico.

Autor: Keith Thompson (Reformed Apologetics)
Tradução: Lucas Banzoli (Apologia Cristã)


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[1] Patrick Madrid, Sola Scriptura: A Blueprint for Anarchy, ed. Robert Sungenis, Not by Scripture Alone, [Queenship Publishing Company, 1997], p. 22.
[2] Westminster Confession of Faith, 1:6-7; 1:10.
[3] Robert Sungenis, Point/Counterpoint: Protestant Objections and Catholic Answers, Not by Scripture Alone, [Queenship Publishing, 1997], p. 270.
[4] The Cradle, the Cross, and the Crown: An Introduction to the New Testament, eds. Andreas J. Kostenberger, L. Scott Kellum, Charles L. Quarles, [B&H Publishing Group, 2009], p. 13.

8 comentários:

  1. Lucas, houve um filósofo americano do século XX, o presbiteriano Gordon Clark, que dizia que a Bíblia tem o monopólio sistemático da verdade. Segundo essa opinião de Clark, ele não seria um solo scripturista?

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    1. Sim, se ele disse isso mesmo, ele é um "solo scripturista". Nenhum protestante reformado afirma que não existe verdades fora da Bíblia.

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  2. Lucas, um artigo interessante seria sobre as correntes filosóficas desenvolvidas por protestantes (Clark, Van Til, Dooyeweerd).

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  3. Lucas, nas bíblias católicas, em Isaías 42:1 está dizendo que Cristo irá trazer a religião invés de Justiça. Qual a tradução correta?

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    1. A palavra hebraica usada no texto em questão significa:

      04941 mishpat
      procedente de 8199; DITAT - 2443c; n m
      1) julgamento, justiça, ordenação
      1a) julgamento
      1a1) ato de decidir um caso
      1a2) lugar, corte, assento do julgamento
      1a3) processo, procedimento, litigação (diante de juízes)
      1a4) caso, causa (apresentada para julgamento)
      1a5) sentença, decisão (do julgamento)
      1a6) execução (do julgamento)
      1a7) tempo (do julgamento)
      1b) justiça, direito, retidão (atributos de Deus ou do homem)
      1c) ordenança
      1d) decisão (no direito)
      1e) direito, privilégio, dever (legal)
      1f) próprio, adequado, medida, aptidão, costume, maneira, plano

      Realmente, fica difícil saber de onde as versões católicas tiram essas traduções malucas deles. Trocam justiça por religião, arrependimento por penitência, amor por caridade, e por aí vai. É dose...

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  4. Respostas
    1. Obrigado, mas esse artigo (como mostro no início) é do Keith Thompson, e a mim coube apenas a tradução. Portanto deverá parabenizar a ele e não a mim :)

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