22 de agosto de 2012

Os Pais da Igreja e a transubstanciação - Parte 2


Esta é a segunda parte do estudo sobre os Pais da Igreja e a transubstanciação (a primeira parte você pode conferir clicando aqui). Irei continuar com mais citações dos Pais da Igreja sobre o tema. Já vimos citações claras e evidentes de que Agostinho, Virgílio, Crisóstomo, Teodoreto, Tertuliano, Inácio e até mesmo o papa Gregório I negavam a transubstanciação.  

Iremos conferir, a partir de agora, mais evidências contundentes de que outros Pais da Igreja também negavam a tese da transubstanciação (canibalismo), e criam que as declarações de Cristo a respeito de que o pão era o seu corpo estavam em um sentido típico e simbólico. Foi exatamente assim que Orígenes de Alexandria (185 – 253) definiu a Ceia do Senhor: 

“Não é a matéria do pão, mas a palavra dita sobre ele, ao que ajuda ao que não o come indignamente.Tudo acerca do corpo é típico e simbólico (Comentário sobre Mateus 15.10-20) 

“E estas coisas certamente são ditas do corpo típico e simbólico (Comentário sobre Mateus, Livro 11, 14) 

Por duas vezes Orígenes afirma em seu Comentário ao Livro de Mateus que aquilo que foi dito sobre o corpo foi dito de maneira simbólica, e não em sentido literal. Por isso – ele diz – o pão e o vinho são o corpo e o sangue de Cristo de forma típica e simbólica, e não de maneira física e literal. Mais do que isso, Orígenes é claro em dizer que Cristo não chamou seu corpo àquele pão visível, mas sim à Palavra: 

O Verbo Deus não chamou seu corpo àquele pão visível que tinha nas suas mãos, mas à Palavra, em cujo mistério devia partir-se o pão. Não chamou seu sangue àquela bebida visível, mas à Palavra, em cujo mistério se serviria esta bebida. Porque que outra coisa pode ser o corpo ou o sangue do Verbo Deus senão a palavra que alimenta e alegra os corações?” (Comentário sobre Mateus série 85) 

Em outras palavras, Orígenes não cria que aquele próprio pão visível fosse literalmente o corpo de Cristo, nem que aquele próprio vinho visível fosse literalmente seu sangue, mas sim que a Palavra de Deus, que alimenta e alegra os corações, era espiritualmente o corpo e sangue de Cristo.  

Quando ele diz: “que outra coisa pode ser o corpo ou o sangue do Verbo de Deus” ele não diz que é o próprio pão ou vinho (o que já havia sido rejeitado por ele na própria declaração acima), mas sim a Palavra, que nos alimenta espiritualmente. Essa interpretação espiritual da Ceia é completamente análoga à interpretação protestante e vigorosamente contra a interpretação católica.  

Outro que aderiu à interpretação da Ceia não como transubstanciação, mas como em sentido figurado, foi Clemente de Alexandria (150 – 215), que disse: 

“De muitos modos o Verbo é descrito figurativamente, como alimento, como carne, como refeição; é pão, é sangue e leite. O Senhor é tudo isso para dar gozo a nós que temos crido nele” (Pedagogo I. 6) 

Ele afirma que o Verbo como sendo pão é uma descrição figurada, e não algo literal. Cristo é “descrito figurativamente” como sendo alimento (como pão), mas não literalmente. Os católicos, porém, interpretam de maneira literal que Cristo é um alimento – o pão – que é transformado por ocasião da Ceia. Em outro momento, Clemente de Alexandria escreve dizendo que a frase de Cristo sobre comer sua carne e beber seu sangue era um simbolismo e uma metáfora: 

“Noutro lado o Senhor, no Evangelho segundo João, menciona isto mediante símbolos, quando disse: ‘Comei a minha carne e bebei o meu sangue’ [João 6:34]; descrevendo claramente por metáfora as propriedades bebíveis da fé e da promessa, por meio da qual a Igreja, como um ser humano composto de muitos membros, é refrescada e cresce, é ligada e compactada por ambas – pela fé, que é o corpo, e pela esperança que é a alma; como também o Senhor de carne e sangue” (O Pedagogo, 1:6) 

Clemente não interpretava a passagem de João 6 e as declarações de Cristo sobre comer sua carne e beber seu sangue de maneira literal, como fazem os católicos. Ao contrário, ele declarou explicitamente que aquilo era um simbolismo, e em seguida afirma que era claramente uma metáfora, e não algo que devêssemos tomar de maneira literal.  

Os evangélicos creem como Clemente e os demais Pais da Igreja – que comer a carne de Cristo e beber o seu sangue é claramente uma metáfora – mas os católicos creem precisamente no inverso disso: que a carne de Cristo deve ser realmente comida e o seu sangue literalmente bebido por ocasião da Ceia, e que não tem nada de metáfora ou simbolismo ali!  

Clemente também assumiu a posição de que o sangue de Cristo foi denominado figurativamente vinho, e não “literalmente”: 

“Mas uma vez que Ele disse: ‘E o pão que darei é a minha carne’ e uma vez que a carne é umedecida com sangue, e o sangue é denominado figurativamente vinho, estamos convidados a saber que, como o pão, desfeito numa mistura de vinho e água, apanha o vinho e deixa a porção aquosa, assim também a carne de Cristo, o pão do céu, absorve o sangue; isto é, aqueles dentre os homens que são celestiais, nutrindo-os para imortalidade, e deixando para destruição somente as concupiscências da carne” (O Pedagogo, 1:6) 

Ele cria que o sangue é figurativamente vinho, e não literalmente, como pensam os católicos. Enquanto estes acreditam cegamente que o Verbo de Deus torna-se literalmente um alimento como pão e vinho, Clemente afirmava sem qualquer hesitação que as afirmações sobre Cristo ser pão e vinho eram figurativas, e não literais: 

“Assim, de muitas maneiras o Verbo é figurativamente descrito, como alimento, e carne, e comida, e pão, e sangue, e leite. O Senhor é tudo isto, para dar-nos desfrute a nós que cremos nEle. Que ninguém pense que é estranho, quando dizemos que o sangue do Senhor é figurativamente representado como leite. Pois, não é figurativamente representado como vinho?” (O Pedagogo, 1:6) 

Clemente faz questão de dizer que Jesus é “figurativamente descrito” como alimento, e que éfigurativamente representado pelo vinho”, precisamente para não dar chances a pessoas que interpretassem erroneamente o texto bíblico, pensando por ignorância que o pão e o vinho fossem literalmente o corpo e o sangue de Cristo como ocorre na “transubstanciação”.  

Hipólito de Roma (170 – 236) também foi outro a declarar que o pão é o “símbolo” do corpo de Cristo: 

“Então será apresentada a oblação ao bispo e ele dará graças sobre o pão porque é o símbolo do corpo de Cristo; sobre o cálice de vinho misturado, porque é a imagem do sangue que foi derramado por todos os que creem nele” (A Tradição Apostólica, 21) 

Ele não diz que “o pão é literalmente o corpo de Cristo”, mas sim que “o pão é um símbolo do corpo de Cristo”. Portanto, o pão como sendo o corpo de Cristo está muito mais para uma simbologia do que para uma literalidade. Devemos, portanto, tomar as palavras de Cristo conforme ele mesmo disse que devíamos tomar: em sentido espiritual, não físico: 

“O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida (João 6:63) 

Tendo em vista tudo isso que foi analisado nas partes 1 e 2 deste estudo sobre a eucaristia nos escritos dos Pais da Igreja, chegamos à conclusão de que eles criam como os evangélicos, não como os católicos. É frequentemente encontrado em seus escritos menções claras e explícitas de que os elementos não mudam de substância ou natureza após a consagração, que as declarações de Cristo sobre seu corpo e sangue eram simbólicas, figuradas e metafóricas, e que o pão e o vinho permanecem na sua substância de pão e vinho.  

Por maior que seja o esforço católico em encontrar passagens isoladas nos escritos dos Pais tentanto encontrar algum indício, por menor que seja, que fundamente as suas doutrinas, eles jamais conseguíram encontrar algo que se associasse a uma transformação literal e física de substância ou a qualquer menção do termo “transubstanciação”, que era totalmente desconhecido pelos Pais da Igreja.  

Nunca qualquer Pai da Igreja afirmou que o pão e o sangue se transformam literalmente no «corpo, sangue, alma e divindade de Cristo», nem tampouco se referiram à “transubstanciação” da forma que a Igreja de Roma ensina. Mesmo as declarações de que o pão é o corpo de Cristo e o vinho é o seu sangue, implicitamente trazem consigo os pressupostos de que as palavras de Cristo estavam em um sentido espiritual e figurado, não em um sentido físico ou literal, pois tal doutrina ainda não havia sido propagada na Igreja.  

Se eu faço um bolo de chocolate e digo que aquele bolo é literalmente o corpo e alma de Elvis Presley, eu serei um maluco e lunático. Mas se eu pregar que o corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo estão literalmente num pedaço de bolacha que eles chamam de hóstia, eu não seria nada a mais do que um católico. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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