31 de agosto de 2012

João 6 e a transubstanciação - Parte 4


Vamos dar continuidade à nossa série sobre João 6 e a transubstanciação, neste que já é o 4º capítulo da série. Não deixe de conferir os três capítulos anteriores, os quais você pode conferir clicando aqui, aqui e aqui.

Terminamos o último capítulo falando exatamente sobre a interpretação católica, segundo a qual o fato de que os judeus ficaram escandalizados e o fato de Jesus não ter dado nenhuma “explicação” significa, portanto, que as palavras de Cristo eram literais e físicas, e não simbólicas e espirituais. Deixe-me analisar rapidamente cada um destes dois últimos argumentos católicos:


1) Os judeus interpretaram as palavras de Cristo como sendo literais.

Isso não é mais do que aquilo que deveríamos esperar de um povo que em grande parte era ignorante da linguagem espiritual que Cristo sempre costumava empregar, e por isso se escandalizavam. Ora, o próprio Jesus disse que a eles “tudo é dito por parábolas, a fim de que, ainda que vejam, não percebam, ainda que ouçam, não entendam; de outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados!” (Mc.4:11,12).

Portanto, o próprio Cristo declarava que os judeus não entendiam aquilo que ele falava. Se entendessem, não iriam crucificar o Senhor da glória. O mesmo Jesus disse em outra ocasião a estes mesmos judeus:

“Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo (João 8:43)

Os judeus não entendiam a linguagem de Cristo – entendiam tudo errado, pois interpretavam tudo de modo literal, humano e físico, quando deveriam interpretar as verdades espirituais que eram ditas através das alegorias que Jesus constantemente empregava.

Portanto, o fato de que os judeus entenderam que Jesus estava falando literalmente é mais uma prova contra do que a favor da transubstanciação, pois os judeus sempre entendiam errado aquilo que Cristo dizia. Não é interessante ver sempre os argumentos católicos voltando-se contra eles mesmos? O fato é que não é somente aqui que os judeus entenderam errado as palavras de Cristo, materializando aquilo que era puramente espiritual.

Podemos listar vários outros erros de interpretação dos judeus, como, por exemplo:

1. Eles entenderam errado aquilo que Cristo disse sobre destruir o tempo e reconstruí-lo em três dias, sendo que Jesus falava sobre o seu próprio corpo (Jo.2:19-21).

2. Eles entenderam errado aquilo que Cristo disse sobre a morte, pensando que estivesse falando simplesmente do sono ordinário (Jo.11:13).

3. Eles não entenderam que Cristo estava falando a respeito do Pai em João 8:27.

4. Eles não entenderam a ilustração de Cristo em João 10:1-6.

5. Eles entenderam errado aquilo que Cristo disse sobre ter descido dos céus (Jo.6:41,42).

6. Eles entenderam errado aquilo que Jesus disse sobre nascer de novo (Jo.3:4).

7. Eles entenderam errado aquilo que Jesus disse sobre o fermento dos saduceus e dos fariseus (Mt.16:11).

8. Eles não entenderam a morte e a ressurreição de Jesus que este preveu em Lucas 18:32-34.

9. Eles entenderam errado a linguagem que Cristo expressou sobre os rios de água viva correndo do seu interior (Jo.7:38).

10. Eles entenderam errado aquilo que Jesus falou em João 8:21 e pensaram que Cristo iria se matar (Jo.8:22).

Enfim, poderíamos adicionar dúzias de citações nas quais os judeus, e por vezes até mesmo os próprios discípulos de Cristo, interpretaram tudo errado aquilo que ele lhes disse. Na verdade, difícil mesmo será listarmos alguma coisa que a multidão de judeus entendeu corretamente daquilo que Cristo disse, pois aquela comunidade era extremamente materialista, não entendia as figuras de linguagem, muito menos aquilo que estava em sentido espiritual.

E o problema é que a maior parte daquilo que Cristo dizia, ainda mais no evangelho de João, era em sentido espiritual, e não físico. Jesus falava com a multidão por parábolas (verdades espirituais) e não abertamente, com verdades físicas (literais).

Portanto, tendo em vista a linguagem de Cristo, que não era perceptível aos judeus, unido ao fato de que estes sempre materializavam tudo aquilo que o Mestre lhes falava, fica claro que o que ocorreu em João 6 não foi nenhuma “novidade”, mas somente mais um dentre os inúmeros casos em que os judeus entenderam errado a mensagem de Cristo, materializando tudo.

Uma variante deste argumento é dizer que os discípulos (agora não mais os judeus) entenderam as palavras em sentido literal. Essa interpretação falha por três motivos. Em primeiro lugar, porque isso não fica claro no texto. Por mais que diversas vezes os discípulos também entendessem errado as palavras de Cristo (Jo.10:1-6; Mt.16:11; Lc.18:32-34), não há qualquer indício de que o mesmo tenha ocorrido aqui, em João 6.

A multidão pensou que Cristo estava falando literalmente, e foi embora. Os discípulos, ao que parece, foram mais sensatos, e ao que tudo indica interpretaram corretamente em seu devido sentido espiritual, pois continuaram com Cristo.

Em segundo lugar, se os discípulos entenderam em sentido físico e material as palavras de Cristo (assim como os judeus erroneamente fizeram ao longo de todo o discurso e em todo o contexto), é estranho que nenhum deles tenha mordido a orelha de Cristo, arrancado um de seus dedos ou sugado o seu sangue.  

É bizarro, mas é verdade. Se Jesus não estava falando nada a menos do que comer literalmente a sua carne e beber literalmente o seu sangue, então por que nenhum deles se atreveu a fazer isso? Porque eles entenderam que não era disso que Cristo estava falando.

E, em terceiro lugar, os discípulos jamais poderiam pensar que Jesus estivesse se referindo à eucaristia, visto que esta só foi imposta tempos mais tarde, no final dos evangelhos, momentos antes do julgamento, morte e ressurreição de Cristo.

Portanto, como é que os discípulos poderiam ter em mente uma cerimônia que nem sequer existia na época e que Cristo jamais havia realizado com eles? Ora, é fato que os discípulos nem tinham em mente, a tal altura, qualquer ideia de “Santa Ceia”. Sendo assim, é insustentável a posição de que eles interpretaram que era Cristo dizendo que seria comido e bebido literalmente na eucaristia, já que nem ao menos existia a eucaristia!

Como os discípulos iriam pensar em algo que não existia? É muito fácil um católico hoje, em pleno século XXI, ler a passagem com as lentes de Roma e interpretar que se trata da Ceia. Difícil mesmo seria um apóstolo descobrir isso naquela época, quando nem a própria Ceia havia ainda sido instituída! Portanto, o que eu disse o tempo todo, volto a repetir agora: o texto não é eucarístico, é soteriológico.

Os discípulos não interpretaram como sendo uma referência à eucaristia, até porque ela nem sequer existia a tal altura, mas creram nas palavras de Cristo mesmo assim, porque entenderam o devido contexto soteriológico e espiritual que as palavras de Nosso Senhor Jesus estavam inseridas. E foi por isso – e não por uma transubstanciação canibalística – que eles permaneceram com Cristo até o fim.


2) Jesus não voltou atrás para dizer que era uma simbologia

E deveria? Por acaso o Nosso Senhor Jesus voltou atrás quando Nicodemos interpretou errado as suas palavras em João 3:4? Por acaso o Mestre mudou a sua linguagem quando viu que a mulher samaritana do poço entendeu errado o que ele disse em João 4:10? É claro que não! Então, por que ele seria obrigado a dar “explicações” que satisfizessem os judeus e lhes corrigisse a sua interpretação errada? Quem levanta tal tipo de argumento certamente não está muito familiarizado com as Sagradas Letras.

Por exemplo, em João 3, Jesus diz a Nicodemos:

“Em resposta, Jesus declarou: Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (João 3:3)

Em vista desta declaração tão forte, Nicodemos reagiu da seguinte maneira:

“Perguntou Nicodemos: Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!” (João 3:4)

Nicodemos foi mais um que materializou toda a história e entendeu tudo errado as verdades espirituais que Jesus disse. E o que foi que ele fez? Será que ele disse: “Foi mal, Nicodemos, mas você interpretou errado o que eu disse. Veja bem, meu caro, eu estou falando metaforicamente, mas você entendeu literalmente. Está tudo certo agora?”. É claro que não! O que Jesus realmente fez, por sinal, foi reinterar aquilo que ele já havia dito antes, e não corrigir:

“Respondeu Jesus: Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo” (João 3:5-7)

Jesus não corrigiu as suas palavras; ao contrário, ratificou-as! Ele não estava preocupado com a interpretação (correta ou errônea) que fariam de seu discurso com tônica espiritual. Ele não corrigiu a sua frase para ficar mais parecida com uma interpretação que fosse de melhor assimilação de entendimento para Nicodemos. Embora ele estivesse falando em termos espirituais e Nicodemos tenha interpretado em termos físicos, ele não voltou atrás para dizer que estava falando em termos espirituais, mas continuou com o seu discurso.

Então, por que ele deveria fazer diferente em João 6? É bem irônico vermos que o critério católico para um texto não se aplica a outro, somente porque não convém a eles. O mesmo podemos dizer sobre João 4. Jesus disse:

“Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva” (João 4:10)

Mas a mulher entendeu errado, materializando a citação de Cristo e pensando que ele estava a lhe falar de uma água viva literal:

“O senhor não tem com que tirar a água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva?” (João 4:11)

O que Jesus fez? Esclareceu a situação, dizendo que a água era espiritual e não literal? Pelo contrário! Ele continuou falando sobre essa “água” numa linguagem que poderia perfeitamente ter sido entendida de uma forma bem literal por qualquer um:

“Jesus respondeu: Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna" (João 4:13-14)

E o que aconteceu? A mulher continuou acreditando que era uma água literal (v.15)! O que este texto nos mostra? O mesmo de João 3 e de João 6. Jesus falava de verdades espirituais, os judeus entendiam de forma física e literal, e Jesus não corrige os judeus ou lhes dá satisfação a este respeito. Só nestes textos que vimos, podemos perceber que:

-João 3:4-7: Jesus fala verdades espirituais que pareciam verdades materiais, o judeu (Nicodemos) interpreta erroneamente, pensando que Cristo estava falando em termos materiais, e Jesus mesmo assim continua falando nos mesmos termos que antes, sem dar explicação a este respeito. O resultado disso é que os espíritas continuam pensando até hoje que João 3:4 manda nascer de novo literalmente (reencarnação)!

-João 4:10-15: Jesus fala verdades espirituais que pareciam verdades materiais, a samaritana interpreta erroneamente, pensando que Cristo estava falando em termos materiais, e Jesus mesmo assim continua falando nos mesmos termos que antes, sem dar explicação a este respeito.

-João 6:28-55: Jesus fala verdades espirituais que pareciam verdades materiais, os judeus interpretam erroneamente, pensando que Cristo estava falando em termos materiais, e Jesus mesmo assim continua falando nos mesmos termos que antes, sem dar explicação a este respeito. O resultado disso é que os católicos continuam pensando até hoje que João 6:55 manda comer literalmente a carne de Cristo (transubstanciação)!

E o que mais me impressiona ao ver tudo isso é a quantidade gigantesca de católicos que caem como um rato na ratoeira traçada pelos apologistas que conseguem fazer com que o povo seja alvo de argumentos tão amadores, infantis e facilmente refutados, enganando tanta gente que continua presa aos laços de Roma e a uma doutrina blasfema, que prega que a alma e divindade de Cristo são dilaceradas pelos fieis, que adoram a um pedaço de pão, praticando nada a mais senão pura idolatria, através deste dogma.

Vejam o que uma interpretação de texto defeituosa e sem exegese é capaz de fazer com alguém.

Paz a todos vocês que estão em Cristo, e não percam o último capítulo da série.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)



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