28 de agosto de 2012

O que era a verdadeira "tradição apostólica"? - Parte 1



Vimos em dois artigos aqui no blog que os Pais da Igreja adotavam o princípio cristão da Sola Scriptura (o que você pode conferir clicando aquie aqui, e também em meu outro site, clicando aqui).

Porém, se o amigo leitor for dar uma olhada em alguns sites católicos desprestigiosos que tem por aí, irão se deparar com uma série de passagens isoladas nos escritos dos Pais da Igreja totalmente desorganizadas e lançadas na tela sem qualquer exegese ou interpretação em cima delas, simplesmente acreditando que em tudo o que é lugar onde está escrito a palavra “tradição” significa que os Pais da Igreja não adotavam a Sola Scriptura, como se as tradições da Igreja excluíssem a autoridade única e suprema das Sagradas Escrituras.

Este tipo de argumentações desconexas pode ser visto nas argumentações de qualquer herege, não somente dos apologistas católicos. Por exemplo, há alguns anos eu debati com um espírita que jurava de pé junto que em todo lugar em que a palavra “espírito” aparecia na Bíblia significava aquela entidade incorpórea, consciente e racional, que se despreende do corpo por ocasião da morte e volta a encarnar novamente em outro corpo sabe-se lá quanto tempo depois, exatamente conforme ele havia aprendido de Kardec.

Foi o maior tédio ter que provar pra ele que a palavra “espírito” na Bíblia tinha um significado totalmente diferente daquilo que significava nos escritos de Allan Kardec. Para ele, em qualquer lugar da Bíblia que aparecesse a palavra “espírito”, já significava logo de cara as teses espíritas e kardecistas, e não tinha nem conversa! Não importava o contexto, a exegese bíblica ou o significado real dos termos.

A mesma coisa acontecia quando a Bíblia se referia aos demônios como sendo “espíritos malignos”. Para ele, isso queria dizer que os demônios não eram demônios, mas “espíritos” (no sentido kardecista da palavra!). Mas não é somente com espíritas inexperientes que esta má interpretação acontece aos montões. Os católicos possuem a mesma deficiência técnica quando leem a palavrinha mágica chamada “tradição” nos escritos dos Pais. Para eles, significa logo de cara que por “tradição” implica necessariamente em:

1. Uma doutrina que não se encontra na Bíblia em lugar nenhum.

2. Uma doutrina que foi transmitida somente oralmente.

3. Uma doutrina não-escrita e não-bíblica (i.e, fora das Escrituras) que foi conservada pela Igreja de Roma.

4. Uma doutrina que serve para complementar as Escrituras e que está a par dela.

5. Uma autoridade de fé distinta das Escrituras, que serve para comprovar doutrinas que não se encontram na Bíblia.

Então, em todas as vezes que os “apologistas” católicos (ou pelo menos os mais inexperientes e amadores deles) leem a palavra “tradição” nos escritos dos Pais, não importa o contexto, eles logo já têm em mente os cinco significados que eles aprenderam na catequese, que seriam aquilo que a “tradição” significaria. Eles não buscam mostrar aquilo que é a tradição, eles somente visam empurrar goela abaixo a interpretação deles daquilo que seria a tradição.

Cabe a nós, então, quebrarmos o encanto católico e desvendarmos de uma vez por todas o que realmente significava a “tradição”, provando que os Pais da Igreja não eram incoerentes para que uma hora afirmassem que a Sagrada Escritura é a única regra de fé e suficiente para a salvação, para que em outro momento apelassem a uma tal “tradição”, que, teoricamente, seria contrária às Escrituras. Deve haver um consenso, e não uma contradição. E é exatamente isso o que eu irei analisar a partir de agora.

Antes de tudo, vamos à conversa de Jerônimo com Agostinho. Eles estavam entrando em um embate teológico acerca da repreensão de Paulo a Pedro, descrita no segundo capítulo de Gálatas. O problema era que Agostinho cria em uma coisa, e Jerônimo em outra. Para Agostinho, Paulo estava totalmente com a razão em ter criticado Pedro na frente de todos.

Já para Jerônimo, Paulo estava sendo dissimulado, pois este, segundo ele, cometia os mesmos erros de Pedro em outras ocasiões, então não tinha moral para repreender Pedro. Agostinho, quando ficou sabendo desta nova interpretação que Jerônimo tinha acerca desta passagem, ficou assustado, e escreveu uma carta a Jerônimo, o que acabou dando início a um longo debate entre eles acerca deste e de outros temas. Nesta carta, Agostinho escreve a Jerônimo nas seguintes palavras:

“Em sua exposição da Epístola de Paulo aos Gálatas eu encontrei uma coisa que me causa muita preocupação. Pois se declarações falsas em si mesmas tenham sido admitidas na Sagrada Escritura, que autoridade restará para nós? (Jerome, Letter 67, From Augustine, Cap.3)

Agostinho sustentava a posição de que a Escritura declarava categoricamente que Pedro estava agindo de maneira errada, de modo que a interpretação de Jerônimo ia contra a clareza das Escrituras, distorcendo-as, como se fossem falsas. Então, Agostinho diz que, se declarações falsas fossem admitidas nas Escrituras, nenhuma autoridade restaria para eles.

Isso é certamente surpreendente, pois nos revela que a Escritura era a única autoridade de fé dos primeiros cristãos. Agostinho diz que, sem as Escrituras, não restaria nenhuma autoridade para eles. A pergunta retórica que ele faz: “que autoridade restará para nós?” mostra claramente como que eles não consideravam a tradição oral como uma outra autoridade complementar (como creem os católicos), mas a Sagrada Escritura como única e insubstituível.

Deste modo, podemos ver que os Pais da Igreja não consideravam a tradição da mesma forma que os católicos atuais a veem. Eles não criam que a tradição fosse uma autoridade a par das Escrituras, como o catolicismo fortemente crê, dizendo que “a tradição é parte da revelação de Deus e por isso deve ser respeitada a par da Escritura (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 375). O Concílio Vaticano II expressa este parecer católico errôneo ao dizer:

Não é através da Escritura apenas que a Igreja deriva a certeza a respeito de tudo aquilo que foi revelado. Por isso, ambas (Escritura e Tradição) devem ser aceitas e veneradas com igual sentido de piedade e reverência (Compêndio do Vaticano II, pág.127)

Portanto, para os católicos, a tradição é uma autoridade de fé a par das Escrituras e com a mesma autoridade delas. Porém, para os Pais da Igreja, a tradição servia apenas para interpretar as Escrituras, e não para estabelecer uma autoridade à parte delas, para fundamentar doutrinas que não se encontrassem na Bíblia. Os próprios doutores da Igreja Ortodoxa (que também creem na tradição) admitem isso, dizendo:

“As Sagradas Escrituras são o coração da Tradição e o fundamento da fé”(“A Igreja Grego-Ortodoxa”, Rev. Robert G. Stephanopoulos, Ph.D)

“Igreja Cristã é uma Igreja Escritural: a Ortodoxia crê nisso, tão ou mais firmemente que o Protestantismo. A Sagrada Escritura é a expressão suprema da revelação de Deus ao homem, e os Cristãos devem ser sempre o ‘Povo do Livro (“A Igreja Ortodoxa”, Bispo Kallistos Ware)

Para os Ortodoxos, a tradição não era uma regra de fé a par das Escrituras que servia para complementá-las; ao contrário, era apenas um meio evocado para estabelecer uma interpretação hermenêutica da única suprema e soberana regra de fé: as Escrituras. George Florovsky, arcipreste da Igreja Ortodoxa (1893-1979), escreveu sobre isso nas seguintes palavras:

“Além disso a exegese era, naquele tempo, o principal, e talvez o único, meio teológico, e, a autoridade das Escrituras era soberana e suprema. Os Ortodoxos eram forçados a levantar as questões hermenêuticas cruciais: Qual era o princípio de interpretação? ... Foi nessa situação histórica que a autoridade da Tradição foi invocada pela primeira vez”(Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

O próprio Florovsky faz questão de ressaltar que essa “tradição” não serve nem nunca serviu para fundamentar doutrinas que não se encontram nas Escrituras, nem tampouco para deixar a Sagrada Escritura “insuficiente” em si mesma. Ele diz:

“A tradição na Igreja Antiga era, antes de tudo, um princípio e método hermenêutico. As Escrituras podiam ser correta e completamente acessadas e entendidas somente à luz e no contexto da Tradição Apostólica viva, que era um fator integral da existência Cristã. Era assim, não porque a Tradição pudesse acrescentar qualquer coisa ao que havia sido manifestado nas Escrituras, mas porque ela provia o contexto vivo, a perspectiva compreensiva, e só nela, a verdadeira "intenção" e o "projeto" total dos Santos Escritos, da Divina Revelação, poderiam ser detectados e pegos” (Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

Portanto, essa “tradição” (método hermenêutico para interpretar as Escrituras) não era de forma alguma aquilo que é hoje pregado pelos católicos romanos, um verdadeiro circo de doutrinas não-bíblicas e extra-bíblicas, que não se encontram em parte alguma das Escrituras, mas servem como pretextopara fundamentarem cada vez mais dogmas em cima dela. Ao contrário, ela servia apenas e tão somente para interpretar a Bíblia, sem poder acrescentar qualquer coisa ao que havia sido manifestado nas Escrituras!

Florovsky segue o seu raciocínio citando também Atanásio:

“O argumento era ainda estritamente Escritural, e, em princípio, Santo Atanásio admitia a suficiência das Escrituras, sagradas e inspiradas, para defesa da verdade (c.Gentes,I). Somente que as Escrituras tinham que ser interpretadas no contexto da tradição viva da crença, sob a direção e controle da "regra da fé." Essa "regra," no entanto, não era de modo algum, uma autoridade "estranha" que poderia ser "imposta" sobre os Santos Escritos. Era a mesma "pregação Apostólica" que estava escrita nos livros do Novo Testamento, mas era, como se fosse, essa pregação in epítome... No capítulo de encerramento dessa primeira epístola a Serapion, Santo Atanásio retorna mais uma vez ao mesmo ponto. "De acordo com a tradição passada a nós pelos Padres, eu passei essa tradição sem inventar nada estranho a ela. O que eu aprendi, eu escrevi (ενεχαραξα, eneharaksa), em conformidade com as Escrituras" (c.33)” (Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

Note novamente que essa tradição não afetava de maneira nenhuma os princípios básicos da Sola Scriptura (de que a Sagrada Escritura é o ápice da autoridade em matéria de fé e doutrina e suficiente em si mesma), pois o próprio arcipreste ortodoxo renomado afirma que eles eram ainda (na época de Atanásio, séc.IV) “estritamente Escriturais”, isto é, estritamente fundamentados naquilo que está escrito na Bíblia.

Ele ainda afirma que Atanásio admitia a suficiência das Escrituras, e que essa nova “regra interpretativa”, chamada de “tradição”, não era algo paralelo ou diferente das Escrituras, mas exatamente a mesma pregação apostólica que estava escrita nos livros do Novo Testamento! Ele ainda segue citando Atanásio, que dizia seguir a tradição, mas não uma tradição não-bíblica que adicionasse doutrinas ou dogmas que não se encontram na Escritura (como é o caso dos católicos romanos), mas sim em conformidade com as Escrituras!

Portanto, a tradição, longe de trazer insuficiência à Bíblia ou de retirar o ápice de superioridade dela, pode ser considerada apenas quando está em total conformidade com as Escrituras, e não para acrescentar doutrinas que não se encontram na Bíblia!

No próximo artigo da série, irei analisar mais aspectos nos escritos dos Pais e na História acerca daquilo que realmente significa a “tradição”, que, longe de ter os significados que o catolicismo a ela atribui, serve muito mais para confirmar a tese cristã da Sola Scriptura do que para rejeitá-la.

Não percam os próximos artigos da série.

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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4 comentários:

  1. Parabéns pelo eu excelente texto !!!!! Continue assim até desvendar tudo dessa igreja.
    Paz !!!!
    ((Matheus ))

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  2. Olha só esses vídeos, Lucas, de um "debate" (em que eles omitiram totalmente a argumentação protestante) entre católicos ortodoxos e protestantes sobre a Bíblia e a Tradição:

    https://www.youtube.com/watch?v=-P0R8n-1brM

    https://www.youtube.com/watch?v=bXaqiJgscmk

    https://www.youtube.com/watch?v=pYrBNwaXHRQ

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    Respostas
    1. Eu já vi há uns meses atrás e já escrevi uma refutação ao ortodoxo que me havia enviado estes vídeos por e-mail. De fato, eles omitiram totalmente a argumentação dos pastores (que eu não sei se foi boa ou ruim, mas pelo menos deveriam ter postado o debate inteiro, é o mínimo que se espera de alguém com caráter).

      Abraços.

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