5 de setembro de 2012

O papa Gregório Magno rejeitou o título de "papa universal"?


Simples e objetivamente: Sim! Os católicos afirmam que Gregório Magno (bispo de Roma de 590-604 d.C) não condenou o título de “papa universal” para si próprio, mas condenou este título somente quando aplicado a João, bispo de Constantinopla, quando este queria se tornar o único “bispo dos bispos”.

Porém, isso é apenas meia-verdade. É fato que João, bispo de Constantinopla, queria usurpar este título e tomá-lo para si somente, em singularidade. Porém, não é verdade que Gregório Magno tenha rejeitado este título somente ao bispo de Constantinopla, mas não para si mesmo, pois ele próprio afirmou:

“Agora eu digo com confiança que todo aquele que chama a si mesmo, ou deseja ser chamado, Sacerdote Universal, é em sua exaltação o precursor do Anticristo, porque ele orgulhosamente se coloca acima de todos. E pelo orgulho ele é levado ao erro, pois como perverso deseja aparecer acima de todos os homens. Por isso, todo aquele que ambiciona ser chamado único sacerdote, exalta-se acima de todos os outros sacerdotes (Papa Gregório Magno, a Maurícius Augustus)

Gregório Magno afirma categoricamente que “todo aquele” que se chama a si mesmo de “Sacerdote Universal” é o precursor do anticristo. Este “TODO” obviamente não se refere somente ao bispo de Constantinopla. Ao contrário, Gregório estava estipulando um princípio universal – “todo aquele” se refere a todos os bispos! Ele declara que este título, seja aplicado a quem quer que seja:

É uma exaltação e precursor do anticristo.

É fruto do orgulho de quem se coloca acima dos demais.

É um perverso que só quer aparecer acima de todos.

Exalta-se acima de todos os outros sacerdotes.

Dá para perceber como que ele não era uma figura muito simpática ao título de “papa [ou bispo] universal”. Notem que, embora isso tenha começado por um bispo de Constantinopla, ele repete o “todo aquele” pelo menos duas vezes na citação acima. Era uma forma de reiterar com ainda mais força o fato de que qualquer bispo que seja, tomando o título de papa universal, torna-se um precursor do anticristo, pois seria um título soberbo e orgulhoso.

Curiosamente, os católicos afirmam que, por esta mesma época, o próprio Gregório Magno (bispo de Roma) seria um “bispo universal” ou “bispo dos bispos”! Ou seja, Gregório estaria chamando o título que ele mesmo possuiria como sendo um orgulho e um precursor do anticristo! Ele não condena o bispo de Constantinopla por estar se levantando contra Roma; ao contrário, ele o condena por estar se usurpando contra todos os bispos, por tomar este título soberbo. Foi por isso que ele disse:

“Que dirás tu João a Cristo que é cabeça da Igreja universal no prestar de contas no dia do juízo final? Tu que te esforças de te antepor a todos os teus irmãos bispos da Igreja universal e que com um título soberbo queres pôr debaixo dos teus pés o seu nome em comparação do teu? Que vais tu fazendo com isso, senão repetir com Satanás: Subirei ao céu e exaltarei o meu trono acima dos astros do céu de Deus? Vossa fraternidade quando despreza (os outros bispos) e faz todos os esforços possíveis para os subjugar, não faz senão repetir quanto já disse o velho inimigo: Me exaltarei acima das nuvens mais excelsas (...) Possa pois tua Santidade reconhecer quanto é grande o teu orgulho pretendendo um título que nenhum outro homem verdadeiramente pio jamais se arrogou(Papa Gregório Magno, Epistolarum V, Ep. 18, PL 77, pag. 739-740)

Gregório diz aqui que somente Cristo é cabeça da Igreja Universal – não o papa – e declara também que se colocar como “bispo universal” seria tomar para si um título de soberba que se colocaria acima de todos os outros bispos da Igreja. Ele afirma que quem se coloca como bispo universal está repetindo com Satanás o mesmo orgulho que causou a sua queda, que seria fruto de uma exaltação indevida. Mas o mais importante é o que ele afirma logo em seguida: que nenhum outro homem jamais arrogou tal título para si.

Isso é uma refutação de peso para aqueles que pensam que tal título era pertencente em exclusividade aos bispos romanos desde séculos. Se nenhum outro homem jamais se colocou como bispo universal, então nem os próprios bispos romanos (nem o próprio Gregório) eram detentores de tal título. Se assim fosse, o texto ficaria sem sentido, ao dizer que nenhum outro homem verdadeiramente pio foi detentor de tal título, o que no mínimo seria dizer que os bispos romanos não eram “verdadeiramente pios”, pois supostamente detinham tal título!

Em outro momento, ele diz:

“Pois se um só, como ele supõe, é o bispo universal, isso implica que vocês não são bispos” (Epístola LXVIII)

Gregório afirma que colocar alguém como bispo universal implica em dizer que os demais não eram bispos. Em outras palavras, há aqui um quadro de causa e efeito. Quando alguém se coloca como bispo ou papa universal, necessariamente está rebaixando os demais bispos.

Tentando refutar este quadro, Dave Amstrong fez uso de uma citação tirada dos escritos de Gregório, que disse:

“Para todos os que conhecem o Evangelho, está claro que pelas palavras de Nosso Senhor o dever de cuidar de toda a Igreja foi confiado ao Bendito Pedro, o Príncipe dos Apóstolos (...) Ora, ele recebeu as chaves do reino dos céus, o poder de ligar e desligar foi dado a ele e o governo e principado de toda a igreja foram confiados a ele (...) Ainda assim ele não era o Apóstolo universal. Mas (...) João se proclamaria Bispo universal (...) [Os papas nunca assumiram esse título, apesar de lhes ter sido dado], por temerem que todos os Bispos fossem privados de sua própria parcela de honra no momento em que alguma honra especial fosse dada a um só” (Epístolas 5, 37; ao Imperador Maurício)

Porém, não é preciso ser um bom observador para perceber que a citação acima está cortada e interpolada. Foi propositalmente tirada de seu contexto, e, além disso, a única parte que poderia favorecer a posição dele aparece entre colchetes, indicando que essa parte é no mínimo duvidosa e que não aparece nos manuscritos originais, onde se diz: “os papas nunca assumiram este título, apesar de lhes ser dado”.

Não é estranho que a única parte que favoreceria a tese do primado do bispo romano seja bem exatamente aquela que aparece entre colchetes, como sendo “duvidosa”? É evidente que a interpolação católica, feita para adulterar o texto, serve apenas para tentar provar aquilo que Gregório jamais disse: que os bispos de Roma detinham o título de “bispo universal”.

Além disso, seria bem estranho que alguém como Gregório falasse que “os papas nunca assumiram tal título, apesar de lhes ser dado”, pois na época todos os bispos eram carinhosamente chamados de “papa”, não era um título de exclusividade do bispo romano. Por sinal, o bispo de Roma tardou a receber este título.

Eusébio de Cesareia escreve em sua “História Eclesiástica”, ainda no começo do século IV, que o bispo Heraclas, de Alexandria, era papa (HE, Livro VI, 7:4). Essa foi a primeira vez que se dá este título ao bispo de Alexandria, na mesma época em que os presbíteros de Roma o davam também a Cipriano. O bispo de Roma ainda tardaria em recebê-lo.

Portanto, se os outros bispos também eram “papas”, a referência não diz respeito aos bispos de Roma em singularidade e exclusividade, mas a todos os bispos. De fato, o próprio Dave Amstrong reconhece que, em certo sentido, os próprios bispos do Oriente eram “bispos universais”, conforme ele mesmo diz:

“O título de Bispo Universalpode também ser usado no sentido de Bispo dos Bispos, e esse sentido foi aplicado pelos Cristãos Orientais (i.e., católicos – isso foi antes do Cisma) aos Papas Hormisdas (514 a 523), Bonifácio II (530 a 532) e Agapito (535 a 536), apesar deles mesmos jamais o terem usado (desejando ostensivamente evitar a interpretação acima) até o tempo de Leão IX (1049 a 1054)”

Ora, se os bispos orientais também podiam ser chamados de “bispos dos bispos” ou “bispos universais”, segue-se logicamente que este título, por si só, não implicava em uma primazia universal e jurisdicional, nem mesmo se o próprio Gregório Magno o tivesse utilizado. Isso refuta alguns católicos mal informados que pegam apenas uma frase de Gregório dizendo que este título “pertencia” ao bispo romano, esquecendo-se de lembrar que este título igualmente “pertencia” a todos os demais bispos – inclusive os do Oriente.

Mas nenhum deles fazia uso disso, para não acabarem incorrendo indevidamente que um determinado bispo fosse colocado acima dos demais (como o bispo de Constantinopla tentava fazer na época, e como os bispos de Roma fizeram mais tarde). O que Gregório condenava, portanto, era que um único bispo (seja o de Roma, o de Constantinopla ou qualquer outro que seja) se colocasse acima dos demais em autoridade pelo uso deste título de “bispo universal”, pois todos os bispos estavam em igualdade. Isso explica o porquê que, mais tarde, o próprio Gregório Magno rejeitou tal título para si mesmo: porque não se considerava um “bispo maior” do que os demais!

Infelizmente, foi exatamente isso que os romanos fizeram mais tarde, e que, aliás, continuam fazendo até hoje. Eles não seguem as instruções do próprio Gregório, que disse:

“Vossa Bem-aventurança também foi cuidadoso em declarar que não faz agora uso de títulos orgulhosos, que brotam de uma raiz de vaidade, ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em caráter meus pais. Eu não ordenei, então, mas estava desejoso de indicar o que me parecia ser benéfico. Contudo, não acho que Vossa Bem-aventurança tenha estado disposto a recordar perfeitamente esta mesmíssima coisa que trago à sua memória. Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do gênero; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo. Pois, quanto a mim, não busco ser prosperado por palavras, mas pela minha conduta. Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles. Pois a minha honra é a honra da Igreja universal; a minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade (Papa Gregório Magno, Epístola 8.30, a Eulógio, bispo de Alexandria)

Quando o bispo de Alexandria escreveu a Gregório dizendo que este havia “ordenado” algo a ele, Gregório prontamente rejeita tal atitude, pois reconhecia que ele não estava em um patamar de superioridade sobre o bispo de Alexandria. Foi por isso que ele disse:

Ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em caráter meus pais” (ibid)

Gregório rejeita que o bispo de Alexandria interpretasse que ele estava passando-lhe “ordens”, pois não estava em posição para fazer tal coisa. E ele diz que “sei quem sou eu e quem sois vós”. Essa seria uma ocasião perfeita para declarar aquilo que os católicos assumem abertamente nos dias de hoje: que o bispo de Roma está acima do de Alexandria e de todos os demais. Porém, o que Gregório faz é exatamente o inverso. Ele diz que “em posição sois meus irmãos”.

Em outras palavras, em posição (autoridade) na Igreja, o bispo de Alexandria era “irmão” (igualdade) ao bispo romano, e não seu servo. E, em seguida, ele afirma abertamente aquilo que todos os católicos insistem em negar: que Gregório Magno rejeitou o título de “papa universal” não somente para o bispo de Constantinopla, mas também para si mesmo:

“Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do gênero; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal (ibid)

O bispo de Alexandria o havia carinhosamente chamado de “bispo universal”, mas Gregório Magno rejeitou vigorosamente tal título, e se recusou a aceitá-lo, pois disse que aquilo era um “apelido orgulhoso”. Isso desfaz as interpretações católicas de pseudo-apologistas amadores que são donos de blogs que existem por aí. Um deles disse em seu site:

“São Gregório se ‘opunha’ ao titulo justamente para aqueles que não o mereciam, pois não eram bispos de Roma, portanto só ao bispo de Roma compete esta autoridade”

Além do fato de que o sujeito católico que fez essa afirmação mentirosa colocou o “opunha” entre aspas, quando Gregório Magno realmente se opôs prontamente a tal título, ele ainda afirma que ele se colocava contra somente para com aqueles que não eram bispos de Roma, mas não para si próprio. O que acabamos de ver, da citação do próprio Gregório, é uma categórica refutação a esta “interpretação”, pois vimos que Gregório Magno rejeitava este título até mesmo para si próprio, e não somente para aqueles que não eram bispos de Roma.

A verdade é que qualquer um que fizesse uso deste título em singularidade estaria se colocando como o “precursor do anticristo”, por aceitar este “apelido orgulhoso”. Até ele mesmo, pois ele próprio rejeitou tal título quando o bispo de Alexandria quis respeitosamente chamá-lo de tal coisa. Mais a frente, vemos Gregório dizendo:

“Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo” (ibid)

Aqui vemos que Gregório Magno não apenas rejeitou tal título, como também insistiu para que não voltassem a cometer o erro de chamá-lo deste modo. E o mais importante é o que ele diz na sequencia: que, se ele fosse chamado de “papa universal”, segue-se que os outros não eram “papas universais”, e, desta forma, tal título seria subtraído dos demais bispos, para ser exclusivamente do bispo de Roma.

Isso não faz lógica para os ouvidos católicos, pois, para eles, é exatamente esse o sentido de tal título: exclusividade e superioridade do bispo de Roma. Porém, Gregório afirma que tal título não poderia ser aplicado a ele por ser “para lá o que a razão exige”, e porque, se fosse assim chamado, os outros bispos estariam isentos de tal título. Isso é prova de que todos os bispos estavam em igualdade em autoridade, e não em superidade de um em detrimento dos demais. Foi por isso que Gregório disse:

“Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles” (ibid)

Para Gregório, se ele fosse chamado de “papa universal”, os outros bispos (das outras igrejas) perderiam a honra deles! Ora, se só o bispo romano fosse reconhecido na época como sendo um “bispo universal” ou “bispo dos bispos”, então ele ser chamado em exclusividade por este termo não seria um demérito aos outros bispos, pois realmente só caberia ao bispo de Roma, em função de sua suposta primazia jurisdicional universal.

Porém, como o fato é que todos os bispos tinham igual autoridade na Igreja, chamar algum deles singularmente (como o bispo romano) de “universal” seria desmerecer e rebaixar os demais. Por isso Gregório rejeitou prontamente tal título. E ele termina dizendo:

“Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade (ibid)

Para Gregório, todos os bispos tinham igual autoridade. Não existia uma primazia universal de alguma das igrejas cristãs locais sobre todas as outras. Isso explica o porquê de ele ter dito que, “se chama a mim papa universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente”.

Em outras palavras: se o patriarca de Alexandria concedesse este título a Gregório, ele estaria se reconhecendo como em uma posição inferior a ele. E esta não era a intenção, visto que a autoridade e liberdade de todas as igrejas era a mesma. Os católicos dos dias de hoje afirmam abertamente que o patriarca de Alexandria não é um papa universal, mas o bispo de Roma sim.

Já o papa Gregório considerava todos os bispos em igualdade, motivo pelo qual todos são “universais”, ou então nenhum deles. Pois chamar apenas um (em exclusividade) de “universal” seria rebaixar todos os demais, e dizer que estavam submissos a Roma. “Mas longe esteja isto de nós; fora com as palavras que inflamam a vaidade e ferem a caridade”.

Em resumo, Gregório Magno não se opunha ao título de “papa universal” somente àqueles que não eram bispos de Roma, mas negava inclusive para si mesmo, pois considerava todos os bispos iguais em autoridade, motivo pelo qual não poderiam ser chamados em exclusividade de “universais”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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