A Sola Scriptura nos Pais da Igreja - Parte 2

No artigo anterior sobre a Sola Scriptura nos escritos dos Pais da Igreja, eu mostrei várias citações de diversos bispos e pessoas influentes na Igreja cristã da época, que disseram literalmente as mesmas coisas que Lutero e os Reformadores sustentaram ao resgatarem o princípio cristão básico que consiste na Sola Scriptura. Neste artigo, irei continuar o anterior e passar outras diversas citações dos Pais da Igreja a este respeito.  

-Basílio de Cesareia (329 – 379  d.C) 

"Como você usufrui das Escrituras, não necessita nem de minha ajuda, nem da de ninguém para ajudá-lo a compreender o seu dever. Você tem o conselho todo-suficiente e orientação do Espírito Santo para levá-lo ao que é certo" (Epístola 283) 

“Mas, esta forma de dar glória nos é recusada, por não constar das Escrituras (Tratado sobre o Espírito Santo. Cap 67) 

“Rejeitar alguma coisa que se encontra nas Escrituras, ou receber algumas coisas que não estão escritas, é um sinal evidente de infidelidade, é um ato de orgulho... o fiel deve crer com plenitude de espírito todas as coisas que estão nas Escrituras sem tirar ou acrescentar nada (Basílio, Lib. de Fid. -- regul. moral. reg. 80; citado por Luigi Desanctis em La tradizione, terceira ed. Firenze 1868, pag. 19) 

“Nisso eles não estão longe da verdade, pois o faço afirmar. Sua queixa é que o costume deles não aceita isso, e que a Escritura não concorda. Qual é a minha resposta? Eu não considero justo que o costume que eles têm entre eles deva ser considerado como uma lei ao Estado de ortodoxia. Se o costume é para ser tomado como prova do que é certo, então é certamente competente eu apresentar para o meu lado o costume que nós temos aqui. Se eles rejeitarem isto, nós claramente não somos obrigados a segui-los. Portanto, Deus inspirou a Escritura para decidir entre nós, e em qualquer lado ser encontradas doutrinas em harmonia com a Palavra de Deus, para ver em favor de que lado será o voto da verdade (Epístolas, 189:3) 

-Gregório de Nissa (330 – 395 d.C) 

"A generalidade dos homens ainda flutua em suas opiniões acerca disto, as quais são tão errôneas como eles são numerosos. Quanto a nós, se a filosofia gentílica, que trata metodicamente todos estes pontos, fosse realmente adequada para uma demonstração, com certeza seria supérfluo adicionar uma discussão acerca da alma a tais especulações. Mas ainda que tais especulações procedessem, no que se refere ao assunto da alma, avançando tanto quanto satisfizessem ao pensador na direção das conseqüências já antevistas, nós não estamos autorizados para tomar tal licença - refiro-me a sustentar algo meramente por que nos satisfaz; pelo contrário, nós fazemos com que as Sagradas Escrituras sejam a regra e a medida de cada postulado; nós necessariamente fixamos nossos olhos sobre isto, e aprovamos somente aquilo que se harmoniza com o sentido de tais escritos"(Da Alma e da Ressurreição) 

-Ambrósio de Milão (340 – 397 d.C) 

Quem ousará falar quando a Escritura cala? Nós nada devemos acrescentar à ordem de Deus; se vós acrescentais ou tirais alguma coisa sois réus de prevaricação (Ambrósio, Lib. II de vocat. Gent. cap. 3 et lib. de parad. cap. 2; citado por Luigi Desanctis in op. cit., pag. 19) 

“Eis o conteúdo da Escritura divina. Deveríamos audaciosamente ultrapassar os limites (postos) pelos apóstolos? Acaso somos mais prudentes do que os apóstolos?” (Explicação do Símbolo, Cap.3) 

“Com efeito, tens no livro do Apocalipse de João, livro que está no Cânon e que provê um grande fundamento para a fé, pois relembra aí com clareza que nosso Senhor Jesus Cristo é onipotente, embora também isso se encontre em outros lugares -tens nesse livro: “Se alguém acrescentar ou tirar alguma coisa, sofrerá o julgamento e o castigo” (cfAp. 22,18-19). Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos tirar e nada acrescentar!(Explicação do Símbolo, Cap.7) 

“Como é que podemos adotar aquelas coisas que não encontramos nas Sagradas Escrituras?” (Sobre os deveres do Clero, 23) 

-Jerônimo (347 – 420 d.C) 

“Se vós quereis clarificar as coisas em dúvida, ide à lei e ao testemunho da Escritura; fora dali estais na noite do erro. Nós admitimos tudo o que está escrito, e rejeitamos tudo o que não está. As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica sem a autoridade da Escritura são feridas pela espada de Deus (Jerónimo, In Isaiam, VII; In Agg., I; citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 28) 

“Eu encontrei um véu suspenso nas portas desta mesma igreja, o qual estava colorido e pintado, ele tinha uma imagem, a imagem de Cristo pode ser ou de algum santo; eu não recordo mais quem ela representava. Eu pois tendo visto este sacrilégio; que numa igreja de Cristo, contra a autoridade das Escrituras, a imagem de um homem estava suspensa, lacerei aquele véu (Jerome, Lettres, Paris 1951, pag. 171) 

-João Crisóstomo (349-407 d.C) 

Grande é o lucro das divinas Escrituras, e todo-suficiente é a ajuda que vem delas. E Paulo declarou isso quando ele disse: Tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança’" (Homilias sobre o Evangelho de acordo João, 37) 

“Chega um pagão e diz: “Eu gostaria de me tornar um cristão, mas eu não sei em quem participar: há muito luta e facção entre vocês, muita confusão; qual a doutrina que eu devo escolher”? Como vamosresponder-lhe? “Cada um de vocês” (diz ele) “afirma: ‘Eu falo a verdade’”. Sem dúvida: este é o nosso dever. Porque, se nós lhe disséssemos para ser convencido por argumentos, você pode muito bem estar perplexo; mas, se você acredita nas Escrituras, e estas são simples e verdadeiras, a decisão é fácil para você. Se há qualquer acordo com as Escrituras, ele é um cristão, mas se háqualquer luta contra elas, ele está longe de ser a regra” (Homilia sobre os Atos dos Apóstolos, 33) 

-Agostinho de Hipona (354 – 430 d.C) 

Ainda que um anjo do céu vos anuncie outro evangelho que vá além do você recebeu na Escritura evangélica, seja anátema” (Answer to Petilian the Donatist III, 6) 

Mas ninguém pode deixar de estar ciente de que o cânon sagrado da Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamentoestá confinado dentro dos seus limitese que está tão absolutamente em uma posição superior a todas as cartas posteriores dos bispos (Against the Donatists, II, 4) 

"Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..." (Confissões - VI, 5: 2-3) 

“Aqui, alguém talvez pergunte se nossos autores sacros, cujos escritos, inspirados por Deus, constituem para nós um cânon da mais salutar autoridade, se eles devem ser chamados somente sábios ou ainda eloquentes” (A Doutrina Cristã, Livro IV – Sobre a maneira de ensinar a doutrina, Cap.9) 

Ora, a fé cambaleará se a autoridade das Escrituras vacilar. E, cambaleando a fé, a caridade, por sua vez, enfraquer-se-á. Pois diminuir a fé é necessariamente é diminuir também a caridade” (A Doutrina Cristã – Princípios Básicos de Exegese, Cap.41) 

“E o que é mais, o que não aprendeu em nenhuma outra parte, somente encontrará na admirável superioridade profundidade das Escrituras (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.63) 

“Quando as pessoas, que ignoram costumes diferentes dos seus, leem certos fatos, julgam-nos torpeza, a não ser que sejam instruídos pela autoridade das Escrituras (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.22) 

“Em seguida, é preciso tornar-nos mansos pela piedade, para não contradizermos a Escritura divina. Seja quando ela for compreendida e vier a repreender alguns de nossos vícios, seja quando, incompreendida, nós nos imaginarmos capazes de julgar e ensinar melhor do que ela. Devemos, ao contrário, pensar e crer que é muito melhor e mais verdadeiro o que está escrito ali, ainda que oculto, do que possamos saber por nós próprios (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.9) 

“Não faltam obras eclesiásticas – sem contar as Escrituras canônicas, salutarmente colocadas no ápice da autoridade – por cuja leitura um homem bem dotado pode penetrar, além de seu conteúdo, no estilo das mesmas” (A Doutrina Cristã, Livro IV – Sobre a maneira de ensinar a doutrina, Cap.4) 

-João Cassiano (360 – 435 d.C) 

“Assim, os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, o despojamento e a privação de todos os recursos não constituem a perfeiçãomas são instrumentos da perfeição, pois se não é neles que está o fim dessa disciplina, é por eles que se chega ao fim (João Cassiano, Primeira Conferência dos Padres do Deserto) 

-Cirilo de Alexandria (375- 444 d.C) 

“Por isso, a Escritura inspirada é abundantemente suficiente, até mesmo para que aqueles que são sábios e possuidores de uma compreensão abundante e instruídos em todas as coisas” (Contra Julianum, VII) 


Conclusão 

A conclusão inequívoca a que chegamos após tudo isso é que as Escrituras Sagradas são de todo suficiente para o doutrinamento e salvação do cristão que vive de acordo com a verdade de Cristo. Não precisamos de uma tradição fantasma e não-escrita para complementarmos as Escrituras com doutrinas que provém de homens, tal como fizeram os fariseus, os católicos, os mórmons, as testemunhas de Jeová e diversas outras seitas, que complementam as Escrituras com seus ensinos, “profetas” e tradições humanas. 

Como a Escritura canônica está «no ápice da mais salutar autoridade» na fé cristã, qualquer tradição ou ensino que diz ser apostólico deve passar pelo crivo Escriturístico, que decide qual parte está com a razão. Apelar para doutrinas não escritas não é (e jamais foi) razão suficiente para ignorarmos aquilo que está expresso nas Escrituras divinas, como se não tivesse importância.  

O ensino doutrinário que não estivesse fundamentado pela Bíblia não era aceito com o pretexto de estar presente em ensinos não-escritos; ao contrário, era vigorosamente rejeitado pelo «anátema fulminado contra aqueles que acrescentam à Escritura, ou tiram alguma coisa dela». 

O que era claramente expresso pelos Pais da Igreja é que a tradição não tem valor de complementar doutrinas às Escrituras, pelo contrário: tem o dever de interpretar as próprias Escrituras. Por isso, a tradição está sujeita às Escrituras, e não o contrário.  

Aqueles que inventam doutrinas séculos depois de Cristo e para isso apelam a uma suposta tradição não-escrita não estão em conformidade com o ensino dos Pais, onde as evidências Escriturísticas para fundamentar doutrina era de todo necessário, e estas completamente suficientes para fazer o homem de Deus perfeito e plenamente capacitado para toda boa obra. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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Comentários

  1. Ou seja, os "católicos" rejeitaram a infalibilidade Papal e não sabem.

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  2. Lucas apesar de os reformadores terem pregado a sola você acha que o protestantismo é o que eles gostaria que fosse,pois muitas igrejas dizem seguir a sla mas cada uma crê em coisas diferentes e contraditória,como se resolve esse problema?

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    1. Isso não é um "problema", isso é resultado da liberdade de consciência oferecida pelo protestantismo, algo negado pelo catolicismo romano que, tal como qualquer sistema totalitário e tirânico, força que todos concordem com o grande ditador (neste caso, o papa). Eu já escrevi sobre isso neste artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2015/04/quanto-custa-liberdade.html

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