27 de agosto de 2012

Devemos guardar o domingo? - Parte 1


Não sou adventista. Tenho um enorme respeito por eles e admiro muito alguns de seus apologistas (ex: Leandro Quadros, Samuele Bacchiocchi, Azenilto Brito), e os considero irmãos em Cristo, embora tenhamos certas divergências doutrinárias no que tange à guarda do sábado e a outros assuntos de menor expressão. Escrevi no Apologia Cristã um artigo chamado “Devemos guardar o Sábado?”, onde eu refuto a observância obrigatória do 7º dia à luz das Escrituras.

Aqui, porém, irei fazer algo um pouco diferente: Devemos guardar o Domingo? Quem acompanha os meus escritos, sabe que eu não advogo a guarda obrigatória de nenhum dia específico da semana, seja o sábado, o domingo, a quarta ou qualquer outro dia em especial. Mas os católicos sim. O Catecismo Católico ordena explicitamente que “durante o domingo e os outros dias de festa de preceito, os fiéis se absterão de se entregar aos trabalhos ou atividades” (§2185).

Em minha opinião, pior do que condenar os que guardam o sábado é guardar o domingo. Pois, se o primeiro pelo menos tem uma base veterotestamentária para os judeus que viveram até a ressurreição de Cristo, o segundo não tem nem isso. Não existe absolutamente nenhuma passagem das Escrituras que nos obrigue a não trabalhar no domingo. Os católicos geralmente se apoiam no fato de que Jesus ressuscitou no domingo, e por isso devemos guardá-lo. Porém, este é um argumento fraco e frágil, que se baseia no seguinte raciocínio:

*A é comprovadamente verdadeiro.
*A não poderia existir se Bnão existisse.
*B, portanto, é uma consequência irredutível da veracidade de A.
*Portanto, B também é verdadeiro.

No esquema que montamos, A seria o fato de que Jesus ressuscitou no domingo, enquanto B seria o fato de que, por isso, devemos guardar o domingo como dia de descanso. Porém, se eles não conseguem provar nem ao menos A, quanto menos B! Ora, não há um consenso unânime entre os teólogos de que Cristo tenha mesmo ressuscitado no domingo. Para quem está surpreso com essa afirmação, recomendo que leia os artigos que tratam deste assunto de um prisma diferente, clicando aqui, aquiaquiaqui, e aqui.

Se alguém pensa que só os adventistas que pregam isso, está muito enganado. Muitos sites que defendem o sábado são de protestantes extremamente ortodoxos (até demais), como é o caso do Sola Scriptura TT, e vale ressaltar também que muitos adventistas creem que Cristo ressuscitou no domingo. Eu particularmente acho um pouco mais coerente a tese de que Jesus ressuscitou no início do domingo, mas não há unanimidade quanto a isso, para ser tomado como um argumento incontestável.

Para quem quiser acompanhar um breve resumo dos argumentos de ambos os lados em um site evangélico imparcial, recomendo que clique aqui. Há também um debate meu no Orkut em 2010 sobre este tema, que você pode conferir clicando aqui. Em resumo, é uma ilusão crer que A é um fundamento indubitável e indiscutível. Se há algo que possa ser considerado polêmico, esse com certeza é o dia da ressurreição de Jesus, de modo que torna-se incoerente basear argumentos sobre alicerces duvidosos e não incontestavelmente comprovados.

Em segundo lugar, é importante lembrarmos que, mesmo se Jesus ressuscitou mesmo no domingo, isso não significa necessariamente que devemos guardar o domingo. Quem foi que disse que devemos guardar o domingo porque foi neste dia que Jesus ressuscitou? Essa, na verdade, é simplesmente uma interpretação alegórica do texto bíblico, que pode perfeitamente ter outros significados, ou mesmo não ter qualquer significado espiritual, mas apenas o material.

Por exemplo, pode ser que Cristo tenha ressuscitado no domingo simplesmente porque ele quis. E daí? Quem é que vai obrigá-lo a ressuscitar em outro dia, como se o fato de ele ter ressuscitado em qualquer dia da semana implique obrigatoriamente na observância deste dia? Por acaso se Jesus tivesse ressuscitado numa quarta, então significa que deveríamos guardar a quarta?

E quem foi que disse que o dia da guarda tem que ser necessariamente o dia da ressurreição? Por que não poderia ser o dia da morte? Ou o da Santa Ceia? Ou o do batismo? Ou o do nascimento? Ou o de qualquer outro acontecimento importante e relevante no ministério de Cristo? Por acaso algum anjo caiu do Céu indicando que “ressurreição = dia de guarda”? Se o fato de Jesus ter sido morto numa quarta ou sexta-feira não implica que essa quarta ou sexta-feira deva ser tomada como uma interpretação espiritual de algum significado maior em cima disso, por que deveria ser diferente no caso da ressurreição?

Como podemos ver, não há nada mais furado do que este “argumento da ressurreição”, que mais consegue multiplicar as perguntas em aberto do que objetivamente respondê-las de forma categórica, objetiva e satisfatória. Além disso, ainda que de fato a ressurreição de Jesus tivesse acontecido no domingo e que este acontecimento devesse ser encarado com alguma interpretação espirituosa em cima dele, isso não significa que essa interpretação deva ser necessariamente a guarda do domingo.

Por exemplo, eu poderia espiritualizar a passagem da mesma forma, mas com uma interpretação totalmente diferente. Eu poderia dizer que a morte é biblicamente assemelhada a um “descanso” (como de fato ocorre – Jo.11;13; Sl.13:3), e que o único dia completo em que Jesus passou “descansando” (i.e, morto) foi no sábado (pois ele teria ficado apenas uma parte da sexta morto, o sábado inteiro, e, então uma parte do domingo), e isso então significa que Cristo quis descansar completamente no sábado, e por isso ressuscitou no domingo.

Quem pode provar o contrário? Somente se for com os mesmos argumentos pelos quais podemos refutar a guarda do domingo por causa do dia da ressurreição; ou seja, porque é puramente especulativo, sem uma evidência bíblica incontestável a este respeito. Ou seja, pelos mesmos motivos que podemos refutar a interpretação católica do verso! Eu particularmente não creio na interpretação alegórica que fiz acima (que poderia demonstrar que Jesus ressuscitou no domingo porque quis descansar no sábado), mas acho menos incoerente do que a ridícula interpretação de que isso significa que devemos guardar o domingo!

Em resumo, podemos dizer que:

1. Não existe um consenso unânime entre os teólogos de que Cristo tenha realmente ressuscitado no domingo. Ainda que isso seja possível ou até mesmo provável, existem evidências contrárias também aos montões.

2. Mesmo que Jesus tenha ressuscitado no domingo, isso não significa que devemos interpretar alguma coisa a mais além disso. Não significa necessariamente que devemos espiritualizar este acontecimento como se implicasse necessariamente na guarda de algum dia da semana, assim como o nascimento, batismo e morte de Cristo não implicam em algum dia de guarda ou interpretação espiritual e alegórica em cima destes acontecimentos.

3. Mesmo se Jesus tivesse mesmo ressuscitado no domingo e isso implicasse necessariamente em alguma interpretação espiritual que Deus quis nos revelar através deste fato, isso não significa de modo nenhum que este “fato” é que devemos guardar o domingo. Existe uma série de interpretações alegóricas que poderíamos extrair deste acontecimento, todas elas mais coerentes do que a tese na guarda do domingo.

4. Portanto, o argumento católico da guarda do domingo por causa do dia da ressurreição de Jesus é de todo falho, incoerente, superficial e falacioso, como, aliás, são todos os seus outros dogmas e suas doutrinas.

Em resumo, os católicos leem no texto muito mais do que nele existe. Mesmo supondo que Jesus ressuscitou mesmo no domingo, isso só significa isso: que Jesus ressuscitou no domingo. O que vai além disso,é a interpretação deles, e não algo que está escrito na Bíblia ou defendido por algum apóstolo.

Por exemplo, o máximo que podemos extrair do testemunho bíblico seria, neste caso, que «Jesus ressuscitou no domingo». Mas, onde os apóstolos dizem que «Jesus ressuscitou no domingo», os católicos interpretam que «Jesus ressuscitou no domingo e isso significa que devemos guardar o primeiro dia da semana como o dia de descanso».

Ou seja, a primeira afirmação seria bíblica (sobre a ressurreição de Jesus), mas a segunda já ficaria por conta deles (sobre a interpretação deles que eles mesmos tiraram do texto bíblico).

Como o meu compromisso é somente com a verdade bíblica e não com as interpretações particulares que cada um pode espiritualizar em cima de qualquer coisa na Bíblia e sem qualquer fundamento, então o máximo que eu poderia ir seria reunir evidências de que Jesus tenha ressuscitado neste ou naquele dia da semana, mas jamais espiritualizar algo em cima de um argumento contestável e que não implica necessariamente em coisa nenhuma (e, mesmo se implicasse, não significaria que a interpretação deles é a que está correta).

Portanto, quando analisamos os argumentos católicos, vemos que:

*A é comprovadamente verdadeiro isso não é provado.

*A não poderia existir se B não existisse isso muito menos.

*B, portanto, é uma consequência irredutível da veracidade de A de jeito nenhum.

*Portanto, B também é verdadeiro portanto, não há nenhuma prova de que B seja verdadeiro.

Quando analisamos com mais critério e senso crítico as argumentações católicas a favor da guarda do domingo, constatamos que não existe nenhum argumento sólido que nos mostre objetivamente qualquer sinal da veracidade de suas alegações.

E, como o “argumento da ressurreição” é o único que eu já vi ser citado a favor da guarda obrigatória do domingo (porque não existe absolutamente nenhuma passagem bíblica que afirme que devemos guardar o primeiro dia no sentido de não podermos trabalhar neste dia da semana, mas somente nos demais), fica claro como a luz do dia que a guarda do domingo não tem sequer qualquer fundamento bíblico sério que necessite de refutação.

No próximo artigo, portanto, será necessário apenas mostrar como que a guarda do sábado não foi substituída pela guarda do domingo, mas representava apenas o descanso celestial (eterno), e não outro descanso terreno que fosse em tudo semelhante ao do Antigo Testamento, apenas mudando-se o dia da semana, o que, na prática, não tem diferença nenhuma.

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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Um comentário:

  1. Perfeito irmão Lucas.

    Não há mandamento para cristãos guardar qualquer dia. Ao contrário, Paulo em Gálatas e Colossenses parece criticar esta prática como mandamento:

    "Guardais dias, meses, tempos e anos. Temo que eu talvez tenha ministrado inutilmente para convosco." (Gálatas 4:10-11);

    "Portanto, ninguém tem o direito de vos julgar pelo que comeis, ou pelo que bebeis, ou ainda com relação a alguma festa religiosa, celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Esses rituais são apenas sombra do que haveria de vir; a realidade, todavia, encontra-se em Cristo." (Col.2:16-17).

    Por outro lado, ainda que não seja mandamento, creio que a guarda de um dia para o Senhor seja um bom costume, como outros que temos, desde que não imposto, como se mandamento fora. É neste sentido que parece agora Paulo elogiar em Romanos 14:5-10:

    "Há quem considere um dia mais sagrado do que outro; outra pessoa pode entender que todos os dias são iguais. Cada um deve estar absolutamente convicto em sua própria mente. Aquele que guarda um dia especial, para o Senhor assim o considera. Aquele que se alimenta de carne, o faz para o Senhor, pois dá graças a Deus; e aquele que se abstém, para o Senhor se priva, e também dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive exclusivamente para si, e nenhum de nós morre apenas para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; e, se morremos, é para o Senhor que morremos. Sendo assim, quer vivamos ou morramos, pertencemos ao Senhor. Porquanto foi por este motivo que Cristo morreu e voltou a viver, para ser Senhor tanto de vivos quanto de mortos.
    Mas, tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, igualmente, por que desprezas teu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus."

    Assim, o mal não estar em guardar um bom costume e sim e impor este aos outros como se fora mandamento do próprio Deus. Até Paulo foi humilde neste sentido quando dizia a Igreja de Corinto, no capítulo 7: "Entretanto, prego isso como concessão e não como mandamento...(vs.6) e "Aos demais digo eu e não o Senhor..." (vs.12) e "Quanto aos solteiros, não tenho mandamento específico do Senhor. Dou, no entanto, meu parecer como um homem que, pela misericórdia do Senhor, tem vivido em fidelidade." (vs.25).

    Paz a todos que estão em Cristo.

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