31 de agosto de 2012

João 6 e a transubstanciação - Parte 3


Nos últimos dois artigos sobre o tema, estive analisando o texto de João 6, tão constantemente usado pelos apologistas católicos, como se favorecesse as doutrinas deles com relação à eucaristia e transubstanciação. É altamente recomendável ler os dois artigos antes deste aqui, pois este é uma continuação daqueles (para quem quiser acompanhar os outros, basta clicar aqui e aqui).

Paramos na passagem de João 6:52-56, que diz:

“Então os judeus começaram a discutir exaltadamente entre si: ‘Como pode este homem nos oferecer a sua carne para comermos’? Jesus lhes disse: ‘Eu lhes digo a verdade: Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele’” (João 6:52-56)

Como mostramos, a interpretação católica de que o texto seria literal por constar “verdadeira comida” é simplesmente falsa, uma vez sendo que Jesus afirmou ser a “videira verdadeira” (Jo.15:1), e nem por isso tal texto ganhou literalidade por conta disso. Há um sentido espiritual que pode ser tirado de cada citação como essa. No caso da videira, Jesus estava dizendo que é a real fonte da nossa vida espiritual.

Da mesma forma, quando Paulo afirma que Cristo é o fundamento da Igreja (1Co.3:11), ele não está dizendo que ele é literalmente uma pedra de granito com inscrições gravadas, mas sim que nós espiritualmente estamos edificados em Cristo, isto é, que estamos sujeitos a ele, o nosso Mestre.

O mesmo pode ser dito com relação ao que Cristo disse sobre: “quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo.7:38). Aqui está uma palavra espiritual, não-literal, não-física, mas que tem a sua devida explicação logo na sequencia: “e isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” (Jo.7:39). Igualmente ocorre em João 6:55. A declaração sobre comer a sua carne e beber o seu sangue está em um sentido espiritual, não-literal, não-físico:

“Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” (João 6:55)

Ali está o sentido figurado, espiritual. E aqui está a explicação do próprio Cristo a este respeito:

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mimnunca terá sede” (João 6:35)

Portanto, aqui está o sentido literal, real.

Comer a carne do Filho do homem significa crer em Cristo como o Filho de Deus, que morreu para nos salvar. Significa vir a ele, não para comê-lo, mordê-lo ou triturá-lo com os dentes, mas para crer nele!

Prova ainda maior de que o contexto de João 6, incluindo em especial os versos 54 e 55 (que são os mais usados pelos católicos em favor da suposta “literalidade” do texto), está realmente em sentido figurado, vem da interpretação que os próprios Pais da Igreja tinham a este respeito. É digno de nota que absolutamente nenhum deles jamais escreveu que eram palavras literais, mas inúmeros disseram que era simbolismo!

Vejamos o que o próprio doutor da Igreja, Agostinho de Hipona (354 – 430), tinha a nos dizer a este respeito:

“‘Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós’ (Jo 6,54). Aqui, parece ser ordenada uma ignomínia ou delito. Mas aí se encontra expressão simbólica que nos prescreve comungar da paixão do Senhor e guardar, no mais profundo de nós próprios, doce e salutar lembrança de sua carne crucificada e coberta de chagas por nós” (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.24)

Agostinho nos diz claramente que a frase supostamente “literal” que é constantemente usada pelos católicos, sobre comer a carne do Filho do homem e beber o seu sangue, é uma expressão simbólica, e não algo que devemos tomar literalmente. Será que os católicos querem ensinar exegese a santo Agostinho? Se eles acham tão “óbvio” que Cristo estava dizendo em termos literais, então por que os próprios Pais da Igreja de maior renome acreditavam que era simbolismo?

O fato é que a expressão de Cristo era tão claramente simbólica que nem Agostinho nem qualquer outro Pai da Igreja hesitavam em mencionar tal fato, embora nem sequer fosse necessário. Clemente de Alexandria (150 – 215) foi outro que disse que o texto de João 6:34 era “claramente uma metáfora”:

“Noutro lado o Senhor, no Evangelho segundo João, menciona isto mediante símbolos, quando disse: ‘Comei a minha carne e bebei o meu sangue’ [João 6:34]; descrevendo claramente por metáfora as propriedades bebíveis da fé e da promessa, por meio da qual a Igreja, como um ser humano composto de muitos membros, é refrescada e cresce, é ligada e compactada por ambas – pela fé, que é o corpo, e pela esperança que é a alma; como também o Senhor de carne e sangue” (O Pedagogo, 1:6)

Ele escreve que era um simbolismo, e depois reitera dizendo que era uma metáfora. Vários outros Pais da Igreja interpretaram o texto exatamente da mesma ótica protestante, quanto a isso é só ver o artigo sobre a transubstanciação e os Pais da Igreja (parte 1 e parte 2). Portanto, se até mesmo os próprios Pais da Igreja interpretavam o texto de João 6:34 como sendo claramente uma metáfora, um simbolismo, uma figura de linguagem, por que é que nós, evangélicos, deveríamos pensar de forma diferente?

Se todo o contexto é simbólico e todos os Pais da Igreja que comentaram o texto de João 6:34 disseram que eram metáforas, por que os católicos insistem com a tese de que o texto é bem literal, ainda mais tendo em vista que o próprio Cristo disse que as suas palavras eram “espírito e vida” (v.63), e não verdades materiais e literais, que devessem ser interpretadas do âmbito físico?

Fica claro, portanto, que aquilo que Jesus afirmou nestes versos é de natureza simbólica (espiritual), e não literal (física).

Seguindo:

“’Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre’. Ele disse isso quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum” (João 6:57-59)

Aqui, Jesus traça o contraste entre o maná e o pão que ele oferecia. Enquanto o maná era um alimento físico, o pão de Deus é um alimento não-físico; enquanto o maná matava uma fome física, o pão de Deus mata uma fome espiritual; enquanto aqueles que comiam do maná morriam fisicamente, aqueles que comessem o pão de Deus viveriam espiritualmente.

Fica muito claro e evidente o contraste nítido entre o maná e o pão vivo que desceu dos céus. Mais claro ainda é o contraste entre o material com o espiritual, entre o físico e o figurado, entre o literal e o simbólico. Enquanto os católicos levam tudo para o lado físico/literal, Cristo estava claramente se referindo a coisas espirituais, não físicas. Ele não estava falando literalmente de um pedaço de pão como a hóstia, ele estava falando sobre a fé no Filho do homem. Ele não estava falando sobre a eucaristia, mas sobre salvação e destino eterno. Só não percebe quem está viciado a não crer.

Seguindo:

“Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Dura é essa palavra. Quem consegue ouvi-la?’ Sabendo em seu íntimo que os seus discípulos estavam se queixando do que ouviram, Jesus lhes disse: ‘Isso os escandaliza? Que acontecerá se vocês virem o Filho do homem subir para onde estava antes!’” (João 6:60-62)

Essa é outra passagem isolada que os católicos se utilizam na tentativa de “provar” a natureza literal das palavras de Cristo acerca de comer o seu corpo e beber o seu sangue. Para eles, os judeus não teriam ficado escandalizados se as palavras de Cristo não fossem literais. Outros católicos afirmam, com ainda mais ousadia e convicção, que, se Jesus estivesse falando em figuras de linguagem, ele teria se explicado e diria que eram simbolismos, e que o fato de que ele não explicou nada significa, então, que era tudo literal mesmo.

Veremos a refutação completa a essas e outras falácias no próximo capítulo, esmiuçando por completo cada uma das alegações católicos no texto todo, como estamos fazendo até aqui.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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