Os preteristas e as duas ressurreições


Há alguns dias eu me espantei quando li em uma coluna evangélica de um famoso portal de notícias gospel um artigo com o tema: “As duas ressurreições”, onde o autor dizia que a primeira ressurreição, de que João se refere em Apocalipse 20:4, é o batismo, ao passo que a segunda ressurreição é a ressurreição física e corporal que acontece no último dia.

Eu digo que fiquei espantado porque antes pensava que apenas os católicos preteristas que criam nessa tese, mas vejo que existem evangélicos partidários dela. Portanto, pretendo refutar brevemente essa tese da “primeira ressurreição” como sendo o batismo e reiterar a crença cristã de que a primeira ressurreição é física e corporal, dos mártires para a glória de Deus. O artigo ao qual me refiro diz o seguinte:

“A primeira ressurreição, é o batismo nas águas” (1)

O autor do artigo cita Apocalipse 20:6 descontextualizadamente para sustentar a primeira ressurreição, mas se esquece de analisar o devido contexto, pois dois versos antes o autor do Apocalipse nos diz explicitamente o que era essa primeira ressurreição e quem participa dela, e ele não fala absolutamente nada do batismo:

“E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (Apocalipse 20:4)

Eu juro que li este texto dez vezes, mas não achei nada de “batismo” ali. Será que os tradutores bíblicos entraram em um comum complô para omitir a palavra “batismo” do texto? Vejamos então no grego do Texto Receptus:

“και ειδον θρονους και εκαθισαν επ αυτους και κριμα εδοθη αυτοις και τας ψυχας των πεπελεκισμενων δια την μαρτυριαν ιησου και δια τον λογον του θεου και οιτινες ου προσεκυνησαν τω θηριω ουτε την εικονα αυτου και ουκ ελαβον το χαραγμα επι το μετωπον αυτων και επι την χειρα αυτων και εζησαν και εβασιλευσαν μετα χριστου χιλια ετη” – Apocalipse 20:4

E no grego transliterado:

“kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai ouk” – Apocalipse 20:4

Hmm... parece que nada de batismo (baptizo/βαπτισμα) aparece aqui! Na verdade, o texto fala que os que foram ressuscitados são:

Aqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus (i.e, os mártires).

Aqueles que não adoraram a besta e nem a imagem da besta na tribulação.

Aqueles que não receberam o sinal nas suas testas ou em suas mãos.

Portanto, embora João tenha feito questão de especificar muito bem quem são esses ressuscitados em Apocalipse 20:6, ele não dedica nem uma única linha para mencionar o batismo, o que seria muito estranho caso essa primeira ressurreição fosse uma referência exatamente o batismo! Como se não bastasse, temos outras considerações a fazer a este respeito:

Nem todos os que foram batizados foram mártires, nem todos eles foram degolados na grande tribulação. Ainda que a “tribulação” fosse uma referência à batalha travada entre Jerusalém e Roma em 70 d.C, mesmo assim não há nenhum sinal de que todos os que foram batizados foram degolados. Nem todo cristão é um mártir, nem todo crente é degolado por causa do testemunho de Jesus, como muitos que passarão pela tribulação serão (Ap.13:10). Sendo assim, não pode ser uma referência ao batismo que todo e qualquer cristão genuíno passa.

Para os preteristas, a besta é Nero, e, portanto, quando João diz que estes “não adoraram a besta”, quer dizer: “não adoraram Nero”. Então, os que foram ressuscitados são aqueles que não adoraram Nero. Porém, a grande maioria dos cristãos que foram batizados não nasceram na época de Nero (alguns nasceram depois da queda do próprio Império Romano). Portanto, se essa ressurreição é uma premiação para aqueles que sofreram pelas mãos de Nero mas não o adoraram, não podem estar incluídos todos aqueles que passaram pelo batismo e que não viveram na época da “besta Nero”.

A mesma lógica se aplica com relação ao sinal nas mãos ou na testa. A referência é claramente posterior ao momento da grande tribulação. Não se aplica a todos os cristãos de todos os tempos que já passaram pelo batismo. Se aplica de modo especifico àqueles que passaram pela tribulação e que não aceitaram a marca na testa ou na mão. Portanto, não é uma referência ao batismo cristão que todos os cristãos, em todas as eras, antes e depois de 70 d.C, passam.

Sempre quando o apóstolo Paulo se referia à ressurreição espiritual, ele o fazia colocando o verbo no tempo passado. Por exemplo, ele diz aos colossenses que eles “já ressuscitaram com Cristo” (Cl.3:1). Portanto, com o verbo no passado Paulo estava relatando algo que já havia acontecido, uma ressurreição puramente espiritual. Porém, a “primeira ressurreição” que João se refere dizia respeito a algo que somente acontecerá depois do término de todas as tribulações descritas no Apocalipse, já em pleno capítulo 20, e João segue uma ordem cronológica do início ao fim de seu livro. Em outras palavras, João tinha visões acerca de um acontecimento futuro, e não de algo passado que já tivesse acontecido.

De tudo isso, eu creio que o fator principal que nos mostra de modo inequívoco que essa primeira ressurreição é tão física quanto a segunda, provém do fato de que o verso 5 diz claramente que os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição” (Ap.20:5). Notem que o texto está falando de “outras” pessoas, e não das mesmas que participaram da primeira ressurreição. O preterismo não consegue explicar isso, pois, para eles, os que participam da primeira ressurreição são os mesmos que participam da segunda.  


Por exemplo, se eu fui batizado, então eu participei da “primeira ressurreição”, e também irei participar da “segunda ressurreição”, que seria a ressurreição física e corporal. O mesmo caso se aplica a todos os demais cristãos que passaram pelo batismo e que também passarão pela ressurreição corporal. Em verdade, todos os que passam pela ressurreição espiritual do batismo também passarão igualmente pela ressurreição física.  


Mas João distingue claramente ambos os grupos. Ele narra os ressuscitados em Apocalipse 20:4, e depois diz que “os outros” não reviveram, mas estes outros reviverão após os mil anos, na segunda ressurreição. Portanto, não está se referindo às mesmas pessoas do grupo presente na primeira ressurreição, mas de pessoas distintas.  

Assim, de duas, uma: ou nós só passamos pela ressurreição espiritual do batismo, mas não pela ressurreição física do último dia (o que é uma heresia condenada pelos próprios preteristas), ou então de fato as duas ressurreições são físicas, e o que ocorre é somente que um grupo (dos mártires) é ressuscitado antes dos outros (os demais mortos).  

Sendo assim, fica evidente que aqueles que passam pela segunda ressurreição não passam pela primeira ressurreição, pois tratam-se de outras pessoas. Logo, a interpretação de que nós que fomos batizados passamos pelas duas ressurreições vai completamente por água abaixo, sendo facilmente derrubada por um único versículo bíblico que esmiúça por completo tal interpretação.

João não disse que os que foram batizados passaram pela primeira ressurreição e depois voltariam a participar novamente de uma segunda ressurreição; muito pelo contrário, ele diz que os que serão ressuscitados nesta segunda ressurreição são outras pessoas distintas das primeiras. 

Portanto, tendo em vista tudo isso, é impressionante como que uma exegese bem feita em cima de um único versículo bíblico seja suficiente para desmoronar com toda uma interpretação mentirosa feita em cima de um único verso bíblico totalmente descontextualizado de seu devido contexto. João não estava falando da ressurreição espiritual do batismo, ele estava se referindo exatamente à ressurreição física e corporal dos mártires, ao término das tribulações apocalípticas, mil anos antes da ressurreição dos demais.

A manobra que está por trás de toda essa interpretação preterista fica por conta do fato de que, se a ressurreição é realmente literal e física (como provamos que é), isso significa que os mortos degolados pelo testemunho de Jesus durante a grande tribulação já ressuscitaram, algo que não ocorreu em 70 d.C, e que João o posiciona antes do período milenar (Ap.20:5), que os preteristas afirmam que já está acontecendo. Dito em termos simples, jogaria no lixo toda a doutrina preterista com um único golpe! Por isso, eles são obrigados a forçarem as interpretações de diversas passagens bíblicas, das quais essa é apenas mais uma delas, empurrando os seus conceitos a qualquer custo na interpretação textual desprovida de uma exegese séria e contextual.

Pelo menos aquele artigo se salva ao dar o devido significado à morte, ao dizer que “a morte é a cessação de vida” que é “tragada pela ressurreição”, quando Deus “vier buscar aqueles que adormeceram na esperança da ressurreição” (2). De qualquer forma, é importante que retornemos aos princípios básicos e simples da Palavra de Deus, ao invés de nos ocuparmos com verdadeiros malabarismos teológicos feitos unicamente com a finalidade de encaixar doutrinas falsas dentro da Bíblia, sem cair em uma contradição de primeira ordem por causa delas.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.  

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com) 


[2] ibid.

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Comentários

  1. Não sei como um teólogo preterista tem a coragem de conceber uma interpretação absurda dessas: afirmar que a primeira ressurreição significa a morte através do batismo cristão.

    São as maquiagens feitas diante das tantas refutações à sua doutrina. Eles, quando sentem que erraram na interpretação tentam maquiar pra ver se fica melhor... O problema é que ta ficando horrível a aparência do preterismo...

    E não vai parar por aqui. Quando mais mexem pior fica!

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    1. Tem razão, Alon. E o pior é que eles não fazem isso somente com a ressurreição dos mortos, mas também com as bodas do Cordeiro, com o período milenar, com a "Babilônia" espiritual, com os novos céus e nova terra, e por aí vai...

      Abraço!

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  2. Gostei muito! Não sabia que apenas os mártires reinarão com Cristo no milênio, entendi certo?
    Sempre me ensinaram que todos os cristãos seriam ressuscitados na primeira ressurreição, passariam pelo tribunal de Cristo e depois reinariam com ele por mil anos. A segunda ressurreição seria apenas para condenação...

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    1. Olá.

      Eu também cria que todos os justos ressuscitarão na primeira ressurreição e que a segunda ressurreição seria somente dos ímpios; porém, ao que tudo indica uma leitura mais cuidadosa do texto nos mostra que essa primeira ressurreição é somente dos mártires, daqueles que derramaram o seu sangue por amor a Cristo e não se dobraram diante da besta. Essa é outra prova de que os cristãos passarão pela grande tribulação.

      Essa primeira ressurreição é, assim dizendo, uma premiação àqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus Cristo, e mesmo assim não negaram a fé nEle.

      Deus abençoe!

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  3. Irmão Lucas,

    3 tipos de ressurreições?

    1) Justos, mártires?
    2) Justos, não mártires?
    3) Injustos?

    Está Deus fazendo acepção de pessoas na ressurreição dos justos, dividindo-os em elite e 2ª classe?

    Não é uma interpretação literal?

    Confesso que fiquei confuso.

    Embora possamos falar de uma ressurreição espiritual, quando lia estas passagens entendia que se tratava da 1ª ressurreição as dos justos de uma maneira em geral, como parece sugerir o evangelho de João e outras passagens do NT, como 1ª Tess.4:13-17; e a 2ª ressurreição a dos injustos.

    Por favor acuda, irmão!

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    1. Ambas as interpretações são possíveis. No primeiro caso:

      1ª Ressurreição = Mártires.
      2ª Ressurreição = Outros salvos e todos os condenados.

      Eu não creio que isso seria acepção de pessoas. Isso poderia ser apenas uma recompensa extra àqueles que sofreram até a morte pelo nome de Jesus. A Bíblia fala sobre Deus galardoar uns mais do que galardeia a outros. Isso não é acepção de pessoas, é simplesmente uma recompensa justa baseada no que foi praticado em vida, e o martírio é a forma mais elevada de demonstração de amor a Deus que existe.

      Há também a possibilidade de que:

      1ª Ressurreição = Todos os justos.
      2ª Ressurreição = Todos os ímpios.

      Neste caso os "mártires" estaria em sentido alegórico representando todos os salvos. A Bíblia diz que espiritualmente nós "morremos todos os dias" (=martírio) por amor a Cristo (1Co.15:31). Se essa interpretação é a correta, na segunda ressurreição só ressuscitam os ímpios. Ambas as interpretações são plausíveis, mas em nenhuma delas há espaço para uma interpretação que diz que a ressurreição "é o batismo".

      Abraços.

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  4. Lucas, a passagem de Mateus 25:31-46 diz à respeito do último dia, após a grande tribulação, ou serve como apoio à tese da 2ª ressurreição após o milênio - (outros salvos e todos os condenados)?

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    1. O texto fala do momento em que os ímpios serão julgados e condenados, biblicamente isso só ocorre na segunda ressurreição, ao término do milênio, onde também haverá a reunião dos justos e dos ímpios, a separação entre ambos, etc. O que acontece quando o filho do homem vir na glória é ele se assentar em seu trono (o que ocorrerá por todo o milênio), e o verso 32 já começa a retratar os acontecimentos que ocorrerão ao final deste milênio.

      Abraços!

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